3. Chapitre 2 : TECHNIQUES EXPERIMENTALES
2.7 Méthodes d’analyses des solides
É sobre a Antártida que se localiza o apelidado “Buraco do Ozono”, uma metáfora criada por cientistas para designar uma área onde a concentração de ozono diminui todos os anos abaixo das 200 unidades de Dobson19. Ao longo do ano, nas latitudes médias, a quantidade de ozono pode variar entre as 200 e as 500 unidades de Dobson; porém, na Antártida já foram registados valores abaixo das 100 unidades (Instituto Português do Mar e da Atmosfera, s.d.; Lindsey, 2016).
Esta diminuição é mais acentuada no final do inverno antártico, normalmente na primeira semana de outubro, e caracteriza-se por uma redução quase total da camada de
ozono na baixa estratosfera, entre os 12 e os 20 km de altitude e por uma diminuição substancial da camada de ozono entre a superfície terrestre e o topo da atmosfera (WMO, 2014; Bargagli, 2005). O ozono tem a capacidade de absorver grande parte da radiação solar ultravioleta B (UV-B), pelo que a sua redução pode provocar efeitos nocivos nos seres vivos.
Pese embora as medidas implementadas pelo Protocolo de Montreal (1989), que visa recuperar a camada de ozono para os níveis da década de 1980 e obriga os 192 países signatários a reduzir a produção e uso de substâncias destruidoras – como os clorofluor- carbonetos (CFC), usado sobretudo em sprays – estima-se que a camada de ozono na
Antártida apenas alcance os referidos níveis em 2075 (WMO, 2014), embora o “Buraco do Ozono” tenha conhecido uma redução significativa em 2015 e em 2016 (Dinis, 2016). A radiação ultravioleta (UV), como consequência da redução da camada de ozono, afeta diretamente os habitats das águas pouco profundas no continente antártico (Gutt et al., 2014). Uma projeção de longo prazo para a região revela que no período de um
século, se a camada de ozono não aumentar substancialmente, os habitats de espécies
como o krill poderão ser afetados pelo aumento da temperatura do mar e da radiação
(Gutt et al., 2014).
Já os ecossistemas marinhos do Oceano Glacial Antártico têm mudado ao longo dos últimos 30 anos, sobretudo em resposta ao aumento da temperatura do oceano e à alte- ração da dimensão e sazonalidade das áreas marítimas geladas (Constable, 2014). No entanto, de acordo com Roberto Bargagli, a região oeste da península é a única que apre- senta uma relação significativa entre temperatura do ar e extensão do mar gelado (Barga- gli, 2005).
O aumento progressivo da temperatura nesta região está a afetar pequenos glaciares e plataformas de gelo, – as quais bloqueiam a luz solar e a radiação UV, encontrando-se expostas ao aquecimento da atmosfera e do mar –, bem como processos de colonização e reprodução de seres vivos, contrastando com o resto do continente.
“Of all the world’s regions, the Antarctic Peninsula is particularly sensitive to small rises in the annual average temperature, which has increased by nearly 3°C since the Ant- arctic Treaty was negotiated. This is about 10 times faster than the average for the rest of the world, which makes the peninsula area worthy of serious scientific scrutiny. The rapid disintegration of the Larson Ice Shelf in 2002, the collapse of the Wilkins Ice Shelf in 2008, and the calving since 1995 of giant icebergs the size of Delaware, Rhode Island, and Connecticut all graphically demonstrated the impacts that warmer waters are having around Antarctica’s perimeter ice shelves. (…). The remaining 96% of the continent, however, shows no notable signs of either temperatures rise or loss of ice, a circum- stance largely attributable to the cooling effects of the ozone hole over East Antarctica” (Joyner, 2011, pp. 100-101).
Em 13 de maio de 2015, o British Antarctic Survey (BAS) referiu que após os colap- sos das plataformas Larsen A em 1995 e Larsen B em 2002 (colapso parcial), a plata- forma de gelo Larsen C estava a perder espessura na superfície e na base. De acordo com dados recolhidos pelos investigadores, a plataforma Larsen C perdeu uma média de qua-
tro metros de gelo entre 1998 e 2012 e cerca de um metro de altura na superfície. Em meados de dezembro de 2016, uma fissura, que tinha vindo a evoluir paulatinamente nesta plataforma, expandiu-se de forma abrupta ao longo de 18 km, levando a que uma área com cerca de 5.000 km2 tenha ficado presa à Larsen C por apenas 20 km de gelo (Devlin, 2017).
A equipa responsável pelo estudo que tem vindo a monitorizar a evolução da Larsen C estima que, a manterem-se as condições atuais, a plataforma poderá colapsar dentro de um século, mas se a temperatura aumentar na região este fenómeno dar-se-á mais cedo20. Já a NASA afirma que o colapso total da Larsen B pode decorrer até ao final da década (NASA, 2015).
No que respeita à fauna e flora antárticas, segundo o investigador português José Xavier, que participa igualmente num estudo desenvolvido pelo BAS sobre o efeito das alterações climáticas na região, no futuro, algas e pequenos crustáceos começarão a dis- tribuir-se para sul, em direção à Antártida continental, à medida que a temperatura das águas mais a norte aumentar.
Quanto aos predadores de topo, como pinguins, focas e albatrozes, dependerá da sua flexibilidade para se moverem em busca de alimento, caso este fique mais longe das suas colónias de reprodução. Por outro lado, o investigador considera que nem todas as espé- cies serão afetadas de forma igual pelas alterações climáticas, acreditando que algumas consigam adaptar-se – o objetivo do estudo do BAS passa por compreender que espécies conseguem essa adaptação, entender como o fazem e avaliar as consequências que este fenómeno terá na estrutura e no funcionamento do oceano no futuro (Teixeira, 2015).
Relativamente às áreas geladas marítimas, aumentaram de extensão, sobretudo nos mares de Ross e de Weddell (Gutt et al., 2014), onde os ventos catabáticos promovem a
formação de gelo – uma mudança no padrão dos ventos poderia afetar a formação de gelo nas regiões costeiras. Por sua vez, as plataformas geladas antárticas, que contêm aproximadamente 27.000.000 km3 de gelo, suficiente para elevar 60 m o nível da água do mar, caso derretam, aumentaram 4 a 5% por década ao longo dos últimos 30 anos no Mar de Ross e diminuíram cerca de 5 a 6%, no mesmo período, na região da Península Antár- tica (Kennicutt e Chown, 2014; Constable et al., 2014).
Estas alterações “geograficamente compensadas” têm sido estudadas por cientistas internacionais que procuram compreender as alterações climáticas através da análise do fenómeno na Antártida. Não existem ainda evidências concretas de que estas alterações no continente antártico apenas se devem às mudanças climáticas provocadas pela ação humana, porém os dados geofísicos recolhidos nas regiões polares, nomeadamente no continente antártico, permitem compreender melhor as alterações climáticas do passado, a ligação entre a concentração de gases com efeito de estufa e as temperaturas da super- fície, bem como os processos físico-químicos que conduzem à formação do “Buraco do Ozono” (Bargagli, 2005).
20 Redigido em 2016. Parte da plataforma Larsen C, com uma área de cerca de 5.800 km2 viria efetivamente
Neste contexto, decorreu em abril de 2014 a primeira edição do SCAR Antarctic and Southern Ocean Science Horizon Scan, evento que reuniu 75 cientistas e decisores polí- ticos de 22 países e no qual foram definidas as prioridades da investigação na Antártida para as próximas duas décadas, nomeadamente: i) definir o alcance global da atmosfera da Antártida e do Oceano Glacial Antártico – qual o impacto das alterações do clima antártico noutras regiões da Terra; ii) compreender como, onde e porque perdem massa as plataformas de gelo; iii) conhecer a história da Antártida; iv) aprender como têm evo- luído e sobrevivido a fauna e flora antárticas; v) observar o Universo a partir da Antártida, pelas condições de visibilidade que oferece; e, por último, vi) reconhecer e mitigar a influência humana no continente.
Estas prioridades justificarão a presença de cientistas internacionais nos próximos 20 anos bem como o empenho dos países no desenvolvimento da investigação naquele continente, sendo que este “empenho” dos Estados em aprofundar o estudo deste fenó- meno constitui um fator preponderante para a tomada de decisão no contexto do Tra- tado, como verificaremos mais adiante (ponto 1.2.3), uma vez que um dos critérios de acesso ao estatuto de “Membro Consultivo” e de reforço deste epíteto é precisamente o investimento em investigação científica.
Assim, respondendo à questão de que forma poderão as alterações climáticas contri- buir para a relevância estratégica da Antártida? é possível concluir que as mesmas podem não aumentar a relevância estratégica daquele continente, mas acabam por constituir, ainda que indiretamente, um importante instrumento de validação científica para os paí- ses que pretendem afirmar-se no Sistema do Tratado da Antártida.