• Aucun résultat trouvé

Les ménages financent plus de la moitié de la dépense de lutte contre le bruit

Dans le document de l’environnement en 2011 (Page 69-73)

Partindo dos seus estudos culturais comparativos, Margaret Mead (1963) concluía que as manifestações “desagradáveis e turbulentas” de uma adolescência “rebelde, desregrada e instável” nos EUA, não eram universais, isto é, simplesmente decorrentes do processo de desenvolvimento biológico desse período etário, mas sim determinadas pelas condições sociais (p. 298). Para o demonstrar, bastaria encontrar um povo no qual à “maturidade física” dos jovens não correspondesse esse tal “florescimento do idealismo, a revolta contra a autoridade, e o conflito com as instituições” descritas como naturais, próprias da “idade ingrata” no contexto americano do pós-guerra (Mead, 1963, p. 298). A autora demonstra a sua tese na observação das jovens samoesas, registando uma evolução calma em direcção à maturidade, ao invés da crise tida como apanágio da adolescência (ibidem). Apesar das controversas reticências de Derek Freeman (1983) em relação a algumas das conclusões de Mead, a ideia de que a adolescência, tal como a concebemos hoje, é uma “invenção” da sociedade ocidental contemporânea, foi fazendo caminho. Descreve Ariès que a velha sociedade tradicional “via mal a criança, e pior ainda o adolescente” (1981, p.

71

10): “de criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude”. Segundo o historiador, a juventude “não implicava nem as características que, tanto na antiguidade como nas sociedades etnográficas, distinguiam o efebo do homem maduro, nem as que hoje opõem adolescentes aos adultos” (1981, p. 17).

Esta forma de olhar a juventude - conceito que tende a substituir o de adolescência nas ciências sociais - como fonte de problemas, insere-se, segundo Machado Pais (1993) no assumir de descontinuidades geracionais, a partir de uma teoria das gerações que emerge nos anos sessenta. Na admissão de uma cultura juvenil em oposição às gerações adultas, este autor fala da distinção entre uma socialização contínua, em que a juventude assume uma função de modelar ou refrescar a sociedade, ou descontínua, que esta surge como ruptura e crise (Pais, 1993, p. 40-42). Nesta perspectiva, que se divide entre a procura do homogéneo na cultura juvenil ou a descrição das subculturas, mas em ambos os casos o fracionamento geracional tem a leitura da juventude como “grupo de referência externa” para o mundo adulto, afirmando o seu poder de influência (Pais, 1993). Um ponto crítico apontado por Pais (ibidem) a esta corrente é a homogeneização decorrente da categoria etária, num modelo de referência intragrupo juvenil e não se posicionando face às instituições sociais da família, escola ou trabalho.

Numa visão alternativa a esta homogeneização, um grupo de teorias interaccionistas que integra estudos culturais sobre subculturas juvenis procura olhar a sociedade como um conjunto complexo de subculturas: “As subculturas reflectem a pluralidade dentro de uma cultura e veiculam formas alternativas de expressão cultural” (Fernandes, 1990, p. 59), surgindo como soluções colectivas de subversão face aos valores das classes dominantes, tratando-se de “sistemas de significações” que respondem “aos sistemas dominantes de significações” (Brake, como citado por Fernandes, 1990, p. 61)

Entendidas como “culturas de resistência”, as subculturas juvenis na Inglaterra do pós- guerra, apresentadas num conjunto de estudos por Hall e Jefferson (1976/1991), oferecem uma produção cultural alternativa à dominante, assumindo-se como culturas de classe em luta contra a hegemonia e a rigidez dos campos de possibilidades (Pais, 1993, p. 51).

Nesta linha de estudos etnográficos da antropologia, o foco em aspectos das práticas juvenis em sociedades ocidentais, especialmente nas áreas de lazer e consumos, música e roupas, liga-se a uma premissa importante dos estudos culturais juvenis: não é só a dimensão desviante e subordinada de uma cultura mais ampla, mas a sua própria dinâmica social e cultural, frequentemente altamente criativa, que importa captar (Barnard e

72

Spencer, 1996). Neste caso, é necessário explorar as dinâmicas intergeracionais e não olhar para a juventude como coisa isolada, já que uma das questões nucleares para a antropologia, segundo Barnard e Spencer (1996), até que ponto as sociedades produzem pessoas ou pessoas produzem a sociedade, é especialmente aguda nos estudos sobre os jovens. A reivindicação de que os jovens são agentes criadores da sociedade e da cultura, não sendo apenas modelados por estas, ou vistos como vítimas das forças sociais, encontra-se em muitos destes estudos. Esta ideia é afirmada por vezes explicitamente (ibidem) sendo os jovens apresentados como tendo um papel privilegiado enquanto ‘makers or breakers’ (Honwana & de Boeck, 2005) da sociedade - frequentemente retratados na etnologia, mas também na sociologia, como marginais, política ou economicamente, ou, como nos velhos estudos sobre a iniciação, liminarmente situados entre a casa de família e as mais amplas regras sociais dos adultos. Em qualquer destas posições, marginal ou liminar, podem ser uma fonte de poder através da resistência, criatividade ou através das suas percepções mais frescas sobre o mundo.

Tendo em conta estes discursos sobre o que a sociedade espera dos jovens, que respostas têm estes dado às enormes expectativas de que foram depositários? Têm sido capazes de reactivar uma sociedade velha e esclerosada”, criando “novos valores” (Ariès, 1981, p. 46)? Como são as suas vivências, nesta passagem directa “de uma época sem adolescência para uma época em que a adolescência é a idade favorita” (idem, p. 47)? Mas se a sociedade depositou esta “esperança” na juventude, também aumentou a vigilância sobre ela, com diversos sistemas, entre outros, o da ciência e o da psicopatologia.

Dada a complexidade e a velocidade das transformações ao longo das últimas décadas - que deverá continuar a oferecer muito material aos investigadores sociais, da psicologia e da história -, poderíamos postular que em geral esta estratégia cultural, em que se estendeu a margem de manobra do indivíduo, na recriação das práticas, questionando o sentido das normas, terá funcionado, acelerando variadíssimas mudanças sociais, em muitos domínios. Mas também podemos depreender, na mesma linha de raciocínio, que dados os paradoxos que incorporam os sistemas de socialização que caracterizam este período de individualização, para alguns indivíduos este requisito os fez parar no tempo da juventude, falhando a sua realização enquanto indivíduos que não chegaram a adultos.

73

Dans le document de l’environnement en 2011 (Page 69-73)