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Dépense financée en majorité par le secteur privé

Dans le document de l’environnement en 2011 (Page 60-65)

As concepções que regulam actualmente o exercício da parentalidade derivam, na sua base, de grandes mudanças ocorridas na revolução francesa, séc. XVIII. O acesso ao poder deixa de ser garantido pelo estatuto social conferido pela pertença familiar para ser determinado pela afirmação individual da competência. Esta ideologia, defensora da igualdade de direitos, manifesta-se directamente, no domínio da família, com o fim da lei da progenitura, tornando todos os filhos igualmente herdeiros, dividindo e enfraquecendo o legado parental, e com ela a necessidade de se criarem novas estratégias de articulação na fratria. A necessidade de cada indivíduo de crescer e “fazer por si” apela, mais uma vez, à necessidade de uma educação parental baseada no afecto, alimento do amor-próprio e confiança individuais. O lar, privado e íntimo, é o ambiente ideal para preparar os filhos para a vida no mundo moderno, impondo-se por si próprios e não pelos seus bens.

Esta associação entre o espaço privado, um “núcleo forte” que prepara para o público, faz nascer ou, pelo menos, sublinhar, uma pressão familiar e social para a realização individual e autonomização dos filhos no fim da adolescência. Se por um lado este será um esquema adequado à mobilidade social, na medida em que a família fornece aos seus filhos condições privilegiadas de desenvolvimento individual, trabalhando para o seu sustento anos a fio, e permitindo-lhe uma formação escolar superior, por outro, essa dedicação e esse esforço têm como consequência o prolongamento da dependência dos jovens, não só material, mas também emocional e afectiva.

A família conjugal moderna, cujos traços reconhecemos nas famílias contemporâneas, caracteriza-se, segundo Durkheim (1892/ 1975, como citado por Torres, 2001), pela sobreposição da sua função afectiva sobre a função económica, segundo o corolário “os indivíduos são mais importantes do que as coisas”. Esta “sentimentalização” da família nuclear, favorecendo a prevalência da lealdade para com a família de procriação em detrimento da família de origem, solta a família moderna dos laços de parentesco. O prolongamento da socialização dos jovens na família é gerido, segundo Durkheim (idem), por um conjunto de normas acerca dos direitos e deveres de pais e filhos, até à maioridade destes: “o pai tem obrigação de alimentar os filhos, estes dependem da sua vontade até à

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maturidade, mas depois destas cessam todas as obrigações paternais e os filhos assumem a sua personalidade, os seus interesses e a sua responsabilidade própria”, saindo para sempre do “estado de dependência perpétua.” (Torres, 2001, p. 14).

Este esquema de relações entre pais e filhos cria na família moderna ocidental algo de paradoxal, com necessário impacto na vivência dos jovens: por um lado, intensifica o envolvimento afectivo, num tempo de proximidade prolongada; por outro lado, quando este processo educativo termina, na “maioridade”, ou no fim da adolescência, aumenta a necessidade de um corte, sem o qual se corre o risco de ficar preso na dependência dos pais, falhando um investimento profícuo nas realizações no mundo extrafamiliar.

Do ponto de vista sistémico, tendo em conta este quadro de relações emocionais, a saída de casa dos pais trata-se de um momento de crise, e a sua preparação antecipatória de um tempo de risco. Vários autores sistémicos se debruçaram sobre esta fase do ciclo de vida familiar como de risco de desenvolvimento de sintomas de perturbação mental ou comportamental nos jovens, ou no progenitor mais ligado aos filhos. Froma Walsh (1984) destaca os processos adaptativos intergeracionais nesta etapa como uma das mais desafiantes do ciclo de vida familiar, quer para os filhos, que têm de cortar amarras com um “ninho” onde são acarinhados e protegidos, onde “pertenceram durante cerca de duas décadas”, quer para os pais, cuja ligação afectiva com os filhos deu um sentido à sua vida durante todo esse tempo (Walsh, 1984). Também Haley (1984) em “Leaving Home”, na mesma linha de interpretação sistémica, observa este processo de autonomização dos jovens como ameaça, nalgumas famílias, ao seu equilíbrio, tratando-se as perturbações juvenis um mecanismo de reequilibração adiando o momento da saída de casa dos filhos e conservando as funções cuidadoras de um dos progenitores ou do casal parental. Estas funções parentais, que estando ajustadas à infância deixariam de existir progressivamente no período da adolescência, perpetuam-se no tempo, travando processos de coevolução dos vários elementos da família, parando no tempo (Ausloos, 1996).

A partir de uma perspectiva histórica, Ariès reforça esta visão, interpretando as crises actuais da juventude, “a dificuldade, quando não a repugnância dos jovens em passar para o estado adulto”, como “consequência do isolamento prolongado dos jovens na família e na escola” (1981, p. 12). Segundo o historiador, é o início da escolarização que leva a este tratamento diferenciado da infância e da adolescência, que os isola do mundo dos adultos, conservando-os na residência familiar, e assim se tornando alvo de maior investimento afectivo pela parte dos pais. A socialização comunitária, que implicava uma separação mais precoce da família, é assim substituída por uma socialização em contextos sociais

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específicos mais protegidos - domésticos e educativos - afastando a sexualidade (e as “sujidades” do mundo adulto) do mundo das crianças, moralizando as relações entre grupos sociais de adultos e de crianças (ibidem). Assim, “a criança foi separada dos adultos e mantida à distância numa espécie de quarentena (a escola), antes de ser solta no mundo” (Ariès, 1981, p. 10).

A compreensão dos fenómenos problemáticos juvenis das últimas décadas pode ser auxiliada por este enquadramento histórico, tendo em conta a profunda transformação dos processos e agentes socializadores do último século - que em certos contextos sociais se prolonga até há umas décadas45. Segundo Lebrun (1998), por volta dos sete anos, as crianças, cuja emancipação lenta e gradual da família se vinha a processar desde o desmame, começando a brincar com crianças da mesma idade, numa espécie de “escola da vida em comum”, na rua, bairro ou cidade, eram separadas dos pais, sendo comum que passassem a viver noutra casa, para servir outra família, ou como aprendizes de certos artífices. A transmissão dos valores e dos conhecimentos – e em geral a socialização da criança - não eram nem asseguradas nem controladas pelos pais, de quem a criança era afastada, fazendo a aprendizagem das coisas ajudando os adultos a fazê-las. Em todos os escalões sociais se verificava esta prática de troca de filhos, para aquisição de conhecimentos e competências, isto é, com objectivos pedagógicos (Lebrun, 1998). Esta delegação nos outros, da parte dos pais, do dever de educar e de adaptar os filhos às exigências da vida social, antes ou até à adolescência, corresponde, segundo Lebrun (1998), “sem dúvida”, à noção de que a aprendizagem técnica, como a aprendizagem social, necessitam de um mergulho “iniciático e prolongado” no mundo exterior. A noção de “participação social” de Rogoff (2003) inscreve-se nesta linha, sendo, do seu ponto de vista, este processo essencial à incorporação cultural.

Na sequência destas mudanças, a vida social polarizou-se, no séc. XIX, em torno da família e da profissão, desaparecendo a antiga sociabilidade (ibidem, p. 10) Tornaram-se, estes, os dois vectores em torno dos quais se organiza a vida adulta no mundo ocidental de hoje, e os dois aspectos mais importantes da socialização no período da adolescência: o treino das relações amorosas e sexuais, preparatório do futuro casamento, e a escolaridade, preparatória da futura profissão. A maturidade social na nossa sociedade, parece, ainda, girar à volta destas duas metas.

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Estas transformações chegam por vezes à geração dos pais dos “jovens actuais”, sendo frequente num passado ainda recente, sobretudo nos meios rurais, o início de uma vida de trabalho aos 10 anos, após a escolaridade obrigatória, idade em que transitavam directamente da infância para a idade adulta (Machado e Costa, 1998)

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Esta polaridade coincide com vários conceitos da sociologia como a divisão do trabalho dos adultos em actividades produtivas e reprodutivas, ou funções expressivas e funções instrumentais (Alexander, 1984). Na psicanálise, Freud (1921/1968) referia-se ao estado de maturidade psíquica como podendo resumir-se a duas capacidades essenciais: amar e trabalhar. São também os dois eixos principais das escolhas da adolescência. É na preparação destes dois projectos que parece incidir o maior investimento da vida adolescente, no nosso contexto social, com a integração num grupo de amigos, onde se desenvolvem as experiências sexuais e amorosas e a partilha de contextos de trabalho ou de estudo, que depois se prolongam para espaços de lazer. Mas é também através das falhas e dificuldades nestas áreas que as fragilidades da adolescência se revelam, quando surgem comportamentos de risco, desviantes ou psicopatológicos: as dificuldades escolares e de inserção profissional, o isolamento ou integração de grupos “marginais”, a dificuldade de estabelecimento de relações amorosas.

Se o século XX foi, no nosso contexto social, o da “descoberta da adolescência”, “o século da afirmação da ideia da independência dos filhos em relação à vontade dos pais” (ibidem), um paradoxo se evidencia: esta independência alia-se intimamente ao prolongamento da sua dependência.

Dans le document de l’environnement en 2011 (Page 60-65)