6.2 Ballons ovales
7.1.2 Longueur capillaire effective
Analisaremos alguns aspectos da produção do laudo diagnóstico de Vinicius de acordo com a resolução do Conselho Federal de Psicologia, n.º 007 de 2003 que institui o Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo Psicólogo decorrentes de avaliação. Logo no início do manual há orientação para que qualquer documento redigido por profissional de psicologia deva, na linguagem escrita, apresentar uma redação bem estruturada e definida, expressando o que se quer comunicar. Assim, o texto deve ser ordenado de forma a possibilitar a compreensão por quem o lê, “o que é fornecido pela estrutura, composição de
parágrafos ou frases, além da correção gramatical” (CFP, 2002, p.3). No entanto, não é o que se percebe no laudo analisado, sendo que no parágrafo a seguir não é possível compreender o conteúdo
:
A LDB 9394/96 orienta que a criança, jovem ou adulto deva caminhar com seu grupo etário e que no caso de uma retenção de série, causada pelo desconhecimento de outros deverá ser reconsiderado, uma vez que com isso venha acontecer, poderá causar danos emocionais na auto-estima já tão desgastada por fracassos não compreendidos.
Quem são os “outros” que desconhecem o quê? A LDB orienta que toda e qualquer criança, jovem ou adulto deve caminhar com seu grupo, ou o texto pretende se referir a pessoas diagnosticadas? Além disso, contrariando a ideia que o texto intenta passar com base na LDB de que a criança deva caminhar com seu grupo etário cabe destacar o art. 23º da LDB que diz o seguinte: “a educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar”. (LDB, 1996)
O manual de orientação para documentos psicológicos também evidencia que a comunicação deve apresentar qualidades tais como clareza, concisão e harmonia. “A clareza se traduz, na estrutura frasal, pela sequência ou ordenamento adequado dos conteúdos, pela explicitação da natureza e função de cada parte na construção do todo.” (CFP, 2002, p.4). Consta também no texto do diagnóstico:
Consequências secundárias podem incluir problemas na compreensão da leitura e redução na experiência acumulada por ela impedir o crescimento do vocabulário e o conhecimento.
E no parágrafo seguinte:
Esta definição se encontra no livro de Classificação de Doenças problemas e relacionados à saúde (10ª revisão), volume 1 (CID – F81.0 – DSM – IV).
Podemos interpretar o primeiro parágrafo de duas formas. Num primeiro caso, o termo “por ela” poderia complementar “redução na experiência acumulada”, o que quer dizer que “ela” seria a criança. Acrescentando uma vírgula teríamos:
Consequências secundárias podem incluir problemas na compreensão da leitura e redução na experiência acumulada por ela, impedir o crescimento do vocabulário e o conhecimento.
Outra forma de compreender seria com o uso do termo “por ela” como início de uma nova oração, sendo que “ela” seria a dislexia.
Consequências secundárias podem incluir problemas na compreensão da leitura e redução na experiência acumulada, por ela (a dislexia) impedir o crescimento do vocabulário e o conhecimento.
Percebe-se que não há um cuidado quanto à sequência e ordenamento adequados do conteúdo, pois o segundo parágrafo citado acima se inicia com “esta definição”, e não há nada sendo definido no parágrafo antecedente. Falta também sentido na frase versando a respeito do CID 10, cuja sigla representa “Classificação Internacional de Doenças”.
Como orientação de princípios técnicos para a redação de documentos psicológicos consta que no processo de avaliação psicológica deve-se considerar que “os objetos deste procedimento (as questões de ordem psicológica) têm determinações históricas, sociais, econômicas e políticas, sendo as mesmas elementos constitutivos no processo de subjetivação.” (CFP, 2002, p.4). Dessa maneira, o documento deve considerar a natureza dinâmica, não definitiva e não cristalizada do seu objeto de estudo. No caso da associação produtora do diagnóstico evidentemente a linguagem e sua apropriação no processo de leitura e escrita é o objeto, e este foi considerado dependente de um componente biológico imutável.
Sendo assim, dislexia não é uma doença, e sim, um distúrbio hereditário (genético) e, portanto o indivíduo nasce e morre com esse distúrbio.
A observância das múltiplas determinações que orienta o manual não é o que se encontra no laudo de dislexia analisado e esta compreensão não poderia mesmo ser esperada, pois pretender diagnosticar como distúrbio problemas encontrados no processo de alfabetização já carrega outra concepção do objeto de estudo que se alia a pressupostos das ciências naturais. Esta compreensão culmina com a frase acima (“um distúrbio hereditário (genético) e, portanto o indivíduo nasce e morre com esse distúrbio”), que afirma de maneira categórica algo que, no mínimo, estaria em estudo, algo que nunca foi comprovado em estudos de fato científicos (Moysés & Collares, 2010), tenta categorizar e cristalizar um objeto que não é da ordem médica ou um distúrbio, mas que tem determinações históricas, sociais, econômicas e políticas, é construído socialmente, desenvolvido por mediação ao longo da vida e de seu movimento.
Por fim, destacamos afirmações no laudo que não tem nenhuma fundamentação ou base científica exigida pelas normas da produção de laudos, por exemplo, quando se relata o seguinte: “dentre inúmeros talentos disléxicos, citamos Albert Einstein, que apesar de ser um grande gênio, tinha dificuldades na leitura, escrita”. Esta afirmação pode ser facilmente contestada, já que as primeiras descrições sobre dislexia ocorreram em 1895, com Hinshelwood, e no ano seguinte, 1896, Einsten estava terminando o ensino secundário. Pergunta-se como e quem realizou o diagnóstico de Albert Einstein? Além disso, da maneira como foi escrita a frase enfatiza a dificuldade, e não a genialidade de Einstein, que “apesar” de gênio possuía dificuldades.
Coles (1987) investiga a biografia de Albert Einstein indo além da superfície dos problemas e de interpretações reducionistas. Como Einstein teria um distúrbio de leitura – pois brilhante em matemática, mas não em línguas – se aos treze anos lia “Crítica da Razão Pura” e trabalhos de outros filósofos, adotando Kant como seu autor favorito? Ainda durante este período o cientista lia Darwin. O mito da dislexia de Einstein diz ainda que sua dificuldade em linguagem o impedia de encontrar um emprego após a graduação, e fez com que perdesse três empregos em dois anos. Einstein teve três empregos em um curto período de tempo porque: o primeiro era temporário como pesquisador assistente; o segundo também era temporário como substituto de um professor que precisou servir o exército; e o terceiro foi perdido devido a personalidade independente e intelectualmente rebelde de Einstein que tinhas ideias de mínima rotina e mínima disciplina muito diferente do que esperavam seus empregadores. De acordo com Coles (1987, p.18) o diagnóstico do físico faz parte de uma “especulação que a cada ano parece movimentar-se mais e mais em direção ao reino da sabedoria. Além de Enistein, outros disléxicos legendários seriam Thomas Edison, Rodin e Leonardo da Vinci [...] Entre os mais antigos disléxicos estaria Karl XI (1655-97).”