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Comité de concertation

LISTE DES TABLEAU

A história da formação em Educação apresentada revelou significativos movimentos curriculares, que se desenvolveram ao longo dos oitenta anos de trajetória formativa. Esses movimentos, nem sempre acompanharam de forma simétrica as mudanças realizadas no contexto educacional. Em alguns momentos, observa-se um lento desenvolvimento das propostas curriculares para a Educação Física em relação às diretrizes curriculares das licenciaturas em geral, enquanto que em outros momentos, é possível observar propostas inovadoras no meio educativo, como, por exemplo, o modelo de 1987.

Após analisar os quatro períodos formativos apresentados, tornou-se possível identificar algumas tendências. Nas primeiras iniciativas de formação, referentes ao período compreendido entre 1939 e 1968, os cursos possuíam uma duração bastante curta e eram pautados quase que exclusivamente por componentes técnico-instrumentais. Esses cursos resistiram para se adequar ao Parecer 292/62, o qual instituía a obrigatoriedade de um conjunto de disciplinas pedagógicas, ao contrário de outros cursos de licenciatura que atenderam, mais prontamente, a essas exigências.

Já no modelo de 1969, os saberes relacionados aos desportos recebem destaque, tendo em vista a grande ascensão desportiva ocorrida nas décadas de 1960 e 1970. Da mesma forma que os cursos passaram a adquirir uma forte identidade desportiva, passou também a existir uma maior ênfase didático-pedagógica relacionada à formação geral do professor. Apesar das quatro disciplinas voltadas à formação pedagógica, prevaleceu o caráter tecnicista e desportivo da formação.

Mais recentemente, a autonomia institucional, preconizada pelo currículo de 1987, tendeu a descentralizar as diretrizes curriculares, oferecendo grande liberdade para as instituições adequarem seus projetos políticos pedagógicos. Apesar disso, esse mesmo currículo previa que 80% da formação geral estivesse composta por conhecimentos técnicos específicos. Nesse sentido, apesar dos avanços e da ampla liberdade curricular, prevaleceu, mais uma vez, uma formação tecnicista, biologicista e desportiva.

Quanto às atuais propostas formativas houve uma tendência de fragmentação no campo, onde, de um lado, os cursos de Licenciatura passaram a explorar mais os conteúdos didático-pedagógicos e, de outro lado, os cursos de Bacharelado especificaram-se no aspecto técnico. Apesar dos avanços proporcionados pela especificidade dos caminhos pelos quais puderam optar os acadêmicos, criou-se também, uma espécie de “separativismo” entre os

conteúdos pedagógicos e os conteúdos técnico-instrumentais, conforme salientam Benites, Souza Neto e Hunger (2008, p.358). Não bastasse isso, diversas tem sido as dificuldades relacionadas à formação em Educação Física, as quais parecem se acentuar no tocante às fragmentações impostas ao campo profissional.

De maneira geral e buscando analisar mais amplamente os fatos mencionados, identifica-se uma forte tendência biológica e tecnicista na área de Educação Física, a qual se consolidou enquanto pensamento hegemônico. Diversos autores, imbricados na compreensão da origem dessas tendências, estabelecem relações dessas com as influências das Instituições Militares, assim como, com o Movimento Higienista do século XIX (CASTELLANI FILHO, 2008; GÓIS JÚNIOR e LOVISOLO, 2003; SILVA, 2004). Quanto às Instituições Militares, essas exerceram direta influência nos primeiros modelos formativos, denotando o caráter técnico e “mecânico” da formação. Em relação ao Movimento Higienista, o discurso da classe médica e as relações saber-poder instituídas por essa categoria profissional influenciaram fortemente a Educação Física brasileira, conferindo a essa um caráter eminentemente biológico. (CASTELLANI FILHO, 2008; BRACHT, 1996; CRISORIO e BRACHT, 2003).

Percebe-se que, ao longo da história formativa, menor importância se atribuiu aos conhecimentos didáticos e pedagógicos, que, apesar disso conquistaram gradativamente o seu espaço, por força de dispositivos legais. O menor prestígio direcionado a essas áreas, não se configura como um aspecto exclusivo da formação em Educação Física, a qual também se torna visível no âmbito dos demais cursos de formação de professores. Saviani (2009), ao revisar importantes períodos na trajetória formativa dos cursos de Licenciatura no Brasil, evidencia uma tendência à maior valorização aos componentes específicos, denominados por ele como “conteúdos culturais-cognitivos”, em detrimento aos conteúdos didático- pedagógicos.

Para exemplificar, o autor relaciona essa tendência ao modelo formativo conhecido como “esquema 3 + 1”, em que esses componentes eram ministrados no último ano de curso e, completamente, desarticulados com os demais componentes curriculares. Segundo Saviani (2009, p.147), no período compreendido entre 1939 e 1971, os componentes didático- pedagógicos já tendiam a figurar como “um apêndice de menor importância”, sendo muitas vezes encarados “como uma mera exigência formal para a obtenção do registro profissional de professor”.

Tendo em vista esses grandes movimentos, importante mencionar a percepção de Lino Castellani Filho quanto às tendências existentes no campo da Educação Física. Esse autor (CASTELLANI FILHO, 2008), ao analisar a constituição e legitimação desse campo do

conhecimento, aponta três grandes tendências: uma que se apresenta na Biologização, configurada pela ênfase exacerbada aos aspectos biológicos; outra que se traduz na Psico- pedagogização que, na visão do autor enaltece, muitas vezes, formulações “abstratas” e “a- críticas” da realidade; e a última que, segundo ele, sedimentada em uma concepção histórico- crítica da Educação, pode representar um caminho viável para a Educação Física.

Outro ponto de vista importante é oferecido por Valter Bracht, também bastante conectado com os movimentos históricos dessa área do conhecimento. Esse autor (BRACHT, 2003), que se detêm em identificar as concepções epistemológicas relacionadas ao campo da Educação Física, identifica três movimentos relacionados à sua constituição: a pedagogização, a despedagogização e a repedagogização. Segundo Bracht (1996, 2003), a Educação Física brasileira, enquanto categoria profissional se constituiu a partir de uma forte demanda escolar, a qual criou a necessidade da sua existência institucionalizada (BRACHT, 2003). Para esse movimento, de instituição da Educação Física, Bracht (2003) denomina de pedagogização, tendo em vista que o campo se constituiu a partir da vertente escolar.

Com as fortes influências dos aspectos técnico-científicos e a grande ascensão cultural do desporto, a Educação Física brasileira passou por um movimento de biologização, o que remeteu também a uma tendência à despedagogização da área. Segundo Bracht (1996), a partir da década de 1980 houve uma tentativa de repedagogização da área, na qual muitos docentes buscaram resgatar os aspectos pedagógicos da formação, ao invés de se centrar exclusivamente nos aspectos técnicos, científicos, desportivos ou biológicos. Bracht (2003) aponta ainda, a atual necessidade de repedagogização da Educação Física, reforçando a hipótese da identidade pedagógica da área residir na intervenção qualificada e não nos aspectos técnico-científicos relacionados ao treinamento físico-desportivo e ao alto rendimento (CRISORIO e BRACHT, 2003; BRACHT, 1996).

Com base na trajetória histórica da formação em Educação Física e, a partir das tendências apontadas por importantes autores desse campo do conhecimento, pôde-se evidenciar uma série de mecanismos históricos e contextuais, capazes de conduzir a uma maior compreensão da realidade da área. Esses elementos são fundamentais para compreender o comportamento, as crenças, as atitudes e valores demonstrados por acadêmicos de Educação Física ao longo do curso de formação. A partir de todas essas considerações, pode-se pensar que as tendências observadas devem refletir sobre os aspectos investigados nessa Dissertação. Compreende-se que esses, devem exercer influência sobre a maneira como os alunos valorizam as diversas áreas de estudo contidas no processo formativo.