Referíamos anteriormente que a preparação dos profissionais de saúde nas disciplinas mais humanistas comporta uma grande distanciação entre a teoria e a prática, ou seja, apesar de se considerar a totalidade do indivíduo, apesar de se considerarem dimensões importantes sob o ponto de vista teórico, como os aspectos sociais, culturais ou mesmo espirituais, a realidade do quotidiano é diferente e verifica-se, sobretudo, uma fragmentação dos cuidados prestados. Para não se considerar nas práticas quotidianas
uma atenção aos aspectos espirituais, Carson (1989) apresentava como causa possível o facto de os profissionais de saúde relegarem esta resposta para os “profissionais da religião”, uma vez que os profissionais de saúde teriam uma visão limitada do que é a espiritualidade. Como exemplo desta causa encontramos o seguinte testemunho no discurso da enfermeira:
«Se por exemplo há algum enfermeiro que esteja mais sensível às questões das crenças e da fé, chama, e se o doente referir ou soubermos qual é a religião da pessoa e a pessoa referir que tem alguma necessidade, o enfermeiro chama, se não, se for alguém que não está para aí virado não chama.» (E10).
Muito próximo deste aspecto apresenta-se a questão da real avaliação das necessidades espirituais, que por equívoco ou falta de formação poderão ser muitas vezes consideradas na área da psicologia (Oldnall, 1996), como é o caso deste testemunho da enfermeira:
«Numa situação de internamento prolongado, se for um jovem que começa a ficar mais triste, ou a afastar-se, a primeira pessoa em que pensamos logo é um psicólogo. É logo a primeira pessoa.» (E10).
Todavia, a questão da falta de formação adequada dos profissionais de saúde, reconhecida por estes nos seus discursos, no domínio da espiritualidade e o modo como isso pode influenciar a prestação do serviço, não pareceu incomodar os capelães que responderam ao questionário: lembramos que esta questão era indiferente para 39,6% dos respondentes e 13,9% chegaram mesmo a considerar que esse aspecto não tem qualquer influência na prestação do serviço de assistência espiritual e religiosa. No entanto, a formação adequada dos profissionais pode reduzir consideravelmente o medo de equívocos na avaliação das necessidades espirituais do indivíduo.
Por outro lado, Granstrom (1995) identifica o medo que os profissionais têm de não serem competentes para responderem aos pedidos que lhes possam surgir, ainda que se coloquem numa posição defensiva face ao problema, como é o caso deste médico responsável por uma unidade de cuidados intensivos:
«Nós médicos, todos nós temos, todos nós somos psicólogos. Agora, é evidente que quem está dentro do assunto, é evidente que tá mais avalisado para... Agora quem não está, não quer dizer que pode não estar ao mesmo nível, não ter o mesmo diploma. Contudo, isto é assim, pode ter uma sensibilidade de tal ordem, pode ter um conhecimento, não é um papel, mas pode dar resposta. Já fizemos muita vez. Exige saber observar.» (E8).
Outra causa apresentada prende-se com a falta de tempo ou rácios insuficientes de pessoal (Boutell e Bozett, 1987; Highfield, 1992; Piles, 1990; Sodestrom e Martinson, 1987). Deste aspecto dão-nos conta os testemunhos expressos em E1, E2, E4, E9 e E12. Colocamos o seguinte excerto, a título de exemplo:
«Aquilo que passa é que também a nível da saúde, eu creio que aquilo é complicado às vezes, porque, por exemplo, a nível de enfermagem não têm tempo. O tempo é pouco. Para a qualidade que de facto devia existir, devia existir mais gente. As pessoas têm dificuldade com o tempo, em dar resposta.» (E1).
Pullen, Tuck e Mix (1996) elencaram também como causa impeditiva de prestação de cuidados espirituais ao doente o receio que os profissionais de saúde têm de impor as suas próprias crenças ao doente. De facto, como nos referem Berger e Luckman (1997), a aplicação de uma resposta acarreta sempre consigo a reserva comum de sentido. Não foi tanto o medo de imposição das crenças o que encontrámos, antes o receio de não isenção ou de julgamento face às crenças dos doentes. Este receio é claro no testemunho da enfermeira:
«Acho que uma das áreas em que nós devíamos ter mais formação, ou reciclagem de formação, seria na área da multiculturalidade e de que forma isso condiciona as opções espirituais da pessoa, e as próprias crenças e atitudes, etc. Muitas vezes, nós somos levados a ajuizar um comportamento segundo o nosso padrão e valores, até podemos não ser católicos ou cristãos, mas a nossa sociedade rege-se por muitos valores, advém do nosso passado cristão, não é? E portanto, muitas vezes, sinto que temos a tendência a julgar, é esse o termo, a julgar a pessoas de acordo com esse nosso padrão. Por isso acho que essa seria uma área a trabalhar.» (E10).
Nenhum entrevistado se posicionou com incerteza no que respeita às suas próprias crenças e valores religiosos e espirituais, apesar de Harrington (1995) elencar este aspecto também como causa para não se levar em conta a dimensão espiritual nos cuidados de saúde quotidianos. Este autor elenca ainda o medo de intromissão na privacidade do doente, mas as unidades de discurso que encontramos mostram-nos dois aspectos: há um reconhecimento de que a espiritualidade é uma questão pessoal e íntima, mas, por outro lado, o reconhecimento de que, no âmbito da saúde, o tratamento tenderá a recolocar as questões da intimidade da pessoa doente. Em concreto, como dizíamos anteriormente, pode estabelecer-se no indivíduo doente o sentido de perda da tutela do seu próprio corpo, ou o sentido de entrega da tutela do seu corpo ao profissional de saúde que dele se encarrega. É evidente que os profissionais de saúde reconhecem esse poder ainda que expressem o peso dessa responsabilidade. A médica do serviço de urgência é muito clara neste sentido:
«Eu acho que as pessoas, de uma forma geral, eu noto isso em mim, essa espiritualidade está num domínio um bocadinho pessoal, íntimo. E embora nós sejamos quase por definição criaturas que devassamos a intimidade das pessoas, trabalhamos na intimidade mesmo muito profunda, eu às vezes acho que trabalhar nessa área nos carrega com coisas que, às vezes, eu preferia não carregar.» (E2)
De um modo geral, é muito evidente nos diferentes discursos o sentimento que denominámos no título deste ponto, a diplomacia com o desconhecido, que se estabelece entre os profissionais de saúde e a dimensão espiritual dos indivíduos. Em consequência, torna-se evidente a inadequabilidade no estabelecimento de uma visão funcional do trabalho que o serviço de assistência espiritual e religiosa poderá prestar. O mesmo será dizer que se reconhece a importância da espiritualidade nos cuidados de saúde, todos os elementos discursivos nos provam a existência dessa preocupação sob o ponto de vista teórico. Todavia, se num caso ou outro, se concluir que a solução passa por ajudar a resolver algum aspecto da espiritualidade do indivíduo, por estar a influenciar de forma negativa a recuperação ou melhoria do seu estado de bem-estar, é muito difícil encontrar evidência prática da inclusão de uma intervenção no plano de saúde do doente. Conforme veremos no ponto seguinte, essa é uma realidade que se estabelece e formaliza apenas nos cuidados paliativos. Daí dizermos que estamos
perante a existência de uma construção diplomática com o desconhecido que é o saber- fazer deste âmbito dos cuidados de saúde.
Foi também interessante detectar aquilo que interpretamos como uma situação ambivalente do papel dos capelães no contexto hospitalar: por um lado sentem-se parte da dinâmica hospitalar, mas, por outro lado, entendem que não é dada importância ao papel que aí desempenham. Nos questionários, 37,3% concordaram que a assistência espiritual e religiosa é uma das actividades do hospital à qual é dada menos importância, ao passo que 36,8% discordaram e 25,4% posicionam-se de um modo indiferente a esta questão. Esta distribuição demonstra e sustenta essa ambivalência encontrada dos discursos dos capelães obtidos por entrevista. Dependendo da maneira como se estabelecem as dinâmicas do funcionamento do serviço de assistência espiritual e religiosa, o capelão sente-se ou não parte do hospital. Até se considerar parte do contexto hospitalar revela-se um forasteiro nas dinâmicas dos serviços, conforme podemos ler no depoimento do capelão do hospital distrital:
«Agora, na classe médica encontramos de tudo, como é óbvio. “Então tá aqui a morrer alguém?” Quando eu chego… mas vejo que de um olhar de desconfiança que foi inicialmente, quando eu aparecia nos serviços, as pessoas já vão aceitando a presença e já não se preocupam, como se fosse um objecto estranho, agora já aceitam, as coisas já vão.» (E9).
Assim, a figura do responsável do serviço de assistência espiritual e religiosa, a sua maneira de estar, empatia, formação, a maneira como ele se relaciona com os outros profissionais de saúde ou com os doentes parece ser, pois, fundamental para que exista uma imagem positiva do próprio serviço, a par do sentimento de que, se houvesse mais profissionais nas equipas, a imagem positiva seria ainda mais sustentada. É novamente a questão dos rácios de pessoal que referíamos há pouco (Boutell e Bozett, 1987; Highfield, 1992; Piles, 1990; Sodestrom e Martinson, 1987). Um bom exemplo é o depoimento seguinte:
«Eu estou aqui desde 2004 e não é fácil. Um dos requisitos para me aceitarem foi a formação, mas não é a de teologia, tem de ser outra formação como counselling ou outra. Depois que esteja presente nas reuniões. Foi muito difícil aceitarem-me. Mas
onde estou todas as semanas já é diferente e todos fazemos o plano individual de intervenção, mas há outras unidades em que eu não consigo estar porque é impossível em termos de tempo. Somos duas, mas a minha colega não tem acesso ao processo porque não é técnica. Eu dialogo ao mesmo nível que os meus colegas.» (E4).
A nivelação dos discursos é também muito presente na unidade que acabamos de apresentar: a comunicação entre iguais facilita a integração e reduz a realização de estratégicas diplomáticas com o desconhecido, quer por parte dos profissionais, que conseguem identificar os contributos do serviço de assistência espiritual e religiosa, quer por parte dos responsáveis do serviço, que sentem por fim que o seu trabalho é valorizado pelos seus pares:
«Posso-lhe dizer que o padre é muito dinâmico, muito activo, muito interventivo, que as pessoas gostam, que apreciam, que faz outras coisas para além da rotina.» (E5).
«Bem é, sabe que isto é assim: as pessoas ou são procuradas ou vão ao encontro, se são procuradas, têm que dar resposta; se vão ao encontro, às vezes não são bem recebidas, mas eu acho que é sempre positivo. Obviamente a pessoa, apesar de ser um assistente religioso, não tem que estar sempre a impingir a religião, não é? Mas tem valores para transmitir, valores positivos, valores que às vezes podem ser mais bem entendidos ou não, o valor do sofrimento, o valor da doença, enfim, da caminhada pessoal. Isto anda em paralelo com a parte técnica, digamos assim, um complemento.» (E7).
Este depoimento evidencia também a existência de uma expectativa dos profissionais de saúde face ao serviço de assistência espiritual e religiosa: os profissionais de saúde esperam que este serviço seja um complemento às actividades médicas e de enfermagem que são exercidas no hospital. Neste sentido, caberá então aos responsáveis pelos serviços de assistência espiritual e religiosa não defraudar, mas antes superar essas espectativas:
«Só com exemplos concretos é que os profissionais de saúde vão percebendo que a presença do serviço de assistência espiritual e religiosa é importante também na saúde total do doente.» (E9).
Apesar dos depoimentos esperançosos de parte a parte, em ambos os casos, profissionais de saúde por um lado e os capelães por outro, experimentam algum desencantamento na relação e nos equívocos que este tipo de assistência comporta. É exemplo o depoimento do capelão do centro de saúde e da médica responsável pelo serviço de urgência:
«Só que às vezes ainda se confunde este trabalho, no caso concreto da assistência religiosa, às vezes confunde-se a missão do capelão, ou daqueles voluntários que com ele colaboram, como estando ali na capela ou na capelania.» (E13)
«Agora, actualmente entrosamos menos com a capelania que temos, raramente os vemos, estão de chamada e já tem havido situações mais difíceis de ultrapassar com alguma indisponibilidade.» (E2).
É importante também referir que se constatou nas diferentes entrevistas que o serviço de assistência espiritual e religiosa torna-se mais visível se estiver presente numa perspectiva de humanização dos serviços de saúde, ou mesmo na perspectiva do trabalho desenvolvido pelas comissões de ética do hospital. Quando se coloca sob essa perspectiva os profissionais de saúde atribuem-lhe, aparentemente com maior facilidade, uma certa utilidade.