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RELATIONS EXTERIEURES
1. Les lieux d’échange
O livro “A rebelião dos Estudantes (Brasília: 1968)” apresenta, por meio de crônicas dos principais episódios, a história de luta do movimento estudantil no período imediatamente posterior ao golpe militar de 1964 chegando ao ápice em 1968 e toda repressão seguinte. É curioso comparar esta história com as lutas da geração que agora estudamos: ressaltam-se as
28. O destino sempre nos reserva agradáveis coincidências. Este artigo foi finalizado e enviado à revisão ortográfica dia 15/05/2013 para posterior publicação. Ou seja, quase um mês antes das “Jornadas de Junho” - mobilizações nacionais pautadas na Ação Direta e em movimentos sociais muito semelhantes aos que aqui estudamos. Curiosamente ou não, foi o Movimento Passe Livre que desencadeou novamente todo este processo em uma jornada de lutas contra o aumento da passagem, desta vez em São Paulo. E, mais que isso, creio que estava desgraçadamente certo quando afirmei que a Ação Direta voltaria à tona com “todas suas implicações possíveis”: tentativa de apropriação pela direita, repressão brutal do estado dito democrático, tensionamentos sociais, emergência política de atores marginalizados. Enfim, me falta espaço e ainda é cedo para realizar um amplo balanço desta luta que agora nos toma de assalto. Mas o GAP entre finalizar o artigo e publicálo pôde, ao menos tacitamente, confirmar minha afirmação. A Ger’Ação terá uma longa vida por este caminho. Por isso é tão importante cuidarmos com carinho de nosso movimento, analisando-o seriamente e superando nossos principais problemas. Quem sabe assim alcançamos nossos principais objetivos. (Nota escrita dia 18/10/2013)
claras similaridades de ser um movimento efervescido, que realizava ações de protesto radicalizadas com táticas semelhantes às atuais (grandes marchas, ocupações/tomadas das instituições de ensino sob controle estudantil; con- tra-ataques à repressão policial, uso de molotovs, deitar na rua para fechar as vias); também destaca-se a semelhança de ser um movimento realizado com a articulação de estudantes secundaristas e universitários/as junto à ação concomitante extrapolando o centro da cidade, tomando o conjunto dos núcleos urbanos do DF; o vínculo estreito entre a luta política e a cul- tural; também são semelhantes as articulações pontuais e desconfiadas com parlamentares que se colocam a disposição para intermediar confrontos institucionais ou retirar manifestantes da prisão.
Por outro lado, as características dos dois grupos diferem entre si quando vemos nas metodologias de 1968 a prática deliberada de encontros fecha- dos entre lideranças para definir os rumos da ação; a prioridade dada pelo movimento à disputa das diretorias dos órgãos estudantis em relação às organizações de base (que quase se confundiam, pois as diretorias eram mais clandestinas que propriamente burocráticas), a definição mais ideológica e programática de cada uma das correntes no seio do movimento. Para além destas aproximações, há a questão central colocada com relação às distintas conjunturas em que as disputas das duas gerações realizavam: o movimento estudantil de 1968 realizava lutas radicais contra as instituições federais reconhecidamente autoritárias e repressoras da ditadura (o que justificaria a transgressão institucional), enquanto as lutas atuais realizam atos radica- lizados nos limites das instituições estatais que se afirmam democráticas, com processos aparentemente mais públicos e regulamentados.
Não deixa de ser interessante a coincidência tática em momentos ins- titucionais tão distintos, ainda que os direcionamentos de cada luta sejam de esferas diferenciadas - uma mais federal e outra mais local. A questão que se coloca é: como em um período de aparente abertura política tornou- se tão contundente e adquiriu tantos/as adeptos/as a tática radicalizada e transgressora das instituições? É curioso também que muitos/as militantes notórios/as daquele período tornaram-se hoje políticos profissionais ocu- pando cargos estatais vinculados a grupos mais à direita ou mais à esquerda no quadro político. E também que muitas/os militantes das lutas atuais são
filhos e filhas, netos e netas, sobrinhas e sobrinhos daquele grupo. E que militem, em grande parte, de forma crítica aos caminhos que seus anteces- sores trilharam.
A geração da Rebelião dos Estudantes é aquela cujo principal líder e mártir é Honestino Guimarães, militante desaparecido e morto pela ditadura militar. Honestino Guimarães dá nome ao Diretório Central dos Estudantes da UnB. Respondendo à questão acima levantada, fica a hipótese de que a Ger’Ação Direta’, observando o caminho das gerações anteriores, acreditou/ acredita que aquele método de inserção institucional pós-ditadura (que cha- mamos aqui de Projeto Democrático Popular) estando ou não correto em seu período de gestação, claramente chegou ao seu limite. Se naquela geração a ruptura institucional foi a forma-conteúdo da ação contra o autoritarismo militar, o mesmo caminho foi rearticulado nesta geração como forma de resposta ao avanço neoliberal combinado com a rebelião à burocratização da esquerda hegemônica e à própria burocracia estatal.
Talvez, fazer hoje justiça às bandeiras que a parte de baixo da sociedade sempre defendeu implique em articular a radicalidade dos períodos anterio- res com a projeção de um futuro libertário sempre presente. Cremos que a Ação Direta pavimentou o caminho desta articulação histórica e geracional para o hoje e o amanhã de nossas lutas, vidas.
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