1. Les structures des communautés de l’open source
2.2. Les firmes comme initiateurs des communautés
Cabe lembrar aqui que a visão de mundo do enunciador está atrelada aos temas e figuras que seu(s) texto(s) deixa(m) entrever, o que lhe permitirá, em última análise, construir uma “maneira de dizer” que remete a uma “maneira de ser”, o que está relacionado ao éthos, ou seja, à imagem que o orador dá de si mesmo aos outros. Nessa perspectiva, ao retomarmos a visão de mundo do enunciador de cada uma das sete canções-poemas analisadas, tomando- as como exemplificação de uma totalidade discursiva (a obra completa de Maria Bethânia), poderemos chegar ao éthos da intérprete.
Retomando o quadro-síntese do final do capítulo 2, verificamos uma posição constante da enunciadora Maria Bethânia (vista como um sujeito inscrito no discurso das canções-poemas). Trata-se da projeção de uma imagem de um sujeito que propõe uma estratégia de complementaridade entre os gêneros poema e canção num mesmo espaço
textual. Tal complementaridade está relacionada a estratégias de mobilização discursiva, em que ECP repete temas e figuras, mas inventa outros; reitera uma posição discursiva, mas rompe parcial ou integralmente com ela, alargando ou restringindo o contrato enunciativo do poema e da canção analisados de forma independente.
Em suma: a ocorrência dessas estratégias deve-se, principalmente, à manipulação que ECP faz dos temas e figuras, reenquandrando-os em novos percursos temático-figurativos inscritos, em geral, em outras determinações ideológicas, distintas das inicialmente apresentadas. É isso que as análises realizadas demonstram e que resumimos no quadro anteriormente apresentado. Isso nos permite antever um éthos de competência e autonomia, que permite à ECP transitar por diferentes textos e gêneros e mobilizar autores os mais diversos para construir “seu” próprio texto. E mais: leva à imagem de um sujeito “erudito- carnavalesco48”, evidenciando que, em termos de proposta de significação, os gêneros poema (mais erudito) e canção (mais popular) podem aproximar-se e ganhar a adesão do enunciatário, que, assim, valorizará não apenas esses dois gêneros discursivos de forma isolada, mas também a prática discursiva de sua junção, de modo a originar um terceiro texto (híbrido).
Essa valorização simultânea de gêneros que podem ser vistos, originalmente, como práticas sociais bastante distintas – como sugere a oposição erudito/popular, em que o poema é tomado como uma prática intelectualizada e a canção, como produto exclusivo de uma sociedade de consumo – merece uma atenção maior.
Usamos o termo “erudito-carnavalesco” para caracterizar uma das vertentes do éthos de Maria Bethânia, enfatizando que, na sua estratégia de complementaridade textual, há um jogo dialógico entre o erudito e o popular, sem que se hierarquizem os gêneros poema e canção. Isso pode ser visto na própria diversidade de autores mobilizados por ela, como já foi dito.
48 Ressaltamos que a definição de erudição, em termos de dicionário, e por isso mesmo de algo mais presente no
imaginário social, é “instrução, conhecimento ou cultura variada, adquiridos, esp. por meio da leitura” (cf. HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 790). Já o termo carnavalização está sendo empregado no sentido bakhtiniano (1997, p. 101-180). Bakhtin retoma a ideia fundamental de carnaval, a de “festa que tudo destrói e tudo renova” e transpõe essa linguagem para a literatura, chamando de carnavalização da literatura a combinação de vários elementos heterogêneos, como por exemplo, o diálogo filosófico, a aventura do fantástico, do naturalismo, da utopia etc. unidos num “todo orgânico do gênero” (BAKHTIN, 1997, p. 135). No caso da imagem projetada por Maria Bethânia, utilizamos o termo justamente para mostrar a “destruição” e a “renovação” das regras impostas para um sujeito se constituir como “erudito”, quase sempre se contrapondo ao “popular”.
Tomando os autores dos poemas e das canções aqui analisados como exemplos dessa diversificação, vemos que os poetas Fernando Pessoa, Mario de Andrade, Vinícius de Moraes, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Sophia de Melo Breyner Andresen e João Cabral de Melo Neto já nos dão uma primeira ideia dessa carnavalização no próprio gênero poema. Primeiro, pela mistura entre a literatura portuguesa e a brasileira. Segundo, pela seleção de autores que contribuíram para a literatura em momentos distintos e de formas diversas.
Ocorre o mesmo processo de carnavalização no caso das canções: Caetano Veloso, Heitor Villa Lobos e C. Paula Barros, Villa Lobos e Dora Vasconcelos, Victor Herbert, Chico Buarque, Beto Guedes e Ronaldo Bastos, Roberto Mendes e José Carlos Capinan permitem constatar a valorização do gênero canção como um todo, a partir do reconhecimento da diversidade da arte cancioneira.
É importante notar que essa questão (junção ou separação) entre o erudito e o popular já vem sendo discutida há algum tempo. Para retomar alguns aspectos dessa problemática, vamos recorrer a este trecho de uma entrevista, em que Chico Buarque posiciona-se sobre o tema:
Chico: “Isso é muito peculiar da música popular brasileira e é alguma coisa notável, porque essa barreira entre erudito e popular não é tão evidente para nós quanto é na Europa, principalmente na França e na Itália. Lá a canção popular está relegada, com pouquíssimas exceções, a um submundo artístico. É considerada um produto industrial/comercial e ponto. Não há nenhuma veleidade cultural em fazer música popular. Você passa de um campo para o outro com mais facilidade. Os compositores e os músicos também tinham uma carga de informações, inclusive erudita, maior, e só presente na bossa nova, que não existe na Europa” (BUARQUE apud NAVES, 2006, p.167).
Embora concordemos parcialmente com o que foi exposto por Chico Buarque, gostaríamos de fazer uma ressalva: a barreira entre o erudito e o popular pode até não ser tão evidente em nosso país, porém algumas práticas discursivas necessárias à produção e à circulação dos gêneros canção e poema parecem indicar uma posição contrária, levando-se em conta o imaginário social.
Se nos atentarmos para duas questões levantadas a partir da leitura de um trecho do prefácio escrito por Magda Soares no livro O professor e a literatura (2009), de Ligia Cademartori, veremos qual é a problemática envolvida.
Porque Ligia escreve não do lugar da especialista em literatura, embora ela o seja, não do lugar da formadora de leitores, embora ela o seja, mas do lugar da leitora apaixonada por leitura que ela é, e, por sê-lo, sabe que não é contando aos professores a história da literatura infanto-juvenil, ou aconselhando sobre o que fazer para transformar crianças e jovens em leitores, que professores despertarão o gosto e o prazer de ler em seus alunos... (SOARES apud CADEMARTORI, 2009, p. 13).
O que nos chamou a atenção nesse excerto foi a diferença entre aconselhar ou fazer com que outros sujeitos exerçam a leitura e ser leitor(a). Ao que parece, a adesão a um dado texto será mais eficiente quando o enunciador mostrar-se também leitor. É justamente isso que Maria Bethânia faz em suas canções-poemas: ela mostra ao enunciatário a significação da leitura em sua proposta estética, evidenciando que ler lhe permite apreender outros textos e transformá-los, ressignificá-los, enfim, como leitora que é.
Assim, além dos éthe de competência, autonomia e de um sujeito “erudito- carnavalesco”, ECP, que coincide com a intérprete Maria Bethânia, mostra também um éthos de leitor, que contribui para a adesão do enunciatário ao seu discurso. Trata-se aqui não do éthos dito (as informações que ECP poderia dar de si mesma), mas do éthos mostrado, que se relaciona, sobretudo, às escolhas que faz (dos textos, dos autores, dos temas etc.) e às estratégias que mobiliza para levar o enunciatário das canções-poemas a aceitar a junção de dois gêneros que, em princípio, não se enquadram da mesma maneira no domínio discursivo literário, como já pontuamos. Essa questão será desenvolvida com mais ênfase no subitem destinado às problemáticas que envolvem os gêneros discursivos. Antes, porém, vamos aos desdobramentos das análises feitas para as problemáticas ligadas às noções de estilo e de autoria.
Uma última observação: a ressignificação que Bethânia faz das canções e dos poemas, em suas canções-poemas, mostra ainda o éthos de um sujeito politicamente engajado, comprometido com as minorias, haja vista a inscrição desses novos textos em formações ideológicas como a feminista, a do direito inalienável à terra etc. Isso, por outro lado, vai contribuindo, ao longo do tempo, para a construção do éthos prévio de Maria Bethânia. Assim, antes mesmo que ela “abra a boca”, o enunciatário já cria expectativas relacionadas à presença de canções-poemas na discografia da intérprete, à mobilização de temas engajados, etc.