Maria, como coordenadora do projeto Clube do Jornal, tem a função de orientar, mediar e articular a gama de conhecimentos existentes na equipe49, momento chamado de nivelamento conceitual: “cada um pensa várias coisas, mas a gente precisa ter um conhecimento único para repassar para os Clubes de forma igual, quer dizer, de forma única, para não uniformizar porque cada um vai passar da sua forma”. Dessa maneira, exerce o papel de problematizadora nos momentos do diálogo, quando os assessores organizam e procuram argumentar e justificar suas idéias.
A secretária executiva também comenta sobre a importância desse trabalho pedagógico realizado por Maria junto a sua equipe:
O CC acredita que pode contribuir para formação de pessoas que estão na universidade, trazendo pessoas de lá para discutir a prática escolar, a prática da juventude, a prática da cidadania. Então, o trabalho da coordenadora com sua equipe é um pouco de formação e orientação. Ela tem um papel importantíssimo de aglutinar o conhecimento que essa equipe está trazendo para o projeto com o conhecimento que o projeto produz em si. Ela vai ser uma articuladora e uma orientadora desses conhecimentos. Ela acaba mediando esse espaço de debate.
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A equipe do projeto Clube do Jornal é pequena por conta de uma crise financeira da Instituição. Ela é composta por uma estudante universitária (assessora) e uma estudante de escola pública (bolsista), recebendo apoio de outros profissionais que atuam na Instituição.
A mediação dos saberes dos assessores da equipe do projeto Clube do Jornal, nessa perspectiva, é um aspecto central do trabalho pedagógico realizado por Maria, pois promove “mudanças qualitativas no desenvolvimento e na aprendizagem das pessoas, visando ajudá-las a se constituírem como sujeitos, a melhorar sua capacidade de ação e as suas competências para viver e agir na sociedade e na comunidade”. (LIBÂNEO, 2006 p.215).
3.4 Outras atividades
No âmbito do projeto Clube do Jornal, Maria desenvolve uma variedade de atividades que não se caracterizam como trabalho pedagógico porque são de caráter administrativo e financeiro. Pelo fato de estarem relacionadas ao referido projeto, resolvi aqui explicitá-las:
Na coordenação, a gente tem muitas outras atividades para fazer. Nesse período, eu estou muito sobrecarregada... A gente não está tendo recurso, mas os projetos estão sendo elaborados e enviados constantemente... Eu tenho que estar fazendo custos e são várias planilhas que tem que ser feitas de todas as formas para que a gente possa viabilizar o projeto. Isso também é importante porque se não tiver essa parte, não entra o projeto.
A responsabilidade maior é concentrada no coordenador Geral e na Secretária Executiva. Mas eu também ajudo fazendo os dados, os cálculos, o que for preciso para a gente mandar os projetos.
Atividades relacionadas ao financiamento também foram citadas:
Tem que fazer um orçamento financeiro porque a gente tem que dar os vales para os meninos. Se não, como é que eles vão vir? Principalmente, quem mora em Maranguape, Maracanaú que é caro (...) Além de pensar isso, eu tenho que pensar no orçamento, identificar da onde a gente vai tirar o recurso para comprar esses vales porque tem que ser uma atividade regular.
Essa questão financeira, por enquanto, fica muito com a Secretária Executiva, mas, quando ela entrou de licença maternidade, o coordenador geral ligou pedindo um orçamento porque ia mandar um projeto. Eu fiquei doidinha... No orçamento, você tem que calcular transporte, hora-aula, alimentação, é muita conta. Além de ser muita conta, Iguatu é um preço, Russas é outro, Baturité é outro e dentro de Baturité ainda tem as diferenças e eu nunca tinha feito isso... E é importante... Para você ser um bom profissional, você tem que dominar todas essas questões.
Por outro lado, anota:
Essa questão de projetos, de financiamentos é uma coisa que a gente tem que se apropriar mais porque isso define muito nosso trabalho. Eu tenho que entender mais essa questão, saber lidar mais com isso, só ficar angustiada não resolve não, tem que buscar saídas, entender essa relação. No nosso caso aqui, como a gente tem uma relação com a Secretaria de Educação, tem que entender mais sobre isso...
Mesmo considerando importantes essas atividades, elas não são vistas por Maria como algo prazeroso, pois, na sua opinião, exerce funções que não correspondem às que deveria assumir, ficando “muito no tarefismo”. Maria também ressalta: “é uma coisa que eu preciso me apoderar mais e ter mais paciência com relação essa história de trabalhar com o dinheiro que vem da Secretaria de Educação... essas relações... antes eu ficava muito angustiada, muito estressada e tensa”.
Essa realidade do CC “não é uma exceção ao quadro geral das ONGs que, via de regra, deixam-se consumir pelo ativismo, (BRITO, 2006, p.126 apud PROJETO DEMO, 1985), limitando a quantidade de tempo para uma reflexão sistemática de Maria sobre suas ações no âmbito do projeto do Clube do Jornal, conseqüentemente, enfraquecendo a realização de um trabalho fundamentalmente pedagógico.
A participação em reuniões também é outra atividade de Maria. As mensais são chamadas de “reunião de enlace” e têm o objetivo de reunir todas as coordenações da instituição para socializar as novidades e os problemas de cada projeto: “é uma forma dos setores estarem se comunicando e resolver algum problema porque os jornais têm relação com vários setores...”. Nas mensais, participam, exclusivamente, as coordenadoras dos projetos: Primeiras Letras e Clube do Jornal, a secretária executiva e o coordenador geral do CC. A finalidade desse momento é discutir e analisar o trabalho pedagógico desenvolvido, bem como a situação dos projetos.