Uma questão ética que assola o Brasil é referente a declaração de preferência dos meios de comunicação por determinados políticos e/ou Partidos. Essa prática começou tarde no país, comparado com os demais do mesmo continente e com os países da Europa. Nos Estados Unidos é comum um jornal impresso, por exemplo, ser a favor do partido Democrata ou dos Republicanos em uma ‘corrida’ eleitoral, ou declarar seu apoio independente do jogo eleitoral. Em 2008, ainda nas eleições primárias do partido Democrata, entre Barack Obama e Hillary Clinton, o jornal The New York Times afirmou preferir Hillary Clinton para ser a presidenciável dos Democratas. Obama acabou vencendo as primárias e depois a eleição.
Em 2006, o jornal Estado de São Paulo declarou apoio ao candidato Geraldo Alckmin, do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) para presidencia da Re- pública. A prática nunca foi comum no país, embora é bem perceptível, pela linha editoria dos diversos meios de comunicação do Brasil, o leitor mais informado sabe a preferência desse ou daquele meio. A declaração do Estadão, como é mais conhecido levantou a questão ética no Jornalismo e trouxe a tona o debate sobre a imparcialidade que os meios deveriam ter.
Eugênio Bucci (2000) afirma que a ética jornalística não constitui neutrali- dade, mas sim equilíbrio e estamos de acordo com o autor. Perguntamos se não é mais ético e transparente declarar a preferência institucional ou maquiá-la tentan- do um discurso neutro inexistente? Acreditamos que declarar o apoio e a preferên- cia é um jogo limpo com o leitor, telespectador, ouvinte ou internauta e o aviso que
Dias, Elaine Nogueira - Rebouças, Bruno H. B.
132
ao abrir ou acessar a informação de tal veículo ele encontrará uma versão dos fatos voltada para a preferência do leitor.
No Brasil, o meio de comunicação que é mais transparente identificar pre- ferências partidárias e ideológicas é na modalidade Revista. Através da análise de duas revistas semanais brasileiras sobre o mesmo assunto, a Veja e a Carta Capi- tal, tentaremos contextualizar um problema ético no jornalismo do Brasil sobre a questão ética de declarar ou não suas preferências ideológicas e políticas.
A Veja é a revista mais lida do Brasil e em seu auge chegou a ter 1 milhão de leitores, média considerada alta para os padrões do país. Fundada 1968, a Veja em primeiro editorial declarou apoio ao capitalismo e, logo, indiretamente, declarou apoio a Ditadura Militar. A Carta Capital está entre a quarta ou quinta revista mais lida do Brasil, atualmente. O seu fundador, Mino Carta, foi fundador da Veja, onde permaneceu até vender sua parte a Victor Civita fundando a Carta.
Atualmente é possível afirmar, não comprovadamente, pois as revistas não declararam publicamente suas preferências que a Veja apoia e sempre apoiou o PSDB e a Carta Capital teve seu crescimento editorial junto com a ascensão polí- tica do Partido dos Trabalhadores (PT). Semanais, as revistas rivalizam em capas e em editorais, sempre abordando os fatos de acordo com sua linha editorial. O PT é situação desde 2003, logo a Carta Capital também. A Veja é oposicionista ao PT em todas as esferas políticas.
Uma das últimas vezes que elas rivalizaram foi quando o Superior Tribunal Federal (STF), resolveu reabri o caso do Mensalão, dando possibilidade aos polí- ticos condenados à prisão de reaverem suas penas, o que escandalizou a sociedade civil. O caso do Mensalão aconteceu entre 2005 e 2006. Mensalão foi o nome dado pela mídia nacional ao maior escândalo de corrupção política da história do país e consistia na compra de votos, no Congresso Nacional. Os protagonistas, articula- dores e idealizadores do caso de corrupção eram integrantes do alto escalão do go- verno do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores. A Veja denunciou o caso no final de 2005 com exclusividade.
Nesse período diversas acusações foram feitas. A mídia cobrava o julgamen- to, especialmente a Veja que acusava o ex-presidente de impedir o julgamento visando às eleições. O julgamento do caso ocorreu em 2012 e todos foram conde- nados a penas que variavam de acordo com a participação no esquema. Porém, em setembro de 2013, os réus pediram reavaliação dos casos e os ministros do STF julgaram procedente o pedido e os principais condenados tiveram suas prisões relaxadas, com possibilidade de prisão em regime semiaberto. Os ministros que votaram a favor foram acusados de rasgar a Constituição, envergonhar a nação que clamava por justiça. Os que votaram contra “ganharam” mais notoriedade e popularidade.
A Veja seguiu esse discurso, tratou da impunidade, das desculpas ‘esfarrapa- das’ de ministros tidos como petistas (filiados ao PT), seguindo as reclamações do
A ética na imprensa brasileira no caso do mensalão
presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa. A Carta Capital abordou a questão da plena defesa, da possibilidade de se recorrer ao STF tratando dos recursos que a Constituição permite. Na mesma semana, a Veja publicou uma capa emblemática para o jornalismo nacional, demonstrando vergonha pelos votos dos seis ministros que votaram a favor e suas justificativas. A Carta Capital abordou em sua capa os veículos de comunicação que pressionaram o STF usando a vontade popular e o anseio da opinião pública. A Carta argumenta que o Brasil nunca foi um país onde os meios nunca prezaram pela diversidade de opiniões, ainda mais vindo da sociedade.
Nesse caso, a Veja representou a sensação de impunidade que os brasileiros sentiam. Já a Carta Capital tentava justificar, com argumentos válidos, porém fora de contexto, a diminuição na pena dos condenados do Mensalão, que a sociedade desde 2006 esperava o julgamento que foi tido como o “julgamento do século”.
Por essas capas vemos a linha editorial dos dois veículos. É mais ético, ca- lar e esconder as preferências políticas, esportivas, ideológicas, entre outros; Ou declarar o apoio a preferência, tratando o leitor com respeito e transparência? A questão não é julgar quem faz o melhor jornalismo ou quem está certo ou errado. Acreditamos que a questão supere isso. Nestas capas, acreditamos que nesse caso, a Veja representou a opinião pública e a Carta representou o Partido dos Trabalha- dores, assim como em outras ocasiões a Carta cumpriu sua função social e a Veja seus interesses políticos, ideológicos e financeiros.
Por fim, tanto Veja como Carta Capital, Istoé ou Época que vem em segundo e terceiro entre as revistas mais lidas do país e não foram analisadas nesse caso especificamente, uma hora representa a opinião pública e em outra seus interesses. Basta que a concorrente editorial faça o contrário. A ética jornalística se encontra
Dias, Elaine Nogueira - Rebouças, Bruno H. B.
134
em uma linha fina, na qual o interesse do leitor quando não ofendido é defendido. Porém, há casos que a sociedade acaba sem defesa, pois os interesses às vezes se encontram.
5. Considerações
Com este artigo buscamos elucidar o tema da ética do jornalismo no Brasil a partir do conceito geral de ética como filosofia e passando pela relação entre ética e política e finalmente a ética na prática profissional do jornalista em seu dia a dia no país.
Primeiramente, podemos perceber que há um problema geral de definição e também de responsabilidade. Além disso, há a questão política e econômica que atinge às empresas jornalísticas e que contribuem para uma desqualificação geral da profissão, e como consequência da informação em si, e portanto, do nível de credibilidade que o receptor tem na notícia e vice−versa, um círculo vicioso des- trutivo tanto para o jornalista como indivíduo e como profissional e para as empre- sas de comunicação e toda a sociedade. Alguns meios de comunicação apostam na transparência de suas preferências politicas e ideológicas, e outras que preferem manter o tradicional modelo de equilíbrio e neutralidade que caracterizam a im- prensa na sua formação teórica.
Referências bibliográficas
Abramo, C. (1988). A regra do jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro. São Paulo: Companhia das Letras.
André, A. (2000). Ética e Códigos da comunicação social. Porto Alegre: Editora Sagra Luzzatto.
Aristóteles (2001). Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret.
Bignotto, N. (2007). As fronteiras da ética: Maquiavel. En Novaes, A. (Org.), Ética - vários autores. São Paulo: Companhia de Bolso.
Bucci, E. (2010). Assessor de imprensa é jornalista? Observatório da Imprensa. Recu- perado em setembro de 2010, de http://observatoriodaimprensa.com.br/artigos. asp?cod=606JDB012
Bucci, E. (2000). Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras. Carta Capital, edição 21 de setembro de 2013.
Carvalho, C. e Reis, L. M. A. (2009). Manual prático de Assessoria de Imprensa. Rio de Janeiro: Elsevier.
Christofoletti, R. (2008). Ética no Jornalismo. São Paulo: Contexto. Fenaj. (2008). Código de ética dos Jornalistas. São Paulo.
A ética na imprensa brasileira no caso do mensalão
Kucinski, B. (1998). A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo.
Lafer, C. (2007). A mentira: um capítulo das relações entre a ética e a política. En Novaes, A. (Org.), Ética - vários autores. São Paulo: Companhia de Bolso.
Maquiavel, N. (2006). O Príncipe. São Paulo: Escala.
Marcondes Filho, C. (2002). A saga dos cães perdidos. 2ed. São Paulo: Hackers Editores. Novaes, A. (2007). Ética: vários autores. São Paulo: Companhia de Bolso.
Revista Veja, edição 18 de setembro de 2013.
Santos, J. M. (2001). Ética da Comunicação. Recuperado em setembro de 2010, de http:// www.bocc.uff.br/pag/santos-jose-manuel-etica-comunicacao.pdf
Vázques, A. S. (2010). Ética. 31ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. Villegas, J. C. S. (1999). Medios de comunicación y autocontrol. Entre la ética y el derecho.
Sevilla: Editorial Mad.