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Foram selecionadas para a análise duas chamadas de capa publicadas pelos jornais O Globo e O Estado de São Paulo, no dia 9/05/2002, data subsequente ao lançamento de mais um conjunto de resultados do recenseamento realizado no Brasil em 2000. O interesse por essas duas coberturas jornalísticas se deve ao fato de ambas se referirem ao pronunciamento do presidente da República sobre as estatísticas divulgadas, em especial seus questionamentos sobre uma possível contradição entre os dados sobre renda e consumo dos brasileiros. Inicialmente, vamos nos deter à chamada publicada pelo jornal O Globo na capa do caderno especial sobre o Censo Demográfico 2000:

“A década de 90 não foi perdida, muito pelo contrário: a tabulação avançada do Censo 2000 do IBGE, divulgada ontem, mostra a maior redução da taxa de mor- talidade infantil da história. Caiu de 45,3 óbitos por mil nascidos vivos em 1991 para 29,6, uma redução de 38%. O país revelado pelo Censo é hoje menos católico, mais evangélico e mais cético que na década de 80. É também mais autêntico: um número maior de brasileiros assumiu ser de raça negra e já admite abertamente os casamentos sem papel passado. Mas ainda há grandes contrastes entre as regiões, o desemprego continua alto e a renda, baixa: quase 25% ganham até um salário mínimo” (O Globo, 09/05/2002).

Ferreira, Marcelo Benedicto

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Ao longo de quase todo o texto da chamada os dados destacados estão refe- ridos à fonte (“a tabulação avançada do Censo 2000 do IBGE”, “O país revelado pelo Censo”), o que demonstra uma aproximação do discurso jornalístico em re- lação ao do IBGE. Neste caso, predomina a posição-sujeito de aderência ao dis- curso científico, com as referências à fonte marcadas no fio do discurso.

Entretanto, no final da chamada a introdução da conjunção adversativa “mas” marca uma mudança na forma de apresentação dos dados. Daí em diante as infor- mações passam a tratar de problemas ainda enfrentados pelo país, em contraste com as melhorias ressaltadas nas sequências anteriores. Deste ponto em diante, o jornal não se refere mais à fonte. Deixa de inscrevê-la no fio do discurso e passa a se mostrar como aquele que assume o dizer, situação em que o sujeito incorpora o discurso do IBGE ao apagar os vestígios da fonte. Pode-se dizer que a afirmação “mas ainda há grandes contrastes” impõe um limite à afirmação inicial de que “a década de 90 não foi perdida”. Cabe indagar como essa alteração na posição- sujeito atua no direcionamento dos sentidos.

Para pensar sobre a questão, é preciso refletir sobre a afirmação de que “A dé- cada de 90 não foi perdida, muito pelo contrário”. Trata-se de uma constatação do IBGE, do jornal ou de um outro? Vale ressaltar que diversos estudos econômicos sobre os anos de 1980 sobre a América Latina consideram o período como uma década perdida. Diagnósticos como estes, de alguma forma, são parte de nosso repertório, construído e reconstruído em função de um trabalho contínuo da me- mória social.

Como demonstra Connerton (1999), nossa compreensão do mundo tem por referência um corpo organizado de expectativas baseadas na recordação, uma me- mória que é construída e transmitida ao longo do tempo através de processos co- municativos socialmente estabelecidos. Neste sentido, a afirmação sobre a década de 1990, como ocorre com qualquer produção discursiva, inclusive com as de caráter jornalístico, não deve ser considerada de forma isolada do contexto social em que é produzida.

Ao pesquisarmos sua origem nas matérias que fazem parte da cobertura anun- ciada pela chamada, verificamos que a frase foi proferida pelo próprio presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em resposta a avaliações negativas correntes na época, e difundidas pelos veículos de comunicação, sobre o desen- volvimento do Brasil. Chama a atenção que no texto de O Globo o crédito dessa avaliação não é atribuído ao presidente. Ao contrário, como não é referenciada a nenhuma fonte a expressão pode levar o leitor a interpretar que se trata de uma avaliação feita pelo próprio IBGE.

De forma diferente se estrutura o texto do jornal O Estado de São Paulo:

“A mortalidade infantil brasileira caiu 38% na década passada, a escolarização cresceu e o consumo de bens duráveis aumentou. Esses são dados do Censo 2000, divulgados ontem pelo IBGE. A renda formal, entretanto, não cresceu: contando

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todas as pessoas que têm algum rendimento, as que recebem até um salário mínimo mensal são 30,6%. Os avanços na saúde e na educação são resultado, de acordo com o presidente Fernando Henrique Cardoso, de investimentos em saneamento, vacinação, alimentação nas escolas e atendimento à mulher. Mas ele considera “ilógico” que a renda não tenha crescido e o consumo sim” (Jornal O Estado de São Paulo, 09/05/2002).

As informações listadas na abertura do segmento são atribuídas aos resulta- dos do recenseamento brasileiro, portanto há predominância da posição-sujeito de aderência ao discurso do IBGE. Nota-se que inicialmente são citadas três infor- mações que apontam aspectos positivos a partir dos dados do IBGE. Somente ao dizer que “A renda formal, entretanto, não cresceu” o jornalista passa a assumir a posição-sujeito de incorporação do discurso científico, quando passa a explicar os dados estatísticos não mais os referenciando a fonte.

Como ocorre no texto extraído do jornal O Globo, a aderência ao discurso do instituto de estatística ocorre apenas ao serem listados os aspectos que podem ser consideradas como indicativos de melhoria da realidade social do país. Ao se referir aos problemas ainda enfrentados pelo Brasil, o jornal se afasta da fonte e assume o dizer sobre as estatísticas. Tal aspecto, nos leva a compreender que o sujeito passa a incorporar o discurso do IBGE, movimento que busca posicionar o jornal como um veículo preocupado em revelar ou denunciar mazelas que afetam a população, funcionando como uma espécie de porta-voz de seu público, um crítico observador (o que também não é diferente no segmento textual do jornal O Globo).

Nas duas últimas frases da sequência, há o funcionamento de uma nova po- sição-sujeito: a de aderência ao discurso político. Podemos identificá-la no mo- mento em que o jornal se aproxima do discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso, citando-o e a ele atribuindo a avaliação e crítica em relação aos dados do Censo 2000. Ao assumir essa posição, o sujeito procura demarcar um distan- ciamento em relação ao político. De uma maneira oposta se comporta o jornal O Globo, que se utiliza de uma avaliação feita pelo presidente da República sem referenciá-la. Assim, o jornal incorpora o discurso do presidente, mas como se refere ao IBGE ao longo do texto parece que está aderindo ao discurso do instituto.

6. O não-verbal

O exercício de pensar sobre a posição-sujeito de aderência e incorporação do discurso político nas materialidades verbais torna-se mais abrangente se con- siderarmos o não-verbal. Por isso, optamos por incluir duas imagens na análise. No caso, são fotografias do presidente Fernando Henrique Cardoso tiradas durante entrevista concedida à imprensa para comentar os dados do Censo 2000. Curiosa- mente, o espaço ocupado pelas imagens e textos das matérias em ambos os jornais são similares, conforme veremos a seguir, o que possibilita algumas comparações diretas.

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Segundo Sousa (2002), uma imagem em um jornal precisa juntar “a força noticiosa à força visual”, passar uma impressão de realidade e de verdade. Para atingir esse objetivo, o fotojornalista a ela atribui o sentido desejado, evitan- do elementos que, em sua composição, possam distrair a atenção e que não se- jam necessários ao entendimento da situação representada. Entretanto, sentidos outros permeiam a mensagem jornalística criada, sentidos esses que não podem ser controlados.

Como explica Kossoy (2007), a convicção de que uma fotografia é a repre- sentação fidedigna da realidade dificulta a percepção e a compreensão dos meca- nismos mentais e ideológicos presentes em seu processo de produção, bem como também dificulta a interpretação dessa imagem pelo observador. Segundo o au- tor, é necessário aprender a estabelecer um diálogo com as imagens, decifrando seus códigos e realidade interiores, silêncios, significados e sentidos escondidos por trás da aparência da fotografia – de sua superfície.

Nas páginas de um jornal, imagem e texto são pensados em conjunto, mas a primeira não existe sem o segundo. Apesar da determinação do não-verbal pelo verbal, segundo Souza (2001), a imagem pode ser lida; ela informa, comunica, se constitui em texto, em discurso. Para a autora, uma fotografia se torna visível por meio do trabalho de interpretação que se faz pelo olhar, que ao recortar um dos elementos constitutivos da imagem se produz outra imagem, outro texto. A interpretação do não-verbal também pressupõe a relação com a cultura, o histó- rico e com a formação social dos sujeitos.

A fotografia do jornal O Globo (Imagem 1), é um retrato do presidente da República tirado enquanto ele discursava ou respondia perguntas dos jornalistas. O olhar não está direcionado ao leitor, mas aparentemente para a plateia. O ges- tual do personagem fotografado impele o observador a dirigir sua atenção para a taça em sua mão. Será que ele está pedindo algo para beber? Ou será que está mostrando a taça para exemplificar alguma informação? De qualquer forma, seu gesto e olhar não parecem contradizer a legenda: “Fernando Henrique discursa durante anúncio dos resultados do Censo 2000”.

Dentre as diversas frases proferidas pelo presidente em seu discurso, uma foi utilizada como título: “Superamos a meta de redução da mortalidade infantil da ONU”. Tal afirmação parece dialogar com aquela que abre a chamada de capa - “A década de 90 não foi perdida” -, o que leva os sentidos a serem significados de forma a confirmarem o êxito de um governo. O que nos interessa é demarcar que tal significação se torna perceptível não somente quando o jornalista assume a posição-sujeito de aderência ao discurso político, ao se aproximar do discurso do presidente quando o referencia, mas principalmente quando ele incorpora o discurso político ao usar uma frase proferida pelo presidente como se fosse sua.

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Imagem 1: Matéria do Jornal O Globo

Fonte: Jornal O Globo, 09/05/2002. Especial, p.2

Já a fotografia do jornal O Estado de São Paulo (Imagem 2), apesar de ter sido produzida na mesma ocasião que a publicada pelo O Globo, o enquadramento adotado para o retrato da personagem foi outro. Trata-se da imagem do presidente com os olhos arregalados, a boca aberta e as mãos levantadas e espalmadas, mos- trando os dedos bem abertos, como se tratasse de uma pessoa que acaba de levar um susto e se coloca em posição de defesa. Aqui também o título da matéria é, em parte, uma fala (aspas) do presidente: “Renda não cresce, consumo aumenta - ‘Mas isso é ilógico’”. A frase escolhida reforça a impressão de defesa trazida pela imagem do presidente ao discursar, cujo conteúdo da explanação o jornal qualifica na legenda como “elogios” ao candidato a sucessor escolhido pelo próprio presi- dente: “Fernando Henrique comenta o Censo: elogios a Serra” - então candidato à presidência da República pelo mesmo partido de Fernando Henrique.

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Imagem 2: Matéria do Jornal O Estado de São Paulo

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 09/05/2002. Cidades, p.C1

Em relação ao político, no O Globo, os recortes que fizemos na imagem re- forçam o trabalho de incorporação do discurso do presidente da República reali- zada pelo jornal. De forma oposta, no jornal O estado de São Paulo, a posição de aderência ao discurso político é mais marcante e mostrada no fio do discurso.

7. Considerações finais

Mouillaud (2012) indaga e ao mesmo tempo responde se não poderíamos di- zer que o jornal diário é um quarto de ecos onde ressoa um concerto de vozes que, sem ele, não teriam eco. Essas vozes não são produzidas unicamente no espaço do jornal, nele se constituindo e se mostrando; elas vêm de longe, de discurso-outros que se materializam no discurso da imprensa para daí continuarem seu percurso.

No presente trabalho, vimos algumas especificidades do funcionamento dis- cursivo dos discursos sobre as estatísticas oficiais do Brasil que ocupam espaço destacado na imprensa do país. No entremeio da ciência e da política, esses discur-

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sos ganham os contornos da linguagem jornalística que ora se afasta ou se aproxi- ma do discurso da fonte (o produtor das estatísticas). Os dizeres da ciência e do jornalismo compõem um imbricado jogo em um cenário de vozes que interferem na movimentação dos sentidos.

Para entrar nesse jogo, foi preciso entender que no discurso em análise o su- jeito ocupava diversas posições, que tornavam mais ou menos visíveis as marcas da fonte, no caso o IBGE. Nesse sentido, foi necessário compreender em quais momentos ocorriam afastamentos e aproximações dessa fonte, bem como o papel da vertente política do discurso.

Retomando os materiais analisados, no jornal O Globo, a aderência ao dis- curso do IBGE ocorreu nos momentos em que foram apresentados aspectos que mostravam melhorias sociais no retrato do país elaborado a partir dos dados do censo demográfico. Nesse ponto, os vestígios da fonte ficaram bem demarcados, conferindo credibilidade às informações. Porém, passou a ocorrer a incorporação do discurso científico quando o jornal mostrou aspectos problemáticos do mesmo retrato. Nesse ponto, o jornalista passou a falar como se fosse um pesquisador do próprio IBGE ao descrever as mazelas do país.

Esses aspectos negativos foram minimizados pela afirmativa de que “a dé- cada de 90 não foi perdida”, que se trata de uma fala do presidente da república em plena campanha para eleger seu sucessor nas eleições que estavam em curso. Como o sujeito incorporou o discurso político, não mostrando a fonte no fio do discurso, podemos concluir que, nesse caso, em termos discursivos, a política di- recionou os sentidos atribuídos às estatísticas oficiais. A própria imagem do presi- dente e sua frase funcionando como título da matéria corrobora essa constatação.

De forma oposta, o jornal O Estado de São Paulo busca demarcar uma sepa- ração entre os discursos político e científico. Inicialmente, o sujeito adere ao dis- curso científico também para mostrar as melhorias alcançadas no retrato do Brasil. Depois, incorpora o discurso científico para falar sobre as questões que precisam ser melhoradas. Em seguida, adere ao discurso político para mostrar as críticas do presidente da República a aspectos dos dados estatísticos. Tanto na imagem como nas materialidades verbais o jornal mostra as marcas que configuram suas aborda- gens, seja ao criticar a suposta propaganda política realizada pelo presidente ou ao mostrá-lo com uma pessoa que parece estar se defendendo.

Por último, ressaltamos a relação entre as formas e os sentidos nas materia- lidades analisadas. A construção dos sentidos se mostrou atrelada aos formatos adotados na produção jornalística em ambos os jornais. A partir da compreensão da movimentação do sujeito e de suas escolhas ideologicamente demarcadas, na disposição das materialidades nas páginas dos jornais, a influência do político, em um contexto de eleição presidencial, se revelou preponderante, a despeito das determinações da ciência estatística, na construção de sentidos sobre a realidade social do país.

Ferreira, Marcelo Benedicto

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JORNALISMO PARA A INFÂNCIA: