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La distance ou la conjuration de la séparation

1.2 Séparation et relation : la distance comme prise sur le monde

1.2.2 La distance, relation multimodale entre réalités

A população emigrada cabo-verdiana é superior à que vive no arquipélago de Cabo Verde, razão pela qual a emigração nos séculos XIX e XX foi sempre um factor

marcante na vida das ilhas80. Aspectos de ordem histórica, social, geográfica e

económica tiveram grande importância para o desencadear desta situação. O facto de os cabo-verdianos possuírem parcos recursos económicos, obrigou-os a emigrar para tentarem uma nova vida noutros países estrangeiros. Estados Unidos, Brasil, Holanda, Portugal, Venezuela, Argentina foram os locais de destino mais representativos da emigração cabo-verdiana. Mas um outro tipo de emigração para S. Tomé e Angola também foi realizado. A emigração para os Estados Unidos e para os outros países

supracitados "prometia uma modalidade ascendente para o caboverdiano"81. A

emigração para as antigas províncias ultramarinas de S. Tomé e Angola tinha um cunho negativo, devido ao estatuto de serviçal do trabalhador cabo-verdiano82.

A temática da produção literária do Suplemento Cultural passou a integrar o problema da emigração para S. Tomé. Já anteriormente Baltasar Lopes tinha escrito

sobre este assunto no seu Romanceiro de S. Tomé83. O que se pode interpretar, contudo,

da análise desses textos é a amargura do sujeito poético em relação à situação do serviçal nas roças. Seria mais uma manifestação de pesar por este contexto desfavorável

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O.M., "meditação", G.B.M., São Vicente, Instituto de Promoção Cultural, 2ª edição, Março de 1998, p.104.

80

Almanaque, São Paulo, Brasil, Editora Abril, 1978, p. 520. Sobre este assunto é também interessante a leitura do artigo de Félix Monteiro, "Cantigas de Ana Procópio", in revista Claridade, Praia, Cabo Verde, nº 9, editor Joaquim Tolentino, Propriedade do grupo "Claridade", composto e impresso na Sociedade de Tipografia e Publicidade, Lda, Dezembro de 1960, p. 18.

81

Russel Hamilton, in Literatura Africana Literatura Nececessária II - Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São

Tomé e Príncipe, Lisboa, Edições 70, Biblioteca de Estudos Africanos, 1984, p. 142.

82

A este respeito diz-nos o Professor Oliveira Marques: "Deixava assim de haver escravos em teoria, mas tornava-se necessário encontrar qualquer meio para satisfazer as procuras de mão de obra. A lei de 1869, como já vários outros diplomas a partir de 1854, mantinha os ex-escravos na condição de libertos, obrigados à prestação de serviços aos seus antigos senhores até 1878. Este prazo foi, mais tarde, reduzido para 1874 no arquipélago de Cabo Verde e para 1876 em todos os demais territórios. Contudo, se os libertos desapareceram, surgiram em seu lugar os serviçais de acordo com o novo código de trabalho indígena, promulgado em 1875 e regulamentado três anos mais tarde. Entre escravos, libertos e serviçais havia, sem dúvida, diferenças, mas em pequeno grau", A. H. Oliveira Marques in

do trabalhador cabo-verdiano do que um grito de revolta. No entanto, só pelo facto de se

fazer referência à situação, está implícita uma denúncia do problema. Uma análise ideológica de textos literários produzidos pelos "claridosos" levou

O.S. a atribuir-lhes um cunho "evasionista", em que a solução onírica, presente nos seus textos, tinha como consequência a fuga aos problemas reais do contexto cabo-verdiano, e ao seu "distanciamento das massas", e "afastamento do povo"84. Estamos aqui perante um problema relativo à função social da literatura. Segundo o Professor Alberto Carvalho, a posição da geração de 50/60 não seria a mais correcta, uma vez que houve uma preocupação maior com questões de ordem ideológica e sociológica, não se obedecendo às regras que se impõem aos estudos literários. Centrar-se só nestes aspectos num ensaio de crítica literária, não seria o caminho mais adequado85. A atitude dos autores "suplementistas" relativamente ao evasionismo deve ser observada em termos de militância e não como realidade efectiva, pois se estivesse em jogo o segundo caso, seria um contradição insanável o facto de serem os promotores do anti- evasionismo e todos se terem apartado da sua terra. A ideia de Amilcar Cabral, líder do

P.A.I.G.C., no sentido da necessidade do surgimento de uma nova literatura para ilhas86

pode ter motivado o surgimento de uma literatura mais empenhada numa perspectiva política. Aliás, Aguinaldo Fonseca, outro autor que escreveu no Suplemento Cultural,

83

Baltasar Lopes, "Romanceiro de S. Tomé", Claridade, nº 8, editor Joaquim Tolentino, Propriedade do grupo "Claridade", composto e impresso na Sociedade de Tipografia e Publicidade, Lda, 1958.

84

Onésimo Silveira, Consciencialização na literatura caboverdiana, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império, 1963, p. 9.

85

Segundo este estudioso, seria errado ver nas obras "o reflexo linear das realidades, como se fosse de sua natureza funcionarem à maneira de espelho documentalista da vida comum"; Uma perspectiva crítica desta forma seria "uma espécie de quantificador de efeitos perversos. Na medida em que, com exclusão de todas as demais pistas de leitura, apenas promove a valorização da componente comum, sociológica e

ideológica, dos textos", Prefácio de Alberto Carvalho, in Manuel Lopes, Falucho ancorado, Lisboa, Edições Cosmos, 1997, p. XV.

86 Russel Hamilton in Literatura Africana Literatura Nececessária II - Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São

faz um poema que dedica a Cabral87 e este a designá-lo como o precursor de uma nova literatura88.

Neste panorama, não é de estranhar o surgimento do poema "anti-evasão"89 de O.M. que, utilizando verbos de grande significado energético recusa a ida para Pasárgada e defende a permanência na terra amada.