Dona Hebe diz não recordar como foi o convite para trabalhar no Experimental, mas acredita que foi procurada pela Professora Therezinha Fram que lhe fez o convite. Isso deve ter acontecido no final de 1961, ou bem no início de 1962, pois no início do ano letivo de 1962 ela já estava lá trabalhando.
A intenção de D.Hebe ao aceitar o convite era o de fazer uma experiência, para saber se conseguiria o mesmo resultado que obtinha com as crianças da FAAP, que era composta por crianças da classe média alta e alta, cujos pais tinham optado por colocá-las num curso de Arte e a clientela da Escola Experimental, uma escola de ensino regular onde a disciplina seria oferecida como disciplina complementar à formação, cujo objetivo era desenvolver o entendimento e
expressão em linguagem visual e cuja clientela era composta por filhos de classe média baixa e baixa. Ela acabou ficando lá por cinco anos, acompanhando os alunos do 1º ao 5º ano.
Os alunos do Experimental apesar de serem de classe média, da classe operária eram segundo avaliação de D.Hebe de famílias bem organizadas. E ela recorda também que nunca trabalhou com crianças abandonadas ou crianças realmente carentes.
No Experimental, juntamente com a coordenação criou o primeiro ateliê de Artes Plásticas numa Escola da Rede Oficial de Ensino. Era uma sala grande com várias mesas e banquinhos, com pia e um tanque que era utilizado para armazenar argila. Havia um gaveteiro enorme com todo o material necessário e que os alunos tinham livre acesso. Existia também um armário para guardar os papéis de vários tipos e as pastas com trabalhos dos alunos.
Tínhamos três tipos de pincéis redondos: fino, médio e grosso. A tinta era preparada lá, com a mesma receita já explicada anteriormente. A organização das aulas e a diversidade de técnicas obedeciam aos mesmos moldes das aulas dadas na Fundação.
“Havia dificuldades que eu não enfrentava na FAAP. Não tinha ninguém para me auxiliar e as turmas eram numerosas,algumas com mais de quarenta alunos e eu tinha apenas dez minutos entre uma aula e outra para preparar o material para a aula seguinte.”
“Quando eu cheguei ao Experimental, eu tinha crianças com quatorze ou quinze anos, eram repetentes. Foi terrível, porque eles nunca tinham tido aulas de Artes. Então, eles não sabiam o que fazer com as mãos. Então eles não tinham absolutamente confiança no que faziam, eles só queriam fazer desordem e bagunça. Agora aquele que tinha começado cedo, você via que ele tinha confiança no trabalho dele. Ele já não precisava mais que você desse esse suporte. Se você tem uma criança durante muitos anos, ela tem que sentir que ela evoluiu em alguma coisa, ela não tem parâmetro, então a evolução se dá no campo da Arte Figurativa. Mas ele tem que saber copiar, então você tem que ensiná-lo a ver, a fazer a perspectiva, a fazer a perspectiva linear, porque ela não acredita na arte pura.”38
D.Hebe, assim como na FAAP, a cada aula no Experimental trabalhava com uma única técnica, mas havia sempre uma mesa de opções, para aquelas crianças que não se adaptavam à técnica proposta para a aula. Em geral, no início da aula ela dava algum tipo de motivação para que a criança não se sentisse perdida, mas acredita que a criança do ateliê era mais confiante na sua própria expressão e ia
adquirindo um ritmo próprio de trabalho, não necessitando mais esse tipo de motivação.
No Experimental houve a dificuldade inicial com os alunos mais velhos do 5º ano.
“Eles nunca tinham feito Arte de uma maneira séria e sistemática, eles não respeitavam o material, nem seu próprio desenho, nem a sua própria expressão, eles não tinham confiança na sua própria expressão... depois de toda essa experiência foi esse o resultado, ver o respeito que eles tinham também; na hora em que eu cheguei lá, no 1º ano havia em geral uma ou duas bem dotadas da classe, e isto depois acabou, esse preconceito acabou no fim de quatro anos, então todas as crianças desenhavam, todas elas tinham seus trabalhos valorizados, colocados nas paredes cada fim de aula, todos igualmente valorizados, e aquela criança que não produzia, e a maneira que ele poderia conseguir produzir, havia um menino por exemplo, que durante todas as aulas, este menino ficou muito gravado na minha lembrança, porque ele era um menino tremendo, ele brincava com taxinhas, punha as crianças sentadas em cima das mesmas, e não fazia nada, nada, a aula toda, era um menino de oito anos mais ou menos, oito para nove anos, era uma criança rejeitada em casa porque ele era um filho homem, numa família que desejava uma mulher, então este menino nunca foi aceito na casa dele, ele era feinho, mesquinho, muito tímido, mas que fazia muita peraltice; um dia depois dele fazer muita desordem na classe, eu dei a ele um volume muito grande de papel e mandei ele riscar com toda força, como ele quisesse com lápis de cera; depois que ele riscou todo o papel com cera, então eu disse para ele o que ele poderia fazer de bonito ali em cima colocando tinta, e de maneira organizada fazer quadrados de tinta ali em cima um de cada cor, você vai ver o que vai ficar. Ele ficou tão encantado com resultado final que foi um trabalho bonito, alegre, que ele começou a desenhar e depois de uns meses a mãe me procurou e me disse: “O que aconteceu com meu filho, que ele agora quer desenhar todos os dias dentro de casa?’ Ele me pede lápis e papel, e ele que não gostava de trabalhar, agora ele quer desenhar todos os dias, e aí ele começou a ter um amor tão grande pelo ateliê”39
Além do grande número de alunos por sala, o outro problema no Experimental para a D.Hebe foi a avaliação, da qual ela discordava:
. ...” esse foi um ponto que nós nunca chegamos a entrar num acordo, porque eu queria a extinção total da avaliação e eles achavam a avaliação necessária, eu acho que a avaliação pode ser necessária, mas, eu acho que nós não temos condições de fazer avaliação quando se trabalha com seiscentas crianças por semana e apenas uma professora, ela não tem tempo de fazer uma avaliação correta, porque a avaliação aí no caso não é o produto final do trabalho, é sobretudo a maneira da criança trabalhar, é o progresso em relação a si mesma, as suas limitações, então é muito difícil de você fazer uma avaliação correta, que não seja convencional, que não seja falsa ... eu considero até este tipo de avaliação desonesto, quer dizer o professor está querendo se enquadrar dentro de uma imposição que lhe é feita em virtude de sua função, mas que ela não tem condições de preencher. Não há um produto comum para se avaliar, quer dizer, matematicamente tem,
39Entrevista concedida a Ilsa Leal Ferreira em 1983, para o IDART da Secretaria Municipal de Cultura – Centro
a criança acerta um problema, ou não acerta, porque existe um padrão, o resultado é o mesmo para todos, quer dizer o problema deu o número tal, então se avalia em função do número tal que é igual.
Você vai fazer uma avaliação de Arte de acordo com seus padrões?”40