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I. A
PERSONAGEM
DO
VILÃO
NOS
TESTAMENTOS


“Quid
rides?
Mutato
nomine
 De
te
fabula
narratur”

 (Horácio,
Sátiras,
I,
v.
69‐70)
 
 Neste
 item,
 procuraremos
 compreender
 a
 paródia
 do
 testamento
 amoroso
 pela
 poesia
 de
 Villon
 através
 da
 definição
 do
 gênero
 burlesco
 do
 Pequeno
 e
 do
 Grande


Testamento.
Segundo
o
modo
de
narração
interpretativa
baseada
em
uma
personagem,


essas
 composições
 são
 enunciadas
 em
 primeira
 pessoa
 por
 uma
 personagem
 real.
 Os
 testamentos
representam
a
personagem
baixa
do
célebre
malfeitor
“François
des
Loges,
 também
 chamado
 de
 Villon”,
 segundo
 os
 documentos
 históricos
 da
 época.
 Os
 testamentos
se
estruturam
em
torno
do
discurso
da
personagem
do
“Vilão”
(Villon)
no
 papel
de
testador.




 


A. O
TEATRO
BURLESCO
DO
SÉC.
XV
NA
FRANÇA


Nas
primeiras
composições
dramáticas
em
francês,
as
falas
das
personagens
são
 compostas
 em
 versos
 rimados,
 segundo
 o
 gênero
 da
 poesia
 rítmica.
 Em
 farsas,
 sotties,
 sermões
 jocosos,
 monólogos
 dramáticos
 e
 outros
 gêneros
 cômicos
 da
 época,
 o
 verso
 mais
 utilizado
 é
 o
 octassílabo,
 por
 ser
 o
 mais
 natural,
 e
 a
 rima
 mais
 utilizada
 é
 a
 rima
 plana,
 por
 ser
 a
 mais
 corrente.
 O
 dístico
 de
 octassílabos
 é
 a
 forma
 mais
 freqüente
 nos
 gêneros
 burlescos
 da
 época,
 pois
 é
 mais
 apto
 à
 matéria
 leve.
 Mas
 essas
 formas
 eram
 freqüentemente
 misturadas
 entre
 si,
 pois
 não
 há
 gênero
 puro.196
Imitação
 das
 Baladas


em
 jargão
 de
 Villon,
 o
 sermão
 jocoso
 das
 Refeições
 Gratuitas
 de
 François
 Villon
 e
 seus
 companheiros
é
composto
principalmente
em
dísticos
de
octassílabos,
mas
ele
também


inclui
algumas
baladas
que,
como
foi
visto
no
quarto
capítulo,
são
formas
fixas
graves
da
 poesia
lírica
da
época.










196 Como afirma Sébillet: “[…] nous ne faisons aujourd’hui ni pures Moralités, ni simples farces: mais mêlant l’un parmi l’autre, et voulant ensemble profiter et réjouir, mêlons du plat avec du croisé, et des longs vers avec des cours” (“Nós não compomos hoje em dia nem Moralidades puras, nem simples farsas: mas, misturando uma no meio da outra e desejando instruir e ao mesmo tempo divertir, nós misturamos versos longos com versos curtos”) (SÉBILLET, T. Art Poétique François (1548), In : GOYET, F. Traités de poétique et de rhétorique de

70

As
 farsas,
 os
 monólogos
 dramáticos,
 as
 sotties
 e
 os
 sermões
 jocosos
 estavam
 ligados
a
festas
populares
da
época,
como,
por
exemplo,
a
“Festa
dos
loucos”
(Fête
des


Fous),
 na
 França.197
A
 farsa
 era
 um
 gênero
 representado
 por
 diversas
 personagens,


segundo
 a
 espécie
 de
 narração
 dramática.
 Ela
 é
 considerada
 como
 o
 antecedente
 histórico
 do
 que
 viria
 a
 se
 constituir
 no
 séc.
 XVI
 como
 o
 gênero
 da
 comédia.
 Nos
 monólogos
 dramáticos,
 um
 único
 ator
 se
 investe
 de
 uma
 personagem
 baixa
 para
 representar
uma
situação
dramática
burlesca.
Nos
sermões
jocosos,
a
narração
pelo
ator
 parodia
 a
 vida
 de
 um
 santo
 dada
 como
 exemplo
 no
 desenvolvimento
 dos
 sermões
 sérios.198



O
 teatro
 burlesco
 da
 época
 explorava
 diversos
 tipos
 de
 subentendidos
 escatológicos,
obscenos
e
fesceninos
para
provocar
o
riso.
O
Sermon
de
Billouart
de
Jean
 Molinet,
 por
 exemplo,
 é
 o
 sermão
 jocoso
 de
 um
 santo
 “fálico”
 –
 billouart
 designa
 o
 membro
 viril.
 No
 Sermão
 jocoso
 do
 Santo
 Presunto
 e
 da
 Santa
 Salsicha,199
os
 nomes


próprios
dos
santos
designam
alimentos
com
alusão
obscena.
Nele,
os
santos
constituem
 a
refeição
do
banquete,
que
é
uma
paródia
do
seu
martírio.
Na
narração
do
martírio
da
 vida
do
Santo
Presunto
e
da
Santa
Salsicha,
os
algozes
dos
dois
santos
burlescos
são
os
 “maus
 meninos,
 ladrões
 gulosos”.200
A
 figura
 do
 ladrão
 guloso
 de
 má
 vida
 alegoriza
 o


pecado
da
gula
nessa
paródia
do
teatro
hagiográfico.
A
intenção
burlesca
dos
sermões
 jocosos
explorava
o
baixo
corporal,
em
particular
a
isotopia
alimentar.


O
 teatro
 burlesco
 é
 considerado
 pelos
 preceptistas
 da
 época
 como
 um
 gênero
 baixíssimo
cujo
objetivo
principal
é
divertir
o
público.
Embora
a
representação
do
torpe
 e
do
obsceno
pelo
teatro
burlesco
não
possua
intenção
moral
explícita,
ela
servia
para
 ilustrar
ao
público
os
diferentes
tipos
de
vícios.
De
acordo
com
o
decoro,
o
público
ao
 qual
era
destinado
esse
gênero
poético
era
o
“vulgo”.
Na
Arte
Poética
Francesa,
Thomas
 







197 “Durante a festa dos loucos, procedia-se à eleição de um abade, de um bispo e de um arcebispo para rir, e nas Igrejas sob a autoridade direta do papa, de um papa para rir. Esses dignatários celebravam uma missa solene” (BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento : o contexto de François Rabelais. hucitec, São Paulo, 1987, p. 70).

198 “Une véritable narration s’y intercale dans le sermon; et ils différent des monologues dramatiques par ce seul fait que l’acteur présent l’aventure comme un exemple de son sermon et la raconte, au lieu d’en être le héros et de la jouer” (“Uma verdadeira narração se intercala no sermão; e [os sermões jocosos] diferem do monólogo dramático pelo simples fato de que o ator apresenta a aventura como um exemplo de seu sermão e a narra, ao invés de ser o herói e a representar”) (LINTILHAC, E. Histoire générale du théâtre en France. La comédie:

Moyen-Âge et Renaissance, vol.2, Paris, Flammarion, 1992, p. 155).

199

ANÔNIMO. Sermon joyeux de Saint Jambon et Sainte Andouille. In: Quatre sermons joyeux, edição de Jelle Koopmans, Genebra, Droz, 1984.

200 “Mauvais garsons, larrons frians” (ANÔNIMO. Sermon joyeux de Saint Jambon et Sainte Andouille. In:

71

Sébillet
 aproxima
 a
 representação
 do
 torpe
 e
 do
 obsceno
 pelas
 farsas
 da
 época
 ao
 gênero
das
“priapéias
latinas”:


Nossas
 farsas
 são
 verdadeiramente
 aquilo
 que
 os
 latinos
 chamaram
 Mimos
ou
Priapéias.
O
seu
fim
e
efeito
era
o
riso
desmedido
e
por
isso
 toda
 liberdade
 e
 lascívia
 era
 ali
 permitida,
 como
 acontece
 nas
 Farsas
 atuais.201



As
 priapéias
 latinas
 são
 epigramas
 cuja
 licença,
 lascívia
 e
 obscenidade
 é
 explorada
para
produzir
o
riso.
Da
mesma
forma

que
 nas
 priapéias
 latinas,
 nas
 farsas
 produzidas
 na
 França
 do
 séc.
 XV
 a
 licença
 e
 a
 lascívia
 são
 exploradas
 para
 divertir
 o
 vulgo.
 O
 efeito
 cômico
 produzido
 pelo
 gênero
 era
 chamado
 pelos
 preceptistas
 de
 “riso
 dissoluto”
 ou,
 segundo
 as
 artes
 poéticas
 em
 latim,
 de
 “riso
 desmedido”
 [risus
solutus].
 Como
 veremos
 no
 item
 seguinte,202
os
 bens
 burlescos
 legados
 nos
 dois
 testamentos


paródicos
de
Villon
a
homens
pertencentes
à
alta
hierarquia
política,
jurídica
e
religiosa
 da
época
visam
sobretudo
a
divertir
o
vulgo.
 
 
 B. A
PERSONAGEM
DO
VILÃO

O
 que
 se
 pode
 dizer
 sobre
 as
 circunstâncias
 de
 desempenho
 do
 corpo
 poético
 atribuído
 a
 François
 Villon
 baseia‐se
 em
 diversas
 características
 “estilísticas”
 dos
 testamentos,
bem
como
em
indícios
fornecidos
por
anedotas,
imitações,
manuscritos
e
 edições
 antigas,
 além
 de.
 Esse
 corpo
 poético
 foi
 freqüentemente
 editado
 com
 outras
 composições
burlescas
da
época.
Algumas
edições
antigas
desse
corpo
poético,
como
a
 edição
Levet
(1489)
e
a
edição
Galliot
Du
Pré
(1532),
por
exemplo,
publicaram‐no
com
 outros
 testamentos
 burlescos,
 monólogos
 dramáticos,
 sermões
 jocosos
 e
 diálogos
 cômicos.




A
poesia
de
Villon
também
foi
copiada
em
manuscritos
contendo
sermões
jocosos.
 Em
um
dos
manuscritos
contendo
poemas
atribuídos
a
Villon,203
o
Pequeno
Testamento










201 “Nos farces sont vraiment ce que les Latins ont appelé Mimes ou Priapées. La fin et effet desquels était un ris dissolu : et pour ce toute licence et lascivie y était admise, comme elle est aujourd’hui en nos Farces” (SÉBILLET, T. Art Poétique François (1548), In : GOYET, F. Traités de poétique et de rhétorique de la

Renaissance, Paris, Librairie Générale Française, 1990, p. 129).

202 Cf. Parte I, cap. 2, item ii – “Testamento do amante mártir”. 203 Manuscrito B.N. f.fr. 1661.

72

foi
publicado
com
o
Sermon
de
la
Choppinnerie.
Outro
manuscrito
com
poemas
de
Villon
 contém
o
“Sermão
agradável”
(Sermon
plaisant),
o
“Sermão
de
Santo
Arengue”
(Sermon


de
Saint
Hareng)
e
o
“Sermão
de
Santa
Cebola”
(Sermon
de
saint
Oignon).204
A
balada
da


“Causa
 de
 apelo
 do
 dito
 Villon”
 (modernamente
 intitulada
 “Balada
 da
 apelação”)
 foi
 publicada
 juntamente
 com
 o
 “Sermão
 jocoso
 de
 São
 Belin”
 (Sermon
 joyeux
 de
 Saint


Belin).205



A
 hipótese
 de
 que
 os
 seus
 testamentos
 estivessem
 destinados
 a
 serem
 representados
 também
 é
 reforçada
 pelo
 recurso
 freqüente
 da
 interpelação
 do
 público
 pelos
testamentos
de
Villon.
Eles
utilizam
freqüentemente
as
figuras
da
antecipação,
da
 interrogação
retórica,
além
de
incluírem
gêneros
como
o
debate
e
o
sermão
jocoso.
Um
 estudioso
 do
 teatro
 medieval
 francês
 afirma:
 “Os
 jovens
 poetas,
 sobretudo
 Villon
 e
 Marot,
caracterizam‐se
por
uma
irresistível
inclinação
para
o
teatro”.206
Pertencendo
ao


gênero
 chamado
 de
 “monólogo
 dramático”
 na
 época,
 os
 testamentos
 estariam
 destinados
a
serem
representados
por
um
ator.



No
 gênero
 do
 monólogo
 dramático,
 o
 discurso
 por
 uma
 personagem
 era
 encenado
 por
 um
 ator
 munido
 de
 diversos
 recursos
 da
 arte
 teatral,
 como
 a
 dicção,
 a
 expressão,
 o
 gesto,
 a
 mímica,
 o
 figurino,
 etc.207
Segundo
 o
 modo
 de
 narração


interpretativa
baseada
em
uma
personagem
definido
pela
Poética
Parisiense
de
Jean
de
 Garlande,208
a
enunciação
em
primeira
pessoa
por
uma
personagem
é
uma
convenção
do
 gênero.
O
Pequeno
e
o
Grande
Testamento
são
enunciados
em
primeira
pessoa
por
uma
 personagem
no
papel
de
testador.
Na
representação
dramática
dos
testamentos,
o
ator
 vestia
a
máscara
da
personagem
de
François
Villon.

 







204 Bibliothèque Royale Albert 1er.

205 Nessa edição antiga, as duas composições são sobrepostas e se juntam em uma mesma página, na qual faltam nove linhas do início da “Balada da apelação”, que é precedida por treze linhas daquele sermão (VERHUYCK, P. "Villon et le sermon de Saint Belin", in. VERHUYCK, P., KOOPMANS J., Sermon joyeux et Truanderie,

Villon-NemoUlespiègle, Amsterdam, Rodopi, 1987, 9-85).

206 “Les jeunes poëtes, à l’exemple de Villon et de Clément Marot, avaient surtout un penchant irrésistible pour le théàtre” (JACOB, P. L. Recueil de Farces, Soties et Moralités du quinzième siècle Paris, Adolphe Delahays, 1859, p. 22).

207 “Bien que le monologue dramatique ou mime n’ait pas, à proprement parler, de théâtre, de pareilles compositions relèvent cependant de l’art théatral: le récitant y adopte um personnage d’emprunt, et son rôle comporte évidemment toutes les ressources de l’art de l’acteur, la variété des tons de voix, des expressions du visage, et le plus souvent une gesticulation abondante soulignée de prestes changement de costume” (“Se bem que o monólogo dramático ou mimo não seja propriamente teatro, tais composições derivam da arte teatral: o recitante nele adota uma personagem de empréstimo e o seu papel comporta evidentemente todos os recursos da arte do ator: a variedade dos tons de voz, as expressões do rosto e o mais frequentemente uma gesticulação abundante sublinhada de imediatas mudanças de figurino”) (PAUPHILET, A., Jeux et sapience du Moyen Age, Paris, Gallimard, la Pléiade, 1987, p. 203).

73

Como
 foi
 visto
 acima,
 os
 Exercícios
 de
 retórica
 ensinavam
 a
 compor
 três
 tipos
 distintos
de
personagens:
a
imitação
de
uma
alegoria
(prosopopéia),
de
uma
pessoa
real
 (ethopopéia)
e
de
uma
pessoa
morta
(eidolopopéia).
O
discurso
em
primeira
pessoa
por
 uma
personagem
podia
ser
“ético”
–
voltado
para
a
caracterização
do
“caráter”
(éthos)
 da
 personagem,
 segundo
 a
 verossimilhança
 de
 eventos
 históricos,
 o
 uso
 de
 conhecimentos
 especializados,
 de
 uma
 elocução
 adequada
 à
 personagem
 (termos
 técnicos),
 etc.
 –,
 “patético”
 –
 voltado
 para
 a
 caracterização
 de
 um
 “afeto”
 (páthos)
 da
 personagem
 no
 discurso
 –
 ou
 misto
 –
 quando
 ele
 combina
 a
 pintura
 do
 caráter
 e
 a
 expressão
do
afeto.209



Nos
testamentos
e
formas
fixas
esparsas,
o
poeta
assume
a
personagem
de
uma
 pessoa
 real
 para
 enunciar
 em
 primeira
 pessoa
 os
 seus
 testamentos.
 A
 enunciação
 se
 investe
da
personagem
do
célebre
malfeitor
“François
des
Loges,
também
chamado
de
 Villon”,
 segundo
 documentos
 históricos
 da
 época.
 Essa
 personagem
 era
 perfeitamente
 reconhecível
 pelo
 público
 contemporâneo
 às
 composições.
 Segundo
 a
 tópica
 do
 nome,
 “François
Villon”
figura
atributos
da
personagem
poética,
como
a
nacionalidade
francesa,
 a
 franqueza
 e
 a
 vileza
 da
 personagem.
 A
 vileza
 constitui
 o
 principal
 atributo
 dessa
 personagem
chamada
“Villon”
–
trocadilho
de
“Vilão”
(Villain)
que,
por
oposição
a
nobre,
 designava
no
francês
popular
da
época
um
tipo
vil.210



A
personagem
de
François
Villon
se
apresenta
sob
a
figura
do
“franco”,
segundo
a
 tópica
 do
 caráter.
 A
 personagem
 do
 franco
 é
 um
 tipo
 comum
 na
 poesia
 burlesca
 da
 época,
 utilizado,
 por
 exemplo,
 no
 Monólogo
do
franco
arqueiro
de
Baignollet,
com
o
seu


epitáfio.211
Em
 vernáculo,
 “franco”
 (franc)
 possui
 o
 sentido
 de
 “livre”,
 quer
 dizer,
 de


alguém
que
não
está
subordinado
a
nenhum
senhor
pelos
laços
de
vassalagem,
sendo
o
 sentido
 de
 “franqueza”
 derivado.212
Esse
 tipo
 franco
 também
 pode
 ser
 encontrado
 na


diatribe
 cínico‐estóica,
 como,
 por
 exemplo,
 a
 personagem
 do
 filósofo
 cínico
 Diógenes,
 freqüentemente
utilizada
nos
diálogos
de
Luciano
de
Samósata.










209

HERMÓGENES, Progymnasmata. Translated by George Kennedy, Boston, 2003, p. 84.

210 JULIEN GREIMAS A. e KEANE T. M., Dictionnaire du moyen français, Larousse, Paris, 1992, verbete "vilain/villain", p. 655.

211

“Le monologue de Franc Archer de Baignollet, avec son epitaphe”. Esse monólogo foi publicado com as

Obras de Mestre François Villon na edição Galliot du Pré (1532).

212 DI STEFANO, G. De Villon à Villon. 1: Le Lais François Villon, ms. Arsenal 3523, Montréal, CERES, 1988, p. 102-3.

74

No
Pequeno
Testamento,
o
testador
se
apresenta
em
primeira
pessoa
pelo
nome
 da
 personagem
 assumida
 na
 composição:
 “Eu,
 François
 Villon,
 estudante
 (...)”.213
A


personagem
de
François
Villon
no
papel
de
testador
é
retomada
pelo
Grande
Testamento.
 Da
 mesma
 forma
 que
 no
 Pequeno
 Testamento,
 ela
 também
 se
 apresenta
 como
 um
 “estudante”,
como,
por
exemplo,
no
Epitáfio
do
Grande
Testamento:
“Um
pobre
pequeno
 estudante/
 chamado
 François
 Villon”.214
No
 Pequeno
 e
 no
 Grande
 Testamento,
 a


enunciaçã
 em
 primeira
 pessoa
 assume
 a
 personagem
 de
 “François
 Villon”
 no
 papel
 do
 testador.
 Tanto
 o
 Pequeno
 quanto
 o
 Grande
 Testamento
 utilizam
 o
 modo
 de
 narração
 interpretativa
baseado
na
personagem
de
um
célebre
malfeitor
da
época.



Nas
duas
passagens
citadss,
a
personagem
se
caracteriza
a
si
mesma
por
meio
de
 uma
 “notação”
 (notatio),
 como
 é
 chamada
 essa
 figura
 pela
 Retórica
 a
 Herênio.215

Segundo
 a
 tópica
 do
 ofício,
 a
 notação
 “estudante”
 define
 o
 tipo
 de
 personagem
 de
 François
Villon,
segundo
a
hierarquia
dos
tipos
de
homens
definida
por
Jean
de
Garlande
 na
 Poética
 Parisiense.216
O
 estudante
 constituía
 o
 mais
 baixo
 representante
 do
 tipo
 de


homem
 que
 freqüenta
 a
 “corte”
 (a
 universidade
 estava
 subordinada
 à
 jurisdição
 papal
 na
época).
A
personagem
do
estudante
vicioso
e
mundano
também
pode
ser
encontrada,
 por
exemplo,
na
poesia
dos
goliardos.
Segundo
a
tópica
da
idade,
o
estudante
representa
 o
tipo
do
jovem
inconseqüente.217



Paradigmático
 da
 personagem
 do
 estudante
 na
 época
 é
 o
 poema
 iniciado
 pelo
 verso
“‘Ide
por
todo
o
universo’:
Jesus
assim
falou”,
que
está
presente
no
manuscrito
de
 poemas
 em
 latim
 intitulado
 de
 “Canções
 de
 Beuern”
 (Carmina
 Burana).218
A
 fórmula










213

VILLON, F. Op. cit., p. 92.

214 “Un pauvre petit écolier/ qui fut nommé François Villon” (VILLON, F. Op. cit., p. 288).

215 “Notatio est cum alicuius natura certis describitur signis, quae, sicuti notae quae, naturae sunt adtributa” (“A notação é quando a natureza de alguém é descrita com signos distintivos que, como marcas, são atribuídas àquela natureza”) (RHÉTORIQUE à Herennius, Livro IV, 62, p. 214).

216 GARLANDE, J. Op. cit., p. 41. A hierarquia dos tipos de homem definida por Jean de Garlande foi estudada no quarto capítulo.

217 “A designação goliardo quer dizer a princípio uma categoria inferior de boêmios e desclassificados, e só mais tarde confundiu-se com a dos escolares itinerantes, os clérigos vagantes, vagabundos, em cujas canções alguns romanistas situam a gênese da lírica trovadoresca (Ernst Martin, Guilherme Meyer, Spiegel, Moll, E. Faral e outros)” (SPINA, S. Lírica Trovadoresca, São Paulo, Edusp, 1991, p. 378).

218

“Cum In orbem universum decantur ite/ Sacerdotes ambulant currunt cenobite/ Et ab evangelio iam surgunt levite/ Sectam nostram subeunt que salus vite/ In secta nostra scriptum est: Omnia probate!/ Vitam nostram optime vos considerate/ Contra pravos clericos vos perseverate/ Qui non large tribuunt vobis caritate” (“‘Ide por todo o universo’: Jesus assim falou/ o sacerdote ou o monge sempre mundivagou/ tantos levitas abandonam ofício e cantochão/ porém, na nossa confraria acham a salvação// Reza nossa santa regra: ‘tudo devem provar’/ que nossa vida é uma boa não se pode negar/ dos padres desapiedados andem precavidos/ pois negam toda ajuda aos destituídos”) (CARMINA BURANA : Canções de Beuern. Edição bilíngüe: latim-português, São Paulo, Ars Poetica, 1994, p. 102).

75

inicial
do
poema
desloca
parodicamente
uma
passagem
bíblica
presente
na
Bíblia.219
A


personagem
 do
 estudante
 exorta
 os
 sacerdotes,
 cenobitas
 e
 levitas
 a
 abandonarem
 o
 Evangelho
 e
 vagarem
 pelos
 caminhos
 não
 para
 pregar
 a
 vida
 eterna,
 mas
 para
 “tudo
 provar”,
como
define
a
“santa
regra
da
ordem”.
Iniciando
as
estrofes
pela
expressão
“em
 nossa
ordem”,
o
poema
inverte
parodicamente
o
regulamento
de
uma
ordem
clerical.



Os
 poemas
 dos
 goliardos
 ridicularizam
 de
 maneira
 urbana
 e
 festiva
 os
 vícios
 leves
 cometidos
 pela
 personagem
 de
 um
 jovem
 estudante
 entregue
 a
 prazeres


“mundanos”,
como
o
jogo,
o
vinho,
as
mulheres,
etc.
Segundo
o
lugar
comum
do
carpe


diem,
é
freqüente
o
convite
ao
abandono
dos
estudos
para
gozar
dos
prazeres
temporais,


pois,
como
afirma
o
poema
de
um
goliardo:
“Veloz
a
idade
corre”.220
A
personagem
do


estudante
vicioso
a
errar
por
estradas
sem
dinheiro,
mas
orgulhoso
de
imitar
Horácio,
 do
 letrado
 humilde
 em
 confessar
 os
 próprios
 vícios,
 mas
 sarcástico
 ao
 ridicularizar
 a
 injustiça
 dos
 poderosos
 imita
 a
 figura
 “clérigo
 vagante”
 (clerici
 vagantes)221
da
 poesia


satírica
e
burlesca
dos
goliardos.

 
 
 C. O
PAPEL
DE
TESTADOR 
 O
nome
da
personagem
de
“François
Villon”
também
é
referido
nas
formas
fixas
 esparsas.222
Na
Petição
ao
senhor
de
Bourbon,
a
personagem
é
qualificada
pela
notação:
 





 219

MARCOS, XVI/ 15 (BÍBLIA SAGRADA. Tradução de Antônio Pereira de Figueiredo, São Paulo, Ed. Rideel, 1997).

220 “Omittamus studia/ Dulce est desipere/ Et carpamus dulcia/ Junventutis tenere/ Res est apta senectuti/ Serüs intendere/ (...) Velox etas preterit/ Studio detenta/ lascivire suggerit/ tenera juventa// Ver etatis labitur/ Hiems nostra properat/ Vita damnum patitur/ Cura carmem macerat/ Sanguis aret hebet pectus/ Minuuntur gaudia/ Nosdeterret iam senectus/ Morborum familia// Imitemur superos/ Digna sententia/ Et amoris teneros/ Iam venantur retia/ Voto nostro serviamus/ Mos est numicum/ Ad plateas descendamus/ Et choreas virginum” (”Deixemos os estudos, a insensatez é um prazer; e colhamos os frutos gostosos da doce Juventude! Aplicar-se às coisas sérias é tarefa própria da velhice (...) Corre a idade celeremente, a idade dos estudos, [e] a tenra mocidade nos convida ao gozo. A primavera da vida flui, o nosso inverno aproxima-se, a vida já entra em declínio, as preocupações maceram a carne; o sangue seca, o peito enlanguesce, os prazeres extinguem-se, a velhice já nos espreita com seu rosário de males. Imitemos os deuses – que é o melhor dos desígnios; e que as malhas do amor se apoderem dos jovens; sirvamos aos nossos desejos – esta é a lei dos deuses! Invadamos [pois] as praças públicas e o coro das virgens...”) (ANÔNIMO. In. SPINA, S. A Lírica Trovadoresca, São Paulo, Edusp, 1991, p. 92).

221 “Goliardos. Port. (lat. Clerici vagantes, clerici vagi, vagi scholares, litterati... qui dicuntur de familiae Goliae” (“Goliardos: Clérigos vagantes, clérigos que vagam, estudantes que vagam, literatos, que se dizem da família de Golías”) (DOBIACHE, O. (ed.) Les poésies des Goliards, Paris, Rieder, 1931, p. 22).

222 “Françoys Villon que travail a dompté” (Requeste a Monsieur de Bourbon, v. 5); “Je suis François dont il me

76

“François
Villon,
há
muito
consumido/
Pelo
trabalho,
em
sua
desventura”.223
Na
balada


Problema
pela
personificação
da
Fortuna,
a
personagem
é
nomeada
pelo
primeiro
nome:


“Fortuna
 por
 letrados
 fui
 chamada/
 A
 quem,
 François,
 tu
 chamas
 de
 assassina”.224
O


primeiro
nome
também
é
utilizado
na
Quadra
que
Villon
compôs
quando
foi
condenado
à


morte,
 a
 única
 quadra
 incluída
 entre
 os
 seus
 poemas
 esparsos.
 Proferindo
 as
 suas


últimas
palavras
antes
do
enforcamento,
Villon
se
apresenta
ao
público
e
narra
a
própria
 vida
desde
o
seu
nascimento
em
Paris
até
a
morte
iminente
por
enforcamento:
 
 Eu
sou
Franco
–
quanto
me
pesa!
 Nasci
em
Paris
(perto
a
Pontesa)
 E
verá
com
a
corda
tesa
 Meu
colo
quanto
o
meu
cú
pesa225 
 Segundo
a
tópica
da
nação,
“François”
é
também
adjetivo,
antiga
pronúncia
para
 “francês”.226
Esse
sentido
é
explorado
nessa
estrofe,
onde
a
França
é
apresentada
como
 um
lugar
de
inversões,
segundo
o
lugar
comum
do
mundo
às
avessas:
a
pequena
cidade
 de
 Pontoise,
 notória
 por
 sua
 boa
 pronuncia
 do
 francês,227
serve
 como
 ponto
 de


referência
para
Paris.
Assim,
a
nacionalidade
francesa
seria
a
causa
da
injustiça
de
que


“Franco”
(François)
–
que
designa
o
nome
próprio
e
o
adjetivo
–
está
prestes
a
padecer.
 A
aparente
gravidade
da
cena
da
apresentação
antes
do
enforcamento
prepara
a
risada
 irônica
provocada
pela
associação
final
entre
“colo”
e
cú”
[col/cul].



Tanto
 as
 formas
 fixas
 esparsas
 quanto
 os
 dois
 testamentos
 representam
 a
 personagem
 do
 célebre
 malfeitor
 “François
 Villon”.
 As
 formas
 fixas
 esparsas
 desenvolvem
diferentes
situações
ligadas
à
sua
vida
como,
por
exemplo,
a
condenação
 por
 enforcamento
 nessa
 Quadra
 e
 na
 Balada
 dos
 enforcados,228
o
 aprisionamento
 na










223

“Françoys Villon que travail a dompté/ A coups orbes, par force de bature” (VILLON, F. Op. cit., p. 350). 224

“Fortune fus par clers jadis nommee/ Que toy, Françoys, crie et nomme murtriere” (VILLON, F. Op. cit., p. 360).

225 “Je suis François dont il me poise/ Né de Paris emprès Pontoise/ Et de la corde d’une poise/ Sçaura mon col

que mon cul poise” (VILLON, F. Op. cit., p. 366. Tradução nossa).