I. A PERSONAGEM DO VILÃO NOS TESTAMENTOS
“Quid rides? Mutato nomine De te fabula narratur” (Horácio, Sátiras, I, v. 69‐70) Neste item, procuraremos compreender a paródia do testamento amoroso pela poesia de Villon através da definição do gênero burlesco do Pequeno e do GrandeTestamento. Segundo o modo de narração interpretativa baseada em uma personagem,
essas composições são enunciadas em primeira pessoa por uma personagem real. Os testamentos representam a personagem baixa do célebre malfeitor “François des Loges, também chamado de Villon”, segundo os documentos históricos da época. Os testamentos se estruturam em torno do discurso da personagem do “Vilão” (Villon) no papel de testador.
A. O TEATRO BURLESCO DO SÉC. XV NA FRANÇA
Nas primeiras composições dramáticas em francês, as falas das personagens são compostas em versos rimados, segundo o gênero da poesia rítmica. Em farsas, sotties, sermões jocosos, monólogos dramáticos e outros gêneros cômicos da época, o verso mais utilizado é o octassílabo, por ser o mais natural, e a rima mais utilizada é a rima plana, por ser a mais corrente. O dístico de octassílabos é a forma mais freqüente nos gêneros burlescos da época, pois é mais apto à matéria leve. Mas essas formas eram freqüentemente misturadas entre si, pois não há gênero puro.196 Imitação das Baladas
em jargão de Villon, o sermão jocoso das Refeições Gratuitas de François Villon e seus companheiros é composto principalmente em dísticos de octassílabos, mas ele também
inclui algumas baladas que, como foi visto no quarto capítulo, são formas fixas graves da poesia lírica da época.
196 Como afirma Sébillet: “[…] nous ne faisons aujourd’hui ni pures Moralités, ni simples farces: mais mêlant l’un parmi l’autre, et voulant ensemble profiter et réjouir, mêlons du plat avec du croisé, et des longs vers avec des cours” (“Nós não compomos hoje em dia nem Moralidades puras, nem simples farsas: mas, misturando uma no meio da outra e desejando instruir e ao mesmo tempo divertir, nós misturamos versos longos com versos curtos”) (SÉBILLET, T. Art Poétique François (1548), In : GOYET, F. Traités de poétique et de rhétorique de
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As farsas, os monólogos dramáticos, as sotties e os sermões jocosos estavam ligados a festas populares da época, como, por exemplo, a “Festa dos loucos” (Fête des
Fous), na França.197 A farsa era um gênero representado por diversas personagens,
segundo a espécie de narração dramática. Ela é considerada como o antecedente histórico do que viria a se constituir no séc. XVI como o gênero da comédia. Nos monólogos dramáticos, um único ator se investe de uma personagem baixa para representar uma situação dramática burlesca. Nos sermões jocosos, a narração pelo ator parodia a vida de um santo dada como exemplo no desenvolvimento dos sermões sérios.198
O teatro burlesco da época explorava diversos tipos de subentendidos escatológicos, obscenos e fesceninos para provocar o riso. O Sermon de Billouart de Jean Molinet, por exemplo, é o sermão jocoso de um santo “fálico” – billouart designa o membro viril. No Sermão jocoso do Santo Presunto e da Santa Salsicha,199 os nomes
próprios dos santos designam alimentos com alusão obscena. Nele, os santos constituem a refeição do banquete, que é uma paródia do seu martírio. Na narração do martírio da vida do Santo Presunto e da Santa Salsicha, os algozes dos dois santos burlescos são os “maus meninos, ladrões gulosos”.200 A figura do ladrão guloso de má vida alegoriza o
pecado da gula nessa paródia do teatro hagiográfico. A intenção burlesca dos sermões jocosos explorava o baixo corporal, em particular a isotopia alimentar.
O teatro burlesco é considerado pelos preceptistas da época como um gênero baixíssimo cujo objetivo principal é divertir o público. Embora a representação do torpe e do obsceno pelo teatro burlesco não possua intenção moral explícita, ela servia para ilustrar ao público os diferentes tipos de vícios. De acordo com o decoro, o público ao qual era destinado esse gênero poético era o “vulgo”. Na Arte Poética Francesa, Thomas
197 “Durante a festa dos loucos, procedia-se à eleição de um abade, de um bispo e de um arcebispo para rir, e nas Igrejas sob a autoridade direta do papa, de um papa para rir. Esses dignatários celebravam uma missa solene” (BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento : o contexto de François Rabelais. hucitec, São Paulo, 1987, p. 70).
198 “Une véritable narration s’y intercale dans le sermon; et ils différent des monologues dramatiques par ce seul fait que l’acteur présent l’aventure comme un exemple de son sermon et la raconte, au lieu d’en être le héros et de la jouer” (“Uma verdadeira narração se intercala no sermão; e [os sermões jocosos] diferem do monólogo dramático pelo simples fato de que o ator apresenta a aventura como um exemplo de seu sermão e a narra, ao invés de ser o herói e a representar”) (LINTILHAC, E. Histoire générale du théâtre en France. La comédie:
Moyen-Âge et Renaissance, vol.2, Paris, Flammarion, 1992, p. 155).
199
ANÔNIMO. Sermon joyeux de Saint Jambon et Sainte Andouille. In: Quatre sermons joyeux, edição de Jelle Koopmans, Genebra, Droz, 1984.
200 “Mauvais garsons, larrons frians” (ANÔNIMO. Sermon joyeux de Saint Jambon et Sainte Andouille. In:
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Sébillet aproxima a representação do torpe e do obsceno pelas farsas da época ao gênero das “priapéias latinas”:
Nossas farsas são verdadeiramente aquilo que os latinos chamaram Mimos ou Priapéias. O seu fim e efeito era o riso desmedido e por isso toda liberdade e lascívia era ali permitida, como acontece nas Farsas atuais.201
As priapéias latinas são epigramas cuja licença, lascívia e obscenidade é explorada para produzir o riso. Da mesma forma que nas priapéias latinas, nas farsas produzidas na França do séc. XV a licença e a lascívia são exploradas para divertir o vulgo. O efeito cômico produzido pelo gênero era chamado pelos preceptistas de “riso dissoluto” ou, segundo as artes poéticas em latim, de “riso desmedido” [risus solutus]. Como veremos no item seguinte,202 os bens burlescos legados nos dois testamentos
paródicos de Villon a homens pertencentes à alta hierarquia política, jurídica e religiosa da época visam sobretudo a divertir o vulgo. B. A PERSONAGEM DO VILÃO
O que se pode dizer sobre as circunstâncias de desempenho do corpo poético atribuído a François Villon baseia‐se em diversas características “estilísticas” dos testamentos, bem como em indícios fornecidos por anedotas, imitações, manuscritos e edições antigas, além de. Esse corpo poético foi freqüentemente editado com outras composições burlescas da época. Algumas edições antigas desse corpo poético, como a edição Levet (1489) e a edição Galliot Du Pré (1532), por exemplo, publicaram‐no com outros testamentos burlescos, monólogos dramáticos, sermões jocosos e diálogos cômicos.
A poesia de Villon também foi copiada em manuscritos contendo sermões jocosos. Em um dos manuscritos contendo poemas atribuídos a Villon,203 o Pequeno Testamento
201 “Nos farces sont vraiment ce que les Latins ont appelé Mimes ou Priapées. La fin et effet desquels était un ris dissolu : et pour ce toute licence et lascivie y était admise, comme elle est aujourd’hui en nos Farces” (SÉBILLET, T. Art Poétique François (1548), In : GOYET, F. Traités de poétique et de rhétorique de la
Renaissance, Paris, Librairie Générale Française, 1990, p. 129).
202 Cf. Parte I, cap. 2, item ii – “Testamento do amante mártir”. 203 Manuscrito B.N. f.fr. 1661.
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foi publicado com o Sermon de la Choppinnerie. Outro manuscrito com poemas de Villon contém o “Sermão agradável” (Sermon plaisant), o “Sermão de Santo Arengue” (Sermon
de Saint Hareng) e o “Sermão de Santa Cebola” (Sermon de saint Oignon).204 A balada da
“Causa de apelo do dito Villon” (modernamente intitulada “Balada da apelação”) foi publicada juntamente com o “Sermão jocoso de São Belin” (Sermon joyeux de Saint
Belin).205
A hipótese de que os seus testamentos estivessem destinados a serem representados também é reforçada pelo recurso freqüente da interpelação do público pelos testamentos de Villon. Eles utilizam freqüentemente as figuras da antecipação, da interrogação retórica, além de incluírem gêneros como o debate e o sermão jocoso. Um estudioso do teatro medieval francês afirma: “Os jovens poetas, sobretudo Villon e Marot, caracterizam‐se por uma irresistível inclinação para o teatro”.206 Pertencendo ao
gênero chamado de “monólogo dramático” na época, os testamentos estariam destinados a serem representados por um ator.
No gênero do monólogo dramático, o discurso por uma personagem era encenado por um ator munido de diversos recursos da arte teatral, como a dicção, a expressão, o gesto, a mímica, o figurino, etc.207 Segundo o modo de narração
interpretativa baseada em uma personagem definido pela Poética Parisiense de Jean de Garlande,208 a enunciação em primeira pessoa por uma personagem é uma convenção do gênero. O Pequeno e o Grande Testamento são enunciados em primeira pessoa por uma personagem no papel de testador. Na representação dramática dos testamentos, o ator vestia a máscara da personagem de François Villon.
204 Bibliothèque Royale Albert 1er.
205 Nessa edição antiga, as duas composições são sobrepostas e se juntam em uma mesma página, na qual faltam nove linhas do início da “Balada da apelação”, que é precedida por treze linhas daquele sermão (VERHUYCK, P. "Villon et le sermon de Saint Belin", in. VERHUYCK, P., KOOPMANS J., Sermon joyeux et Truanderie,
Villon-NemoUlespiègle, Amsterdam, Rodopi, 1987, 9-85).
206 “Les jeunes poëtes, à l’exemple de Villon et de Clément Marot, avaient surtout un penchant irrésistible pour le théàtre” (JACOB, P. L. Recueil de Farces, Soties et Moralités du quinzième siècle Paris, Adolphe Delahays, 1859, p. 22).
207 “Bien que le monologue dramatique ou mime n’ait pas, à proprement parler, de théâtre, de pareilles compositions relèvent cependant de l’art théatral: le récitant y adopte um personnage d’emprunt, et son rôle comporte évidemment toutes les ressources de l’art de l’acteur, la variété des tons de voix, des expressions du visage, et le plus souvent une gesticulation abondante soulignée de prestes changement de costume” (“Se bem que o monólogo dramático ou mimo não seja propriamente teatro, tais composições derivam da arte teatral: o recitante nele adota uma personagem de empréstimo e o seu papel comporta evidentemente todos os recursos da arte do ator: a variedade dos tons de voz, as expressões do rosto e o mais frequentemente uma gesticulação abundante sublinhada de imediatas mudanças de figurino”) (PAUPHILET, A., Jeux et sapience du Moyen Age, Paris, Gallimard, la Pléiade, 1987, p. 203).
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Como foi visto acima, os Exercícios de retórica ensinavam a compor três tipos distintos de personagens: a imitação de uma alegoria (prosopopéia), de uma pessoa real (ethopopéia) e de uma pessoa morta (eidolopopéia). O discurso em primeira pessoa por uma personagem podia ser “ético” – voltado para a caracterização do “caráter” (éthos) da personagem, segundo a verossimilhança de eventos históricos, o uso de conhecimentos especializados, de uma elocução adequada à personagem (termos técnicos), etc. –, “patético” – voltado para a caracterização de um “afeto” (páthos) da personagem no discurso – ou misto – quando ele combina a pintura do caráter e a expressão do afeto.209
Nos testamentos e formas fixas esparsas, o poeta assume a personagem de uma pessoa real para enunciar em primeira pessoa os seus testamentos. A enunciação se investe da personagem do célebre malfeitor “François des Loges, também chamado de Villon”, segundo documentos históricos da época. Essa personagem era perfeitamente reconhecível pelo público contemporâneo às composições. Segundo a tópica do nome, “François Villon” figura atributos da personagem poética, como a nacionalidade francesa, a franqueza e a vileza da personagem. A vileza constitui o principal atributo dessa personagem chamada “Villon” – trocadilho de “Vilão” (Villain) que, por oposição a nobre, designava no francês popular da época um tipo vil.210
A personagem de François Villon se apresenta sob a figura do “franco”, segundo a tópica do caráter. A personagem do franco é um tipo comum na poesia burlesca da época, utilizado, por exemplo, no Monólogo do franco arqueiro de Baignollet, com o seu
epitáfio.211 Em vernáculo, “franco” (franc) possui o sentido de “livre”, quer dizer, de
alguém que não está subordinado a nenhum senhor pelos laços de vassalagem, sendo o sentido de “franqueza” derivado.212 Esse tipo franco também pode ser encontrado na
diatribe cínico‐estóica, como, por exemplo, a personagem do filósofo cínico Diógenes, freqüentemente utilizada nos diálogos de Luciano de Samósata.
209
HERMÓGENES, Progymnasmata. Translated by George Kennedy, Boston, 2003, p. 84.
210 JULIEN GREIMAS A. e KEANE T. M., Dictionnaire du moyen français, Larousse, Paris, 1992, verbete "vilain/villain", p. 655.
211
“Le monologue de Franc Archer de Baignollet, avec son epitaphe”. Esse monólogo foi publicado com as
Obras de Mestre François Villon na edição Galliot du Pré (1532).
212 DI STEFANO, G. De Villon à Villon. 1: Le Lais François Villon, ms. Arsenal 3523, Montréal, CERES, 1988, p. 102-3.
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No Pequeno Testamento, o testador se apresenta em primeira pessoa pelo nome da personagem assumida na composição: “Eu, François Villon, estudante (...)”.213 A
personagem de François Villon no papel de testador é retomada pelo Grande Testamento. Da mesma forma que no Pequeno Testamento, ela também se apresenta como um “estudante”, como, por exemplo, no Epitáfio do Grande Testamento: “Um pobre pequeno estudante/ chamado François Villon”.214 No Pequeno e no Grande Testamento, a
enunciaçã em primeira pessoa assume a personagem de “François Villon” no papel do testador. Tanto o Pequeno quanto o Grande Testamento utilizam o modo de narração interpretativa baseado na personagem de um célebre malfeitor da época.
Nas duas passagens citadss, a personagem se caracteriza a si mesma por meio de uma “notação” (notatio), como é chamada essa figura pela Retórica a Herênio.215
Segundo a tópica do ofício, a notação “estudante” define o tipo de personagem de François Villon, segundo a hierarquia dos tipos de homens definida por Jean de Garlande na Poética Parisiense.216 O estudante constituía o mais baixo representante do tipo de
homem que freqüenta a “corte” (a universidade estava subordinada à jurisdição papal na época). A personagem do estudante vicioso e mundano também pode ser encontrada, por exemplo, na poesia dos goliardos. Segundo a tópica da idade, o estudante representa o tipo do jovem inconseqüente.217
Paradigmático da personagem do estudante na época é o poema iniciado pelo verso “‘Ide por todo o universo’: Jesus assim falou”, que está presente no manuscrito de poemas em latim intitulado de “Canções de Beuern” (Carmina Burana).218 A fórmula
213
VILLON, F. Op. cit., p. 92.
214 “Un pauvre petit écolier/ qui fut nommé François Villon” (VILLON, F. Op. cit., p. 288).
215 “Notatio est cum alicuius natura certis describitur signis, quae, sicuti notae quae, naturae sunt adtributa” (“A notação é quando a natureza de alguém é descrita com signos distintivos que, como marcas, são atribuídas àquela natureza”) (RHÉTORIQUE à Herennius, Livro IV, 62, p. 214).
216 GARLANDE, J. Op. cit., p. 41. A hierarquia dos tipos de homem definida por Jean de Garlande foi estudada no quarto capítulo.
217 “A designação goliardo quer dizer a princípio uma categoria inferior de boêmios e desclassificados, e só mais tarde confundiu-se com a dos escolares itinerantes, os clérigos vagantes, vagabundos, em cujas canções alguns romanistas situam a gênese da lírica trovadoresca (Ernst Martin, Guilherme Meyer, Spiegel, Moll, E. Faral e outros)” (SPINA, S. Lírica Trovadoresca, São Paulo, Edusp, 1991, p. 378).
218
“Cum In orbem universum decantur ite/ Sacerdotes ambulant currunt cenobite/ Et ab evangelio iam surgunt levite/ Sectam nostram subeunt que salus vite/ In secta nostra scriptum est: Omnia probate!/ Vitam nostram optime vos considerate/ Contra pravos clericos vos perseverate/ Qui non large tribuunt vobis caritate” (“‘Ide por todo o universo’: Jesus assim falou/ o sacerdote ou o monge sempre mundivagou/ tantos levitas abandonam ofício e cantochão/ porém, na nossa confraria acham a salvação// Reza nossa santa regra: ‘tudo devem provar’/ que nossa vida é uma boa não se pode negar/ dos padres desapiedados andem precavidos/ pois negam toda ajuda aos destituídos”) (CARMINA BURANA : Canções de Beuern. Edição bilíngüe: latim-português, São Paulo, Ars Poetica, 1994, p. 102).
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inicial do poema desloca parodicamente uma passagem bíblica presente na Bíblia.219 A
personagem do estudante exorta os sacerdotes, cenobitas e levitas a abandonarem o Evangelho e vagarem pelos caminhos não para pregar a vida eterna, mas para “tudo provar”, como define a “santa regra da ordem”. Iniciando as estrofes pela expressão “em nossa ordem”, o poema inverte parodicamente o regulamento de uma ordem clerical.
Os poemas dos goliardos ridicularizam de maneira urbana e festiva os vícios leves cometidos pela personagem de um jovem estudante entregue a prazeres
“mundanos”, como o jogo, o vinho, as mulheres, etc. Segundo o lugar comum do carpe
diem, é freqüente o convite ao abandono dos estudos para gozar dos prazeres temporais,
pois, como afirma o poema de um goliardo: “Veloz a idade corre”.220 A personagem do
estudante vicioso a errar por estradas sem dinheiro, mas orgulhoso de imitar Horácio, do letrado humilde em confessar os próprios vícios, mas sarcástico ao ridicularizar a injustiça dos poderosos imita a figura “clérigo vagante” (clerici vagantes)221 da poesia
satírica e burlesca dos goliardos. C. O PAPEL DE TESTADOR O nome da personagem de “François Villon” também é referido nas formas fixas esparsas.222 Na Petição ao senhor de Bourbon, a personagem é qualificada pela notação: 219
MARCOS, XVI/ 15 (BÍBLIA SAGRADA. Tradução de Antônio Pereira de Figueiredo, São Paulo, Ed. Rideel, 1997).
220 “Omittamus studia/ Dulce est desipere/ Et carpamus dulcia/ Junventutis tenere/ Res est apta senectuti/ Serüs intendere/ (...) Velox etas preterit/ Studio detenta/ lascivire suggerit/ tenera juventa// Ver etatis labitur/ Hiems nostra properat/ Vita damnum patitur/ Cura carmem macerat/ Sanguis aret hebet pectus/ Minuuntur gaudia/ Nosdeterret iam senectus/ Morborum familia// Imitemur superos/ Digna sententia/ Et amoris teneros/ Iam venantur retia/ Voto nostro serviamus/ Mos est numicum/ Ad plateas descendamus/ Et choreas virginum” (”Deixemos os estudos, a insensatez é um prazer; e colhamos os frutos gostosos da doce Juventude! Aplicar-se às coisas sérias é tarefa própria da velhice (...) Corre a idade celeremente, a idade dos estudos, [e] a tenra mocidade nos convida ao gozo. A primavera da vida flui, o nosso inverno aproxima-se, a vida já entra em declínio, as preocupações maceram a carne; o sangue seca, o peito enlanguesce, os prazeres extinguem-se, a velhice já nos espreita com seu rosário de males. Imitemos os deuses – que é o melhor dos desígnios; e que as malhas do amor se apoderem dos jovens; sirvamos aos nossos desejos – esta é a lei dos deuses! Invadamos [pois] as praças públicas e o coro das virgens...”) (ANÔNIMO. In. SPINA, S. A Lírica Trovadoresca, São Paulo, Edusp, 1991, p. 92).
221 “Goliardos. Port. (lat. Clerici vagantes, clerici vagi, vagi scholares, litterati... qui dicuntur de familiae Goliae” (“Goliardos: Clérigos vagantes, clérigos que vagam, estudantes que vagam, literatos, que se dizem da família de Golías”) (DOBIACHE, O. (ed.) Les poésies des Goliards, Paris, Rieder, 1931, p. 22).
222 “Françoys Villon que travail a dompté” (Requeste a Monsieur de Bourbon, v. 5); “Je suis François dont il me
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“François Villon, há muito consumido/ Pelo trabalho, em sua desventura”.223 Na balada
Problema pela personificação da Fortuna, a personagem é nomeada pelo primeiro nome:
“Fortuna por letrados fui chamada/ A quem, François, tu chamas de assassina”.224 O
primeiro nome também é utilizado na Quadra que Villon compôs quando foi condenado à
morte, a única quadra incluída entre os seus poemas esparsos. Proferindo as suas
últimas palavras antes do enforcamento, Villon se apresenta ao público e narra a própria vida desde o seu nascimento em Paris até a morte iminente por enforcamento: Eu sou Franco – quanto me pesa! Nasci em Paris (perto a Pontesa) E verá com a corda tesa Meu colo quanto o meu cú pesa225 Segundo a tópica da nação, “François” é também adjetivo, antiga pronúncia para “francês”.226 Esse sentido é explorado nessa estrofe, onde a França é apresentada como um lugar de inversões, segundo o lugar comum do mundo às avessas: a pequena cidade de Pontoise, notória por sua boa pronuncia do francês,227 serve como ponto de
referência para Paris. Assim, a nacionalidade francesa seria a causa da injustiça de que
“Franco” (François) – que designa o nome próprio e o adjetivo – está prestes a padecer. A aparente gravidade da cena da apresentação antes do enforcamento prepara a risada irônica provocada pela associação final entre “colo” e cú” [col/cul].
Tanto as formas fixas esparsas quanto os dois testamentos representam a personagem do célebre malfeitor “François Villon”. As formas fixas esparsas desenvolvem diferentes situações ligadas à sua vida como, por exemplo, a condenação por enforcamento nessa Quadra e na Balada dos enforcados,228 o aprisionamento na
223
“Françoys Villon que travail a dompté/ A coups orbes, par force de bature” (VILLON, F. Op. cit., p. 350). 224
“Fortune fus par clers jadis nommee/ Que toy, Françoys, crie et nomme murtriere” (VILLON, F. Op. cit., p. 360).
225 “Je suis François dont il me poise/ Né de Paris emprès Pontoise/ Et de la corde d’une poise/ Sçaura mon col
que mon cul poise” (VILLON, F. Op. cit., p. 366. Tradução nossa).