3. ANALYSE DES ENTRETIENS
3.4. Résultats et impacts de la pratique de l’hypnose médicale du point de vue des médecins
3.4.1. L’apport de la formation en hypnose et de son utilisation pour la pratique du
Embora saibamos da ambigüidade deste subtítulo, com ele pretendemos iniciar uma argumentação sobre quatro elementos que consideramos centrais à exeqüibilidade de nossa tese relativa a um ethos propriamente nietzschiano ligado à noção de criação, alternativo aos modelos da tradição. São eles: a atividade avaliadora, a experimentação, a cosmologia e a afirmação da vida. Dissemos ser ambíguo o título desta seção por sua dupla orientação: necessariamente, e sem fazer distinção entre ética e moral, para Nietzsche, toda moral remonta a valores e estes a avaliações; de outro lado, tomando o pressuposto de uma distinção entre ética e moral, em sentido nietzschiano, uma ética subsiste apenas se anuir radicalmente tal atividade.
Não obstante em muitas passagens use os termos moral e ética como equivalentes, é plausível dizer que do ponto de vista da crítica, Nietzsche compreende ser a moral sinônimo de rebanho, espírito gregário, adesão e submissão a valores já postos, negação da temporalidade, instância determinante de condutas reprodutivas e encarceradoras das energias vitais do indivíduo. Ética, perante o referido entendimento, subjaz à fidelidade a modos de viver asseveradores da transitoriedade do devir em função de um ininterrupto instituir e dinamitar valores, vivenciar conformações da existência, sabendo-as completamente efêmeras. Desta perspectiva é-nos admissível propor uma distinção entre ética e moral por entre as ruínas da crítica nietzschiana, sem que resulte numa cristalizada oposição: o ethos nietzschiano doravante alvitrado é uma alternativa à concepção geral de moralidade descrita acima, e não o exato oposto de uma dialética conciliadora. Dedicar-nos-emos então à tentativa de retirá-la dos escombros de sua filosofia, à luz inicial da atividade producente de valores.
Nada de determinações ontológicas transcendentes ou de apadrinhamentos na hierarquia dos existentes: a condição humana resolve-se no fato inexorável de continuamente depositar valores por intimação de forças vitais transitoriamente dominantes. Depositar valores no mundo equivale a configurar sentido, criar modos de existência. Por conseguinte, com Nietzsche, o problema ético reside exatamente no modo de avaliar ou valorar, o qual parece se confundir em seu discurso com uma das compreensões do termo ethos ( ) mediante a tradição: ethos como modo de ser. Tomando então o significante modo de valorar como correspondendo a modo de ser, parecer-nos-á admissível inferir que determinados modos de ser (e toda a complexa carga de significações que perfazem a terminologia ‘ser’ na escrita nietzschiana) são claramente assumidos pelo filósofo, indicando um posicionamento
contrário à moral, mas favorável a uma ética63. Esta, segundo nossa conjetura, consubstancia de maneira necessária a atividade criadora e a afirmação trágica da vida.
Naturalmente, os modos de ser-avaliar concebidos pelo filósofo de Röcken referem- se às tipologias humanas por ele construídas64, e estas resultam muito mais do caráter interpretante de seu pensar, e menos de uma ciência histórica objetiva65. Há tipos humanos atravessando praticamente todo pensamento de Nietzsche (do artista trágico ao grande
homem66). Contudo, no tocante ao exame das morais na fase tardia, o antagonismo entre o tipo escravo e o tipo senhor ganha relevância e passa de forma inequívoca a constituir o lugar desde onde se compreendem outras tipologias: forte e fraco, nobre e vil, ativo e reativo. Não se trata simplesmente de uma neutra constatação da existência de duas tipologias distintas no desenrolar da história ocidental: Nietzsche claramente toma partido por uma delas, não no sentido de reivindicar uma retomada ipsis literis de suas condições, mas insistindo em seu caráter paradigmático ao cogitar uma prática existencial alternativa à moral, é dizer, à moral de escravos, à moral cristã.
No último capítulo de Além do Bem e do Mal, a diferenciação entre os modos de avaliar do senhor e do escravo situa a marca genuinamente criadora e afirmadora do primeiro em relação ao segundo. É justamente o senhor, o nobre, o aristocrata que forja valores, impõe sentido à existência; somente este tipo de ser humano, ao que parece, é capaz de sentir as pressões vitais, assumi-las e sob a óptica das mesmas, instituir valores: “o homem de espécie nobre se sente como aquele que determina valores, ele não tem necessidade de ser abonado, ele julga: ‘o que me é prejudicial é prejudicial em si’, sabe-se como o único que empresta honra às coisas, que cria valores [wertheschaffend]”67. Segue-se daí a asserção segundo a qual “o autêntico direito senhorial é criar valores [Werthe zu schaffen]”68. Quanto à criação
63 Aproximamo-nos da concepção ética de Deleuze, que, embora germinada do exame empreendido sobre a ética
espinosista, soa profundamente nietzschiana: “eis, pois, o que é a Ética, isto é uma tipologia dos modos de existência imanentes, substitui a Moral, a qual relaciona sempre a existência a valores transcendentes [...] A oposição dos valores (Bem/Mal) é substituída pela diferença qualitativa dos modos de existência (bom/mau)” (DELEUZE, Gilles. Espinosa – filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002. p. 29.).
64 Um tipo é um sintoma de uma determinada organização da vida em função da multiplicidade de forças que
nele atuam enquanto vontade de poder.
65 Em torno do problema da objetividade ou não-objetividade do método genealógico, veja-se Michel Foucault,
Nietzsche, a Genealogia, a História, segundo volume de Ditos e Escritos, p. 260-281; Peter Berkowitz, Nietzsche, La Ética de un Inmoralista, p. 96-107; Scarlett Marton, Nietzsche: das Forças Cósmicas aos Valores Humanos, p. 82-91.
66 Trataremos destas e de outras tipologias humanas na discussão antropológica reservada para o capítulo IV
desta investigação.
67 KSA 5, Jenseits von Gut und Böse, p. 209 (BM. p. 172-173, § 260. Grifo do autor). 68
KSA 5, Jenseits von Gut und Böse, p. 209 (BM. p. 176, § 261. Grifo do autor). Nietzsche arrisca um alcance maior quanto a esta tese, pensando inclusive a origem da linguagem como manifestação de poder em razão do processo de cunhagem de signos que caracteriza a tipologia nobre: “o direito senhorial de dar nomes vai tão longe, que nos permitiríamos conceber a própria origem da linguagem como expressão de poder nos senhores:
dos valores morais nobres, entende o filósofo que o tipo senhor “primeiro e espontaneamente, de dentro de si, concebe a noção básica de ‘bom’, e a partir dela cria [schafft] para si uma representação de ‘ruim’”69.
O antípoda escravo, como frisamos, demanda o outro a ser negado enquanto possibilidade de geração de valores, porém, seu criar é apenas um inverter: os valores nobres ‘bom’ e ‘ruim’ têm por intermédio dele seus significados alterados, remanejados em nome de uma política de vingança constitutiva da psicologia do ressentimento. Esta subversão semântica inaugura a moral judaico-cristã e toda sorte de fantasmagóricos estratagemas que lhe servem de suporte (reino do céu, paraíso, salvação, expiação, pecado, culpa). O homem ‘bom’ passa a ser exatamente o escravo, o cristão-paulíneo; ao passo que o predicado ‘mau’ é direcionado para o tipo senhor. Nietzsche reconhece o êxito desta inversão no instante em que os próprios indivíduos nobres ajoelham-se perante esta lógica moral, traduzindo-o como sinônimo de profundo adoecimento e debilitação, indicando, talvez, sua conseqüência mais preocupante: o encobrimento e aparente esgotamento da atividade criadora de valores.
Assim, o estatuto da genuína criação de valores é exclusividade do homem que exalta o microcaos resguardado dentro de si mesmo, fonte abundante de novas possibilidades de valor, tal como inscrito na mensagem de Zaratustra: “é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante”70. Um Nietzsche hesiódico encontra a singularidade do processo criativo emergindo da contrafigura caótica dos impulsos como horizonte donde se compreende a noção nietzschiana de atividade, da qual a vontade de poder é a imagem conceitual privilegiada. Eugen Fink sintetiza ambas as expressões desta mesma atividade, mediante o respectivo jugo tipológico-moral: “a criação de valores humanos no interior da vida é uma manifestação da vontade de poder. O homem se relaciona consigo mesmo, quer autenticamente (adotando a moralidade de senhor) ou inautenticamente (adotando a moralidade de escravo)”71. Conceder formas e por meio delas construir mundos: no homem isto equivale à fruição da demiúrgica atividade criadora. Um ethos, pensado nesta eles dizem ‘isto é isto’, marcam cada coisa e acontecimento com um som, como que apropriando-se assim das coisas” (KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 260 [GM. p. 19, I § 2.]).
69 KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 274 (GM. p. 31-32, I § 11.). 70
KSA 4, Also sprach Zarathustra. p. 19 (ZA. p. 41, Prólogo - 5.). Nesse sentido, a reflexão sobre a formação da cultura grega no jovem Nietzsche já enunciara uma espécie de imperativo prático, sob forma de alegoria, corroborando a relação entre o caos e a produção cultural, inclusive como auto-produção: “cada um precisa organizar o caos em si, de tal modo que se concentre nas suas necessidades autênticas” (NIETZSCHE, Friedrich. Vom Nutzen und Nachtheil der Historie für das Leben. In: _______. KSA 1, Unzetgemässe Betrachtungen II. p. 333. [NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003. p. 99. § 10.]). Doravante, a referida obra será citada pela sigla UB.II.
perspectiva, não é fruto da utilidade, da conservação, da compaixão, ou da negação da alteridade: seu vir-a-ser resulta unicamente da intensificação de poder somada à asseveração integral da vida.
Outrossim, deve-se compreender com Nietzsche a relação fundamental entre avaliar e instituir hierarquias, pois toda imposição de valor supõe a instauração de configurações hierárquicas entre humanos à luz de uma demanda vital. Conforme o filósofo, nisto consiste o
páthos que atravessa a dinâmica avaliadora: “o fosso entre um ser humano e outro, entre uma
classe e outra, a multiplicidade de tipos, a vontade de ser si próprio, de destacar-se, isso que denomino páthos da distância é característico de toda época forte”72. Por não impor valores, o escravo liquefaz hierarquias, uniformiza, enaltece as virtudes do rebanho, e, destarte, imprime à condição hierárquica da vida um caráter reprovável, condenando-a moralmente. Nietzsche, ao insistir nesta condição, alimenta uma inquietante noção de justiça vinculada à sua
Weltanschauung, e uma discussão acerca do naturalismo ou realismo de suas ilações, pois,
enquanto o mundo é visto como vontade de poder, toda hierarquia é reputada ‘natural’73.
72 KSA 6, Götzen-Dämmerung. p. 138 (CI. p. 86. § 37 – Incursões de um extemporâneo.).
73 Nos textos nietzschianos, há passagens emblemáticas a esse respeito: ZA II – Dos doutos, BM § 213, 265; GM
- II § 11; CI – Incursões de um extemporâneo § 48. Em Além do Bem e do Mal, por exemplo, o filósofo aduz a tese segundo a qual o processo de uma máxima espiritualização seria o derradeiro rebento do desenvolvimento de qualidades morais, asseverando que “a espiritualidade superior é apenas a espiritualização da justiça e daquela severidade bondosa, que se sabe encarregada de manter no mundo a hierarquia (Ordnung des Ranges) entre as próprias coisas – e não apenas entre os homens” (KSA 5, Jenseits von Gut und Böse, p. 154. § 219). Optamos em traduzir esse excerto em razão da ausência do destaque, expresso nos originais, na tradução de Paulo César de Souza, concordando com sua opção em verter o substantivo Ordnung des Ranges (literalmente, ‘ordem de graus’, ‘ordem de classes’) por hierarquia, uma vez que a expressão alemã para a mesma é Rangordnung (veja-se KSA 5, Jenseits von Gut und Böse, p. 165. § 228). Azeredo chama atenção para a leitura deleuzeana que identifica em Nietzsche o trágico com a justiça (cf. Gilles Deleuze, Nietzsche e a Filosofia, p. 37-40), num explícito legado heraclítico, partindo do caráter inocente e desculpabilizado da existência. De acordo com a autora, pode-se afirmar a justiça como um fio condutor em toda obra nietzschiana, cujo relevo se daria a partir de
Assim falou Zaratustra, obra em que é encetada a démarche contra os desígnios da moral judeu-cristã. Nesses
meandros, entende ser o trágico possibilitador do intento ético nietzschiano, uma vez que implica outra postura do homem perante a existência: “vemos o trágico como o elemento que viabiliza apreender, em Nietzsche, a passagem ao ético, mediante o reconhecimento de que a vida, com seus sofrimentos e contrariedades, é justa” (AZEREDO, Vânia Dutra de. Nietzsche e a aurora de uma nova ética. Ibidem. nota n° 6, p. 109.). Porém, isso não sugeriria a afirmação de uma ordenação moral da vida? Mas, categoricamente, e como já frisamos, não há em Nietzsche uma recuperação da inocência do vir-a-ser? E, portanto, a radical destituição de qualquer moralização da vida? Peter Berkowitz problematiza tais extremidades do pensamento nietzschiano, fazendo, a despeito de tais indagações, a seguinte afirmação sobre o filósofo alemão: “embora afirme inequivocamente que a natureza é amoral, caótica e carente de sentido, ele apela à natureza como norma moral ou ética. Embora assevere que o bem e o mal são criados pelos seres humanos, frequentemente proclama que há uma ordem hierárquica de desejos, tipos humanos e formas de vida, e que o lugar da alma nobre está nas estâncias superiores da ordem hierárquica” (BERKOWITZ, Peter. Nietzsche: la ética de un inmoralista. Madrid: Cátedra, 1998. p. 25.). Berkowitz insiste na necessidade do enfrentamento com que estas asserções rivais precisam ser compreendidas na trajetória filosófica de Nietzsche, sobretudo quando relacionadas às ideias fundamentais do filósofo sobre os seres humanos e o cosmo. A nosso ver, o estatuto nietzschiano da interpretação é indispensável a esta polêmica, visto que desloca o peso da verdade das convicções típicas do discurso objetivista para o plano da inserção de perspectivas, do saber-se instalador de interpretações. Logo, as afirmações de Nietzsche são apenas interpretações, o que não significa dizer que sejam verdadeiras, desde que se conceba verdade como
A autêntica atividade avaliadora, tal como a entendemos em Nietzsche, não é negativa, niveladora, e muito menos promotora de aparatos metafísicos de justificação da existência; ela exige do vivente uma postura afirmativa alicerçada no conhecimento trágico como abertura à possibilidade de novas configurações de valor, à instituição de hierarquias axiológicas em razão do diferençar-se e da ratificação das diferenças entre os indivíduos, bem como à simultânea desconstrução e desmascaramento de todos ideais caluniadores da vida. Para fins de distinção, o “ódio criador de ideais [Idealen schaffenden] e recriador [umschaffenden] de valores”74 produz, dessa perspectiva, a moral (como sintoma de debilitação psicofisiológica e depreciação dos impulsos vitais); o páthos afirmativo e exultante, ao erigir valores, engendra uma ética à maneira de Nietzsche, a saber, um modo de ser-avaliar ativo porque assertivo das instâncias vitais, modelador do mundo em seu entorno e do caos de impulsos que lutam por expressão. A atividade da vida mesma é nele reverberada ao construir sentido e dar forma, uma vez que “ser ativo é parte necessária da felicidade”75, e, por conseguinte, “enquanto a vida ascende, felicidade é igual a instinto”76. Não estaria o velho conceito de felicidade sendo lançado na própria dinâmica do corpo? Seria então tal ethos, corpóreo?