3. La Chaussée des Géants (Irlande du Nord)
5.4. Modalités de gestion du public
3.4.9. Justice spatiale et problématique de liberté d’accès au site
Não basta ter dinheiro. É preciso saber comprar. E não basta saber comprar... É preciso saber usar... Um vestido, por mais bonito que seja, usado fora de ocasião, não enfeita. Pelo contrário. Um penteado ―rico‖ pode ficar simplesmente ―deslocado‖ se acompanhar um traje esporte, você sabe disso – e sabe que o dinheiro gasto no cabeleireiro será dinheiro perdido. (LISPECTOR, 2006, p.61)
É visível que a medida das coisas circula diante do consumo e do consumismo e temos que saber a medida exata para exercermos o poder de compra. A mulher deve enfeitar-se. Ela precisa saber como utilizar o objeto correto, deve mostrar os seus dotes femininos, mas, em contrapartida, necessita saber quanto gastar para obter este mesmo objeto que irá enfeitá-la. Ela deve ser consciente que, se por um acaso vier a desperdiçar na compra, poderá afetar-se economicamente ou até mesmo pode vir a prejudicar o orçamento doméstico.
Pela escritura clariciana é perceptível que o conceito de identidade feminina em prol do consumo pode ser compreendido em função de uma coletividade, que estabelece o dinheiro supostamente imbuído à qualidade ética. É notável a relação da ação de adquirir dinheiro associada ao adquirir bens, mas podemos relacionar também o ideal moderno que determina que para termos sucesso na vida é necessário dinheiro para estarmos bem.
O dinheiro passa a estar interligado à felicidade, pois tanto a autora quanto suas leitoras vivem em uma sociedade comercial, não sendo formada apenas por uma única ou duas pessoas, como na relação autor e leitor, mas de todo um conjunto que perpassa as mediações estabelecidas pelo mercado.
Tal e qual o discurso de Hall (2006) quando aborda a identidade voltada para o ―mercado global de estilos, lugares e imagens‖ que são passados pela mídia que divulga esses conceitos às camadas sociais, ―que se
prendem à ‗aldeia global‘‖, abarcando na ―na privacidade de suas casas, as mensagens e imagens de culturas ricas e consumistas‖ (HALL, 2006, p. 74-75). Em nosso país, o consumo propiciado pela Comunicação é de grande valia. Se levarmos em consideração o jornal como um dos principais veículos de comunicação da década de 60 e se pararmos para pensar as origens da própria linguagem publicitária e da propaganda em nosso país, iremos encontrar um perfil diferente para muitos autores na nossa Literatura.
Nessa época, não só a casa, mas a própria figura feminina passa a ganhar espaço no mercado publicitário. Os autores enxergavam isso. Cria-se um estereótipo da mulher que é colocado em evidência como algo figurado ao ambiente doméstico e, é nessa época, que a imprensa se alia a indústria de cosméticos para propor mudanças para o momento.
Anterior a esse momento, reconhecido por ser portador de um discurso de credibilidade, Olavo Bilac, por exemplo, ficou conhecido por seus inúmeros versinhos para os Fósforos Brilhante e para a Vela Brasileira; já Monteiro Lobato chegou a produzir textos para o Biotônico Fontoura; o discurso publicitário nesse período, em termos de valores, talvez não fosse nem tão reconhecido, mas a visibilidade social que o texto produzia fez com que muitos criassem um maior envolvimento com a área. Alguns autores chegaram até a fazer divulgação das suas próprias obras, como foi o caso de Aluísio Azevedo, preparando assim os alicerces da publicidade para muitos publicitários:
Adotando atitudes modernas para a sua época, Aluísio instaura um novo modo de perceber o fato cultural-literário no país, quer transformando o jornal de assinaturas num jornal de venda avulsa, quer tratando o livro como mercadoria, cujo êxito comercial depende da propaganda que se faz. (JÚNIOR, 1995, p. 226)
E Clarice Lispector não podia ficar de fora. Com seu discurso polifônico, que constitui uma fala que margeia entre o ―mesmo‖, aquilo que já foi contado, e o ―diferente‖, faz um retorno aos assuntos do cotidiano da mulher com uma forma específica. Em seu texto, a roupa, o acessório, os perfumes e
as cores sempre estão presentes e podem ser comprados12. Ela reflete a visão de corpo enquanto máquina receptora que estabelece o seu novo método e, tal o método de Descartes, está disposta a desconstruir verdades anteriormente impostas para comprovar a sua tomada de posição diante do discurso do social.
Desta forma, cria-se um sentimento de pertencimento e uma nova forma de se visualizar a formação da identidade envolvida nas práticas culturais. Cria-se uma significação variada, envolvida por novos meios de orientação, entre eles as coisas e os objetos. E essa nova orientação gera uma forma de bem-estar, pela ação de comprar, no poder ter e no possuir.
A autora caminha de modo a contrariar a fala de Jean-Jacques Rousseau no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens ao alegar que os humanos são ineptos para entender suas próprias necessidades e conduzem a alma para um lugar no qual ela nunca ficará plenamente satisfeita diante dos próprios desejos. Rousseau também comprova que nossa mente é influenciável e as vozes do universo podem distrair na hora de identificarmos prioridades e podem fazer com que os indivíduos percam a sua identidade:
Como pode, então, o governo agir sobre os costumes? (...) Se na solidão nossos hábitos nascem de nossos sentimentos, na sociedade eles nascem da opinião dos outros. Quando não se vive em si mesmo, mas nos outros, são os julgamentos deles que ordenam tudo; nada parece bom ou desejável aos particulares além do que o público aprovou, e a única felicidade conhecida pela maior parte dos homens é ser considerado feliz. (ROUSSEAU, 1967, 144)
Assim, J.J. Rosseau faz uma crítica direta ao sistema, abolindo a preferência pelas práticas de consumo, já que eles parecem estar de modo intrínseco na vida de cada ser social. Já Clarice Lispector instaura, por meio das estratégias proporcionadas pela linguagem e pelas imagens que as leitoras
12Vários autores (LIPOVETSKY, 2000; WOLF, 1992; GOLDENBERG, 2002; NOVAES E
VILHENA, 2003) chamam atenção para outro ponto destaque no que diz respeito à forma como a beleza é conceituada nas sociedades atuais: se em outro momento ela era considerada um dom, hoje, é percebida como questão de opção ou escolha. Então, a mulher escolhe ser bela para si e para as pessoas que estão ao seu redor.
conseguem formular, um discurso próprio, diferente do texto simplesmente voltado para o consumo, pois a finalidade dos textos da autora não está restrita apenas à direta associação do poder ser consumido, os textos não estão simplesmente postos à venda em uma banca de jornal que a menina, a esposa, a mãe e a mulher poderiam comprar.
Vemos que ao mesmo tempo em que eles podem ser consumidos podem também ser discutidos. É proporcionado ao público o discurso da autoridade que ensina, mas que também permite o leitor optar. Ela divulga a melhor notícia, mas cabe a quem lê acatá-la ou não. Uma nova dinâmica social passa a ser fincada e provoca a modificação das experiências e práticas culturais cotidianas.
Para Clarice Lispector é emergente a utilização dos bens de consumo e sua importância dentro do contexto familiar. Percebemos pela condução da linguagem um novo método para lidar com ideias e inovações; um método baseado não somente na utilização do bem, mas na construção da reflexão do processo em torno dos bens, assim como o modo de adquiri-los e utilizá-los. Aqui, a professora Clarice assume também o papel de gestora da informação, que conduz a crônica em nível estratégico, visibilizando a articulação das ideias de mercado associadas à linguagem literária: