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O desenvolvimento humano se dá a partir da interação com o meio. A sobrevivência da criança ao nascer depende da interpretação dos movimentos e expressões da criança pelo. Enquanto cresce, no contato com o mundo, pessoas e objetos, a criança recebe estímulos que propulsionam seu desenvolvimento físico, emocional e cognitivo.

Ao nascer, a criança tem contato com uma imensa gama de sons que fazem parte de seu cotidiano. Através destes estímulos sonoros que a cercam, e da experimentação dos sons, ela desenvolve seus sentidos e constrói seu conhecimento musical. Assim, pensar o ensino musical em um contexto de experimentação é essencial para que as crianças possam vivenciar integralmente o conhecimento, construído a partir do fazer musical dos estudantes, contemplando seus interesses, preferências e saberes (AMARAL; SOARES; SOUZA, 2011, p. 31).

Pensar a música na Escola Básica é pensar no desenvolvimento de um povo com base em sua formação integral. Nesse contexto, a música é reconhecida como forma de representação do mundo, de relação com ele e de compreensão deste mesmo mundo. Para isso, é necessário reconhecer o aluno como capaz “improvisar, compor, interpretar, explorando diversas possibilidades, meios e materiais (...) comunicando-se e expressando-se musicalmente” (BRASIL, 1997, p. 79). Dessa forma, é importante que a escola permita ao estudante que seu imaginário e expressão musical se manifestem nos processos citados acima, oferecendo uma dimensão artística articulada com sua realidade musical. Daí advém a necessidade de propiciar, no contexto escolar, oportunidades de experimentação e criação musicais, elaboradas no cotidiano do estudante. Dessa forma, atividades envolvendo música na escola, relacionadas à criação e exploração de materiais sonoros, são de grande importância para o desenvolvimento musical dos alunos.

Partindo desta ideia, a construção de instrumentos musicais a partir da utilização de sucata e materiais recicláveis, constitui-se de uma importante ferramenta de ensino/aprendizagem da música na escola. Quando se permite à criança tocar, manipular, enfim, experimentar o material utilizado para a produção sonora, ela é estimulada a participar ativamente do processo de construção de seu saber, o que possibilita uma maior identificação com o que é trabalho musicalmente e um maior interesse por parte da criança nas aulas.

As crianças se relacionam de modo mais íntimo e integrado com a música quando também produzem os objetos sonoros que utilizam para fazer música (...). Além do mais, numa época em que o fazer torna-se atividade distante das crianças, que normalmente encontram prontos os produtos que utilizam em seu dia-a-dia, sejam brinquedos, instrumentos musicais ou aparelhos eletrodomésticos, a possibilidade de confeccionar instrumentos artesanalmente assume especial importância. É muito útil construir decifrando “mistérios”, dominando técnicas, aprendendo a planejar e executar, desenvolvendo e reconhecendo capacidades de criar, reproduzir, produzir (BRITO, 2003, p. 69).

Nesse decifrar de mistérios, a oficina de construção de instrumentos se revela como um espaço lúdico de pesquisa e criação, no qual a criança é capaz de aprender brincando. Para Vygotsky (1989), a criança em idade pré- escolar envolve-se pelo brinquedo em um mundo imaginário onde os desejos podem ser realizados para resolver a tensão gerada pela insatisfação na realização do desejo. A imaginação não está presente na consciência de crianças muito pequenas, e é totalmente ausente nos animais: surge originalmente da ação. Assim, a construção de instrumentos musicais, enquanto espaço de brincadeira, configura-se também como espaço de aprendizagem pela ação e pela imaginação.

Outra importante questão diz respeito ao meio ambiente como fonte de conhecimento para a criação artística. Presentes em debates realizados em todos os âmbitos na atualidade, as questões ambientais são também parte do cotidiano do professor de Arte na escola.

Por outro lado, nas aulas de Arte, os alunos podem ainda criar e apreciar produções artísticas que tratem de questões ambientais, pensando em melhorar a qualidade de vida hoje e no futuro. Para isso, professores e alunos precisam refletir sobre questões e processos muitas vezes contraditórios de: respeito e desrespeito quanto à vitalidade e diversidade do planeta Terra e de seus habitantes; co-responsabilidades na preservação, reabilitação ou depredação de espaços e patrimônios físicos, biológicos, socioculturais, entre os

quais aqueles com características estéticas e artísticas; co-responsabilidades no manejo, conservação, transformação de estéticas ambientais no interior e no exterior dos lugares em que vivem as pessoas (BRASIL, 1997, p. 39).

Neste contexto, a oficina de construção de instrumentos é também um espaço de reflexão destas questões, além de espaço de ação no qual se pode contar com uma compreensão diferenciada do mundo e da natureza. Ao aproveitar materiais que de outra forma seriam descartados, transmite-se uma consciência crítica ao cidadão em formação, além de valores e hábitos condizentes com as transformações ocorridas nos últimos tempos. “Parte-se do pressuposto de que reciclar é mais que uma forma de evitar danos maiores ao planeta (...) é verificar uma nova possibilidade de inovar, recriar e aperfeiçoar técnicas” (BERTOLLETI, 2009, p. 3963).

A construção de instrumentos em ambiente escolar pode, ainda, favorecer a integração social para a criança. Ela possibilita o convívio entre os alunos, uma melhor relação com o outro, à medida que constrói, investiga, elabora e desenvolve algo em união com o outro. O trabalhar coletivo na construção dos instrumentos musicais possibilita o desenvolvimento dos processos de sociabilização e da consciência coletiva dos estudantes. Esse espaço, enquanto ambiente de participação, estimula a cooperação e a convivência coletiva.

A Oficina

Para um melhor aproveitamento do tempo, tendo em vista que a oficina teria apenas seis horas de duração, entramos em contato com os alunos para que eles levassem materiais que pudessem ser utilizados na construção dos instrumentos, tais como garrafas plásticas, tampinhas de refrigerantes, caixas de papelão, tábuas de madeira, sementes, latas, garrafões, restos de tecidos e couros de capotarias, palitos de comida chinesa, bolinhas de desodorante, entre outros. Também levamos alguns instrumentos já prontos que servissem como modelos, tais como ganzás confeccionados com vários tipos de materiais, tambores de diversos tamanhos e formatos, cornetas, um tamborim feito a partir de madeira e garrafa plástica, uma flauta de pan e um pífano. Alguns materiais já foram levados prontos para serem montados pelos alunos, a exemplo das madeiras já cortadas, latas de refrigerantes abertas, garrafinhas de iogurte, dentre outros materiais. Foram utilizados pregos, durex, grampos, furadeira, martelo, tesoura e outras ferramentas para a construção dos instrumentos.

A oficina teve início com uma breve explanação teórica, na qual foram descritos alguns procedimentos básicos que seriam utilizados durante a aula. Ressaltamos a importância do domínio técnico por parte do professor ao lidar com determinadas ferramentas durante a construção de instrumentos com as crianças, bem como dos cuidados a serem tomados com relação à dos alunos, tendo em vista que para realizar o trabalho serão utilizados martelos, pregos e outros materiais que podem machucá-los. Além disso, também teve lugar uma discussão a respeito da oficina como instrumento pedagógico a ser utilizado em sala de aula.

Começamos a oficina construindo vários tipos de ganzás. Foram montadas turmas que discutiram e criaram vários instrumentos, a partir de experimentos com os timbres produzidos pelos diversos tipos de materiais utilizados. Com estes materiais, que foram disponibilizados para os alunos para a confecção dos ganzás, pudemos perceber diversas sonoridades, mais graves, agudas, ou metálicas, em função do tipo de material utilizados externa ou internamente em cada instrumento.

Continuamos a oficina com a perspectiva de trabalho em conjunto, separando turmas para construirmos o nosso próximo instrumento, o tamborim de madeira e garrafa plástica. As madeiras, conforme explicado anteriormente, foram previamente cortadas em pequenas tábuas, cabendo aos alunos uni-las numa base de formato quadrado. O

próximo passo foi o corte das garrafas plásticas que serviriam de pele para o tamborim, que foram em seguida pregadas na base de madeira. Para esticar a pele plástica no instrumento, utilizamos velas acesas que aqueceram o plástico fazendo com que ele encolhesse, ficando assim com o som bastante parecido com o do instrumento convencional.

Com canos plásticos de vários diâmetros e restos de couros e tecidos conseguidos em capotarias que revestem bancos automotivos, fizemos os tambores. Primeiro os canos foram cortados em tamanhos variados e distribuídos para as equipes, que em seguida serraram uma pequena parte desse cano para servir de aro para a fixação da pele. Esse aro também foi aquecido com fogo e introduzido por fora do cano, ficando com um diâmetro um pouco maior do que o corpo do futuro tambor. Em seguida, esticamos o couro em uma das partes do cano e o prendemos com o aro já cortado. O excesso de couro foi cortado com uma tesoura, finalizando assim mais um instrumento.

O pau de chuva foi construído pelos alunos a partir de canos de papelão usados para enrolas tecidos. Nesses canos foram introduzidos vários pregos em espiral, formando uma teia em seu interior. Fechamos uma de suas extremidades com fita adesiva e papelão e em seguida introduzimos sementes de feijão pela extremidade aberta, fechada em seguida.

As baquetas para tocar os tambores e os tamborins foram produzidas com hashis57 e bolinhas encontradas

nos recipientes para desodorantes roll-on. Primeiro abrimos um orifício em cada bolinha usando um prego aquecido. Esse furo teve como medida a dimensão do palito para que o mesmo se mantivesse perfeitamente encaixado na bolinha. Para unir um ao outro, utilizamos cola do tipo permanente.

Todos os instrumentos construídos foram decorados de acordo com a criatividade de cada aluno, deixando- os com a característica e o gosto do dono. Para a ornamentação, utilizamos materiais como cola e fitas adesivas coloridas, tinta guache de diversas cores dentre outros. Este último recurso se mostra especialmente relevante quando temos em conta que as crianças poderão se sentir ainda mais integradas ao processo criativo ao participar da construção dos instrumentos do começo ao fim.

Pintar ou decorar os instrumentos também é uma parte importante da atividade. Personalizando os materiais citados, as crianças sentem-se ainda mais motivadas para fazer música com eles – autoras de todo o processo de construção (BRITO, 2003, p. 74).

Entendemos que “tão importante quanto construir instrumentos é poder fazer música com eles” (BRITO, 2003, p. 84). Nessa perspectiva, ao final da primeira etapa do trabalho, passamos à prática musical. A princípio fizemos uma experiência de composição, na qual cada aluno ia criando sons e padrões sonoros com os instrumentos feitos, produzindo assim uma massa sonora que tomava diferentes formas, sempre sob nossa regência e direcionamento para que o andamento e a intensidade fossem por nós conduzidos. Em seguida nos detivemos em dois ritmos brasileiros, samba e baião. Estudamos como executar cada um dos ritmos com os instrumentos que tínhamos em mãos, fabricados há pouco. Ensinamos ao grupo duas pequenas canções criadas especialmente para essa oficina, compostas basicamente de uma parte e com uma harmonia bastante simples para facilitar seu aprendizado e execução pelos participantes com intimidade em algum instrumento harmônico. Seguem abaixo as duas composições com letra, cifra e partitura.

57 Varetas feitas de madeira, bambu, marfim, metal ou plástico, utilizadas como talheres em boa parte dos países do Extremo Oriente.

FIGURA 1 – Sambinha (Fernando Rosa)

FIGURA 2 – Baião de mão (Fernando Rosa)

Para a execução das peças, os alunos foram separados em grupos a partir do tipo de instrumento que tocavam; em um dos grupos havia tambores, em outro, ganzás, em um terceiro os tamborins e no último, paus de chuva. As dinâmicas e os andamentos ficaram ao nosso encargo, e o grupo também contava com o auxílio harmônico de violões tocados por outros participantes, que estavam responsáveis pelo acompanhamento das canções. As músicas foram tocadas e cantadas por todos os integrantes do grupo que ao final puderam levar os instrumentos confeccionados por eles além de cópias das duas composições, para que fosse possível trabalhar com seus alunos em suas respectivas escolas.

Considerações finais

A proposta inicial da oficina “Construção de Instrumentos e Ritmos Brasileiros” era proporcionar aos professores de música das escolas municipais de Sobral um instrumento de ensino que possibilitasse aos mesmos um trabalho de educação musical em sala de aula utilizando a experimentação, a criatividade e a interação social, ao mesmo tempo em que oferecesse uma consciência crítica das questões ambientais que são temas de debate no mundo atual. Podemos dizer, a partir do observado no decorrer da oficina, bem como das declarações dos próprios participantes nos encontros seguintes do projeto, que estes objetivos foram alcançados.

No entanto, mais do que ser ferramenta de trabalho para os professores envolvidos na oficina, a confecção de instrumentos a partir de materiais recicláveis proporcionou aos participantes um espaço lúdico, no qual puderam experimentar a brincadeira como meio de aprendizagem, e dessa forma entender como as crianças reagem e interagem em seu processo de construção do conhecimento. Ao trabalhar com os materiais que eles mesmos trouxeram a partir de seu cotidiano, ao experimentar sonoridades, ao compor coletivamente, ao criar em conjunto a partir das canções

aprendidas em sala, os professores puderam observar seu próprio processo de ensino/aprendizagem. O aproveitamento e a resposta positiva por parte dos envolvidos tornou-se nítido em cada tarefa apresentada.

Dessa forma entendemos que a oficina trouxe uma maior consciência da preparação que o docente deve ter. Para nós, trabalhos como este são de evidente relevância na escola, para que as crianças possam se desenvolver de forma integral e com qualidade.

Referências

AMARAL, Maria Luiza Feres; SOARES, Laísa Carvalho da Silva; SOUZA, Eduardo Venturini. Construção de Instrumentos de Percussão: uma experiência na educação infantil. In: II SEMINÁRIO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO MUSICAL INFANTIL, 5, 2011, Salvador. Anais..., Salvador: UFBA/PPGMUS, 2011. p. 29-37.

BERTOLLETI, Vanessa Alves. A arte de construir brinquedos com materiais reutilizáveis. In: IX CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO - EDUCERE, 9, 2009, Curitiba. Anais..., Salvador: Editora Universitária

Champagnat, 2009. p. 3958-3967.

BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte. Brasília: MEC/SEF,

1997.

BRITO, Teca Alencar de. Música na educação infantil: propostas para a formação integral da criança. São Paulo:

Peirópolis, 2003.

SOBRAL. Impresso oficial do município. Sobral, Prefeitura, 2010.

Dichterliebe (Amor de Poeta): a tradução como ferramenta fenomenológica para a

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