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A fala pode ser um material bastante rico para musicalizar. Por ser elemento da linguagem verbal, da qual fazemos uso em nosso cotidiano, é reconhecida prontamente como significante. No entanto, esse nível de apreensão, pelo qual atingimos o aluno, é ‘transcendido’ quando a palavra se torna veículo para a exploração do sonoro e do musical. Para Penna (1990, p. 75), a fala é um meio eficaz para:

– exercícios voltados para a identificação e manipulação de elementos musicais básicos e a formação dos conceitos correspondentes, principalmente (ou mais facilmente e de modo mais imediato) os relativos ao ritmo e à intensidade; – através da exploração da entonação expressiva, chegar a variações de altura [...]; – evidenciar elementos da construção formal – cânone, rondó, ostinato, imitação etc.; – propostas de improvisações dirigidas, ou para trabalhos criativos mais livres, do tipo Oficina.

Muito embora a autora não priorize o uso da parlenda em si, podemos fazer relações das suas propostas indicadas como guia para diversas experiências, tomando como meio a parlenda recitada. Lembramos que as parlendas utilizadas na pesquisa, como veremos adiante, uniram-se com outras propostas de outro gênero musical, a exemplo do rap.

Até mesmo no ensino de um instrumento musical, a fala ritmada pode levar o aluno à apreensão das questões que norteiam os aspectos rítmicos. No método de flauta doce, proposto por Judith Akoschky e Mário A. Videla (1985), considerado um dos métodos adequado ao ensino da flauta doce voltado para crianças, encontram-se várias atividades que contemplam a fala ritmada. É o caso, por exemplo, dos ditados populares, com a finalidade de vivenciar primeiro o ritmo/fala e, em seguida, o mesmo ritmo da fala seguido de notas musicais na flauta doce. Dessa forma, evidencia-se a fala ritmada como adjuvante nos processos de aprendizagem desse instrumento.

As parlendas, usadas em processos de musicalização, promovem a apreensão de conceitos musicais, especialmente aqueles referentes ao ritmo, além de favorecerem “[...] a vivência de pulsação, durações e apoio, jogos rítmicos e improvisações rítmicas.” (SANTIAGO, 2008, p. 49).

Em outra proposta de trabalho musical, realizado com professores em processo de formação continuada, Queiroz e Marinho (2007, p. 73) observaram a presença e utilização de parlendas, assim como nos apontam os educadores musicais e professores da Universidade Federal da Paraíba:

Utilizando parlendas, músicas diversas e jogos musicais os professores puderam perceber diferentes perspectivas desse trabalho que poderiam ser aplicadas em sala de aula, sendo (re) adaptadas e transformadas a partir das necessidades desses profissionais. Foi enfatizada a riqueza dessa temática para o estabelecimento de uma interrelação das práticas desenvolvidas no âmbito escolar com a realidade sociocultural dos alunos, tendo em vista que em atividades dessa natureza podem ser contemplados contos populares, brincadeiras de cada localidade, bem como música do dia-a-dia dos alunos.

Não poderíamos deixar de citar o professor Helder Parente que dedica parte da sua trajetória à educação musical de uso da fala e, consequentemente, ao uso da parlenda associada aos sons produzidos com a percussão corporal em processos de musicalização. No projeto intitulado Música na Escola, desenvolvido pela prefeitura do Rio de Janeiro, em parceria com o Conservatório Brasileiro de Música, encontra-se uma série de propostas de atividades que podem servir como guia para o professor de música atuar em diferentes contextos escolares. Nele, encontra-se a parlenda Hoje é Domingo (PARENTE, 2002, p. 52), com uma variante da letra apresentada no Cancioneiro da

do pulso alternado nas palmas e pernas, seja falada na métrica binária e, em seguida, na métrica ternária. Por fim, o autor propõe a combinação da métrica binária e ternária. Dessa forma, fala-se a parlenda com diferentes acentuações e elisões. “Na língua falada, os provérbios e ditados se distinguem, nitidamente, do conjunto da cadeia pela mudança de entonação” (GREIMAS, 1975, p. 288). Parente propõe também que a parlenda Hoje é Domingo seja falada com diferentes entonações, ou contornos bem próximos da fala, o que permite mais uma variação na forma de realização da citada parlenda.

No artigo A Parlenda e a construção dos bens relacionais na escola, Batista (2006, p. 9) discute a utilização das parlendas em contextos escolares. Segundo a autora, a utilização das parlendas propicia o

[...] estabelecimento positivo das relações sociais, na formação dos bens relacionais. Aqui utilizamos a metalinguagem de uma nova tendência da economia moderna (BRUNI, 2005, p.47-48 e 63) que se explica da seguinte forma, empregando uma distinção típica de Marx –

bens (porque satisfazem necessidades humanas e têm valor), mas não são mercadorias (não

têm preço, não há mercados onde possa comprá-los). Em particular, os bens relacionais têm necessidade, pela própria existência, de gratuidade.

Observamos que, ao longo das atividades aplicadas com parlendas, o vínculo de afetividade positiva entre aluno/professor se fortalece, na medida em que estas atividades promovem a alegria, a confiança mútua, enfim, o prazer de fazer música de forma diferenciada. Cada sujeito envolvido empresta-se, gratuitamente, na coletividade da sala de aula para, com o corpo percutido e/ou com o seu instrumento musical privilegiado – a voz – participar de uma prática musical pedagógica singular. Isso acontece porque possui poéticas musicais específicas produzidas no contexto da sala de aula.

De acordo com Penna (2005, p. 9), poéticas musicais referem-se a “[...] diferentes estéticas, modos distintos de criação musical, diferentes modos de selecionar sons e organizá-los, criando significações através da linguagem musical”. A autora busca entender a possibilidade de vincular a ideia de poética, comumente aplicada à linguagem verbal, às variadas linguagens artísticas não verbais, relacionando a questão da poética ao processo de criação e de caráter estético tão propício às artes, especialmente à arte musical.

Evidencia-se, assim, que as parlendas se prestam, em contextos escolares, para fins de musicalizar tanto crianças, como adultos. Muito embora outros objetivos extramusicais possam ser contemplados ao tomar as parlendas em diferentes atividades escolares, tais como, entreter, memorizar números, entre outros, nosso foco é a utilização para fins de aprendizagem musical. Vista sob o prisma musical, ou seja, no nível sonoro, elas possibilitam as mais diversas atividades em processos coletivos de criação e elaboração de obras musicais. Observamos, em diferentes contextos, o Cancioneiro da Paraíba resignificado em experimentos sonoros de caráter pedagógico.

Outro tratamento dado à palavra, com base na concepção de música contemporânea, que pode ser experimentado também com as parlendas do Cancioneiro da Paraíba, encontra-se em Schafer (1991, p. 207), no seu livro O ouvido pensante, no qual apresenta relatos de experiências em que se utiliza a voz cantada, recitada, entre outras formas de uso, no capítulo intitulado Quando as palavras cantam.

Para atender as escolas públicas em situações de emergência, uma vez que, geralmente, não possuem outros recursos como instrumentos musicais tradicionais, Penna (1990) sugere a utilização da fala que, aliada aos sons do corpo, constitui-se uma fonte rica de possibilidades sonoras.

São muitos os caminhos possíveis de realização musical quando utilizamos a parlenda como meio de aquisição da linguagem musical. Citamos alguns, tais como falar a parlenda na pulsação, ou seja, para cada sílaba

corresponde um pulso que pode ser executado com palmas ou outros sons do corpo, como: o estalo de dedos; batida dos pés no chão; batida das mãos sobre as pernas; falar a parlenda subdividindo as sílabas em divisões do pulso em dois e quatro; falar a parlenda utilizando variações de intensidade e andamento, respectivamente, forte ou fraco, lento ou rápido; falar a parlenda retirando palavras (aqui, o conteúdo musical vivenciado é o silêncio, uma vez que música é feita de som e silêncio); falar a parlenda acrescentando sons da voz, como estalo de língua, bocejo, realizar sobreposições de ostinato rítmico com a parlenda escolhida e, sobre essa estrutura, abrir espaço para atividades de improvisação.

1.3 Considerações finais

Ressaltamos que as cantigas e parlendas do Cancioneiro da Paraíba, além de promoverem o jogo e a brincadeira, são bastante apropriadas para composições coletivas, especialmente àquelas que podem ser entoadas bem próximas à fala cotidiana.

Acreditamos que este trabalho possa contribuir para aqueles que se interessam pelo ensino da música. Além disso, esperamos que, também, contribua para valorizar as construções populares no âmbito da educação musical do ensino básico, uma vez que tal proposta contempla processos de criação musical coletiva, por meio do uso do

REFERÊNCIAS

AKOSCHKY, J.; VIDELA, M. A. Iniciação à flauta doce: soprano em do... São Paulo: Ricordi, 1985.

BATISTA, M. F. B. de M. A Parlenda e a construção dos bens relacionais na escola. João Pessoa, 2006. (No

prelo).

BELLOCHIO, C. R.; FIGUEIREDO, S. L. F. Cai, cai balão... Entre a formação e as práticas musicais em sala de aula: discutindo algumas questões com professoras não especialistas em música. Música na educação básica:

revista da Associação Brasileira de Educação Musical, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 36-45, out. 2009. GREIMAS, A. J. G. Sobre o sentido: ensaios semióticos. Petrópolis: Vozes, 1975.

MONTEIRO, R. N. C. Análise do discurso musical: uma abordagem semiótica. 2002. 356 f. Tese (Doutorado em

Semiótica e Linguística Geral) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, São Paulo, 2002. PARENTE, H. Ritmo e movimento. Projeto Música na Escola. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2002.

PENNA, M. Reavaliações e buscas em musicalização. São Paulo: Unesp, 1990.

_______. Poéticas musicais e práticas sociais: reflexões sobre a educação musical diante da diversidade. Revista da ABEM, Porto Alegre, n. 13, set. 2005.

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QUEIROZ, L. R. S. Q.; MARINHO, V. M. M.. Educação musical nas escolas de educação básica: caminhos possíveis para a atuação de professores não especialistas. Revista da ABEM, n. 17, 2007.

SANTIAGO, P. F. Dinâmicas corporais para a educação musical: a busca por uma experiência musicorporal.

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SCHAFER, M. O ouvido pensante. São Paulo: Ed. Unesp, 1991.

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