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Resumo: Este artigo tem como objetivo a apresentação de um relato de experiência, desenvolvido em uma escola

municipal, onde a disciplina Música faz parte da grade curricular e traz o desenvolvimento de uma sequência didática que tem como tema a experimentação do Violão, o estudo e a pesquisa do contexto histórico no qual o Violão está inserido, bem como a relação prévia dos alunos com tal instrumento. Buscando, através da realidade musical dos alunos, explorar e fornecer-lhes subsídios para a compreensão de tal instrumento, bem como de quatro estilos musicais nos quais o violão foi presença constante e marcante, como o Choro, o Samba, a Bossa Nova e a MPB nas aulas de educação musical do ensino fundamental II.

Palavras-chave: Música, Educação, Violão.

1. Introdução

A partir um projeto desenvolvido nas turmas do ensino fundamental II em uma escola municipal na qual trabalho no ano de 2011, com duração de dois meses, cujo objetivo era o de estimular a experimentação de um instrumento, o Violão e conhecer outros artistas, bem como a história do violão no Brasil e sua riqueza musical, observamos problemas e soluções encontradas na prática docente do ensino da música na escola regular. A sequência didática, mostra como foram amenizadas algumas dificuldades encontradas pelo professor que se depara com um novo momento da educação musical, onde a comunidade escolar não tem uma visão adequada do que seja tal ensino. O fato de a música ter “voltado” às escolas como obrigatoriedade, passados tantos anos acarretando mudanças de

objetivos, é um dos fatores que dificultam ou até impedem muitas vezes, o desenvolvimento do ensino, de acordo com as necessidades de cada contexto.

Como colocar em prática os conteúdos nas mais diferentes condições escolares, e o que se leva em conta ao priorizar tais conteúdos, quando as escolas na maioria das vezes, não estão preparadas para receber aulas de música? Como desenvolver maneiras atraentes e envolventes para introduzir os conteúdos necessários e adequados para a formação de um ouvinte crítico e consciente?

Um questionamento é constante para o educador musical, face à realidade que se apresenta. Afinal, qual a função da música na escola, diante de uma realidade, ainda impregnada de vícios, que mascaram os objetivos da música para crianças e jovens, no contexto atual? Como afirma Zampronha (2007, p.128), “a prática Música não só

fornece condições para a compreensão e expressão de um fluxo de ideias e emoções como permite que os educandos operem semióticas que resultem em sentido para suas vidas.”

Sendo assim, a atividade desenvolvida tinha como objetivos: tornar próxima dos alunos a Música, seus elementos e seus conteúdos, o despertar da compreensão da história e de como a Música se transformou e se

transforma com o passar do tempo e a percepção de técnicas diferentes para conseguir determinado som, expandindo o conhecimento além da “batida ou do uso da “paleta”, e enfim, a compreensão e assimilação do “mundo” musical em que estão inseridos.

2. O fazer musical como motivador de todas as atividades musicais.

O fazer musical deve ser o motivador de todas as atividades nas aulas de música. Não será profícuo desenvolver atividades muito elaboradas, recheadas de elementos musicais e não desenvolver a experiência musical propriamente dita, vivenciada, como cantar uma música em grupo, por exemplo. Ou isto ser feito o mínimo possível.

Portanto, talvez seja este um dos maiores problemas para o professor de música na escola regular: dividir o pouco tempo semanal do qual dispõe, geralmente de quarenta a cinquenta minutos e salas frequentemente com mais de 30 alunos, de modo a poder abordar todas as necessidades da educação musical de maneira adequada e eficaz.

Como utilizar esse mínimo tempo para obter um resultado satisfatório? Descansar quanto à justificação da disciplina já é um começo. Enquanto tentamos justificá-la, perdemos o precioso tempo de vivenciá-la e de forma agradável com os alunos. Infelizmente está incutido na sociedade na qual vivemos que as disciplinas de Artes são apenas “brincadeiras”, momentos de descontração, então enquanto nos preocupamos em mostrar os conteúdos implícitos e o quanto Arte/Música é importante, perdemos ótimas oportunidades de vivenciá-la sem as pressões externas. Muitas vezes, nós educadores musicais, é que trazemos tais pressões para dentro das nossas aulas e acabamos sofrendo muito para desenvolver uma disciplina que é completamente contrária ao sofrimento, aos traumas. Música deve trazer alegria à alma.

Há a alegria de fazer Música junto, desde o canto em corais até a participação em um conjunto de rock: trata-se de coletivos que, ao mesmo tempo, perseguem um objetivo musical e o projeto de se constituir de se vivificar como grupo solidário; os participantes se rejubilam com o poder e a emoção coletivos; estruturas e regras se criam pouco a pouco e estabelecem assim sua validade; em resumo, há uma diversidade que tende à unidade, na qual cada parte acha apoio nas outras e se fortalece com as outras. (SNYDERS 1992, p.88 apud LOUREIRO 2003, p.178)

Nós, educadores musicais, seremos responsáveis pelas impressões e compreensão de música que nossos alunos terão por toda a vida. Nosso objetivo na educação musical na escola regular não é de formar músicos, instrumentistas, mas de oferecer aos alunos condições de apreciar as músicas através de seus elementos e de ter experiências musicais que mostrem o quanto a música pode nos trazer satisfação. É ainda papel principal da educação musical, sensibilizar. Na verdade, acredito que é o seu primordial papel: sensibilizar para a arte, para a vida.

Portanto, priorizar atividades nas quais os alunos possam experimentar instrumentos, cantar, tocar acompanhando uma melodia, criar e recriar músicas, tendo os seus elementos abordados através dessa prática, formar grupos de flauta doce, de violão ou de qualquer instrumento que o professor domine e desperte o interesse do aluno, desenvolvendo apresentações, tudo de maneira tranqüila e alegre, sem ceder às pressões de interpretações perfeitas, pois como já foi citado, a educação musical na escola vem para trazer experiências musicais e não formar músicos. O aluno tendo boas impressões e experiências marcantes, poderá se interessar em aprender a tocar um instrumento ou cantar. Um aluno bem estimulado jamais deixará a música fora da sua vida e estará sempre sensível a novas descobertas.

3. A importância da Educação Musical, segundo alguns Autores/ Educadores

Para Loureiro (2003), a importância da educação musical é justificada:

Pela função de promover o desenvolvimento do ser humano, não por meio de adestramento e da alienação, mas por meio da conscientização da interdependência entre corpo e a mente, entre a razão e a sensibilidade, entre a ciência e a estética. É o caso de abrirmos espaço para a liberdade da criação e da recriação do discurso musical, por meio da ação própria do sujeito sobre o material sonoro. (LOUREIRO, 2003, p.142)

Sendo assim, o estímulo à criatividade é necessário para que o aluno possa ter a possibilidade de se expressar de outras maneiras. Através da criatividade, audição de Músicas que não conhecem, interpretação e até recriação dessas Músicas ou seja, lançando mão da Música de maneira inteligente, para recriar um discurso ou apenas experimentar...tudo isso traz consigo essa liberdade de criação e recriação musical, artística despertada através da Música e de sua recriação. Segundo Zampronha (2007), a prática da Música não pode se limitar a meras repetições infundadas...

Para além da lógica e do pensamento rotineiros, dominando procedimentos libertadores e otimizando funções cognitivas e criativas, a vivência musical que se pretende na educação não diz respeito apenas ao exercício de obras caracterizadamente belas, assinaladamente bem- feitas, mas sim todas as que motivem o indivíduo a romper pensamentos prefixados, induzindo-o à projeção de sentimentos, auxiliando-o no desenvolvimento e no equilíbrio de sua vida afetiva, intelectual, social, contribuindo enfim para a sua condição de ser pensante. (ZAMPRONHA, 2007 p. 128)

Portanto, ao contrário do que muito já se fez, o bom não é apenas repetir as músicas, mas interpretá-las com sentimento e lançar mão da recriação também. Essas são maneiras para se vivenciar Música de forma mais intensa e criativa. Para Penna (2008) a concepção da musicalização é tida:

Como um processo educacional orientado que, visando promover uma participação mais ampla na cultura socialmente produzida, efetua o desenvolvimento dos instrumentos de percepção, expressão e pensamento necessários à apreensão da linguagem musical de modo que o indivíduo se torne capaz de apropriar-se criticamente das várias manifestações musicais disponíveis em seu ambiente... Esse é o objetivo final da musicalização, na qual a música é o material para um processo educativo e formativo mais amplo, dirigido para o pleno desenvolvimento do indivíduo, como sujeito social. (PENNA, 2008, p.47)

4. O Violão como instrumento de experimentação e pesquisa no ensino fundamental II

Alicerçado nas concepções acerca da educação musical supracitadas, tal relato de experiência traz um projeto onde a experimentação, a educação a partir de conhecimentos prévios dos alunos, a introdução de novos conceitos, a pesquisa e apresentação de suas descobertas são primordiais para o processo ensino- aprendizagem da Música na escola regular.

Em tal experiência, realizada entre os meses de Agosto e Setembro de 2011, foi abordada desde a constituição física do instrumento Violão, passando pelos conhecimentos prévios dos alunos, investigação e reconhecimento do timbre do instrumento, diferenças e semelhanças entre o Violão e a Guitarra, a audição de músicas de outras épocas e contemporâneas, pesquisas acerca da história do instrumento, compositores e estilos musicais.

Utilizando da constante presença do instrumento na realidade musical dos alunos, decidi explorar e dar- lhes subsídios para a compreensão e experimentação de tal instrumento nas aulas de educação musical no ensino fundamental II. O violão está presente na escola (há dois violões disponíveis para as aulas), porém, o número de alunos por turma é muito alto (em média, há 35 alunos por turmas, com turmas variando de 30 a 42 alunos). Encontramos, assim, o primeiro grande obstáculo: Como estimular a experimentação com tantos alunos, com tão poucos instrumentos e em tão pouco tempo, sendo a aula de Música vivenciada apenas uma vez por semana.

A estruturação do projeto foi planejada para que houvesse a experimentação do instrumento desde a primeira aula, estimulando, assim, o contato direto com o fazer, para, a partir disso, introduzir as questões teóricas de constituição do instrumento, quantas cordas o instrumento possui, quais são as cordas e que relações há entre elas, como o som é produzido... Com apenas dois meses para execução do projeto não seria possível um estudo mais aprofundado, como o ensino de acordes e acompanhamentos para alguma música mais elaborada, por exemplo. Portanto, experimentaram as cordas como quiseram e em seguida os acordes de C(dó), G(sol) e G7(sol7) foram mostrados de acordo com o livro adotado (para essa atividade) para o ensino do violão que se desenvolve a partir de acordes simplificados. Tais acordes foram exemplificados e experimentados pelos alunos como demonstrado nas imagens do Livro “Children’s Guitar Chord Book” utilizado nas aulas (Figuras 1, 2 e 3). Em seguida, realizamos a audição dos Cds que foram levados por mim e pelos alunos, para, através da percepção, reconhecer o timbre do instrumento. Desenvolveram também pesquisas sobre a história do instrumento e principais instrumentistas e compositores brasileiros através do estudo dos estilos musicais onde o violão predomina ou desempenha papel importante como o Choro, o Samba, a Bossa Nova, e a MPB.

FIGURA 1 - Acorde de C(dó) simplificado FIGURA 2- Acorde de G7(Sol7) simplificado

FIGURA 3-Acorde de G (Sol) simplificado

5. Conclusão

Diante do relato de experiência descrito, percebemos que ainda há muito o que concretizar para que a disciplina Música seja encarada como uma disciplina séria e relevante para o crescimento cognitivo e da sensibilização do ser. A música personagem principal de nossas vivências na educação musical, precisa ser tratada com respeito, de modo que não a coloquemos a serviço de algo ou de outra disciplina, mas que ela realize trocas com as outras disciplinas para que cada uma delas obtenha êxitos. O objetivo da Música na Educação Musical na escola regular deve ser de trazer sua vivência às práticas escolares, para que assim, o indivíduo tenha a compreensão do mundo musical a que está exposto.

O educador musical, preocupado em trazer atividades que façam o aluno compreender os elementos musicais, deve se esforçar no intuito de trazer sempre atividades bem elaboradas e com a apreciação de músicas de qualidade e execução de tais para que o aprendizado venha a ser mais completo. Lançando mão de leituras de livros que discorram sobre a educação musical, audição de materiais dos autores, audição de músicas de todos os tempos e lugares a que ele possa ter acesso, experimentação de atividades, criação de novas atividades inspiradas em suas leituras e vivências musicais e educativas e também da observação das reações de seus alunos à disciplina, pois isso passa a ser como um termômetro para medir o interesse dos alunos pela música e assim saber quais estratégias manter ou mudar.

O estudo do educador nesse sentido deve ser constante. Não apenas no sentido de avaliar e reavaliar materiais e o seu processo de ensino, mas de seus estudos enquanto músico. Retomar os estudos de um instrumento, passar a estudar um novo instrumento que desperte o seu interesse, cantar, cantar sempre, tocar ou cantar em um grupo. Isso tudo traz de volta para nós, educadores musicais, o prazer de vivenciar a música, pois ao nos preocuparmos em desenvolver as aulas e fixar conteúdos relevantes para a compreensão da música, muitas vezes deixamos de lado a sua prática, o prazer de fazê-la. Ouvir muita música também é imprescindível. O treino do ouvido musical tem que ser constante para que possamos desenvolver um “ouvido pensante” como diria Schafer. Senão, como daremos a nossos alunos uma compreensão musical se não a tivermos? Música é para ser vivenciada, vivida, experimentada e aproveitada. Não devemos esquecer que a música traz experiências que a linguagem não pode explicar. Tudo aquilo que não podemos ou não conseguimos expressar através de palavras, podemos fazê-lo através da música.

É certo que ainda precisamos de apoios que estabeleçam melhor a música no contexto escolar, por isso a adequação dos PCNS de acordo com cada contexto faz-se constantemente necessária. Suas orientações são indispensáveis para nortear a nossa prática enquanto educadores, porém, a maneira como desenvolveremos a nossa prática só pode vir dela mesma, associada, é claro, às leituras e buscas por uma educação musical de qualidade.

Enfrentemos, portanto, as dificuldades que nos são impostas diariamente, quer seja através de diretores, coordenadores ou pais, falta de recursos disponíveis a uma prática mínima da música, quer seja pelo nosso próprio perfeccionismo, com a consciência de que se errarmos o estaremos fazendo pela constante vontade de acertar e é através de nossos erros que aprenderemos a melhor maneira de educar musicalmente.

Referências

BAY, William Children’s Guitar Chord Book E minor, 2000 Mel Bay Plublications, Inc, #4 Industrial Drive,

Pacific Mo 63069, 2000

D’OLIVET, Fabre. Música apresentada como ciência e Arte. Tradução de Marielza Corrêa. São Paulo, Madras, 2004

LOUREIRO, Alícia Maria Almeida. O ensino de Música na Escola Fundamental. Campinas, Papirus, 2003.

PENNA, Maura. Música(s) e seu Ensino. Porto Alegre, Sulina, 2008.

SCHAFER, Murray. O ouvido pensante. São Paulo, Edunesp., 1991

SWANWIK, Keith. Ensinando música musicalmente. Tradução Alda Oliveira e Cristina Tourinho. São Paulo,

Moderna, 2003

ZAMPRONHA, Maria de Lourdes Sekeff. Da Música, seus usos e seus recursos. São Paulo, Editora UNESP,

2007.

Educação musical e relações étnicas: transitando entre as Leis nº 11.645/08 e nº

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