O encantamento evidenciado pelos professores bacharéis na fase de entrada no magistério superior está vinculado ao entusiasmo inicial de poder exercer a profissão e às descobertas do início da docência que emergem no mundo ainda desconhecido da prática docente. É na experiência vivenciada no cotidiano da prática de ensino que esses professores experimentam o sentimento de descoberta, o sentir-se profissional. Esse sentimento funciona como mola propulsora para a sua permanência na profissão docente. Apesar da insegurança, os professores bacharéis iniciantes demonstram satisfação por estarem inseridos no mercado de trabalho atuando como professor universitário e pelo status profissional. Isso nos é evidenciado na fala de Rogério, quando afirma: “[...] minha principal preocupação e que me gerava instabilidade emocional era: eu estou fazendo o meu trabalho da forma que deve ser feito? [...], mas, comigo mesmo eu pensava – estou aliviado porque eu estou atuando”.
Todavia, a incerteza de estar executando corretamente a prática docente leva Rogério à angústia, pois tem consciência de que os seus saberes não são suficientes para o exercício da docência. Assim como Rogério, os demais entrevistados reconhecem a fragilidade da sua
formação para a prática de ensino, o que lhes causa medo, angústia e tensão. Contudo, eles partem para o enfrentamento das dificuldades pelo entusiasmo da entrada na profissão e por acreditarem que poderão adquirir saberes para a docência na prática de ensino e na formação continuada. Esses saberes que acreditam adquirir no exercício da docência, aliados aos saberes das experiências que trazem da trajetória de vida, herdados e construídos em suas diversas pertenças e instâncias formativas, especialmente das experiências de alunos, são entendidos como contributos importantes e necessários para o seu fazer inicial.
Desse modo, o encantamento permite aos professores bacharéis iniciantes encararem o seu trabalho de forma positiva8, visto que o professor em sua prática mobiliza diferentes saberes
e que cada um deles tem utilidade e relevância para o seu fazer docente. O saber dos professores, como assevera Tardif (2011), representa uma combinação de variados saberes que se originam de diversas fontes. Esses saberes são construídos, relacionados e mobilizados pelos professores conforme as exigências de suas atividades. Assim, ao longo da trajetória profissional, os professores constroem e mobilizam uma diversidade de conhecimentos, habilidades e estratégias que vão compondo um amálgama de saberes de forma peculiar ao seu ser e fazer docente.
Os bacharéis ressaltam que, em meio as dificuldades que eles precisam enfrentar na fase inicial da prática de ensino, as descobertas no cotidiano da docência os levam a aprendizagens significativas para sua vida pessoal e profissional, como também os estimulam a permanecer na profissão. Antônia, como bem vimos no capítulo anterior9, revela que na sua experiência inicial docente, ainda como professora substituta, descobriu que havia outros espaços além do jornalismo, os quais ela poderia utilizar como instrumento social para auxiliar pessoas a se transformarem e contribuírem para transformação do meio em que vive. Para essa interlocutora, a sala de aula é um desses espaços onde “[...] eu podia plantar uma sementinha nas pessoas de que elas podem fazer diferente, que elas não precisam ser iguais. Pode ser na comunicação, pode ser na administração, mas através da educação elas podem, mudando a si mesma, mudar o ambiente a qual elas estão inseridas”.
Antônia demonstra sua satisfação em poder exercer a responsabilidade social que sempre defendeu. No exercício da docência, ela foi percebendo que tinha mais autonomia e, portanto, mais possibilidades e oportunidades de contribuir para a transformação social das pessoas mais vulneráveis. Cada nova experiência em sala de aula lhe proporcionava descobertas
8 Sobre esta questão ver na introdução, item 1.3.1 – O saber dos professores, quando nos referimos aos saberes
que constituem a base para o ensino, segundo Tardif (2011).
sobre a educação como ação social, pois ia entendendo que é possível ao professor fazer diferente na prática de ensino. A cada descoberta, Antônia ratificava a sua compreensão de que a instrução e o saber podem levar à transformação das pessoas por elas mesmas, o que a motivava a permanecer na docência. O pensamento de Antônia nos remete ao sentido dado à educação por autores como Freire (1983) e Giroux (1997), em defesa de uma pedagogia crítica. Para Freire (1983), esse tipo de pedagogia é uma alternativa significante e oferece possíveis saídas em direção a uma concepção de educação crítica, transformadora e emancipatória, sob a crença na capacidade do sujeito de ser mais. Nessa perspectiva, ele advoga que, a partir da prática dialógica, o sujeito desenvolve suas potencialidades de comunicar, interagir e construir o seu conhecimento, otimizando a sua capacidade de decisão e humanizando-se. Giroux (1997) corrobora essa compreensão ao defender o professor como um intelectual transformador, isto é, aquele que interage com seus alunos auxiliando-os no desenvolvimento de conhecimentos e habilidades, preparando-os para o mundo. Conforme o referido autor, esse tipo de professor parte da reflexão de como fundamentar suas atividades em um discurso moral e ético pautado na preocupação com a realidade do educando. Nesse sentido, ele aponta para um perfil de profissional capaz de articular e desenvolver possibilidades de emancipação em espaços mais específicos.
Assim como Antônia, Álvaro também ressalta sua descoberta sobre o verdadeiro valor da docência a partir das dificuldades que enfrentou no início da carreira, pois elas “[...] me fizeram ver que este é um trabalho muito importante [...]”. Álvaro enfatiza ao perceber que “a docência é um trabalho muito importante, aí eu disse: eu quero”. Como argumenta o interlocutor, a profissão técnica de administrador é subvalorizada, pois “tem muita gente que brinca de ser administrador, tem muito discurso, tem uma boa lábia e acha que isso é suficiente para uma boa gestão”. Para o interlocutor, é preciso uma melhor preparação técnica aos futuros administradores para que possam desenvolver suas atividades profissionais de forma mais eficaz, preparação que somente é possível por meio de uma boa formação. Sendo assim, o papel do professor como mediador e organizador do ensino é fundamental na construção de conhecimentos e requer dele uma postura de mediador pedagógico, e não de transmissor de informações.
A intenção de Álvaro, na condição de docente, é contribuir para a melhoria da formação de futuros administradores, pois entende que, para ser um bom administrador, “é importante que você tenha uma boa capacidade interpessoal, mas também tem técnicas aqui que precisam ser aprendidas. Sabendo dessas técnicas, eles podem dar voos muito maiores”. Assim, estar na docência o estimula pela possibilidade de auxiliar os graduandos a construírem os saberes da
profissão e desenvolverem-se como pessoa e profissional para a conquista da empregabilidade. Desse modo, explica Álvaro que “estimula muito ver como está a nossa profissão hoje [...] e saber que a gente pode formar administradores [...] melhores”.
Com essa mesma compreensão de contribuir para a melhoria da qualidade do ensino, Mari, que fez sua graduação em Ciências Contábeis, afirma: “eu vi muitas coisas no curso de graduação que eu fiz, [...] tem tanta coisa que a gente poderia ter estudado e não aprendeu, porque eu vejo muita endogeneidade aqui no departamento e, tipo, eu não quero repetir aquilo [...]”. Mari ressalta que uma das motivações que a levaram à docência foi a possibilidade de melhorar a formação dos graduandos. Ela entende como um descaso o desinteresse de alguns professores pelo resultado do próprio trabalho, pela despreocupação e desinteresse em fazer com que o seu trabalho atenda a finalidade da ação educativa, por não “[...] tentar contribuir, o mínimo que seja, para que pessoas consigam alcançar passos ou voos mais longos [...], poder incentivar pessoas a alcançarem coisas, tipo ‘vá adiante, tem como’ [...]”.
As falas de Antônia, Álvaro e Mari revelam o entusiasmo pela docência em virtude do sentido que dão à educação como uma ação social. Eles acreditam que por meio da docência podem contribuir para a melhoria da formação das pessoas. Embora a satisfação de Antônia pela docência se revela pela ideia da possibilidade de transformação política do indivíduo e, no caso de Álvaro e Mari, pela possibilidade de transformação desse indivíduo a partir da qualificação técnica para que tenha maior condição de empregabilidade, isto é, para que tenha maior capacidade de ser empregável e empreender, todos têm em si o propósito de mediar a construção de saberes para a melhoria da vida das pessoas.
Esse sentimento de prazer e de satisfação por estar na prática docente e contribuir para a transformação das pessoas a partir da construção de saberes também foi verbalmente expresso nas falas de José, Jorge, Juliana e Maria. Para José: “[...] é querer ajudar as pessoas a construir, fazer parte, facilitar a construção do sonho de alguém”. Jorge explica que é “[...] ajudar pessoas a se desenvolverem e consequentemente desenvolverem as empresas”. Juliana enfatiza: “é mais querer ajudar o aluno a conhecer e ser alguém”. Maria complementa: “sempre gostei de ajudar, de passar informações para outras pessoas”. Portanto, estar na docência para esses interlocutores é possibilitar a produção de conhecimentos, ou seja, é nortear os alunos para a sua autotransformação.
O discurso do encantamento se faz como discurso do futuro e da esperança – de querer se superar, de dúvida e alívio porque está atuando, como explica Rogério; de acreditar que instrução pode levar à transformação das pessoas por elas mesmas, na fala de Antônia; e de acreditar que podem melhorar a formação, tal como Álvaro e Mari. Nessa perspectiva, esses
professores encontram o sentido da sua prática docente no poder de mediar a transformação de pessoas.