As gravações referentes aos oito meses de idade dos bebês iniciaram, ambas, com os mesmos sobre o tapete de suas salas, brincando livremente com seus brinquedos. A pergunta sobre o que querem continua presente, em ambas as mães, mas agora os bebês sonorizam após as perguntas maternas. Desse modo, F e M respondem às frases interrogativas, tanto de P quanto de suas respectivas mães, mesmo que elas não tenham a prosódia específica do mamanhês.
Chamamos de resposta por sua equivalência no tempo dialógico, preenchendo justamente o turno da troca, por exemplo:
– MF: “E onde é que o nenê tem que colocar?”. – F: “Ãmããe.”.
– MF: “Aonde que a F tem que colocar?”.
Além da resposta e do diálogo, trabalhamos que, nos endereçamentos do agente materno, a mãe produz intervalos, silencia, sustentando uma matriz dialógica, isso porque supõe que o bebê tem algo a dizer, sustenta aí um desejo. No momento, notamos os bebês engajados numa alteridade.
Esse momento lógico comparece junto às perdas vocais da etapa dos balbucios linguísticos. Conforme Porge (2014), na tentativa de adaptar seus vocalizes à fala, há produção das primeiras perdas vocais do sujeito em constituição. Aos oito meses de idade dos bebês, percebemos as vocalizações relativas aos balbucios linguísticos. F, por exemplo, faz: “Bum, bum, bum” e M, “iéiéiéié”, “abuu, abuu, aaa”. Trata-se de um tempo de interrupção em que as capacidades fonéticas parecem cambalear, visto que os bebês não têm mais todas as capacidades vocais que se evidenciavam nos balbucios iniciais. (GORENBERG, 2016).
Nessa adaptação, o bebê sacrifica sua voz, uma parte de si mesmo. Em nosso estudo, ligamos a função de a, voz enquanto resto, à experiência do ponto surdo (VIVÈS, 2016a), desde a aparição do outro não surdo, capaz de ouvir o sujeito num gesto de reencontro que movimenta a pulsão. (Informação verbal)
É interessante observar que os linguistas também concebem um ensurdecimento nessa etapa dos balbucios linguísticos, o ensurdecimento à língua estrangeira, que denota o emolduramento sonoro no qual, ao fazer uso da língua, o infans “ensurdece” a outras línguas, não nacionais. Temos, nesse movimento, a hipótese de reencontro na representação, que presa pelo reaparecimento subjetivo do objeto externo. Sabemos que, diante desse reencontro, a música da língua começa a emudecer, mas estará sempre ali, prestes a se manifestar. Com Melman (1992) atentamos ao fato de que, mais tarde, adultos, os sujeitos manterão a melodia da sua língua ao falarem uma língua estrangeira. O canto da fala é o que recusamos abandonar, falamos uma língua estrangeira e continuamos a utilizar a música da língua nacional.
Assim, são concomitantes os reencontros das representações e o ensurdecimento da música da língua, visto que a melodia da língua se perde na dimensão do enunciado. Na medida em que o sujeito tenta falar para significar,
perde a sonoridade da fala. Para Vivès (2012), a voz é a parte do corpo que se deve pôr em jogo para que um enunciado se produza, ela é o suporte da enunciação discursiva e desaparece por trás do sentido. Assim, a fala vela a voz e, inversamente, quando algo altera o enunciado significante, a voz cessa de se fazer transparente ao sentido. Para Vivès (2009a, 2012), essa seria a voz do endereçamento, momento em que o sujeito toma a voz como própria. Já colocamos em discussão a tomada de voz como própria, falar como Eu (moi) diz sobre a apropriação dos contornos vocais pelas vias identificatórias.
Nesse processo, adequam-se a imagem sonora que a criança produz e a imagem sonora que escuta das pessoas que estão a sua volta. (COSTA, André, 2015). Esse fato, o temos na pesquisa. Em um momento, MF pergunta o que F quer e segue: “quer o papai? Cadê o papai do nenê?”. Ela parece responder por F, mas agora, de maneira bem cadenciada, dividindo as sílabas: “Pa-pai, pa-pai”. Diante da candência materna, F enuncia “atata” e repete “ta-ta” com segmentações. Observamos, conforme exposto por Jerusalinsky, J. (2004, 2009), que, nesse momento de perda, os balbucios são mais segmentados e possuem mais articulação fonética. Diante disso, MF sobrepõe seu “Pa-pai”.
É interessante que MF sobreponha as vocalizações de F justamente com o apelo paterno65 e, ainda, de uma forma intervalar. O saber materno sobre o que fala a filha soa interdito pelo desejo do pai, e esse interdito sobrevém como um imperativo sobre a língua a ser falada. Há tentativas de soar um “p” no lugar de “t”, percebemos como F tenta contornar seus movimentos labiais para as sonorizações, mas, após as tentativas, sem sucesso, ela solta uma longa vocalização melodiosa.
Os movimentos labiais são relevantes quando a mãe solicita que F olhe para seu rosto: “F, olha aqui!”, e faz movimento com os seus lábios, sussurrando algumas palavras; F movimenta os seus lábios também, mesmo que não sonorize com eles. Vemos aqui um lugar de troca erógena bastante delimitado, a borda labial pela qual F goza das trocas com a mãe – bordeia os lábios e sorri. Mas o que se corta na boca/lábio que não sonoriza?
Lembremos que, para Lacan (2005/1962-63), os lábios que efetuam a função de borda da pulsão são encarnação de um corte do objeto. O que acabamos de relatar parece justamente isso, a função do corte posta em cena. Na pulsão, algo se
destaca, mutila-se, perde-se, mas isso que se perde tem a condição de cavo, é apenas um cavo que será contornado. É muito interessante percebermos, então, que temos aqui voz na condição de a, voz que nem mesmo ecoa, que simplesmente está suposta numa abertura e numa escansão. (PORGE, 2012, 2014). Mesmo sem ecoar, parecem lábios como cartas fechadas, envelopes selados. (LACAN, 2005/1962-63). Parecem lábios dimensionados na circularidade pulsional em que aparece o outro não surdo, capaz de ouvir “coisas” onde não existe sonoridade e de quem o sujeito busca os ouvidos, oferecendo a sua voz.
Conforme Oliveira, L. (2002) na medida em que a pulsão se atrela à língua, o Inconsciente se inscreve no social. Sustentamos que o sujeito que opera, com a voz, seu laço com o outro, implica sua economia psíquica na abertura e no fechamento ao outro. Como vimos na seção anterior, o sujeito que se abre e se fecha o faz porque a matriz simbólica permitiu que um sujeito estivesse se estruturando pela linguagem. F agora gargalha, com interrupções, e chora, sustentada numa estrutura de linguagem. Em um princípio de choro, por exemplo, que ocorre quando F não consegue alcançar um objeto, a mãe determina: “Pega!”; F suspende o choro e consegue alcançar, ao que sorri com prazer. O mesmo ocorre com M, que choraminga quando MM retira uma caixa de papelão com a qual brincava, mas suspende seu choro após a mãe iniciar uma brincadeira com ele.
Com oito meses, F também já faz “Aquelas brincadeiras, aquelas coisas dela que chamam a atenção da gente” (MF), além disso, suas conversas estão muito no “ta, ta”. Segundo a mãe, o pai diz não conhecer nenhum “Tatata”, apenas o “Papa”. MM, por sua vez, lê, nos “tatas” cadenciados de M, uma música para o “tata”, evidenciando se tratar do papai. Temos aqui a indicação babyish, antecedente dos monólogos de berço para Ferreira (2015), que se manifestam no balbucio de valor linguístico, por adotarem uma forma que pode ser identificada pelo ouvinte, no caso, os pais, como um som da linguagem convencional. A autora demarca a saliência da dimensão vocal, que se revela na forma do corpo sonoro, como ocorre nos monólogos.
O que salientamos, da aproximação com os monólogos, é o deslizamento empreendido pelos bebês. Todavia, os babyish têm uma condição que difere das metonímias dos monólogos, eles não estão na dimensão de resto, colocam-se na presença de outrem e apoiam-se em objetos externos – não somente o vocal.
Mesmo na presença de MF e P, observamos momentos em que F encontra-se “sozinha” com seus brinquedos. Numa tentativa de encaixe de quadradinhos de brinquedo no orifício de um recipiente maior, divaga com suas sonorizações.
Encontramo-nos no tempo de passagem pelo jogo de vocalizações no qual os sujeitos gozam da matéria sonora para seu próprio prazer. (PORGE, 2014). Nas divagações vocais de F, temos o movimento autoerótico do segundo tempo pulsional, quando a criança pode se satisfazer com as partes do próprio corpo, como acentuou Freud (2015/1925). Como sustentamos com Laznik (2004), esse tempo autoerótico é válido após a passagem pelo terceiro tempo pulsional, o se fazer escutar na pulsão invocante.
Entendemos que o próprio prazer aqui evidenciado é balizado pela fala, na relação com os objetos do mundo, com os quais podem operar numa condição de alteridade e pelas referências terceiras da fala sonorizada, que manifestam um movimento da linguagem, mesmo que ainda não possam deslizar com desembaraço pelos significantes. Segundo Jerusalinsky, J. (2004), para os bebês que ainda não podem deslizar com desembaraço, a entoação tem peso fundamental no que é dito, e o auge dos parâmetros entoativos e temporais das produções sonoras dos bebês ocorrem aos oito meses de idade. Foi o que percebemos em nossas observações, a incidência de tipos prosódicos em balbucios extensivos, por exemplo, quando F produz “Ba, ba - da, da, da” (10:31 – 10:34), e M vocaliza de forma cadenciada: “ta- ta-ta-ta-a-a-a-a” (9:56 – 10:05).
Em relação à fala das mães, observamos, nesse período, a redução das variações na produção do mamanhês em MM, mas, em MF, apenas evidenciamos que elas se entrecruzam com a modalidade de fala endereçada ao adulto. Os bebês relacionam-se com tais falas de modo análogo, como explicitado no início desta seção.
Quanto à prosódia dos bebês, para Dodane (2015), já com nove meses, as crianças contêm as caraterísticas rítmicas e entoacionais da língua materna, produzindo configurações melódicas de frases sobre as quais serão alocadas a língua. Dessa forma, esses padrões melódicos serão usados pelos bebês nas etapas do balbucio diversificado66 e na etapa holofrásica67, na qual as primeiras
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Balbucio linguístico.
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As holófrases, palavras-frase, são amálgamas de elementos não perfeitamente lexicalizáveis. Há apreensão lexical quando uma palavra exporta sua significação, ao ser deslocada a outras posições
palavras emitidas pela criança preencherão tal padrão. A prosódia seria, então, como a “coluna vertebral” que estruturaria a protolinguagem, acolhendo as primeiras palavras.
Nessa visão, é como se a prosódia fosse um leito sobre o qual se deitam as sonorizações infans, mas a cama que conhecemos, como dissemos, é a cama de reserva inconsciente de Lacan (1998/1964), quando este se refere aos monólogos infantis como jogos propriamente sintáticos. Tais jogos se dão sobre o discurso Outro pelo qual vemos desdobrar-se a cadeia significante, mas o sujeito a experiencia de um modo muito particular, em seu andamento, a partir do andamento Outro que ressoou corpo infans.
O que se singulariza na experiência infans é seu resíduo de marcação temporal, que vimos contemplado nas escansões do andamento. Na escansão que a linguagem transmite, o sujeito cede algo de suas escansões, provindas das que nele retumbaram, para enlaçar-se ao Outro na enunciação do dizível. Isso ocorre após se instaurar o funcionamento da linguagem no corpo que ressoou na vibração do andamento da fala. (VORCARO, 2017a, no prelo).
Das articulações que fizemos entre essa etapa e a constituição psíquica, podemos metaforizar o dedilhar das aberturas da flauta, metáfora de Lacan (2005/1962-63). Lacan explicita o vazio do Outro e os buracos ofertados pelo objeto a por analogia à flauta. Ao questionar em que sentido a sonoridade se liga às questões fisiológicas, denota que, talvez, aí, encontremos a qualificação da sonoridade. Qualificação que expusemos também com Porge (2012, 2014) como boa ou má sonorização da voz do eco.
O que nos interessa, todavia, é a ressonância que o aparelho sensorial “ouvido” proporciona. Para Lacan (2005/1962-63), ele só ressoa em sua própria nota, em sua própria frequência, e é o vazio do bojo desse ressonador acústico, de tipo tubo, que põe uma ordem a tudo que possa ressoar nele, tudo que se principia na realidade do sopro. Essa topologia fisiológica, com o simples interesse de metaforizar o objeto a, permite dizer que o sujeito dedilha as aberturas da flauta,
no ordenamento sintático, só tendo sua significação na aglutinação frásica que é tomada. Desse modo, holófrases são frases ou expressões independentes de uma estrutura sintática, todavia já são tomadas em uma estrutura de linguagem, mesmo que não decompostas. Trata-se de uma percepção global associada a um signo, uma significação pelo conjunto. É um antecedente lógico da apreensão frásica na qual a unidade da frase é capturada como enlaçamento da significação que ela comporta, lugar onde o ato da representação da língua e da expressão coincidiram. (VORCARO e RESENDE, 2016)
aberturas que impõem a todos os sopros possíveis a mesma vibração, uma vez que os buracos abertos por a terão de ser dedilhados de um modo singular. É o momento em que o sujeito se coloca, de modo singular, a contornar o objeto a.