• Aucun résultat trouvé

- III

Dans le document Etudes et Thèses (Page 71-82)

Ali onde estávamos nós, no capítulo anterior, partimos do corte do grito expulso para ascender ao registro da percepção sonora, que, por meio da representação, é reencontrada no mundo mediante o juízo de existência. Num tempo concomitante à passagem da voz expulsa à voz apelativa, trabalhamos a perda do timbre materno, que dá lugar à “preferência” pela modulação prosódica do mamanhês.

Coincidente à época em que os vagidos se tornam interruptos, observamos a matriz simbólica operando no pequeno, o que implica que o puro grito foi rebaixado à condição de grito-apelo, sob registro do significante unário. Desse modo, a falta passa a ser demarcada pelas manifestações infans, que anseiam pela recuperação do objeto para sempre perdido. Isso porque um sujeito se precipitou na falta estrutural relativa à natureza da relação com o significante, ou seja, pelo fato de que um sujeito estrutura-se pela linguagem.

Como fizemos observar, enquanto, no animal, alguns sinais biológicos são cativantes, implicando num comportamento que liga diretamente o portador do sinal a quem o percebe; no ser falante, é estabelecido um intervalo entre os sinais acionados e seu autor: os sinais são rastros separados daquele que o emite. Assim, o infans, já funcionando por meio de uma matriz simbólica mínima, introduzida pelo agente materno, situa tal agente alternadamente: (1) agente da privação, quando está ausente e (2) agente que traz a possibilidade de satisfação, quando está presente. (VORCARO, 2017b, informação verbal).

A articulação exaustiva da entrada no jogo do significante não se reduz a substituir o que não está ali ao constatar a presença ou a ausência materna. Segundo Lacan (2016/1958-59), na medida em que a demanda da criança começa a se articular, engendra-se um processo de divisão do discurso. A relação mais original do sujeito é a relação entre o Outro, como lugar da fala, e a demanda. A alternância significante articula a necessidade do sujeito. Essa articulação estrutura a relação do sujeito consigo mesmo, chamada desejo.

Para a criança, o Outro, como lugar da linguagem, torna-se personagem mediante o qual a própria demanda fica carregada de uma significação que difere da necessidade. O Outro é então interpelado na demanda de sua presença ou de sua ausência: o agente materno, que o encarna, está na posição propícia para fazer a demanda da criança, de satisfação da necessidade, passar para outro valor, conferindo esse novo alcance. Isso gera uma gama de experiências de respostas gratificantes ou frustrantes que inscrevem as modulações da história do sujeito. (LACAN, 2016/1958-59)

Ante a pressão da demanda da criança, nenhum agente garante a resposta, a resposta do Outro, para o sujeito, vai além do que demandou. Para Lacan (2016/1958-59), já marcado pelo traço que o divide de si mesmo como sujeito da fala, o sujeito busca resposta, mas encontra um buraco no Outro, pois nenhum significante autentica a cadeia significante nem garante a fala. A criança realiza, no nível do Outro enquanto lugar da fala, algo de uma falta em relação a qual ela terá que se situar. Isso porque a resposta do Outro fica à margem da falta fundamental que se encontra no nível do significante. Nenhum objeto dado pelo Outro compensa essa falta, tendo que oferecer uma série interminável de adições que nunca se esgotarão.

É aí que o infans tem de se situar para se constituir como sujeito e se fazer reconhecer pelo Outro. Falta algo, no discurso do Outro, que permita sua identificação como o sujeito do discurso que ele profere. Como assinala Vorcaro (2017b), o lugar anônimo do Outro, que a criança pressente como vácuo na fala materna, a interroga sobre a nomeação de seu desejo, que está além do dizer materno. (Informação verbal).

Há, para o sujeito, um custo psíquico necessário para essa localização de si mesmo, que ele domina na relação imaginária que o engajou no Outro, tentando elevar esse pedaço de si à função do significante que falta para se designar no nível da instância do desejo. Por meio do objeto a, que surge no lugar em que se coloca a interrogação sobre o que o sujeito quer, representa a falta como o resíduo à margem de todas as demandas. Pela carência de um significante que responda pelo seu lugar de sujeito no nível do Outro, encontra-se com o objeto de seu suporte. (LACAN, 2016/1958-59).

O sujeito emergirá então no estado de sujeito barrado, vindo do lugar em que foi inscrito, para o lugar em que vai novamente inscrever-se. É o objeto a que preenche a função de primeiro referente da falta do sujeito, a que todos os outros significantes se endereçam. O sujeito se institui como uma relação de falta com esse a que é do Outro, assim, a relação do sujeito com o objeto a comporta a operação lógica de interseção cuja extração define o objeto a. (LACAN, 1998/1964)

Separado da cadeia significante, o sujeito deixa de estar ligado ao sentido da alienação e localiza seu resto no objeto a: elemento não significante que tampona o intervalo significante, o desejo do Outro, atravessado entre os significantes. Nesse ponto de falta, o sujeito, efeito do significante, articula-se ao elemento não significante que faz interseção entre os significantes. É aí que o sujeito representa sua parte e joga sua partida na separação, engendrando-se, pondo-se no funcionamento da linguagem. (LACAN, 1998/1964).

Desse modo, a separação surge do recobrimento de duas faltas. Na superposição de duas faltas, o sujeito encontra, na falta do Outro, o equivalente ao que ele é como sujeito do significante. Do primeiro encontro com o Outro, sobra, no corpo, um resíduo inapreensível, só localizável logicamente. O sujeito encontra uma falta na intimação que o Outro, por seu discurso, faz a ele. Nos intervalos, próprios à estrutura da linguagem, desliza algo além do dito, desejo do Outro, apreendido pelo sujeito nas faltas do discurso. (LACAN, 1998/1964)

O sujeito aí precipitado está, assim, absorto em sua apetência ao simbólico, amarrado à condição imaginária em que joga no campo do desejo Outro, em se fazer objeto desse desejo, ao mesmo tempo em que, desse Outro primordial, recebe sua mensagem invertida. (LACAN, 2005/1962-63). É nesse enganche que se destaca a voz enquanto objeto pulsional, voz-resto não simbolizada, visto que o objeto perdido e a coisa cuspida que deram origem à série de expulsões não são passíveis de representação.

Do primeiro grito natural em direção ao sujeito que fala, permitindo-se a experiência com o Inconsciente, destacamos que o ato de vocalização, ao se instaurar como jogo erógeno no laço com o outro, é voz incorporada e engajada no funcionamento da linguagem. Na produção do grito-apelo, pela voz apelativa que consoa prosódica, fazendo corpo vocal, o infans esforça-se para atingir as características melodiosas. Reduplicando a sonoridade prosódica, anuncia o Eu

(moi) do sujeito espelhado. Baseados nesses movimentos que situamos a fala-falo, dada a ver, mas também precipitamos a falha-falha, cuja origem está no ponto de corte relativo à voz escandida.

Além disso, vislumbramos que, para se tornar sujeito da enunciação, foi preciso que o infans ensurdecesse. Mesmo sendo as orelhas orifícios que não podem se fechar estruturalmente, por meio dos ouvidos inconscientes é possível ensurdecer ao discurso Outro. Como dissemos, quando Lacan evidencia a direção do terceiro tempo da pulsão invocante, afirma que, no campo do Inconsciente, os ouvidos são o único orifício que não se pode fechar; mas, ao discurso Outro, os ouvidos devem se tornar surdos. (LACAN, 1998/1964). Nós trabalhamos não pela prerrogativa do ensurdecimento ao discurso Outro, mas pela hipótese da recusa ao timbre primordial e do ensurdecimento à própria sonorização vocal.

Numa torção em retorno, em que a voz veicula o desejo do Outro do sujeito, a voz que ressoa, na experiência inconsciente, é dejeto áfono relativo ao inaudito. É preciso ensurdecer à própria voz, torná-la inaudita, para poder falar, mesmo que fale Ali onde se estava no discurso do Outro, onde se fez o mapa das referências significantes com o qual o sujeito se funda, na sua experiência inconsciente, e pelo qual “O sujeito se sustenta como desejante em relação a um conjunto de significantes cada vez bem mais complexo.” (LACAN, 1998/1964, p. 175).

Na próxima seção, trabalharemos o con-soar42, aprofundando o contorno simbólico-imaginário do objeto a, dimensão real da voz, mediante as primeiras experiências ligadas à sonorização. Vorcaro (2016)43 afirma que a sonoridade significante da voz, efeito da articulação simbólico-imaginária, é muito cara à psicanálise e, talvez, ela não possa ser abordada de modo disjunto da função sonora da voz. (Informação verbal). Isso porque, como afirma Oliveira, L. (2002), a produção verbal é resultante da tomada de posição do sujeito em relação à língua.

Estaremos atentos a essa função no que ela aponta ao estabelecimento do jogo erógeno do bebê com o outro, aos processos de alienação e separação e à reduplicação vocal infans, por captura na imagem espelhar.

42

Consoar é um verbo que significa fazer soar ou soar juntamente, emparelhar sons semelhantes ou combinar, ser compatível com. Disponível em: <https://www.google.com.br/search?q=conson%C3% A2ncia&rlz=1C1GGGE_pt-BRBR578BR578&oq=conson%C3%A2ncia&aqs=chrome.0.0l6.2890j0j8&s ourceid=chrome&ie=UTF-8#q=consoar>.

43

Palestra apresentada por Angela Maria Resende Vorcaro, na FCM-UNICAMP, na cidade de Campinas, em 29 de agosto de 2016.

Dans le document Etudes et Thèses (Page 71-82)