9. PREVENTING CRIMINAL OR UNAUTHORIZED ACTS
9.6. Increasing the likelihood of apprehending perpetrators
E me desagradava ter que contar a ele meus mais caros segredos. Respondi, portanto, em termos moderados a algumas perguntas que me pareceram mais uma violação. Então ele me disse: ―Aqui você não deve ver em mim apenas o médico, mas também o confessor. Se tenho necessidade de ver, tenho também de saber. O momento é grave, muito mais do que você imagina, talvez. Terei que prestar declarações precisas a seu respeito primeiramente ao monsenhor, e em seguida à lei que sem dúvida me chamará como testemunha‖. Não vou entrar aqui nos detalhes minuciosos daquele exame. Direi apenas que depois dele a ciência inclinou-se convencida. (FOUCAULT, 1982, p. 75-76)
São com os feminismos que a sexualidade começa a ser pautada de forma emergencial, por isso, aqui se fez uma divisão em ondas, mesmo sabendo que é algo sempre passível de muitas críticas, dentre elas, e na qual concordo a de uma não linearidade na história, mas utilizo essa classificação no sentido de orientar leitores/as sobre a importância do legado feminista para a construção de novas teorias e um crescimento ativista que estamos
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presenciando no século XXI. Porque, entendo que mesmo o feminismo enquanto pensamento, perpassando para a teoria propriamente dita, nunca esteve desvinculado da prática.
Nesse sentido, acabou por suscitar primeiramente um debate sobre a sexualidade, que nos interessa. Portanto, toda a discussão por uma liberação e despatologização das sexualidades como um todo, veio posteriormente a uma criticidade feminista dentro e fora das ondas e onde hoje é possível se construir novas teorias e discussões acerca da temática da sexualidade.
O feminismo liberal teve grande importância nas articulações feministas posteriores e sabemos que esse feminismo baseado nas aspirações da tríade da Revolução Francesa da igualdade, liberdade e fraternidade fizeram com que muitas mulheres tivessem fôlego para se enxergarem num estado de inferiorização diante dos homens e com o fervor desta revolução poderiam alcançar um patamar de igualdade com eles, que poderiam ter acesso à educação e, principalmente, ao sufrágio, que para elas traria essa tão sonhada ascensão.
Fato é que, apesar de terem lutado junto com os homens, elas sofreram o grande golpe, ao se visualizarem sem espaço nos ideais burgueses masculinos e a proliferação de pensamentos onde a mulher era a paixão e seu destino deveria ser o lar e o homem a razão onde para eles estava reservado espaço público, mas é nítido, e felizmente para nós houveram mulheres que puderam dizer não a esses discursos e fizeram um percurso de resistência e na contramão destes pensamentos, é o caso de Olympe de Gouges- França (1748-1793), que publicou a Declaração sobre os Direitos das Mulheres e do Cidadão (1791) uma alusão a Declaração sobre os Direitos do Homem e do Cidadão, que um mês após a Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789 que demarcou a Revolução Francesa, foi publicada tendo como premissa o cancelamento de práticas e direitos feudais, onde se buscava garantir direitos iguais aos cidadãos e maior participação política.
O paradoxo como bem afirma Andrea Nye, ―as mulheres podiam marchar para Versalhes porque suas vozes estridentes exprimiam melhor a fome‖. (NYE, 1995, p. 22) mostra nitidamente o quanto às mulheres foram usadas na busca burguesa e de ordem de gênero patriarcal da Liberdade, Igualdade e Fraternidade e essa exclusão pós Revolução inquietou Gouges, que afirmou a exclusão das mulheres no projeto igualitário e libertador, pois estas também nascem livres e devem permanecer iguais aos homens em direitos, que a lei deveria ser a expressão da vontade geral de todos os cidadãos/ãs. E, por tal pensamento revolucionário, ela foi guilhotinada.
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Mas, mesmo com a sua morte as mulheres não se calaram e esse foi o caso de Mary Wollstonecraft, que na Inglaterra (1759-1797) foi reconhecida como uma das vozes mais importantes do novo feminismo moderno liberal escreveu a ―Reivindicação dos Direitos das Mulheres‖ (1792). Uma obra extremamente avançada para o contexto de sua época, contestando muitos discursos de inferiorização das mulheres dentre eles o de Jean Jacques Rousseau, expoente do Iluminismo francês que declarava publicamente que as mulheres por natureza teriam como destino o lar, cuidando do marido e da prole.
Para Wollstonecraft, a chave para superar a subordinação das mulheres seria o acesso à educação. Portanto, devemos pensar no caráter revolucionário de tais pensamentos e percebermos o período histórico que eles ocorreram, podemos destinar muitas críticas ao feminismo liberal, por ele ser branco e burguês, mas jamais deslegitimá-lo, e sim reconhecer sua importância no processo. Pois, seu reflexo de luta influenciou as demais vertentes e discussões feministas, inclusive para que não se permanecesse cometendo os mesmos erros.
Ana Claudia Ribas (2015) em sua tese doutoral mostra através das suas fontes, os jornais A Plebe24 o quanto houve um feminismo na contramão da onda liberal sufragista, um feminismo anárquico, que buscava uma liberação sexual das mulheres e criticava abertamente o feminismo liberal e a sua limitação pela busca apenas do sufrágio.
Seguindo também nessa linha crítica que as feministas socialistas mostraram o lugar de privilégio de onde falavam as feministas liberais, pois, as socialistas fortemente influenciadas pelo pensamento de Marx visualizavam as mulheres trabalhadoras que lutavam constantemente pela sobrevivência dentro de um sistema muito maior que apenas a luta pelos direitos políticos e ao voto.
Dentre elas Emma Goldman (Rússia, emigrou para os EUA) feminista e anarquista se dedicou a fazer uma análise econômica, materialista do casamento e da prostituição, com pensamento extremamente revolucionário para época. Criticava as feministas liberais que somente buscavam o sufrágio e não percebiam que haviam uma opressão da mulher através da sua sexualidade, que para ela precisava ser livre. Nesse sentido, foi visionária ao perceber que eliminando as diferenças de classe, não eliminaria o poder dos homens sobre as mulheres. Clara Zetkin (Alemanha) acreditava que o Marxismo era a base para se estudar e compreender a luta das mulheres e que o papel delas não era eterno e imutável e Alexandra Kollontai (Rússia) acreditava que só o socialismo poderia solucionar os problemas das
24―Um dos mais importantes jornais pertencentes à cultura libertária do início do século XX foi A Plebe, que circulou entre os anos de 1917 e 1951[...]‖ (RIBAS, 2015, p. 13).
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mulheres e nos primeiros momentos da Revolução Socialista Russa houve muitos avanços, mas em seu decorrer: o retrocesso.
Kollontai e outras feministas socialistas entraram em discordância com Lênin que não demonstrava interesse em discutir a sexualidade das mulheres, pois ele via como desnecessária, e assim excluiu qualquer pauta nesse sentido, como também sobre homossexualidade, aborto e centro de cuidados infantis. Um grande golpe foi dado nessas mulheres que tinham o socialismo como primordial para se alcançar suas demandas.
A sexualidade foi tida como assunto não apropriado para mulheres e sem relevância, uma promiscuidade. Mulher enquanto propriedade até mesmo do mais pobre dos trabalhadores. Logo, Kollontai visualizou que as mulheres precisavam tomar as rédeas do socialismo, já que não podiam gozar monogamia em série, de liberdade sexual e nem possuíam propriedade privada. (NYE, 1995).
Essas mulheres, apesar de terem a perspectiva marxista como base sofreram assim como as feministas liberais (ao perceberem que não estavam inclusas nos ideais da Revolução Francesa), as marxistas visualizaram que no projeto socialista, apesar do discurso proferir o contrário, as mulheres também estariam subordinadas aos homens. Não havia espaço para a discussão sobre sua sexualidade, (vide conflitos de Kollontai e Lênin) direitos reprodutivos e divisão sexual do trabalho. É nítido pra mim que tais práticas e pensamentos são reflexos diretos de um discurso liberal conservador, onde igreja, direito e ciência sempre estiveram unidos para deslegitimar o papel da mulher na sociedade, na lógica de que elas são emoção, frágeis e literalmente inferiores, de que a biologia determina seu comportamento.
A impactante obra que demarca o que se chama de segunda onda radical do movimento feminista ―O Segundo Sexo‖ escrita por Simone de Beauvoir na década de 1940 onde ela conclui ―que não se nasce mulher, torna-se mulher‖ trouxe a discussão do como as mulheres são construídas no sentido da imanência, seres que dão a vida, enquanto os homens são destinados a transcendência, aqueles que são fortes e capazes de retirarem vidas, voltados para ações belicosas, à autora denuncia como a figura da mulher foi associada à natureza, enquanto os homens sempre tiveram na história o poder de decisões e espaço político.
Para ela a derrubada do patriarcado25 só se daria através da vontade das mulheres e de forma coletiva para romperem com a objetivação que lhes foram historicamente legadas e mesmo sem cunhar o conceito de gênero pode perceber o quanto essas relações entre
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Shulamith Firestone (1970) define o patriarcado como um sistema sexual do Poder – Isto é, a organização hierárquica masculina da sociedade que se perpetua através do matrimônio, da família e da divisão sexual do trabalho.
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mulheres e homens estavam baseadas em dominação e subordinação delas a eles, também comungava com as feministas socialistas com as visíveis e opressoras questões de classe, onde só poderia haver uma mudança na sociedade através do socialismo democrático, onde a igualdade entre homens e mulheres pudesse ocorrer. Outra comunhão seria a defesa dos relacionamentos livres, liberdade sexual e domínio das mulheres sobre seus corpos.
As críticas proferidas a Beauvoir a acusaram de analisar a vivência das mulheres apenas pela ótica da psicanálise, sem perceber as articulações antropológicas, análise que acabou por ser feita por outra e não menos importante obra, também publicada na década de 1940 Sexo e Temperamento da antropóloga Margaret Mead, que contribuiu imensamente para os Estudos de Gênero ao analisar diferentes comunidades na Papua Nova Guiné.