Não obstante o fato do assunto “técnica“ ser corriqueiro e matéria de estudo de quase todos os músicos instrumentistas, há ainda muitas dúvidas, questionamentos e controvérsias, a começar pelo significado da própria palavra. Algo que dificulta sobremaneira o entendimento e a clareza deste termo pela comunidade musical é o fato da definição de técnica instrumental ou musical estar raramente presente nos dicionários musicais, o que nos obriga à busca de informações complementares nos dicionários mais gerais ou em outros escritos nos campos da filosofia e das ciências. A situação salta aos olhos de tal maneira que alguns autores podem ser levados a afirmações equivocadas, como é o caso de Garzon (2008, p. 10), que chega a declarar categoricamente que não existem definições da palavra técnica nas enciclopédias e dicionários. O que posso afirmar é que em uma busca em cerca de vinte dicionários e enciclopédias musicais1 pelas entradas “técnica“, “técnica instrumental“ e “técnica musical“ – e suas respectivas traduções para o inglês, francês, espanhol e italiano – somente em duas fontes encontramos definições.2Até mesmo em dicionários tradicionais, como o The New Grove Dictionary of Musical Instruments e o The New Grove Dictionary of
Music and Musicians, a definição de técnica está ausente. Seria até de se esperar que na
entrada “Instruments“ do Grove, fosse possível encontrar algum sub-tópico sobre técnica, no entanto não há. Os autores dedicam-se apenas a outros sub-tópicos, como “collections of
instruments“, “classification of instruments”, “restoration of instruments“ etc.3
Naturalmente as palavras mudam o seu significado ao longo da história, sendo que algumas palavras mais antigas podem ter uma etimologia complexa. É consenso que a palavra técnica se origina do grego τέχνη (téchne) e com relação ao seu significado, é possível dizer que existem duas correntes principais de acepção: uma é antiga e mais ligada à origem grega e a outra é uma derivação mais moderna. De modo geral, as fontes que se referem à τέχνη (téchne) trazem o seu significado como sendo o da própria arte. Em 1953, Martim
1 Seguem alguns dos dicionários consultados: Diccionário de la Música: histórico e técnico. Barcelona: Iberia,
1976; Dicionário Grove de Música (Edição Concisa). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994; Dictionaire de la Musique: la musique des origenes à nos jours. França: Larousse, 2011; Dizionario Enciclopedico Universale Della Musica e Dei Musicisti. Turim: Utet, 1984; Nuovo Dizionario Musicale Curci. Milão: Curci, 1954; Dizionario di Musica: ilustratro con riproduzioni de oltre 80 ritratti e 70 instrumenti. Turim: G. B. Paravia & C. Spa, 1942; Dicionário de Música. Rio de Janeiro: Zahar, 1985; Nuovo Dizionario Ricordi della Musica e dei Musicisti. Milano: Ricordi, 1976; The New Grove Dictionary of Musical Instruments. Londres: Macmillan, 1984; Diccionario de la Música. Madrid: Alianza, 1985; The International Cyclopedia of Music and Musicians. Londres: Exetera, 1989; Dicionário Oxford de Música. Lisboa: Dom Quixote, 1994; Dictionnaire de la Musique: les hommes et leurs oeuvres. Paris: Bordas, 1986; Rirmann Musik Lexikon. Alemanha: Schott, 1961; Josep Soler Diccionario de Música. Barcelona: Grijalbo, 1985; The New College Encyclopedia of Music. Nova Iorque: Norton & Company, 1976; Musical Instruments: a comprehensive dictionary. Nova Iorque: Norton & Company, 1975; The New Grove Dictionary of Music and Musicians. Londres: Stanley Sadie. 1980.
2 Citaremos essas duas definições encontradas em dicionários musicais em páginas seguintes.
Heidegger proferiu uma conferência no Auditorium Maximum da Escola Superior Técnica de Munique, fazendo parte do ciclo de conferências cujo tema era As artes na época da técnica, promovido pela Academia Bávara de Belas Artes. Essa conferência ficou mundialmente conhecida e até hoje alimenta uma série de estudos de autores diversos a respeito da conceituação da técnica. Nesta conferência Heidegger reafirma a acepção mais original do termo como sendo a própria arte e vai além:
Outrora, não somente a técnica levava o nome de τέχνη. Outrora τέχνη era também chamado aquele desabrigar que produz a verdade no brilho do que aparece.Outrora, o produzir do verdadeiro no belo também era chamado de τέχνη. [...]No começo do destino do Ocidente, na Grécia, as artes elevaram-se às maiores alturas do desabrigar a elas consentidas. Elas permitiram que a presença dos deuses e o diálogo entre o destino humano e o destino divino brilhassem. E a arte era somente chamada de τέχνη. [...]As artes não decorriam do artístico. As obras de arte não eram fruídas esteticamente. A arte não era um setor da produção cultural.4
De modo geral, não encontramos nos dicionários brasileiros referências à
significação da técnica como sendo a própria arte. No entanto, na internet há uma profusão de publicações que consideram esta acepção mais primordial de técnica e agregam ainda outros significados, havendo até certa confusão sobre o que se refere à origem (τέχνη) e o que é da semântica mais atual. O site www.conceito.de diz que “a palavra técnica vem do grego téchne, que se traduz por ‘arte’ ou ‘ciência’ ”.5 Já a Wikipedia diz que “a palavra se origina do grego
techné cuja tradução é arte, portanto, a técnica confundia-se com a arte, tendo sido separada
desta ao longo dos tempos”. 6
Com relação à acepção mais atual da palavra técnica, há um certo consenso como sendo um conjunto de processos ou procedimentos que objetivam a obtenção de determinado resultado. Heidegger reconhece este entendimento atual da técnica:
Todos conhecem os dois enunciados que respondem à nossa questão. Um diz: técnica é um meio para fins. O outro diz: técnica é um fazer do homem. As duas determinações da técnica estão correlacionadas. Pois estabelecer fins e para isso arranjar e empregar os meios constitui um fazer humano. O aprontamento e o emprego de instrumentos, aparelhos e máquinas, o que é propriamente aprontado e empregado por elas e as necessidades e os fins a que servem, tudo isso pertence ao ser da técnica. O todo destas instalações é a técnica. Ela mesma é uma instalação; expressa em latim, um instrumentum.7
No entanto o próprio Heidegger mostra-se inconformado com esta tendência ou
4Traduzido do original em alemão por Marco Aurélio Werle. Apud Scientiæ Studia, São Paulo, v. 5, n. 3, p.
395, 2007. O texto foi publicado pela primeira vez no volume III do anuário da Academia (Redação: Clemens Graf Podewils), R. Oldenbourg München, 1954, p. 70 e ss. O texto completo encontra-se na coletânea Conferências e ensaios (Vorträge und Aufsätze), 2a. ed. Tübingen, Günther Neske Pfullingen, 1959.
5 Disponível em http://conceito.de/tecnica. Acesso em: 15 jan. 2015.
6 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A9cnica, Acesso em: 15 jan. 2015.
7Traduzido do original em alemão por Marco Aurélio Werle. Apud Scientiæ Studia, São Paulo, v. 5, n. 3, p.
consenso atual no entendimento da técnica, pois, segundo ele, as pessoas estão afastadas da essência desta palavra:
Assim, pois, a essência da técnica também não é de modo algum algo técnico. E por isso nunca experimentaremos nossa relação para com a sua essência enquanto somente representarmos e propagarmos o que é técnico, satisfizermo-nos com a técnica ou escaparmos dela. Por todos os lados, permaneceremos, sem liberdade, atados à ela, mesmo que a neguemos ou a confirmemos apaixonadamente. Mas de modo mais triste estamos entregues à técnica quando a consideramos como algo neutro; pois essa representação, à qual hoje em dia especialmente se adora prestar homenagem, nos torna completamente cegos perante a essência da técnica.8
Fato é que a palavra técnica faz parte da linguagem cotidiana em idiomas diversos e é atualmente utilizada em muitas áreas, tais como esporte, arte, ciências etc. O Novo
Dicionário Aurélio a define como “a parte material ou o conjunto de processos de uma arte;
maneira jeito ou habilidade especial de executar ou fazer algo”. Já o Dicionário Houaiss traz mais algumas informações, definindo a técnica como um:
Conjunto de procedimentos ligados a uma arte ou ciência; maneira de tratar detalhes técnicos (como faz um escritor) ou de usar os movimentos do corpo (como faz um dançarino); destreza, habilidade especial para tratar esses detalhes ou usar esses movimentos; jeito, perícia em qualquer ação ou movimento.
Como citado anteriormente, na internet estão disponíveis diversas definições para a palavra técnica. Apesar das exceções, a maioria tem sentido muito próximo aos dicionários tradicionais. O site www.dicio.com.br a define como um “conjunto de métodos e processos de uma arte ou de uma profissão”.9 O site www.priberam.pt a restringe ao campo das artes, mas não a define como sendo a própria arte, afirmando que a técnica é a “parte material de uma arte; conjunto dos processos de uma arte; prática”.10 O site www.dicionarioinformal.com.br traz a seguinte definição:
Uma técnica é um procedimento que tem como objectivo a obtenção de um determinado resultado, seja na ciência, na tecnologia, na arte ou em qualquer outra área. Por outras palavras, uma técnica é um conjunto de regras, normas ou protocolos que se utiliza como meio para chegar a uma certa meta. A técnica supõe que, em situações semelhantes, uma mesma conduta ou um mesmo procedimento produzirão o mesmo efeito. Como tal, trata-se do ordenamento de uma forma de actuar ou de um conjunto de acções. [sic]11
Há ainda o site www.lexico.pt, que traz as seguintes definições:
Aglomerado de procedimentos fundamentados em conhecimento científico, usados para atingir determinado objetivo ou efeito; grupo de processos ou métodos de uma função, de uma arte ou de uma ciência; designação de ciência utilizada de forma aplicada, normalmente na área industrial; (geral) mescla de métodos ou procedimentos usados com a intenção de atingir determinado objetivo ou resultado;
8 Idem Ibidem.
9 Disponível em http://www.dicio.com.br/tecnica/. Acesso em: 15 jan. 2015.
10 Disponível em http://www.priberam.pt/DLPO/t%C3%A9cnica. Acesso em: 15 jan. 2015. 11 Disponível em http://www.dicionarioinformal.com.br/t%C3%A9cnica/. Acesso em: 15 jan. 2015.
referente ao conhecimento prático de algo.12
Na música, podemos observar que a técnica é tratada em diversas subáreas, mas principalmente no ensino instrumental e na composição. Para nós, de modo geral, a técnica refere-se à habilidade requerida para se realizar procedimentos musicais específicos, como fazer uma escala ao piano, desenvolver uma composição na forma sonata ou mesmo identificar elementos estilísticos da fuga através da audição. França (apud GARZON, 2008, p.10) define que “independentemente do grau de complexidade, à técnica chamamos toda uma gama de habilidades e procedimentos práticos através dos quais a concepção musical pode ser realizada, demonstrada e avaliada.” Em sua dissertação de mestrado, Garzon (2008, p.10) conclui que:
Em todos os casos, nosso entendimento sobre a técnica sempre se refere ao uso ou à aquisição de habilidades, seja no processo de construção de respostas musculares ou de formas de raciocínio. Este é o caráter operacional da técnica, aquele que se refere ao manuseio, ao uso que se faz de certo objeto, já sabendo que ele está apto a realizar o resultado desejado.
As definições nos dicionários e enciclopédias musicais também tratam a técnica neste sentido geral e atual, que a circunda às habilidades requeridas no processo musical, principalmente às habilidades mecânicas de manuseio do instrumento. O Harvard Dictionary
of Music define que a técnica é:
A habilidade mecânica, que é a base do domínio de um instrumento ou, em outras palavras, a completa coordenação de todos os movimentos requeridos do corpo. Deve ser sempre lembrado que tal coordenação não é apenas uma questão de dedos, punhos, braços etc., mas também uma disciplina psicológica. Muitos problemas técnicos (por exemplo grandes saltos no piano) são principalmente um problema de coordenação e preparação. De fato, não seria exagero dizer que a maioria dos problemas da técnica avançada podem ser vencidos através do preceito: “pense mais rápido do que você toca“. O desejo de adquirir uma técnica perfeita levou à uma grande produção de “estudos técnicos“ que intencionalmente negligenciam o elemento musical (ainda preservado em certo grau na maioria dos estudos13) e
provêm somente um treinamento dos dedos etc. A prática diária deste material de rotina é geralmente reconhecido como necessária para o desenvolvimento e manutenção da técnica, até mesmo pelo mais avançado virtuoso. Seria bastante necessário advertir o estudante a respeito da superestimação da técnica e dos estudos técnicos, que não são nada além da base indispensável sobre a qual a interpretação é construída.14
12 Disponível em http://www.lexico.pt/tecnica/. Acesso em: 15 jan. 2015.
13 Dentro deste contexto poderíamos traduzir a palavra “etudes”, do texto original, como estudos melódicos. 14 Tradução minha. Segue o texto original: “The mechanical skill wich is the foundation of the mastery of an
instrument or, in other words, the complete coordination of all the bodily movements required. It should be always remembered that such a coordination is not only a matter of the fingers, wrist, arms etc., but also a psychological discipline. Many technical problems (e.g., big leaps on the pianoforte) are chiefly a problem of mental coordination and preparation. In fact, it would not be too much to say that most of the problems of advanced technique may be conquered by the precept: “think even fast than you play“. The desire for acquiring a perfect technique has led to a tremendous output of “technical studies“ wich intentionally neglect the musical element (still preserved to a certain degree in most etudes) and provide only training for the fingers etc. Daily practice for this routine material is generally recognized to be necessary for the improvement and maintenance of technique, even by the most advanced virtuoso. It should hardly be necessary to warn the student against
O Dicionário de Música (Ilustrado), de Tomás Borba e Fernando Lopes Graça, diz que a técnica:
[...] Se refere à parte mecânica da execução de um instrumento, a qual se adquire mediante exercícios especiais: escalas, arpejos, etc. Diz também das maiores ou menores capacidades de realização de um compositor, as quais se adquirem pela prática escolar da harmonia, do contraponto, das formas etc.