Elegeu-se o Método Criativo e Sensível (MCS) para obtenção dos dados. Cabral (1998) expõe que o MCS favorece a organização de pessoas em torno de um trabalho grupal na construção de conhecimentos acerca de questões socializáveis que merecem um aprofundamento no plano coletivo, proporcionando, por meio do princípio dialógico, a crítica reflexiva freireana mediada pela análise coletiva de temas geradores codificados a partir de situações vivenciais. A autora ainda refere que as Dinâmicas de Criatividade e Sensibilidade (DCS) que são o eixo do método, proporcionam um espaço de discussão coletiva dos sentidos, em um entendimento dialógico, dialético, plural e, muitas vezes, ambivalente de produções artísticas representativas das construções sobre o tema pesquisado, onde o grupo ultrapassa a condição de objeto para a de sujeito na pesquisa.
As DCS associam técnicas consolidadas de produção de dados da pesquisa qualitativa (observação, observação participante, entrevista e discussão de grupo) com as produções artísticas. Ainda que o entendimento das DCS seja a pluralidade, a singularidade de cada participante é preservada pelo espírito democrático e participativo. Portanto, as Dinâmicas de Criatividade e Sensibilidade criam espaços de discussão e reflexão, levando os sujeitos da pesquisa a problematizarem as suas práticas vivenciais e existenciais, favorecendo a libertação parcial dos sentidos que podem estar reprimidos, pois muitas vezes é mais fácil dizer coisas importantes com o corpo ou com representações simbólicas, em um cruzamento de sentidos que falam e geram um conhecimento que é coletivo (CABRAL, 1998; VERNIER, 2007).
As DCS se desenvolvem em forma de encontros grupais, em que o despertar da sensibilidade e criatividade dos integrantes do grupo favorece o processo de produção de
dados para a pesquisa. Um momento que privilegia integração entre o grupo, ludicidade, troca de saberes e práticas entre sujeitos e pesquisador, proporcionando a construção e validação conjunta de conhecimentos novos (VERNIER, 2007).
Na presente pesquisa, os encontros para produção de dados ocorreram em maio e junho de 2010 e tiveram uma média de tempo de desenvolvimento de 1h e 45 minutos, sendo todos os encontros agendados previamente e com consenso do grupo. Os dois primeiros encontros foram desenvolvidos em uma sala dentro do próprio hospital, facilitando aos sujeitos o acesso, visto que a maioria estava ou saindo ou entraria em seu turno de trabalho. Ainda, teve-se um sujeito que participou durante seu turno de trabalho e dois que vieram de suas residências. O terceiro encontro foi realizado em prédio anexo ao hospital.
As DCS desenvolveram-se em cinco momentos. O primeiro contemplou a disposição espacial do grupo, apresentação entre os participantes, onde o pesquisador explicou o que se esperava com o encontro e com o desenvolvimento da dinâmica. Foi o momento em que ocorreu a integração e a “quebra do gelo” inicial, preparando os participantes para o desenvolvimento da dinâmica através de uma técnica de integração grupal diferente a cada encontro.
O segundo envolveu a disponibilização aos participantes dos materiais que foram utilizados para produção dos textos e/ou discursos, imagens sistematizados sob a forma de produções artísticas e a questão geradora de debate foi inserida pelo pesquisador. Este momento objetivou proporcionar uma imersão dos participantes em seus juízos vivos ou latentes (intelecto) ao mesmo tempo em que os convidou a utilizar sua função de motricidade e destreza (corporal) e colocar a necessidade da troca com o grupo (social), fazendo-os mergulharem com sua subjetividade e inteireza na questão geradora proposta na tarefa de produzir algo (CABRAL, 2001).
O terceiro momento contemplou a apresentação das produções artísticas, e socialização do que foi produzido. Durante esta etapa, o pesquisador registrou ideias e palavras chaves convergentes e divergentes e selecionou os temas geradores codificados. Estes foram negociados com os participantes, que, no quarto momento, os decodificaram em subtemas durante a análise coletiva e a discussão grupal. Por fim, no quinto momento realizou-se a síntese temática e a validação dos dados (CABRAL, 1998; 2001; VERNIER, 2007).
A presente pesquisa teve sua produção de dados através do desenvolvimento de três DCS: Tecendo Histórias, Árvore do Conhecimento e Almanaque, conforme descritas a seguir:
A DCS Tecendo Histórias objetivou trazer à tona na coletividade a construção histórica-social-pessoal de cada um dos sujeitos sobre educação em saúde, explicitando problemas e dificuldades individuais que possam ter raízes sociais coletivas. Experiências e diversidade de conhecimentos construídos até dado momento são a alavanca para que o tema seja refletido e transformado em um novo conhecimento (BEUTER, 2004; DEZORZI e CROSSETTI, 2008). Esta dinâmica utilizou como Questão Geradora (QG) “como a
educação em saúde se construiu ou vem se construindo na sua história?”
A DCS Árvore do Conhecimento objetivou desenvolver uma analogia com as necessidades de uma árvore para crescer e se desenvolver bem e a prática do enfermeiro. Assim, solicitou-se aos participantes que localizassem no esboço de uma árvore as suas atribuições de educação em saúde no cotidiano. Esta dinâmica serve, segundo Cabral (1998), como uma mediadora no processo de reflexão coletiva, codificando e posteriormente descodificando a situação real que a árvore representa. Para tanto, utilizou-se a seguinte questão geradora do debate (QG): “Como você localiza a educação em saúde em sua prática
cotidiana de cuidado?”
A DCS Almanaque teve como característica central a produção individual de um almanaque (cartaz) com a utilização de gravuras, recortes, palavras que responderam a QG “O
que você precisa para desenvolver a educação em saúde em seu cotidiano de cuidado no hospital? E como a desenvolve?” Esta dinâmica teve como objetivo conhecer a prática
cotidiana dos sujeitos em educação em saúde, suas facilidades, características e dificuldades, através da socialização das produções individuais, identificando situações convergentes e divergentes e proporcionando a reflexão coletiva das situações vivenciais do grupo.
Cabe ressaltar que houve um clima de empatia, entrosamento, harmonia e receptividade entre as participantes e a pesquisadora, propiciando momentos de descontração para dialogar sobre as questões propostas.
Assim, as dinâmicas de criatividade e sensibilidade contemplaram a visão (Cabral, 2001), de que todo ser humano é único, singular e ao mesmo tempo social, manifestando nas interações com os outros a sua intersubjetividade. Estas dinâmicas combinam ciência e arte, espontaneidade e introspecção, individualidades e diversidades, favorecendo a dialogicidade e análise coletiva do tema proposto, buscando desvelar a singularidade de cada um no espaço coletivo grupal.