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Un accompagnement bienvenu

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Aconteceu que em 20 de agosto de 1942 o Brasil declara guerra ao eixo Alemanha, Itália e Japão. Dia 25 de agosto, Dia do Soldado, se deslocava numa composição da via férrea para Santa Rosa, onde trilhos haviam chegado em 1940. Era um dia e uma noite de viagem de Porto Alegre a Santa Rosa. A viagem dos brigadianos se dera em segredo. Mesmo assim, deu para haver despedidas choradas de familiares, noivos e amigos, porque afinal, o Brasil entra na Guerra. Era a primeira tropa a se deslocar para a região, desconhecida para a maioria, sem que se soubesse qual era a missão.

Em algumas estações, passaram em segredo. Ao chegar a Ijuí, exatamente no Dia do Soldado, a estação estava lotada de gente para ver a passagem da tropa. Várias manifestações, inclusive discursos. Como Dario fora eleito rapidamente antes do embarque como presidente da sociedade acadêmica dos cadetes, coube a ele fazer discurso, em tom inflamado, em Ijuí. Os aplausos, mais por patriotismo, deixavam todos emocionados.

A viagem prosseguiu. Passaram em Giruá fora de hora. Não havia uma viva alma na estação. Chegaram a Santa Rosa, se instalaram no Hospital de Caridade (hoje Vida e Saúde), em construção. Lá ficaram sabendo da sua missão. Era guarnecer a fronteira com a Argentina, que já vinha muito movimentada, com entradas e saídas de elementos estranhos. Inicialmente

50 deveriam guarnecer de Serro Pelado a Três Passos, entretanto, passaram para o lado catarinense, até Itapiranga.

A Dario coube um cabo e cinco soldados para guarnecer a região compreendida junto à barra do rio Boa Vista, que se estendia até Biguá por um lado e até Porto Lucena por outro lado, onde ficava a sede do pelotão. Os gendarmes argentinos estavam bem armados, tinham sede própria com radiocomunicação, transporte de cavalos, jipes, lanchas rápidas e metralhadoras.

Do nosso lado, de 20 em 20 quilômetros, um soldado da Brigada Militar isolado, sem recurso, e que tinha pago pensão para morar com um colono. Os gendarmes chegavam a penetrar mais de cem quilômetros dentro de nosso território para prender brasileiros, geralmente por contrabando. Quase todas as famílias da fronteira tinham um elemento da família preso do lado de lá.

A moeda que circulava era o peso. Cada um valia 5 cruzeiros. Junto às fronteiras, do nosso lado, havia poucas localidades desenvolvidas, como era o caso de Porto Lucena, Cerro Largo, etc. E do lado argentino eram abundantes e propositais. A criança brasileira que quisesse estudar tinha que ser no lado argentino. Os professores eram de alta categoria, a mesma dos professores de Buenos Aires.

As escolas brasileiras, que ficavam a quilômetros da fronteira, eram dirigidas por professoras municipais, algumas semianalfabetas. O rádio que se escutava era só de Buenos Aires. Livros, revistas e jornais que chegavam eram todos argentinos. Era comum os brasileiros que falavam em espanhol. Havia informações que inúmeros brasileiros, agricultores da região, estavam se bandeando para o lado de lá, sob os olhos grossos deles.

A Argentina vivia um regime nazista. Como o Brasil declarara guerra ao eixo, praticamente eles estavam contra nós. Todos os simpatizantes do eixo eram bem-vindos, ainda mais se fossem grandes produtores. O cabo Zimmermann, da Brigada Militar, antes de nossa chegada, resolvera fazer um teste da situação. À paisana, mas armado, com dois soldados também à paisana, se aventurou entrar no Rio Uruguai. Remando junto à nossa margem, fora abordado pela lancha dos gendarmes, que abriram fogo com metralhadora. O cabo resistira e respondera ao fogo com arma de mão. Travou-se cerrado tiroteio. Resultado: os gendarmes fugiram, alguns feridos. O cabo levara uma saraivada de balas, mas ficou vivo, caído no bote. Os soldados acompanhantes morreram.

51 Na margem do rio, foi recolhido e enviado para o hospital da Brigada, onde foi salvo. Se quisesse ser alvejado com tiros, era só tentar entrar no Rio Uruguai. Com a chegada dos cadetes, a coisa melhorou. Em frente ao nosso destacamento ficava Porto Rosário, com um destacamento de seis gendarmes comandados pelo nazista cabo Repeto. Até que ele "ascendesse" a sargento.

De uma alta árvore, passaram a hastear a bandeira nacional, o que foi feito sem arrancar o mastro, onde, aos domingos, os colonos eram convidados a vir assistir à cerimônia, e aproveitavam para distribuir balas às crianças. A guarnição ficou sabendo que nunca era festejado o Sete de Setembro em nosso lado, e que nunca havia ganho no futebol de Porto Rosário. Dessa forma, Dario, com seus subordinados, improvisou um campo de futebol dentro da mata.

Para comemorar o Dia da Pátria, buscaram soldados de outros destacamentos próximos e enfrentaram os invictos castelhanos. No fim do jogo, placar de 3 a 1 para os brasileiros e muita festa. O Cabo Repeto proibira a população argentina de passar para nosso lado naquele dia, apenas o time de futebol poderia. Entretanto, até os graduados da gendarmeria apareceram, e muitos civis, mas às escondidas. A festa entrou noite a dentro, com baile. Mataram três cabeças de gado e muitas galinhas.

Aumentou o respeito para com a guarnição brasileira. Receberam muitos pedidos de brasileiros residentes do lado de lá para visitar-nos. Muitos não podiam nos visitar, geralmente estavam fugindo da justiça do lado de cá.

Era costume de muitos deles caminhar ao longo da beira do Rio Uruguai, que naquela altura, no lado argentino, tem enorme barranco. O trilho na mata estava gravado. Vinham olhar de longe sua terra para matar a saudade. Seus filhos vinham servir no Brasil, quando convocados. Uma noite, Dario se arriscou e foi visitar um brasileiro que morava a um quilômetro da fronteira. Queixou-se de que era perseguido pelos argentinos e por qualquer motivo era preso.

Em viagem a Santa Rosa, Dario recebeu um convite de Giruá. Dona Bila Sambruno o convidava para um baile em sua homenagem e a sua guarnição no Clube Aliança. Compareceu boa parte da oficialidade, um grande número de cadetes. Foi um grande baile. Por causa da hospitalidade, acabaram gostando muito de Giruá. O que chamou a atenção dos visitantes era que já havia algumas mansões em Giruá. Eles não haviam visto assim em nenhuma das outras cidades das redondezas. Percebia-se também, que em Giruá não houve aquele choque

52 racial que houvera em outras cidades da região, principalmente em Santa Rosa, quando da declaração de guerra.

Os imigrantes de Giruá eram bem mais entrosados e houve respeito mútuo. Apenas uma família de destaque local preferiu evadir-se para a Argentina. Já não foi o caso de Santa Rosa e arredores, de onde muitas famílias se evadiram para nunca mais voltar. Inicialmente recebiam todo apoio do lado de lá. Depois, porém, parece que tomou volume. Os argentinos começaram a ficar preocupados. Recordavam dos episódios da República Oriental do Uruguai, onde moraram muitos brasileiros e onde o Brasil agiu mais de uma vez em sua defesa.

Recordavam também o episódio do Acre, no final do século XIX, em que a invasão pacífica de seringueiros brasileiros do território boliviano criou problemas internacionais, e foi necessário apoio do Barão do Rio Branco para haver solução honrosa para os dois lados. Entretanto, ainda hoje é lembrado pelos bolivianos. Foi aí que uma espécie de medo se apoderou das autoridades argentinas. Entretanto, o norte da Argentina foi a grande parte colonizada por brasileiros. Naquela época, os castelhanos constituíam nação mais forte, dirigida por Perón, que chegou inclusive a mencionar e reivindicar a região das Missões, tal como fizeram recentemente com o Chile.

Felizmente foi um capítulo passado. Nas década 60 e 70, que se vê e se nota é que o progresso passou para o lado de cá do Rio Uruguai. São eles que aprendem português para ouvir nossas novelas em televisores brasileiros. São eles que invadem nossas cidades, o que, finalmente, é um motivo de orgulho e satisfação. Há povos que não sabem desfrutar de prosperidade sem serem prepotentes.

Quanto aos gendarmes, coube aos fuzileiros navais que vieram para Uruguaiana fazer respeitar as fronteiras internacionais. Com a criação do 1º RCM e sua instalação em novembro de 1942, encerrou-se a missão da Brigada Militar nessa bela região missioneira, terra de paz, felicidade e progresso. Dario voltou a servir em Santa Rosa. Logo depois, se forma oficial, 2º Tenente, e volta a estudar15.

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