Nesta investigação que se desenvolve numa abordagem qualitativa, são mobilizados alguns dados quantitativos, como anteriormente referimos, por considerarmos que “O inquérito continua a ser fecundo na exploração dos fenómenos e, por seu intermédio, é possível entrever ligações e interpretações antes insuspeitas. Por outro lado, é uma das vias de acesso às racionalizações que os sujeitos fazem das suas escolhas e das suas práticas” (V. Ferreira, 1987: 194).
49
A definição deste corpus de análise exclui outros documentos recolhidos que foram surgindo ao longo da investigação (específicos de algumas das escolas, como sejam ofícios, anuários, quadros de excelência/mérito, discursos de tomada de posse, etc.).
70
Parece ser reconhecido como fundamento na mobilização desta técnica que “o inquérito aparece como substituto de uma observação muito difícil ou impossível. Somos ainda obrigados a recorrer a este método para compreender fenómenos como as atitudes, as opiniões, as preferências, as representações” (Ghiglione e Matalon, 1993:15).
Deste modo, o inquérito por questionário assumiu-se como técnica de recolha de dados nesta investigação, quer por permitir uma aplicação mais simplificada e pré- categorizada, quer pelo alcance individual e geográfico que atinge, evitando a implicação de demasiados custos, já que este foi enviado por correio electrónico e preenchido pelos próprios inquiridos. Segundo Quivy e Campenhoudt (1995:188), podemos dizer que foi mobilizado o inquérito por questionário «de administração directa». Para além disso, esta técnica ainda possibilita a correlação entre variáveis e a percepção de tendências – entre a directividade inerente à técnica e a subjectividade inerente ao investigador, pois “A única solução para atenuar os efeitos da directividade tem que passar forçosamente pela auto- reflexão do investigador sobre as determinações da sua própria problemática e, sobretudo, considerar esses efeitos nas respostas obtidas no momento da sua interpretação.” (V. Ferreira, 1987: 170).
Os inquéritos por questionário foram elaborados para serem aplicados a todos/as os/as directores/as de escolas e agrupamentos de escolas com contrato de autonomia (24)50 no sentido de caracterizar os sujeitos – na dimensão pessoal e profissional – de conhecer as razões presentes nas suas motivações para o exercício da direcção, as
actividades e preocupações diárias nas suas práticas e as representações sobre
autonomia, nomeadamente relacionadas com a implementação do contrato de autonomia51.
Com esse propósito, os inquéritos por questionário foram elaborados com o máximo de rigor, quer na elaboração das questões, quer na organização destas, já que tempo gasto na preparação é depois tempo ganho na análise52. De acordo com Ghiglione e Matalon, “O questionário deve ser concebido de tal forma que não haja necessidade de outras explicações para além daquelas que estão explicitamente previstas. A construção
50
Este instrumento foi também aplicado aos/às Directores/as de agrupamentos de escolas envolvidas no projecto sobre Climas de Escola do Observatório de Vida das Escolas (OBVIE) e do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Foi ainda alargada a sua aplicação (com as necessárias adaptações ao questionário) a outros actores dessas mesmas escolas. Neste trabalho apresentamos, evidentemente, os referentes às escolas com CA.
51
Ver Inquérito por questionário no Apêndice IV.
52
A sua concepção foi realizada tendo por base o estudo exploratório referido na introdução, assim como as pesquisas documentais já realizadas.
71
do questionário e a formulação das questões constituem, portanto, uma fase crucial do desenvolvimento de um inquérito.” (1993:119).
Relativamente à ordem das questões, estas devem começar com questões que motivem com algo mais pessoal, mais específico, havendo “vantagem em agrupar todas as questões explicitamente relacionadas com o mesmo tema.” (ibidem:124).
O questionário assume-se de tipo misto já que foram realizadas questões de resposta aberta – agrupadas na primeira e depois na última parte – e questões de resposta fechada, estando agrupadas em cinco dimensões: pessoal, profissional, motivações, preocupações e representações de autonomia (princípios de acção autónoma). As possibilidades de resposta fechada apresentavam-se numa escala tipo Likert com 7 níveis de concordância.
Sendo a população particular do estudo reduzida em termos quantitativos (24), não houve necessidade de compor uma amostra representativa para a sua aplicação.
Assim, os questionários foram aplicados através de correio electrónico, como antes referimos, sendo o seu preenchimento em suporte digital. Após o preenchimento, os próprios inquiridos faziam o reenvio do questionário.
Para evitar enviesamentos nas respostas obtidas, nomeadamente atendendo às resistências ou recusas esperadas através deste método de recolha de dados (Ghiglione e Matalon, 1993), priveligiamos de antemão o contacto prévio com os inquiridos através de telefone e de correio electrónico dando a conhecer o estudo e explicitando o modo de preenchimento do questionário. Ainda assim, e após várias tentativas insistindo para a importância do seu preenchimento, houve algumas recusas. Para além das recusas (quase) imediatas, houve também alguns inquiridos que, embora tendo mostrado disponibilidade para responder, nunca chegaram a enviar o questionário preenchido, mesmo após insistência da investigadora através de telefone e de correio electrónico.
Deste modo, e considerando o universo da investigação (24), obtivemos 13 respostas que, embora diminuto em termos estatísticos, representam mais de 50% do total.53
53 Para além destas respostas, foram também recolhidos os já referidos questionários aplicado aos/às
Directores/as de agrupamentos de escolas envolvidas no projecto sobre Climas de Escola do Observatório de Vida das Escolas (OBVIE) e do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Contudo, e se pensámos que seria possível correlacionar estas respostas, isso não foi possível já que estas respostas foram em número bastante mais reduzido, apenas 5 directores/as responderam. Não obstante, este é um projecto que se manterá e no qual a investigadora procurará contribuir quer com dados recolhidos nesta investigação, quer com uma recolha mais alargada de informação.
72
2.3. Entrevistas
A entrevista pode ser entendida enquanto “conversa intencional, geralmente entre duas pessoas” e “com o objectivo de obter informações sobre a outra” (Bogdan e Biklen, 1994:134). Neste sentido, “caracterizam-se por um contacto directo entre o investigador e os seus interlocutores e por uma fraca directividade por parte daquele.” (Quivy e Campenhoudt, 1995:192). Esta técnica permite pois
“uma verdadeira troca, durante a qual o interlocutor do investigador exprime as suas percepções de um acontecimento ou de uma situação, as suas interpretações ou as suas experiências, ao passo que, através das suas perguntas abertas e das suas reacções, o investigador facilita essa expressão, evita que ela se afaste dos objectivos da investigação e permite que o interlocutor aceda a um grau máximo de autenticidade e de profundidade.” (ibidem).
Mobilizámos esta técnica então com o propósito de recolher discursos que nos trouxessem informação em profundidade sobre a implementação do contrato de autonomia, nomeadamente num aprofundamento da compreensão da acção (ou das representações sobre a acção) da direcção das escolas com contrato de autonomia, já que “os métodos de entrevista distinguem-se pela aplicação dos processos fundamentais de comunicação e de interacção humana.” (ibidem:191). Assim, é possível “retirar das entrevistas informações e elementos de reflexão muito ricos e matizados.” (ibidem).
Recorremos a entrevistas semidirectivas com perguntas-guia (Quivy e Campenhoudt, 1995:194-195) agrupadas em três tópicos temáticos: Autonomia, Percurso pessoal e profissional (dos/as directores/as) e Gestão democrática54. Por um lado, este guião permitiu garantir a objectividade da entrevista, por outro, permitiu que o entrevistado falasse abertamente sobre as suas práticas já que este não era rígido, mas flexível ao discurso que ia sendo produzido.
Foram realizadas cinco entrevistas a directores/as de escolas e agrupamentos de escolas55, com a distribuição que se vê no quadro seguinte:
54 O guião da entrevista pode ser consultado no Apêndice V.
55 Importa referir que foi pensada e solicitada a realização de mais uma entrevista (seriam seis) mas houve
recusa por parte da direcção contactada em colaborar neste estudo, invocando falta de disponibilidade. Às entrevistas realizadas foi atribuído um código. Assim, as cinco entrevistas serão referidas de DE1 a DE5, ou seja, director/a de escola, seguido do número correspondente à ordem de realização da entrevista.
73
Quadro 3: Distribuição dos entrevistados por género e tipologia de estabelecimento de ensino Tipologia dos estabelecimentos de ensino
Sexo dos/as entrevistados/as
AE ES
Masculino 1 2
Feminino 2 0
Os estabelecimentos de ensino dirigidos por estes/as directores/as fazem parte da Direcção Regional de Educação do Norte, tendo sido a proximidade geográfica um dos critérios de selecção dos entrevistados. Para além deste, tivemos em conta critérios relacionados com a especificidade da respectiva direcção escolar e relacionados com a disponibilidade e colaboração manifestadas no decurso do estudo.56
Todas as entrevistas foram realizadas ao longo do mês de Abril de 2010, tendo sido registadas em suporte magnético57 e posteriormente transcritas. Quatro destas transcrições foram revistas pelos entrevistados. As entrevistas têm uma duração média aproximada de 45 minutos e foram todas realizadas nos respectivos estabelecimentos de ensino58.