CHAPITRE IV : L’AFRIQUE CENTRALE COMME TEMOIN COMME TEMOIN
C- La guerre de Bakassi
Sendo este o principal contributo do nosso trabalho e apresentando-se decididamente como a relação menos analisada na literatura, propomo-nos estudar a relação entre a sociabilidade23 e o voluntariado, para além da abordagem do voluntariado enquanto ocupação do tempo e activismo.
Olhando para o voluntariado pela perspectiva da sociabilidade, compreendemos que ao envolver-se em actividades de voluntariado, os indivíduos dão expressão a uma dimensão considerada em Psicologia como uma necessidade básica do ser humano (Deci e Ryan, 2000) e que é de se relacionar, de estabelecer contactos face-a-face24.
Becchetti et al. (2008) revê uma série de estudos da Psicologia em que fica bem claro que esta é uma dimensão fundamental do ser humano. Por um lado, tem efeitos positivos na saúde mental e física, por outro as interacções pessoais estão presentes no ser humano num estágio da sua vida até anterior ao desenvolvimento da consciência de si próprio, por último, a biologia revela a existência de “neurónios espelho”25 que proporcionam uma experiência directa interna dos actos, intenções e emoções dos outros, o que implica sua compreensão. Bruni (2008b) descreve o trabalho dos Psicólogos Diener e Seligman, que ao investigarem as pessoas que reportam maior nível de satisfação, e que como tal são descritas pelos outros, concluíram experienciarem essas pessoas, sem excepção, relações interpessoais positivas e com significado. Ainda Bruni (2008b) refere-se a Deci e Ryan que terão concluído que a solidão é, de forma consistente, negativamente relacionada com a satisfação com a vida.
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“Comportamento de quem aprecia e cultiva a convivência social; gosto de viver e conviver em sociedade” sociabilidade In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-03]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/sociabilidade>.
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Os autores, no entanto, explicam que a motivação para o comportamento orientado para os outros não tem como motivação a satisfação de uma necessidade, como tradicionalmente se considera, mas, antes, o facto de o considerar importante ou interessante, resultado de experiências relacionais anteriores.
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Mirror neurons, já observados de forma directa nos macacos, nos humanos pode ser observada actividade cerebral consistente com a presença de neurónios espelho no córtex pré-motor e no lobo parietal inferior. O neurónio espelho imita o comportamento de outro animal como se estivesse ele próprio a realizar essa acção. (In Wikipedia)
A dimensão relacional do ser humano não só é uma necessidade como também a sua relação com a felicidade é um dos resultados mais robustos da investigação em Economia da felicidade. Esta literatura está bem documentada em Bartolini et al. (2013), Bunger (2010) assim como em Becchetti et al. (2009). Neste último trabalho os autores, inclusivamente, encontram uma relação de causalidade, segundo as suas palavras: “o consumo de bens relacionais tem um efeito notável e robusto na felicidade”. Bruni e Stanca (2008) identificaram uma correlação robusta entre o tempo dedicado a relações interpessoais e a avaliação que faz da sua felicidade ou satisfação com a vida. Sugden (2005b) revê alguns estudos sobre o efeito das relações interpessoais nos estados emocionais, concluindo que a interacção com outros gera sentimentos, quer positivos quer negativos, mais fortes do que estar sozinho. Reforça o autor que, com base nos resultados destes estudos, para grande parte das pessoas, boa parte do tempo, a interacção interpessoal é uma fonte de prazer (p.93).
Nos últimos anos, tem-se assistido à proposta de explicação do paradoxo de Easterlin, exactamente, com base nestes resultados. Enuncia este paradoxo que, nos últimos vinte e cinco anos, o crescimento económico não tem contribuído para o aumento do bem-estar. No entanto, se observarmos num determinado momento do tempo, a relação entre rendimento e bem-estar é positiva. Algumas explicações para este paradoxo têm sido propostas26, mas a que nos importa reter remete para a diminuição que se tem observado nos níveis de intensidade relacional no mesmo período de tempo (Bartolini et al. , 2013). Os autores concluíram que o rendimento da família é um principal preditor da felicidade, mas esse efeito tem sido absorvido pelo efeito negativo no bem-estar provocado pela redução do nível de sociabilidade.
Corroborando estes resultados, Sarracino (2010) identificou um efeito de longo prazo do capital social no bem-estar subjectivo quer em países desenvolvidos quer em vias de desenvolvimento e confirmou, a um nível micro, os mesmos resultados para apenas um país. No caso da Alemanha, o capital social é o principal factor explicativo da tendência de bem-estar.
A dimensão relacional do voluntariado será o principal tema que nos propomos investigar, daí que merecerá posteriormente uma análise mais cuidada. Propomos apenas, de momento, alguns elementos introdutórios que nos permitam situar o voluntariado nesta esfera, tal como fizemos para as anteriores.
Mesmo não sendo frequente a análise da dimensão relacional do voluntariado e não existindo ainda um quadro teórico de referência nesta área, é possível identificar na literatura três temas de investigação que têm como pressuposto este conceito de voluntariado: análise da sociabilidade nos inquéritos à ocupação do tempo, a importância de se ser convidado na decisão de se tornar voluntário e o capital social.
Estes três temas têm sido, acima de tudo, analisados empiricamente, sem que muitas vezes seja proposta uma explicação teórica para a relação entre voluntariado e sociabilidade. São os resultados dos testes empíricos que começamos por trazer, revendo brevemente mais adiante alguns dos fundamentos teóricos para esta relação que nos foi possível identificar na literatura.
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A constatação de que o voluntariado tem uma dimensão relacional está bem presente na proposta apresentada por Ruston (2003) para a divisão do tempo passado em actividades relacionais. De acordo com a forma como ocupam o tempo com interacções pessoais os indivíduos poderão pertencer a várias categorias: voluntários, aqueles que despendem tempo em actividades que impliquem participação formal; auxiliadores, aqueles que se envolvem em actividades informais como seja apoiar vizinhos ou amigos; socializadores, os que se envolvem em actividades de sociabilidade informal, que visitam amigos ou familiares, participam em ocasiões especiais e outras actividades sociais. Esta categorização das actividades que envolvem interacções pessoais não deixa margem para dúvidas quanto ao entendimento de que o voluntariado é, efectivamente, uma forma de sociabilidade.
O trabalho de Ruston (2003) é dos poucos em que encontramos um teste empírico a estas relações entre as várias categorias de tempo passado em relações interpessoais. A grande questão que coloca é: será que os que socializam também ajudam ou são voluntários? E quais são os que não realizam qualquer dessas actividades?
De acordo com o autor, trabalhos anteriores27 indicam que pessoas envolvidas em actividades comunitárias formais não gastam muito tempo informal com amigos e conhecidos, e vice- versa. No entanto, Ruston (2003) chega a conclusões diferentes. No seu trabalho, o autor relaciona as várias formas de interacção pessoal concluindo que quase metade dos voluntários também ocupa o seu tempo numa das outras duas actividades. Da análise dos diários e da co-presença, para os que afirmam ter actividades de voluntariado, de ajuda informal ou de socialização, Ruston conclui que este grupo de pessoas (que fez qualquer uma dessas actividades) tende a passar mais tempo do que a população em geral com outros na comunidade. Entre estes, aqueles que ajudam são os que se destacam mais (passam o dobro do tempo com outros quando comparamos com todos os adultos).
Este reconhecimento do voluntariado enquanto forma de interacção social, ao lado de outras como a ajuda informal e a sociabilidade, é bem revelador do facto de o voluntariado poder ser aquilo a que Ruston chama um espaço social, onde ocorrerão interacções sociais.
O mesmo reconhecimento está presente na muito frequente consideração do voluntariado enquanto proxy da sociabilidade numa série de artigos. Em Bruni e Stanca (2008), por exemplo, o voluntariado é usado como uma das duas proxies para medir as actividades relacionais e o seu efeito na felicidade. De forma semelhante, Becchetti et al. (2008) incluem a participação em actividades de voluntariado entre as cinco variáveis que consideram no cálculo do seu índice de tempo relacional.
Também Wilson e Musick (1997) encontraram fundamentação empírica para a relação entre sociabilidade e voluntariado: pessoas que reportam frequentes conversas e encontros com amigos e conhecidos mais provavelmente são voluntários do que aqueles que raramente saem ou têm poucos amigos. Na mesma linha, Prouteau e Sardinha (2011) concluíram que a dimensão relacional no lazer influencia positivamente a probabilidade de alguém se tornar voluntário e que aqueles que apresentam maior inclinação para a sociabilidade (apreciam relacionamentos com amigos e com outra pessoas) mais provavelmente se tornam voluntários.
27 Referindo-se a Putnam (2000).
Como já enunciado, um outro sinal da presença da dimensão relacional no voluntariado é a importância de se ser convidado enquanto razão decisiva para alguém se tornar voluntário. A formulação desta explicação para a participação em actividades voluntárias é, habitualmente, atribuída a Freeman (1997), no entanto em Smith (1994) encontramos já a revisão de alguns artigos, na área da Sociologia, que propõem esta relação. Mais tarde, Prouteau e Wolff (2004) designaram-na de “efeito rede”, que resultará de um maior número de encontros e de mais intensa produção e consumo de bens relacionais no quotidiano, aumentando a probabilidade de se vir a ser convidado, de conhecer outros voluntários ou mesmo potenciais beneficiários, o que poderá ser determinante na decisão de vir a tornar-se voluntário. Encontramos fundamentação empírica para este efeito em Rochester (2006), que refere um estudo realizado no Reino Unido28 confirmando que grande parte dos voluntários se envolvera nestas actividades por terem sido convidados, habitualmente por alguém que já é voluntário ou por um amigo e mesmo membro da família. Assim, a participação em actividades de voluntariado é potenciada pela pertença dos indivíduos a redes sociais. É interessante a conclusão reportada pelo autor, revelando que enquanto as doações monetárias tendem a ser explicadas por características e valores pessoais, a doação de tempo mais provavelmente estava relacionada com laços comunitários.
Referimo-nos, por último, à investigação na área do capital social e ao contributo que pode trazer para a compreensão da relação entre voluntariado e sociabilidade.
Ainda que a discussão sobre a definição de capital social seja muita vasta, este não será o local para a aprofundar. Para que possamos analisar a relação entre voluntariado e capital social, poderemos focar-nos na definição proposta pela OCDE: “redes que em conjunto com normas, valores e entendimentos partilhados facilitam a cooperação inter e intra grupos”29.
As normas mais comummente associados ao capital social são a confiança e a reciprocidade e o voluntariado é entendido como uma actividade que permite construir capital social, uma vez que a reciprocidade gerada nesta actividade ajuda a promover a confiança, a coordenação e a cooperação, até por não envolver trocas monetárias.
De entre os vários tipos de capital social identificados na literatura, o capital social de ligação (bonding) será o que sai mais fortalecido com o acréscimo de relações interpessoais, uma vez que tem uma natureza horizontal e se estabelece entre pessoas que vivem com alguma proximidade e que têm elevado grau de confiança entre si.
Segundo Ascoli e Cnaan (1997), o voluntariado cria uma série de processos comunitários, permite que pessoas que não se conhecem se encontrem, promove um sentimento de pertença, estimula o crescimento e propagação de interesses comuns e cria uma cadeia de compromissos.
Para além do impacto que o voluntariado tem no capital social, é comum analisar-se igualmente a influência do capital social no voluntariado. De acordo com esta perspectiva, as relações sociais proporcionam recursos que permitem aumentar a participação em actividades de voluntariado.
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Home Office (2004), 2003 Home Office Citizenship Survey: People, Families and Communities, London, Home Office Research Study 289.
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Nossa tradução da definição consultada em, “What is social capital”, OECD Insights: Human Capital, disponível em http://www.oecd.org/insights/37966934.pdf
Estudaremos mais tarde com profundidade os contributos que a teoria económica tem trazido para a análise da dimensão relacional do voluntariado, mas podemos avançar alguns. Em primeiro lugar, o facto do elemento efectivamente distintivo no voluntariado poder ser a criação de vínculos de relacionalidade e não a gratuidade, a qual está também presente nas doações monetárias (Zamagni, 2000). Segundo o autor, o que caracteriza o voluntariado não é tanto o facto de ser feito para os outros, mas antes o ser feito com os outros. Por outro lado, Zamagni (2000) identifica igualmente a relação entre a vontade de criar e consolidar redes de confiança e a participação em actividades de voluntariado.
Desta muito breve análise da relação entre voluntariado e relações interpessoais interessa reter algumas conclusões que poderão trazer algo de novo à compreensão da complexidade da actividade voluntária.
Associar a dimensão relacional ao voluntariado permite captar novos elementos que as outras dimensões desvalorizavam. O facto da actividade voluntária ser propícia à ocorrência de interacções face a face leva-nos à consideração de valores como a reciprocidade, a confiança, o compromisso, sentimento de pertença a uma comunidade e até a felicidade.