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Com o final da Segunda Guerra Mundial, houve a necessidade de reestruturar as nações devastadas e esse processo foi objeto de estudos de muitos pesquisadores e fundamento de muitos projetos de desenvolvimento, em todas as áreas científicas. Segundo Santos (2007), neste período o espaço se tornou o conceito teórico central para a Geografia. Em ampla discussão, o espaço é concreto e abstrato, serve para designar a superfície e a biosfera da Terra, o ecúmeno que se refere ao espaço habitado (DOLLFUS, 1982) e a organização espacial das atividades humanas (HARVEY, 1969).

Na concepção de Milton Santos (2008), o espaço geográfico é um conjunto de sistemas de objetos e ações, representado por sua funcionalidade e operacionalidade. Suas atribuições são determinadas pelas características das relações sociais e culturais da sociedade que habita este território em determinado período. As concepções de ocupação, uso e disponibilidade do espaço geográfico são diferentes em cada cultura. Essas diferenças se dão devido à localização dos assentamentos populacionais e de suas relações com as condições geográficas de clima, solo, paisagem e perfil natural das produções econômicas e de sobrevivência. Ou seja, o espaço geográfico é produzido, segundo Santos (2008), na relação da concepção do ambiente com as necessidades de manter-se vivo, alicerçada pela cognição espacial elaborada ao longo da vida.

Ao discorrer sobre o espaço geográfico, esta pesquisa não pretende estabelecer uma definição única, esgotar as discussões sobre o tema e, tampouco, apresentar uma nova construção conceitual. Por esta razão, são apresentadas algumas definições literárias de espaço geográfico, que servem para esclarecer a aplicação dos conceitos de território e região, que fundamentam esta pesquisa em Geografia. Segundo Fernandes (2006), as categorias de análise da Geografia: lugar, paisagem, região, território são espaços geográficos, mas, quando aplicados por outras ciências, a forma e o conteúdo podem apresentar modificações e representarem coisas com outros significados e aplicações.

A composição do espaço geográfico para Santos (2008), só pode ser compreendida na totalidade de suas dimensões e concepções atribuídas por cada sociedade. A forma com que o ser humano se vê, posiciona e age no espaço, torna-o produto e produção, fluído e fixo, processo e resultado, lugar de partida, passagem e

destino. As variáveis que se manifestam no espaço de forma natural ou produzidas por ele, se tornam quantitativas e assumem valores distintos no tempo e tornam-se variáveis espaciais.

As atividades naturais e humanas, que se tornam variáveis quantitativas, devem seguir uma linha de continuidade no tempo e no espaço, mesmo que esta seja uma linha de continuidade intermitente, do contrário serão atividades de valores constantes, fixos em um recorte único. A continuidade das atividades faz a história e, segundo Santos (2008, p.106), “cada lugar combina variáveis de tempos diferentes. Sendo assim, o espaço geográfico é histórico, construído pelas relações passadas, mantido e construído pelas relações atuais.

No entendimento de Corrêa (2012), o espaço geográfico é condição de estudo de todas as condições espaciais produzidas pelas relações entre os seres humanos e entre estes e a natureza. É formado pelos elementos naturais e pelas dimensões sociais, culturais, políticas e econômicas. Compreender as ações dos seres humanos no uso das condições naturais significa compreender a produção do espaço geográfico ao intercalar as diversas dimensões destas ações.

Na visão de Santos (2008), essa compreensão alcança o entendimento da produção e da organização espacial, na medida que relaciona as especificidades estruturais dos processos sociais. A sociedade cria seus assentamentos no espaço geográfico e reproduz a espacialidade sob a produção de novas condições espaciais. O resultado é uma formação territorial, social e econômica, que atende às necessidades da sociedade e as relações desta com a vizinhança.

Para Santos (2014), as relações de vizinhança no espaço geográfico, além de considerarem a formação socioeconômica da sociedade, devem considerar a sua formação sócio espacial. É esta relação que capacita a sociedade para exercer seu poder de delimitação territorial. Segundo Fernandes (2012), é a aceitação pela vizinhança do território com fronteiras delimitadas que garante a criação de assentamentos humanos no espaço geográfico, respaldados pelas normas jurídicas, formais e informais.

Outra visão de espaço geográfico, retirada da literatura de Olivier Dollfus (1982), apresenta a conceituação de espaço como materialidade e produto das relações sociais. Trata de entender as ações humanas sobre a natureza, em diferentes condições culturais a partir de uma abordagem relacional. Tanto as relações sociais quanto as interações do ser humano com a natureza são importantes

na análise geográfica, são elas que permitem a compreensão das causas, características e consequências da diferenciação espacial.

Não diferente de Santos (2014), Dollfus (1982), define o espaço geográfico como um conjunto histórico de relações. Contudo, Dollfus (1982), afirma que as relações se estabelecem na superfície da Terra, em um espaço concreto, localizável, mutável e único, formado por um conjunto de lugares diferentes, resultado de interações particulares entre objetos e relações. Essas condições deixam claro que o espaço geográfico, além de útil, apresenta uma fronteira organizada de acordo com os interesses e necessidades da sociedade.

O espaço geográfico se destaca da concepção de espaço, pois determina a localização, a dimensão, o histórico das mudanças e as adaptações de seus componentes e é único no tempo e no espaço. Essa descrição, segundo Dollfus (1982), caracteriza cada espaço geográfico pela sua homogeneidade, ou seja, mesmo que combinações das características espaciais sejam encontradas em outro espaço, as repetições são determinadas, mas não são idênticas. A homogeneidade espacial garante a identidade do espaço, dada pelas condições predominantes das características naturais e pela estrutura organizativa social, político-administrativa e pelas condições econômicas específicas.

No contexto histórico pós Segunda Guerra Mundial (1938-1945), ocorreram profundas alterações nos campos científico, tecnológico, social, econômico e político, devido ao processo de reestruturação das nações e, consequentemente, um novo desenho do Mapa Mundial. Segundo Christofoletti (1982), esses acontecimentos exigiram da Geografia novas perspectivas de estudos do espaço, de lugar, território e região, que suplantaram os paradigmas da Geografia Tradicional. Com isso, surgiu um conjunto de ideias voltadas para uma Geografia fundamentada na teoria e nos métodos quantitativos matemáticos e estatísticos.

De acordo com Christofoletti (1982), muitas pesquisas e muitos geógrafos, a partir desta mudança de paradigmas, passaram a apresentar nas publicações, maior rigor científico. São pesquisas que podiam ser testadas, refutadas ou aplicadas em outros experimentos, utilizando como base cientifica o positivismo lógico ou neopositivismo, como método de compreensão cientifica do mundo e assumindo uma pretensa neutralidade.

O positivismo lógico, ou seja, a lógica das relações, consiste em deduções, através da lógica formal e da matemática pura, a partir de um pequeno número de

premissas presumivelmente de caráter logico e didaticamente estabelecidas. Serviu para fundamentar o método científico que indicaria a cientificidade das pesquisas, através do desenvolvimento de hipóteses, na busca de teorias, leis gerais e dados empíricos para sua verificação. As teorias lógicas elaboradas por Frege e Russel resultaram na produção da Principia Mathematica, principal fonte de embasamento da metodologia do positivismo lógico (WEINBERG, 1960, p. 11).

Segundo Moraes (1997), o positivismo lógico serviu para a Geografia localizar os fenômenos sociais, quantificar as condições físicas e mensurar os custos em um planejamento de reconstrução e objetividade de futuro. Fatos que, segundo o autor, aproximaram a Geografia da Economia. Esta definição cientifica da Geografia, reposicionou as pesquisas geográficas, principalmente nos Estados Unidos, Grã- Bretanha, Suécia e Rússia.

Para Christofoletti (1982), a Nova Geografia procurou se enquadrar no contexto científico global, mudando a aplicação do método geográfico para o método cientifico com as seguintes proposições: a) maior rigor na aplicação da metodologia científica; b) desenvolvimento de teorias; c) o uso de técnicas estatísticas e matemáticas; e d) a abordagem sistêmica

Enfim, a Geografia constituiu o espaço geográfico como conceito fundamental que conecta suas vertentes humanas e físicas capazes de garantir a descrição e comparação de espaços, elaborar fundamentos e explicações para a compreensão dos fenômenos que ocorrem na superfície terrestre.

A dimensão científica do espaço geográfico herdou a linguagem matemática e o domínio quantitativo, das teses elaboradas no início do século XX, que desenvolveram modelos espaciais para definir lugares centrais, sua capacidade de análise espacial. A condição de identificar e quantificar as estruturas espaciais, tais como fluxos, redes, nós e hierarquia, permitiu à Geografia explicar os fenômenos de difusão espacial.

A escola francesa, representada por François Perroux (1903-1987) e Jacques Raoul Boudeville (1919-1975) e as escolas alemã e austríaca, representadas por Johann Heinrich von Thünen (1783 – 1850), Alfred Weber (1868 – 1958), Walter Christaller (1893 – 1969) e August Lösch (1906 – 1945), até os anos de 1990, exerceram grande influência nas pesquisas de análises regional, com a Teoria Clássica de Localização – TCL. Estas duas escolas contribuíram com os primeiros

estudos da problemática da espacialização do crescimento econômico que se tornaram bases das análises espacial e regional.

Segundo Palacios (1983), as teorias elaboradas por estes autores, fundamentadas na abstração da importância dos fatores sociais sobre a configuração espacial, foi sistematizada por Walter Isard (1919 – 2010), na década de 1950, com a publicação de Location and Space-Economy: A General Theory Relating to Industrial

Location, Market Areas, Land Use, Trade, and Urban Structure (1956). O resultado

desta profusão literária, foi chamada de Ciência Regional, que no advento das geotecnologias concedeu a base teórica para a análise espacial, comumente trabalhando com regionalização polarizada, espaço físico métrico, lugares centrais e acúmulo de crescimento (CAPELLO, 2008).

O meio técnico científico informacional, associado à ideia de globalização, discutido por Santos e Silveira (2014), destaca os sistemas de modernização na produção, cuja interdependência entre desenvolvimento da técnica e a aplicação da ciência moldam ou criam possibilidades de construção de novos espaços. Para Santos (2014), a racionalização, matematização, quantificação e os métodos estatísticos, atingem mais intensamente as interpretações que se tem de espaço. A razão que direciona para a interpretação da espacialidade é resultado da mecanização da produção e das máquinas.

Paralelamente ao avanço da cientificidade em Geografia, a partir dos anos 1950, a área tecnológica apresentou os primeiros computadores, seguidos do lançamento de satélites nas próximas décadas. A Terra é vista de cima, as conexões das vias são visíveis. Os fenômenos naturais produzidos pelo homem são facilmente quantificáveis e os elementos matemáticos e estatísticos também podem ser qualitativos. Trabalhar com grandes pacotes de dados se tornou mais fácil.

A partir dos anos de 1990, o espaço geográfico pôde ser fatiado em fenômenos diferentes em uma mesma área, modelado através dos Sistemas de Informações Geográficas – SIG e representado por cartografia digital. Tanto a ciência, quanto a técnica se mostraram úteis e necessárias para o crescimento e o desenvolvimento territorial e econômico das nações e, de certa forma, contribuíram para a melhoria do bem-estar e da qualidade de vida da população.

Sob o ponto de vista de Capello (2008), a ciência regional ainda detém a atenção das escolas de Economia e Geografia sobre o planejamento do território. A análise regional é chamada para fornecer as melhores ferramentas teóricas e

metodológicas, a partir das quais as escolhas normativas podem confiar a elaboração de planejamentos de crescimento, desenvolvimento e administração urbana, regional e territorial.

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