A regionalização, como mecanismo de planejamento da administração pública, antecede a construção das regiões que, por sua vez, antecede o regionalismo. No nexo da administração pública, a regionalização é um processo versátil, dinâmico e muito útil. Porém, com consequências desastrosas se aplicada de forma aleatória.
Por outro lado, o processo de regionalização bem-sucedido é acompanhado da versatilidade em adaptar as regiões a objetivos amplos que atendam também a objetivos específicos. Uma regionalização pode ser ajustada periodicamente para se moldar às transformações socioespaciais que produzem, com propósitos de produzir o constante desenvolvimento que acontece de formas diferentes e em diferentes
períodos. Nesta perspectiva, o Estado estabelece bases administrativas para elaborar, implementar e coordenar políticas e investimentos públicos para o desenvolvimento, organizando-as por setores e com a aplicação de estratégias diferenciadas para cada região.
Toda regionalização é realizada para atender a determinados objetivos, portanto, ela consiste em produzir um recorte espacial de tamanho razoável em um território que apresenta recursos muito próximos do homogêneo. É uma região em que são estabelecidas conexões de atividades produtivas, administrativas e recursos econômicos para superar e atingir metas de desenvolvimento e de atendimento à sociedade. Serve como mecanismo de descentralização das funções da administração pública.
Segundo Fernandes (2006), a territorialidade envolve a apropriação do espaço geográfico pelo indivíduo, pela comunidade e pelas organizações sociais, econômicas, financeiras e governamentais na busca por uma relação controlada de produção econômica, administrativa e ou política. Não se trata de um processo de produção e ocupação do espaço em curto prazo, mas requer o envolvimento da sociedade para alcançar uma dinâmica cumulativa de desenvolvimento.
O espaço regional deve ser integrador de todas as áreas e atividades. No entanto, a especialização é necessária e a diversidade produtiva é importante para a diversidade espacial. As funções do Estado são fundamentais para o desenvolvimento regional e para a formação de cada região, através de políticas de atração e investimento de pátios produtivos, implementação, manutenção e modernização de grandes infraestruturas, tomada de decisões em favor de determinados interesses econômicos e financeiros, que consistem na descentralização do investimento regional. O Estado é essencial para iniciar a regionalização, fortalecendo o status e aparelhando a região com ferramentas, inovações, integração espacial e recursos para criar o desenvolvimento regional.
Em todos os processos de regionalização, visando o desenvolvimento regional, segundo Piffer (2016), Piacenti (2016) e Willers (2016), a região se beneficia de aportes, ou seja, de condições internas e externas que participam da transformação do espaço regional. O aporte interno regional está relacionado com as condições produtivas, ambientais, demográficas, culturais, econômicas, políticas e as relações sociais da população de determinada região. O aporte externo ou institucional consiste nas ações e intervenções de agentes públicos, no que tange à
legislação, planejamento, projetos de desenvolvimento, investimentos e organização administrativa em âmbito estadual e federal. O Estado age para facilitar ou limitar os fluxos de pessoas, mercadorias, informações e capital, atuando como agente transformador do espaço.
A globalização econômica e a abertura das economias nacionais são outros aportes externos que podem ser benéficos e criar condições de crescimento e desenvolvimento regional, mas também podem ser prejudiciais, reduzindo o crescimento e criando uma zona de estagnação. Segundo Willers (2016), essa influência é a mais importante para qualquer região no Brasil e no mundo e é fator de grandes alterações na dinâmica regional. Tanto uma como a outra estão sujeitas às demandas do mercado mundial, às inovações tecnológicas, culturais e científicas, investidores, troca de conhecimento na ciência e na educação e ajuda estrangeira.
A capacidade de algumas aglomerações urbanas produzirem condições de atrair investimentos, tornarem-se atendentes e influenciarem a demanda local e regional, permite-lhes aumentar o processo de crescimento e expandir sua área de abrangência. Esta capacidade foi denominada por Myrdal (1968), como causação cumulativa. As áreas de influência dessas aglomerações urbanas tendem a se expandir, abranger novos territórios e fortalecer os fluxos de informações já existentes, além de estreitar os vínculos com as aglomerações vizinhas para catapultar sua influência em âmbito nacional e internacional, devido ao seu perfil polarizador.
Segundo Moura (2009, p. 25), a expansão da área de influência dessas grandes aglomerações urbanas é resultado das relações complexas e intrincadas dos fenômenos socioeconômicos superlativos, que surgem em diferentes escalas de intensidade, quantidade e localidade. São essas relações de desafios sociais, econômicos e ecológicos, que produzem e garantem a importância das megacidades, macrometrópoles, cidades-regiões ou outras denominações que expressam a dimensão desses complexos e os diferenciam das aglomerações urbanas singulares
Segundo o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (DESA, 2018), a partir de 2010 as cidades passaram a ocupar 2,0% da superfície da Terra, ao todo 55% da população mundial reside em áreas urbanas, contra 30% no ano de 1950. A projeção para 2050 é que 68% da população mundial resida em áreas urbanas. A urbanização não é só um desafio para as megacidades, é também uma preocupação constante para os pequenos centros urbanos, uma vez que a população rural tende a diminuir.
O crescente processo de urbanização em todas as partes do mundo é resultado da reestruturação econômica global que teve início a partir de 1980. No Brasil, esse processo produziu grandes centros urbanos, tais como: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte que, segundo Maricato (2003), têm sérias deficiências estruturais que levam à exclusão da população pobre da cobertura de serviços básicos e dos principais recursos urbanos.
A comparação dos dados dos censos populacionais de 1991, 2000 e 2010, mostra que as populações das regiões metropolitanas dos municípios continuam a crescer, embora em ritmo lento. No relatório sobre crescimento populacional, coordenado por Ribeiro et al. (2012, p. 2) e produzido para o Observatório das Metrópoles, concluiu-se que o país diminuiu o ritmo de crescimento populacional, “[...] se tornou mais urbano, mais feminino e mais idoso, em decorrência, principalmente, da mortalidade diferencial por sexo e do declínio da fecundidade”. Nas metrópoles, os Censos mostram uma tendência de reversão da população para as regiões metropolitanas e não metropolitanas, constituídas por cidades médias, cujo ritmo de crescimento populacional também é atingido pela migração.
A redistribuição da população, conforme Redwood III (1984, p. 2), é resultado da inversão da polarização, que realocou espacialmente as atividades econômicas de produção, a industrialização e os serviços e que, ao longo do tempo, ordenou novos processos de desenvolvimento regional da economia em outras áreas, tendo em vista que as pessoas tendem a migrar para locais onde há empregos, em vez de empregos serem criados nas localidades em que há força de trabalho.
No entanto, a força de trabalho é somente um dos fatores da produção. Esses fatores são situações que estão diretamente ligadas ao processo de descentralização industrial em São Paulo e no Rio de Janeiro, a partir da década de 90 que também facilitaram as novas conformações urbanas brasileiras, alteraram a relação regional da economia e causaram impactos significativos na reconfiguração de territórios e das redes urbanas. Segundo Benko e Lipietz (1994), a dispersão espacial de aglomerados produtivos e a distribuição regional do emprego industrial no decorrer de um período, pode contribuir com a criação de espaços industriais e gerar novas polarizações econômicas mais equilibradas no território.
Em seus estudos sobre regionalização, Lemos (2003), aponta que a descentralização industrial provocou mudanças importantes na dinâmica regional contemporânea, aumentou a diferença de crescimento entre as regiões mais e as
menos desenvolvidas e a crescente urbanização. A permanência de São Paulo como polo industrial e econômico brasileiro se explica a partir da teoria de Benko e Lipietz (1994), que aponta para a existência de uma tendência centralizadora pós- globalização, através da qual regiões com maior capacidade de centralidade ficam restritas às metrópoles e megalópoles sob a forma de tecnopolos.
Para atenuar essa centralidade Lemos (2003), sugere que haja intervenção do Estado para fomentar a redistribuição dos distritos industriais em cadeia, com o intuito de deslocalizar a oferta de empregos, redirecionar fluxos de serviços e produção e fomentar o aumento da prestação de serviços inter-regionais. Dessa forma, os modelos de regionalização e de urbanização serão modificados e se sustentarão fora do perímetro das metrópoles.
O conceito de regionalização se torna inseparável dos conceitos de polarização, centralidade, hierarquia e assimetria regional e urbana. Os polos podem ser espacialmente próximos e/ou complementares economicamente. Seja qual for a configuração dos centros urbanos, os polos são fundamentais para qualquer regionalização e estão sujeitos a grandes interações nas proximidades e poucas mudanças em suas margens, nas quais a flexibilidade é a moeda de troca.