Segundo Santos (2014), até a terceira revolução industrial na década de 1970, a regionalização era feita pelas conexões horizontais a partir de uma cidade ou rede de cidades na extensão das áreas de influência e dominação. Após a década de 1990, os avanços tecnológicos das comunicações e transporte realinharam as conexões e tornaram-nas verticais, proporcionando uma nova configuração regional que se edificou por intermédio da inter-relação entre pontos e lugares selecionados, de forma a superar as tradicionais hierarquias urbanas através das redes de interação ou das redes de cidades que participam do jogo entre o local e o global.
A complexidade da rede urbana aumentou com as inter-relações entre as regiões funcionais e os centros urbanos, marcadas por complementaridade funcional. Corrêa (2003), destaca que estas relações, que não podem ser definidas pela Teoria dos Lugares Centrais, são inter-relações estratificadas entre cidades próximas e distantes, isto é, que se posicionam em diferentes escalas, sejam elas locais, nacionais, globais ou em combinações e intermediações. Convém repensar a rede urbana devido à complexidade das camadas estabelecidas nas relações entre as cidades da mesma região, cidades de outras regiões ou países e entre empresas locais, regionais ou internacionais.
A dimensão territorial, a cultura e a sociedade brasileira não comportam uma única ideia de regionalização simplificada. Baseado na teoria das localidades centrais de Christaller, Corrêa (1989), explica que a circulação resultante da articulação entre os núcleos urbanos, reforça a diferenciação do volume de produtos comercializados e das atividades político- administrativas entre as localidades. O perfil econômico superior, associado à concentração de atividades produtivas, riquezas, população, infraestruturas, serviços e capacidade de absorção de investimentos públicos e privados, coloca a cidade em posição privilegiada como um nó da rede urbana. O dinamismo das interações entre as cidades define a polarização a favor das metrópoles e das cidades médias e subordina centros urbanos de menor dinamismo. O Estado tornou-se mais presente e atualmente busca alcançar a população, contudo ainda há dificuldades para atingir e delinear as especificidades e complexidades das múltiplas realidades brasileiras. Para Fernandes, Bitoun e Araújo (2009, p. 4), as políticas de desenvolvimento devem estar atentas às diversidades de cada território, assinalar cada situação, de modo a compor instrumentos de políticas
urbanas tanto nas regiões metropolitanas, nas concentrações urbanas, no urbano não metropolitano e no isolado ou rural, independente da base econômica.
Segundo Corrêa (2011), a complexidade e as diferenciações funcionais dos centros urbanos são traduzidas na hierarquia das cidades, produzida pelo processo de desenvolvimento regional, criado a partir das ações do Estado, da iniciativa privada ou pelo consórcio de participação público-privada. Na atual configuração da economia brasileira, algumas cidades arrefeceram na produção e na oferta de serviços, perdendo empresas e profissionais que migraram para outras localidades com melhor oferta, outras cidades aqueceram as potencialidades funcionais ou tiveram potencialidades criadas para atender a demanda.
De acordo com Singer (1990), as cidades se organizam em redes para otimizar e fazer fluir as interações espaciais, que se realizam em diferentes escalas espaciais. Cada transação é mensurada através da intensidade com que o excedente é ofertado a outros centros urbanos. As funções desempenhadas pelos centros urbanos limitam-se ou expandem conforme a capacidade de ofertar e atender a procura por bens e serviços e a fluidez dessas relações é o que determina o peso e a centralidade de um centro urbano em relação aos demais.
São as redes urbanas ou sistemas de cidades que configuram o recorte regional e territorial nas interações entre as cidades, através das redes de transportes e comunicações que são constituídas a partir das dinâmicas regionais. Segundo Corrêa (2011), a rede de cidades está assentada sobre uma estrutura física, mas o conjunto entre as relações e a dinâmica dos locais integra fluxos de diferentes naturezas, produzem relações horizontais naturais de uma região polarizada, bem como relações verticais em que a força do polo está na sua área de influência, além de participar da estrutura de rede nas relações não contíguas.
Ainda de acordo com Corrêa (1994), a rede urbana e a divisão territorial do trabalho constituem um conjunto de relações e dados espaciais que permitem elaborar critérios analíticos do desenvolvimento regional e urbano. Nesta linha de pensamento, a divisão territorial do trabalho é o resultado da diferenciação dos polos regionais, que atribui significado aos arranjos distintos do processo de qualificação e especialização de serviços e da ação destes na composição da economia, para viabilizar as condições necessárias para a produção, distribuição, circulação e consumo.
As cidades funcionam em rede, mas as trocas são feitas entre polos econômicos, conectados por meios de transporte e comunicação, através de uma
estrutura de relações horizontais. Segundo Corrêa (1989), a rede urbana representa um conjunto de pontos fixos e fluxos de trocas entre cidades funcionalmente articuladas, que permite um recorte espacial que facilita a análise do desenvolvimento regional É através das redes que acontecem as interações espaciais, através das quais centros urbanos de diferentes escalas de importância e funcionalidade são conectados.
As redes têm a função de conectar diferentes localidades de interesse comum, sejam elas próximas ou distantes e, desta forma, os centros urbanos concentram, produzem e intensificam o processo de divisão do trabalho. Segundo Sposito (2008), a aplicação de novas tecnologias produz especializações de trabalhos e produz a seletividade dos territórios e a diferenciação qualitativa na divisão territorial do trabalho.
Os fatores relacionados à aglomeração urbana reduzem os custos de transação e os custos de transporte e de locação das empresas, além de produzirem especializações profissionais deslocalizadas, através das quais trabalhadores especializados não dependem do meio físico local da empresa ou de uma só empresa para exercer sua função. As cidades constituem núcleos dinâmicos de presença e oferta de serviços cada vez mais desconectados do emprego. Segundo Camagni (2005), isso se deve ao setor terciário e às funções das grandes empresas, que são capazes de deslocar sua posição geográfica. A força de trabalho não qualificada, que depende de emprego, se sujeita à remuneração mais baixa e ressente a dificuldade de acesso aos bens e serviços.
Segundo Corrêa (2011), a estrutura espacial, dimensional e funcional da rede urbana se constitui em dois tipos: a) uma rede dendrítica que se constrói a partir de um único e grande centro de distribuição e ponto de convergência de todos os outros pontos, que descreve a movimentação dos colonizadores na ocupação do território que usavam como via de trafego os cursos fluviais e b) uma rede urbana complexa com centro de distribuição que polariza os centros menores, cuja dependência do centro menor pode ser suprida pelo maior centro urbano, em posição de hierarquia de lugares, que pode ser representada pela teoria dos lugares centrais de Christaller.
As condições brasileiras de hierarquia urbana e regional foram estudadas por Fernandes, Bitoun e Araújo (2009), que tipificaram as redes urbanas e obtiveram resultados de agrupamentos microrregionais com problemas de produção e concentração de riquezas e outros com alta capacidade de acumular riquezas. Porém,
mesmo os polos mais pobres têm capacidade de polarizar uma região quando apresenta potencial para suprir as necessidades imediatas da população com baixo poder aquisitivo. A população mais abastada se serve do polo mais próximo e, também, se desloca para os polos maiores. A fricção de distância em uma região empobrecida afeta com maior ou menor intensidade a população conforme o poder aquisitivo.
As cidades médias se tornaram destino da população que sai do interior do Estado em busca de trabalho, por apresentarem condições variadas de serviços e comércio, parque industrial, participação na produção agrícola e dinamismo no setor terciário, que são fatores importantes para produção de emprego e renda. Segundo Amorim Filho (2001), Soares (2001) e Sposito (2001), as cidades médias são os principais nós de desenvolvimento na rede urbana brasileira e na economia do país.
A hierarquia atribuída ao efeito da localização dos valores do PIB Municipal mostrou-se constante ao longo da curva de distribuição dos dados. Galego e Pereira (2013), frisaram a importância de se estudar a desigualdade regional ao longo da distribuição, pois a estimativa do PIB Municipal pela média pode distorcer o que estiver acontecendo nos extremos da distribuição. Diversos outros trabalhos sobre desigualdade apontam para essa recomendação, como Figueiredo e Silva (2012), que usam a decomposição quantílica para analisar a questão da desigualdade de oportunidades no Brasil e Bartalotti e Leme (2007), que utilizam dessa metodologia para estudar a questão da discriminação por gênero e cor.