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Dans le document Avis 12-A-21 du 08 octobre 2012 (Page 187-193)

O trecho a seguir é parte de uma entrevista fornecida por uma coach (à qual chamaremos de Coach 1) que atua na grande Porto Alegre (RS), com foco em pequenos e médios empreendedores de cidades da região. Coach 1 é associada a uma entidade internacional (à qual chamaremos de Instituição 2) que certifica e acredita coaches por todo o território nacional. Formada em marketing por uma universidade norte- americana, a coach em questão ostenta no currículo experiências profissionais no exterior, além de uma especialização em terapia sistêmica e uma formação em coaching por uma escola canadense de inspiração ericksoniana. Além disso, possui formação em Programação Neuro-linguística (popularmente conhecida como PNL60). O repertório de

experiências profissionais e acadêmicas da Coach 1 lhe fornece o arcabouço conceitual que é sustentado nas suas falas sobre o coaching e sobre a ideia de realização pessoal.

Em outras entrevistas realizadas antes dessa, anotamos a recorrência de um método de provocação que os coaches chamam de “perguntas poderosas”. Trata-se de perguntas enunciadas em tom provocativo que buscam fazer com que o coachee pense “fora da caixa” (conforme expressão usual no mundo corporativo), sentindo-se compelido a buscar seus objetivos. Num dado momento da entrevista, indagamos por que as“perguntas poderosas” tinham esse efeito. Segundo Coach 1:

60Teoria criada pelos norte-americanos Richard Bandler e John Grinder nos anos 1970. Possui forte apelo à lingüística e à hipnose, defendendo haver uma integração entre cérebro, mente, corpo e linguagem, de forma que seria possível intervir nesse conjunto através de exercícios sistemáticos. A PNL foi muito questionada cientificamente na segunda metade do século XX, a ponto de ter sido mesmo considerada como pseudo-científica. Por possuir apelo à hipnose, a PNL é recorrentemente associada à psicologia ericksoniana – como no caso da trajetória educacional da Coach 1.

O objetivo do coaching é uma mudança de hábito, de comportamento, que vai levar a pessoa a um patamar mais

feliz, mais realizado em alguma situação da vida dela. Pra

uma pessoa construir uma mudança permanente na vida, ela precisa mudar a forma do pensamento (que vai influenciar a forma como ela percebe as coisas, as crenças, a realidade dela). E pra pessoa mudar isso, ela tem que criar caminhos

neurológicos diferentes dentro do cérebro. E isso tem que

forçar, de certa forma, a pessoa pensar e criar esses caminhos por si. Se eu dou uma resposta pronta, quem tá criando a resposta pra pessoa sou eu. A pergunta faz com que a pessoa crie aquela sinapse diferente pra buscar uma forma diferente de encarar aquela situação. E aí vai criando outros caminhos, outras possibilidades, e vai deixando de usar o caminho que não serve, que não lhe faz bem. (Trecho de entrevista com Coach 1)

A mudança de hábitos, de comportamentos e de crenças constitui pauta central no coaching. Isso implica na procura de teorias e métodos ofereçam respostas sobre como operar pragmaticamente essa mudança. O intenso pragmatismo sugere uma neutralidade moral e política dos coaches. Por essa razão, muitos dos coaches entrevistados salientam que o bom coach deve abster-se de emitir juízos numa sessão de

coaching61. Nesse aspecto, adentram na estrutura argumentativa noções orientadoras como a auto-realização e a própria felicidade. Através dessas noções, globaliza-se o método, uma vez que se acredita que a busca pela auto-realização e pela felicidade constituem uma comum entre todas as pessoas.

O sentido de universalidade também está presente na alusão ao cérebro. Todos nós temos cérebro, afinal. Decorre disso a busca por princípios de legitimação nas neurociências e nas ciências psicológicas, conforme dito anteriormente. Não raro, deparamo-nos no campo de pesquisa com conceitos como neurocoaching.Parece haver aqui uma espécie de crença numa fisiologia cerebral da felicidade e da auto-realização. Ter sucesso é ter as conexões neurológicas mais apropriadas dentro do cérebro. O corpo é aludido como um aparelho que pode ser programado, e, portanto, é preciso instalar o

61A esse respeito, dirá Coach 1: “eu defino o coaching, assim, na forma oficial, como uma relação entre um cliente e um coach, onde o coach possibilita um espaço pro cliente trazer suas metas e então desenvolver suas metas. Ele atinge resultados dentro de um foco específico. É naquilo que o cliente está buscando. O

coach não interfere no resultado desejado pela pessoa. Não emite julgamentos. E o trabalho dele é

principalmente criar esse espaço e trazer ferramentas pra que a pessoa desenvolva aquela visão. Pra que ela faça com que o sonho se torne uma meta, um objetivo atingível dentro de um prazo. Buscando os recursos necessários, e envolvendo os que já existem”.

programa correto, com os “caminhos neurológicos” mais eficientes. Assim, abre-se a possibilidade de o humano-aparelho sentir-se feliz e realizado. Essa cosmologia se reflete na metáfora do GPS, relatado por Coach 1 para explicar como ela define o conceito de coaching:

Muitas vezes, pra mim, o coaching é como se fosse um GPS, onde a gente vai buscar o lugar em que a pessoa quer chegar, né. Qual é o destino... Se ela quer ir pra praia, quer ir pra montanha, quer ir pra outro país. E aí vai se definindo aquele destino. Se olha onde que ela ta no mapa hoje. E aí a partir disso se criam várias

rotas pra que ela possa experimentar qual que é a melhor pra que ela chegue lá naquele destino que ela quer. (Trecho

de entrevista com Coach 1)

A exemplo do relato feito na Cena 1, observamos aqui também a instrumentalização das esferas reprodutivas da vida dos sujeitos com o intento utilitarista de se buscar metas e objetivos prescritos para o futuro. Nesse caso, no entanto, evidencia-se como as linguagens do corpo e do aparelho (GPS) são unificadas, tornando-se princípio de legitimação. A felicidade e a auto-realização são o destino final de uma rota que é traçada – como num aparelho de GPS – no cérebro dos indivíduos. Além disso, exprime-se aqui um sentido de imparcialidade, posto que a objetividade das neurociências e das ciências psicológicas dão o tempero de credibilidade científica – a propósito de a própria Coach 1 não possuir qualquer experiência com pesquisa científica no campo que é reinvidicado como anteparo legitimador.

Dans le document Avis 12-A-21 du 08 octobre 2012 (Page 187-193)