A questão da ajuda (ou do apoio) é central no coaching. “Ajudar pessoas”, portanto, é uma constante que recorrentemente é problematizada em discursos públicos e privados. Essa constante é transmitida continuamente tanto pelos coaches, quanto pelos manuais e livros destinados aos profissionais da área. Assim, argumenta-se que o profissional do coaching ajuda as pessoas a atingir suas metas, a ter uma carreira de sucesso, a melhorar suas qualidades de auto-consciência e auto-reflexão, e a viver uma vida harmoniosa e sustentável. Por serem discursos performáticos, as pessoas que se procura convencer são quantitativamente numerosas e qualitativamente variadas. Decorre disso que a modulação sobre alguns temas fundamentais é algo importante para a eficácia da transmissão de uma mensagem, a qual só pode ser devidamente propagandeada metamorfoseando-se constantemente. Esse processo de efusiva modulação de mensagens codificadas se insere no bojo maior de uma “gênese e difusão”54 do coaching. É dessa transmutação de códigos que se revela um processo que
tende a fundar um “sistema de pensamento” mais ou menos estável – ou, no mínimo, com pretensões de se tornar estável.
Unem-se nesse “sistema de pensamento” conhecimentos específicos dos esportes e da educação física, das ciências psicológicas e da administração de empresas. O peso dado a cada uma dessas formas de conhecimento depende da situação onde o conceito de coaching está sendo aplicado. Ocorre também a incorporação pragmática de
54O termo “gênese e difusão” é inspirado no texto clássico da sociologia do trabalho brasileira de Vargas (1985), Gênese e difusão do taylorismo no Brasil. Nesse texto, o autor discorre sobre as razões morais e políticas da disseminação das idéias de Taylor no país. O coaching, no entanto, não possui o estatuto abrangente e paradigmático tal qual possui o taylorismo. Mas o termo é invocado no sentido de argumentar que existe uma série de variáveis importantes de serem consideradas quando se fala da profusão de uma metodologia gerencial – por mais específica que ela possa parecer – pelo campo gerencial e pelo mundo do trabalho. Uma compreensão mais geral do fenômeno não pode ocorrer sem que se considere esse conjunto de fatores. Isso nos facilita a pensar na totalidade de um processo, e não somente de um objeto.
métodos pedagógicos e teorias educacionais. Perifericamente, acontece a incorporação de conhecimento de escolas não científicas e elementos heterodoxos que soam pouco convencionais para quem vê de fora. Variantes de conhecimentos provenientes da meditação (baseada nas religiões orientais) da própria religiosidade popular, da astrologia, etc., apareceram recorrentemente no campo de pesquisa. Observa-se aqui um movimento acumulativo de conhecimentos, ou seja, que busca reunir grande número de formas para se legitimar e ser legitimado.
O “sistema de pensamento” do coaching pode ser lido em duas arenas distintas. Nele se percebe, sem dúvida, a imponência de diferentes métodos para se delinear e atingir metas, definir prioridades (na vida e no trabalho), ser mais produtivo e eficiente, etc. Mas esse universo não é puramente técnico. Não é feito apenas de um receituário prático que visa melhorar o rendimento dos indivíduos tal como se aumenta o desempenho de uma máquina. Ele possui também um forte tom moral, ou aquilo que Boltanski e Chiapello (2009) chamam de “princípios de legitimação” (ou, ainda, de “justificação”). Quer dizer, na medida em que o coaching se propõe a ser uma prática de desenvolvimento pessoal, ele não apenas deve dizer o que é (e como) “desenvolver pessoas”, mas também porque “desenvolver pessoas”. Nesse “porque” residem alguns elementos que são, em nosso juízo, alguns dos mais interessantes de serem explorados pela sociologia. É nesse “porque” que está a imagem que os coaches fazem do mundo, das relações de poder na empresa, da competitividade e dos sentidos do trabalho. Igualmente, entendemos que é aqui que se encontra o tema da felicidade.
Nos moldes dos livros de auto-ajuda (daí sua associação sempre recorrente com este campo literário), o “sistema de pensamento” do coaching exalta os exemplos eseleciona os cases de sucesso segundo seu vigor exemplar e incentivador. Mas é precisamente por constituírem um dos principais veículos de difusão e vulgarização de modelos normativos no campo gerencial que eles podem nos interessar aqui. Isso porque são inscrições públicas (ainda que dirigidos a um público específico), destinadas a conseguir adesão aos preceitos expostos. Além disso, a estrutura discursiva do
coaching não pode ser unicamente remetida à busca de uma “carreira de sucesso”. Deve
estratégicos para que os envolvidos digam que estão no “topo” porque merecem estar lá. O “sucesso” não é o ponto final da lógica de raciocínio dos coaches. Ele deve ser justificado como algo espirituoso, transformador, holístico – de forma que não se reserve apenas aos motivos econômicos.
Assim, o “sistema de pensamento” do coaching é amparado por padrões normativos que levam em consideração não só as cobiças pessoais para se atingir metas, autonomia no trabalho, independência financeira, etc. Mas, também, como essas cobiças podem ser conectadas a uma aspiração para o enobrecimento da alma e para a felicidade. Decorre disso que a ideia de desenvolvimento pessoal, em certos coaches, é aludida com um sabor professoral e sábio, apoiada por referências de “espírito elevado”, tais como as religiões orientais, filósofos e líderes políticos (como Dalai Lama, Gandhi, Mandela). Há aqui também um elenco próprio do sucesso empresarial, como Steve Jobs, Bill Gates, Walt Disney, etc., cabendo também Abílio Diniz, Eike Batista e Silvio Santos como inspirações para as versões brasileiras. Isso tudo conecta o coaching a um mercado editorialde auto-ajuda (para os negócios e para a vida), muito conhecido. Picanço (2013) faz um relato importante de como se processa esse mercado no Brasil. Na pesquisa feita pela autora, chama atenção o texto de apresentação da editora Sextante (desde 2011, especializada em livros de auto-ajuda) onde consta:
Numa época em que o homem só dispunha do céu e das estrelas para se orientar, o Sextante era uma ferramenta fundamental para se atingir o destino desejado. Observando através do sextante, o navegador se norteava, medindo a distância entre os astros e o horizonte. Foi por essa razão que escolhemos o nome Sextante para a nossa editora. Vivemos, nesse início do terceiro
milênio, um momento de inquietação e ansiedade, em que a aparente perda de valores essenciais convive com uma intensa busca pela felicidade. Conscientes dessa realidade,
investimos para que cada produto da Sextante seja um instrumento precioso para alcançar a paz interior, a espiritualidade e o crescimento pessoal, tratando sempre de temas importantes para a plena realização humana”. (Sextante apud Picanço, 2013)
A editora Sextante, por sinal, possui algumas publicações de autores que oferecem a prática do coaching55. Conforme expresso, a convivência (aparentemente
contraditória) da “perda de valores” com uma “intensa busca pela felicidade” demarca o compasso da linha editorial em questão. É de se questionar aqui se essa busca pela felicidade não fornece indicativos de novos valores que substituem os antigos – posto que se tem a impressão subjacente de uma aparente “perda de valores”. O coaching, no entanto, não deve ser visto como um subproduto do mercado editorial de auto-ajuda, como se sugere através de uma leitura superficial do problema. Nem todos os livros de
coaching se enquadram especificamente na idéia da auto-ajuda, a despeito da
familiaridade no estilo da escrita. O coaching oferece leituras pragmáticas e diretas, com foco na ação (especialmente comunicativa e prospectiva) dos indivíduos perante determinados âmbitos da sua vida. Assim podemos falar em modalidades específicas de
coaching, como coaching executivo e empresarial, coaching de carreiras, coaching de
equipes, etc. A aproximação com esse nicho de mercado depende do referencial do próprio coach, que nem sempre se dá com base nas mesmas fontes da literatura de auto- ajuda56.
Outra associação bastante recorrente é do coaching com o fenômeno dos gurus empresariais, muitos dos quais são simultaneamente gurus, autores de livros de auto- ajuda e coaches. De fato, alguns coaches assumem para si a roupagem de personalidades do mainstream motivacional, realizam palestras desse cunho, e fazem aparições públicas performáticas – algo que se evidenciará na Cena 3 do campo de pesquisa, descrita mais adiante. Igualmente, há gurus históricos que, observando o crescimento do coaching no mercado, passaram a investir também nesse filão. Mas estes genes em comum não devem servir para generalizações precipitadas. Nem todos os gurus são
coaches, e nem todos os coaches são gurus. No decorrer do campo de pesquisa, alguns
profissionais da área chegaram mesmo a repudiar esse tipo de associação, reivindicando para o coaching o estatuto de uma seriedade que, segundo acreditam, as palestras motivacionais não possuem.
John Baldoni que também assume o cartão de visitas típico de um guru empresarial.
56Para exemplificar: há livros de coaching como Felicidade 360° (Wunderlich, 2013) que poderiam explicitamente ser enquadrados na categoria da auto-ajuda. Há outros como O ManualDo Coaching
Executivo: princípios e diretrizes para umaparceria de Coaching bem sucedida (TECF, 2008) que se
caracterizam por um estilo mais técnico e diretivo. É certo que esses elementos são muito híbridos, e não podem ser absolutizados em suas diferenças. Mas as distinções são importantes para que se visualize as particularidades do coaching no mercado de capacitação profissional.
Feitas essas ressalvas, retomamos: a partir de alguns dos dados empíricos recolhidos no campo de pesquisa, entendemos ser possível sugerir que o tema da felicidade é algo que se inscrevecomo razão estratégica que orienta discursos e ações no “sistema de pensamento” do coaching. Ressalte-se que a preocupação com a felicidade não é algo que fica só no plano discursivo. Implica também na busca por teorias e métodos que visem afirmar categoricamente como ser feliz. Assim, muitas escolas de pensamento, científicas ou não, são utilizadas pelos coaches para essa finalidade. No campo de pesquisa, percebemos que uma dessas escolas é a psicologia positiva. Este não é o único tipo teórico utilizado pelos coaches. Há muitas menções às neurociências, à neurolinguística, e até a elementos esotéricos (coisas como antroposofia, astrologia e xamanismo apareceram muitas vezes no campo). Para todos os efeitos, exporemos a psicologia positiva pelo fato de reunir elementos que apareceram de forma mais ou menos dispersa nas outras referências.
A psicologia positiva é um movimento dentro das ciências psicológicas fundada nos anos 2000 por Martin Seligman, ex-presidente da Associação Americana de Psicologia. Quando ocupou esse cargo, ele buscou revisitar o que ele chamava de “missões da psicologia”. Segundo Seligman (2004), a psicologia, nos últimos 100 anos, havia se preocupado exaustivamente com a cura de psicopatologias e com as causas do sofrimento humano. A partir disso, ele passou a defender que a psicologia deveria se preocupar também com a promoção da felicidade e das virtudes das pessoas. Para Seligman (2004), a felicidade é definida por uma série de virtudes, como a resiliência, a gratidão, a coragem, o otimismo, a esperança, o amor e a sabedoria. Além disso, seria possível promover essas qualidades através de intervenções sistemáticas na subjetividade dos indivíduos através do exercício da comunicação e do auto-controle. A psicologia positiva tem parentesco com a psicologia humanista de Abraham Maslow57,
podendo ser tomada em princípio como uma evolução desta. Está em jogo aqui uma
57Maslow é famoso por sua “teoria das necessidades” que postula uma hierarquia das necessidades humanas. Segundo essa teoria,não é possível satisfazer determinadas necessidades se outras, de nível mais baixo, não estiverem satisfeitas. A essência dessa teoria invoca a crença de que as necessidades profissionais são naturalmente fundamentais, e se situam na base da pirâmide(no nível da segurança do emprego e da necessidade), logo acima das necessidades fisiológicas (como comer ou dormir). No topo está a nobreza da auto-realização, da moralidade, da criatividade, da espontaneidade, da solução de problemas e da aceitação dos fatos.
corrente teórica que se mune de definições categóricas e com promessas de validação científica sobre a felicidade.
Muitos dos coaches entrevistados disseram usar a psicologia positiva como fundamento teórico de seus serviços. Observamos também a grande recorrência de referências a Martin Seligman nos manuais e nos livros sobre coaching que foram analisados – tanto em suas variantes mais técnicas quanto naquelas mais próximas à linguagem da auto-ajuda. Todavia, o intuito deste artigo não é buscar um questionamento da legitimidade científica desse tipo de conhecimento. O que nos interessa observar aqui é em que medida esse tipo teórico serve de veículo para a disseminação de modelos normativos no mundo corporativo. Para ilustrar esse processo de disseminação, selecionamos três cenas do campo de pesquisa que passamos a descrever. Os dados parciais sobre os coaches entrevistados, sobre os manuais analisados e sobre as instituições que foram citadas encontram-se no apêndice deste texto.