Chapitre 13 Fonctions holomorphes
13.3 Formes diff´erentielles ferm´ees
Mia Couto é um construtor de mundos possíveis. Na sua produção contista são criados mundos narrativos144 alternativos, mesclados com traços do mundo real e
144
Sobre a relação entre os conceitos de mundo possível e de mundo narrativo, vejamos o que nos dizem Carlos Reis e Ana Cristina Macário Lopes no seu Dicionário de narratologia:
Fala-se de mundo possível para referir o próprio mundo narrativo, construção semiótica específica, cuja existência é meramente textual. Cada texto narrativo cria um determinado universo de referência onde se inscrevem personagens, os seus atributos e as suas esferas de acção. Ao nível da história, cada texto narrativo apresenta-nos um mundo com indivíduos e propriedades, um mundo possível cuja
aspectos de um mundo irreal. Sabemos, efectivamente, que “lo conocido y lo desconocido coexisten.” (Arán 1999: 49). Esta estratégia é usada em muitos dos seus contos. Estamos, neste momento, a lembrar-nos, entre outros, do mundo possível criado num dos seus últimos contos «Peixe para Eulália» (Couto 2004: 143-148). Recordemos alguns aspectos relacionados com este conto, já por nós abordados anteriormente. Nkulumadzi, localidade assolada por uma seca extrema, representa o mundo real, em sofrimento devido a uma catástrofe natural. Sobre esta dura realidade é criado um
mundo possível com contornos ideais e insólitos. Por exemplo, assistimos à partida de
Sinhorito, personagem central do conto, em direcção aos céus dos lados de lá, com o intuito de trazer chuva. No final do conto, acaba por chover. Só que a chuva é acompanhada por fenómenos insólitos e inexplicáveis: primeiro choveram os olhos de Sinhorito: “Já todos na varanda, apontou entre os capins os dois olhos de Sinhorito. Haviam caído do céu como dois frutos de carne.” (Couto 2004: 147); depois chuva verdadeira, “chuva gorda, farta, despenteada trança de água do colo do universo.” (Couto 2004: 147-148); e, por fim, peixe: “E peixes, aos cardumes, resvalaram dos céus.” (Couto 2004: 148). Esta criação de um mundo possível procura amenizar os efeitos de uma realidade dura. Neste caso particular, temos a questão da seca, mas, noutros momentos da produção contista, somos presenteados com situações insólitas e fantásticas que procuram dar resposta a outras problemáticas que tornam a realidade insustentável. São os casos da guerra e dos seus efeitos, a corrupção do governo pós- colonialista, a solidão, a velhice, a morte, etc.
5.2.1 Noção operativa de mundo possível
Anteriormente, em nota de rodapé, efectuámos uma breve alusão à questão dos
mundos possíveis. Deste modo, procuraremos, neste momento do estudo, efectuar uma
abordagem complementar.
O conceito de mundo possível teve a sua origem na lógica filosófica de Leibniz, foi explorado pela lógica modal de Hintikka e é hoje aplicado a muitas áreas científicas e, também, à literatura. Interessa-nos, obviamente, indagar, um pouco, sobre a relação entre a teoria dos mundos possíveis e as manifestações literárias.
lógica pode não coincidir com a do mundo real. (Reis e Lopes 1987: 245). Itálicos
Assim, uma primeira ideia muito importante prende-se com o facto de os mundos ficcionais serem, sobretudo, manifestações verbais dos tais mundos possíveis, independentemente do escritor que os produz. Na linha de pensamento desta autora, podemos enunciar alguns pressupostos. O primeiro tem a ver com a ideia de que os mundos narrativos/ficcionais se constituem “no e pelo texto, e apenas deste modo (se) compreendem (…) os espaços vazios nele encerrados, ou seja, a sua incompletude.” (Fonseca 2002: 39). O segundo pressuposto leva-nos a aceitar a ideia de que um mundo narrativo se baseia, no seu processo de construção, num mundo que é da experiência quotidiana145 dos sujeitos envolvidos no processo comunicativo. Daí que o leitor, ao entrar nesse mundo narrativo, tem como pontos de referência as características do mundo real. O terceiro pressuposto diz respeito ao facto de que determinado texto pode fazer referência a uma multiplicidade de mundos distintos, e inclusivamente contraditórios; assim, pode haver um desajustamento entre os mundos de referência do escritor e do leitor. Um último pressuposto que poderemos enunciar relaciona-se com a questão da relação entre a teoria dos mundos possíveis e a verdade em literatura. Assim, o desenvolvimento do conceito de mundo possível relativiza a questão da verdade na ficção. De facto, “nada é falso ou verdadeiro em absoluto, mas sim relativamente a um quadro de referência, que tanto pode ser o mundo empírico como qualquer dos múltiplos mundos possíveis que em seu torno gravitam.” (Fonseca 2002: 41).
Após a enunciação destes pressupostos à volta do conceito de mundo narrativo e
mundo possível, podemos considerar que Mia Couto aceita essa relação de implicação e
imbricação entre o mundo empírico e o mundo ficcional, aproveitando, assim, os diversos modos de estruturação e composição oferecidos ao ficcionista e, paralelamente, as muitas possibilidades de concretização ao dispor do leitor. Neste contexto, defendemos, de acordo com Ana Margarida Fonseca, que
cada texto literário (incluindo, obviamente o conto miacoutiano), ao constituir o seu próprio modelo de mundo – o mundo possível narrativo- mantém uma relação variável e complexa com o mundo «externo», ou seja, o modelo intersubjectivo reconhecido como real pelos membros de uma comunidade. (…) A questão que (…) (se) coloca não é, pois a «fidelidade» entre o «mundo em si» e a representação
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Sobre esta questão, diz-nos Umberto Eco: “Nenhum mundo narrativo poderia ser totalmente autónomo do mundo real porque não poderia delinear um estado de coisas máximo e consistente, por meio da estipulação ex nihilo de todo o seu mobilitário de indivíduos e propriedades.” (Eco 1979: 140). Itálicos do autor.
literária, mas sim da relação entre os modelos de mundo: aquele que o texto instaura e o mundo empírico da experiência quotidiana. (Fonseca 2002: 61).146
Em suma, poderemos afirmar que é através da teoria dos mundos possíveis que o autor desencadeia os aspectos afectivos e cognitivos dos leitores, enunciando mundos em que se procura instituir espaços dialógicos e críticos, usando a fantasia e o sonho como instrumentos privilegiados. É nestes espaços (mundos possíveis narrativos) que se discutem os três vectores estruturantes que defendemos por diversas vezes ao longo desta dissertação: a ancestralidade, a moçambicanidade e a universalidade.
5.2.2 A criação de mundos possíveis em Mia Couto
Na produção contista de Mia Couto é evidente a preocupação de dar resposta, no texto narrativo, às situações de instabilidade provocadas por um real empírico problemático.
O conto miacoutiano promove a existência de um mundo possível ficcional, assente em situações insólitas e fantásticas, recuperando a oralidade, vincando o gosto pelo neologismo, introduzindo o humor147 e as situações caricatas. Vejamos o conto «O viúvo» (Couto 1997: 79-83). Estamos em presença de um real problemático, ou seja, a solidão de Jesuzinho da Graça, chefe dos serviços funerários da câmara municipal, após a morte da dedicada esposa: “Findava ali a única família, o único mundo de Jesuzinho da Graça.” (Couto 1997: 80). Face a este real problemático, surge, então, uma situação caricata: o viúvo resolveu contratar um empregado que começou a fazer-se passar pela sua falecida esposa: “O empregadito se esforçava em aflautinar a voz, copiando os esganiços de Vitorinha.” (Couto 1997: 82). No final do conto, este mundo possível narrativo é consagrado pela explicação meta-empírica: “O seguinte: mal começou a cortar rente a unha, o patrão se desvaneceu, como fumo de incenso.” (Couto 1997: 83). A unha, entretanto, tinha-se transformado em “desflorida pétala.” (Couto 1997: 83). Este conto é paradigmático em termos de riqueza e variedade literária. Nele, o autor mistura o humor e o drama (a solidão, o alcoolismo); a ternura e a crítica (neste caso à sociedade pós-colonial: “A independência despontou, a bandeira da nação se cravou na alegria de muitos e nos temores do caneco” [Couto 1997: 80]); o fantástico das situações (já descritas); o jogo de linguagem: “Por dentro, se assustava com os súbitos, os súbditos e os ditos da Revolução.” (Couto 1997: 80); as crenças do povo
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Aspas da autora.
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moçambicano: “Ele (o empregado) se interrogava: imitar mortos? Brincar assim com os espíritos só podia trazer castigo.” (Couto 1997: 82).
Noutros contos, Mia Couto fala do racismo, da guerra, da vida e da morte, do amor e do ódio, mas sempre com o gosto de contar, redefinindo as visões do mundo, como se a ficção pudesse devolver à realidade a fantasia da verdade.
Podemos afirmar que Mia cria, nos seus contos, mundos fictícios, narrativos e
possíveis capazes de transformar o imaginário de cada um, de um povo (neste caso, o
moçambicano) e da humanidade numa utopia, num mundo ideal. As suas personagens são, assim,
metáforas de uma realidade complexa que lentamente se transforma. Ao transportar para o nível literário (o mundo da ficção) o caso quotidiano (o mundo real), ele aponta sobretudo para a possibilidade (mundo possível) de transformação desse dia- a-dia moçambicano.” (Sousa 1998: 432).
Em suma, a produção contista miacoutiana é uma autêntica fábrica de criação de
mundos possíveis onde a sacralidade dos mitos é transfigurada pelas personagens e
acontecimentos insólitos e fantásticos, sempre com o intuito de recuperar a ancestralidade, afirmar uma renovada moçambicanidade e procurar, no seio do seu
mundo, a desejada universalidade.