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A procura da universalidade é, na nossa opinião, o terceiro vector estruturante da produção contista de Mia Couto. Porém, ao contrário das problemáticas da ancestralidade e da moçambicanidade, não é tão fácil encontrar autores que abordem, claramente, este vector.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de

Lisboa, o termo universalidade tem a sua raiz no étimo latino universalitas, -ãtis e

refere-se à “característica ou qualidade do que é universal” (Dicionário de Língua

Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa: 3679, II Volume G-Z), ou seja, que

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Este conceito de literatura de renascença foi cunhado por Michael Dash:

It means fundamentally that in the same way he can circumvent the ironies of history so can be avoid the negativity of pure protest. What can indeed emerge is a literature of renascence – a literary aesthetic and reality based on the fragile emergence of the Third World personality from the privations of history.” ( Dash 1995: 200).

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Sobre a questão do hibridismo refere Helen Tiffin: “Post-colonial cultures are inevitably hybridised, involving a dialectical relationship between European ontology and epistemology and the impulse to create or recreate independent local identity.” (Tiffin 1995: 95).

pode ser relativo ao universo, ao cosmos, a toda a Terra, a todo o mundo, a toda a humanidade. Encontramos, então, sinónimos de universalidade: globalidade, generalidade.

Tendo em conta o que já referimos anteriormente sobre a narrativa breve de Mia Couto, temos de reconhecer que esta, além de ter um papel de recuperação do saber ancestral e de assumir um compromisso de afirmação da identidade de Moçambique (moçambicanidade), procura aproximar-se do conceito lato de universalidade. Essa aproximação é efectuada de forma consciente e tem por base, não só a utilização, transformação e subversão do instrumental linguístico do colonizador em benefício próprio, como também o aproveitamento de todo o manancial cultural presente na tradição oral.100 Deste modo, cria-se “no universo moçambicano uma literatura capaz de afirmar a diferença em relação à metrópole e de libertar a cultura veiculada do «estigma de cultura periférica.»”101 (Silva 1994: 43-44).102 Deste processo de libertação nasce a africanidade e, no caso específico de Moçambique, a moçambicanidade. Esta valorização deliberada e crescente do mundo autóctone permite que a visão da universalidade parta do particular para o geral, ou, como nos disse o escritor cabo- verdiano Manuel Lopes, “se queres ser universal finca os pés na tua terra.” (Lopes citado por Silva 1994: 44).

Há, efectivamente, no universo contista de Mia Couto, “uma dimensão conjugada do seu sentir-se moçambicano e da sua comunhão com um sentimento maior da humanidade.” (Silva 1994: 40) Vejamos o exemplo do conto «O homem com o planeta dentro» (Couto 1991: 121-123). Trata-se da história de Mamudo que passava os seus dias parado, sem reacção, apenas comentando: “- Sofro da doença de sonhar. Nem

quero escutar nem ver, ocupado que estou-me.” (Couto 1991: 121).103 O médico

explicou que Mamudo tinha em si um planeta dentro, o planeta Terra. Incapaz de fazer

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Vejamos o que nos diz Alda Espírito-Santo no seu artigo «O universalismo na literatura»: O universalismo da literatura, como afirmação até do círculo ambulatório das bibliotecas vivas da oratura, preenche uma mundividência da filosofia e sabedoria populares, que mantendo tradições características de cada comunidade, região ou lugarejo da terra, assenta numa rotatividade de símbolos, esquemas, metáforas, cuja identidade é o universo dos seres planetários. (Espírito-Santo 1997: 416).

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Inocência Mata refere que: “Os escritores africanos de língua portuguesa e os seus críticos têm consciência de que, no actual jogo de forças cultural, as literaturas africanas de língua portuguesa ocupam um lugar periférico.” (Mata, citada por Leite 2003: 23).

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Aspas da autora.

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algo pelo doente, o médico declarava que “este homem está muito povoado, tem que se

habituar ao tamanho da humanidade.” (Couto 1991: 122).104 O tempo passava e

Mamudo continuava incapaz de reagir. Só abria a boca para revelar “visões, tontices que ninguém entendia.” (Couto 1991: 122). Porém, um dia passou por aquele local um velho espiriteiro e Mamudo foi levado à sua presença. Segundo o velho sábio, a solução para Ma(mudo), convertido em Ma(mundo), e para as gentes daquele local passava pela necessidade de todos “olharem para dentro dele, procurando-se cada uns lá no meio da multidão.” (Couto 1991: 122). Desta forma, as gentes daquele local passavam a representar o mundo inteiro, a humanidade, o universo. O lunático Mamudo converteu- se em Mamundo. O autor critica a humanidade pela sua incapacidade de responder às problemáticas e às injustiças que a rodeiam: “Que faziam nesse universo? Sonhavam, parados, no mesmo que o actual Mamudo.” (Couto 2001: 123). De salientar que o autor vislumbra ainda uma saída para a humanidade, tal como se fosse um labirinto. A solução para o seu país e para a humanidade passa pela capacidade real e transfiguradora do sonho que leva o homem à acção. Não é por acaso que Mia Couto revela no Prefácio dos seus Contos do nascer da Terra (1997) que “necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra.” (Couto 1997: 7).

Em Mia Couto há uma preocupação em retratar o seu universo local e particular, manipulando, contudo, o imaginário desse seu universo de forma a criar “um universo fictício com o qual identifica o ser humano em geral.” (Silva 1994: 39). Além do conto que referimos no parágrafo anterior, encontramos, na colectânea Na berma de nenhuma

estrada e outros contos (2001), a história de Ezequiela e Jerónimo que procura retratar

essa fusão entre o imaginário local e um certo imaginário global. Ezequiela, protagonista do conto «Ezequiela, a humanidade» (Couto 2001: 99-102), casada com Jerónimo, tinha o poder de se metamorfosear em diferentes raças e tamanhos: “Mudava de corpo de cada vez em quando: ora de tamanho, ora de cor (…). Ezequiela acordou esquimó, peles amareladas, olhos repuxados em ângulo e esquina. E numa outra vez se indianizou, pele aperdizada, cabelos azeviachos.” (Couto 2001: 100). Mas a maior mutação aconteceu no momento em que Ezequiela se transformou em homem “barbalhudo e provido de músculo.” (Couto 2001: 100). Mia Couto retrata as questões da raça fazendo jus aos lemas todos diferentes, todos iguais e a raça de cada um de nós

torna-se a de todos. Paralelamente, são afloradas temáticas actuais que fazem parte do

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quotidiano do mundo ocidental como são os casos da homossexualidade e da transexualidade.

É com contos como os referidos anteriormente que Mia Couto nos faz atingir “a grandiosidade do universo através da simplicidade do dia-a-dia. Partilha connosco as emoções e as experiências do seu povo, consciencializando e aproximando a diversidade humana.” (Faria 2005: 28). Assim, somos levados a concluir que os contos miacoutianos buscam o sentido e a dinâmica da universalidade.

Essa dinâmica de universalidade presente na escrita miacoutiana permite, igualmente, ao autor efectuar a denúncia das temáticas sociais que, apesar de se situarem num plano local e restrito (Moçambique) adquirem um sentido total e alargado (humanidade). Mia torna-se universal porque as suas angústias, os seus sonhos, os seus ideais, a sua escrita em prosa e em verso, “provocam um idêntico processo de identificação nos homens de todas as latitudes.” (Stegagno-Picchio 1997: 369).

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