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FLASHBACK DATABASE

O periódico que encerra o que classifico como primeira fase da Imprensa Lésbica brasileira é o Xerereca. Trata-se de um boletim carioca, que surgiu em maio de 1987 por iniciativa de estudantes do curso de Direito da UFRJ. Para descrever a trajetória dessa publicação, conto, fundamentalmente, com o número 1 do Xerereca e a entrevista concedida por Rita Colaço66, uma de suas colaboradoras.

Xerereca era datilografado em papel ofício, tamanho A4. O único exemplar a que tive acesso era composto por quatro páginas. Pelo fato de eu não ter conseguido outras edições do Xerereca, não é possível afirmar com exatidão se havia uma divisão de editorias. Além disso, como se verá a seguir, as próprias organizadoras da publicação não eram adeptas de formatos rígidos – tanto morais, como estéticos.

O que se pode dizer é que havia um ácido editorial e textos opinativos que abordavam os seguintes temas: Direito, política em perspectiva nacional e no âmbito do centro acadêmico, homossexualidade, feminismo e costumes – sobretudo no que se refere a

drogas e sexualidade. Também havia poesias, que versavam sobre amor e sexo, dispersas em todas as páginas do folhetim. A distribuição era feita na própria universidade e por correspondência com os grupos de ativismo com os quais a equipe editorial tinha contato.

Nesse primeiro número, o Xerereca é descrito como “periódico irregular, independente, sectariamente feminino, feito por ela e para elas”. Acompanhando o contexto libertário no qual estavam inseridas as publicações lésbicas do período, adotou-se o nome Xerereca. Na entrevista, Colaço revelou que o ChanaComChana foi uma inspiração para ela e suas colegas, tanto no nome do boletim como no conteúdo.

Figura 7 – Cabeçalho da primeira edição do Xerereca

Fonte: Reprodução do arquivo pessoal de Rita Colaço. Fotografia realizada em 23 de julho de 2019.

O tom de deboche é reiterado pelo aviso na capa “Preço: 1 beize”, que era a gíria da época para se referir a um baseado. Essa irreverência reflete o comportamento das amigas que fundaram o boletim. Rita disse que a iniciativa surgiu numa conversa no Bar Brasil, localizado na Lapa, região central do Rio. O editorial do número 1 foi intitulado “Sentir tesão com a xerereca” e encerra com os seguintes dizeres:

Estamos cagando para a literatura oficial; queremos mesmo é explodir as consciências em mil fagulhas e atear fogo ao universo machista, hipócrita e intolerante.

Beijos lambidos e açucarados a todas.

SERPENTE NÃO ENGOLE SAPO!!! (XERERECA, 1987, p. 1).

Havia um descontentamento geral por parte de algumas estudantes da faculdade. Elas estavam incomodadas com o comportamento machista de integrantes do centro acadêmico do curso, o Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO). Além disso, essas alunas eram críticas ao ensino positivista e à ausência de concursos para professores. De modo que as vagas eram preenchidas a partir de indicações políticas, alinhadas ao regime de então.

Embora neste momento os ânimos já estivessem arrefecidos no contexto mais amplo, havia um ranço conservador presente no cenário político nacional, que continuava a ser alvo de críticas dos movimentos sociais mais questionadores e compostos pela juventude. Ao então presidente José Sarney, por exemplo, o adjetivo de preferência do jornal era “excrementíssimo sr. presidente da república” (XERERECA, 1987, p. 2).

Ainda que houvesse essa tônica radical no boletim, havia alguns receios comuns partilhados pela equipe do periódico. O exemplo mais evidente é a não identificação de suas colaboradoras, que assinavam com pseudônimos. Essa questão é compreensível, se considerarmos as críticas feitas a professores da faculdade – o que poderia gerar retaliações. Entretanto, para algumas das pessoas que colaboravam, o anonimato também era uma forma de proteção quanto à orientação sexual.

Em seu blog, Memórias & Histórias das Homossexualidades (COLAÇO, 2019), Rita afirma que a equipe era composta por três feministas, sendo uma lésbica e duas bissexuais. Também colaboravam para o boletim, dois rapazes não heterossexuais, mas ainda inseguros quanto à própria sexualidade, conforme Colaço apontou em entrevista. Suas contribuições ao Xerereca eram assinadas com pseudônimos femininos (COLAÇO, 2019). Além de Rita Colaço, é sabido que Ana Rita Lugon foi uma das cofundadoras do boletim – conforme pesquisa de Carolina Maia (2017a). A terceira integrante do grupo não foi identificada, pois Rita disse não se lembrar do verdadeiro nome dessa colega durante a entrevista que realizei.

Ainda nessa ocasião, Rita falou sobre as características do grupo. Em geral, os alunos do curso de Direito, inclusive as amigas que fundaram o Xerereca, eram de classe média ou alta. Por causa disso, tinham a opção de se dedicar exclusivamente aos estudos e participar da vida cultural e política da universidade.

Esse não era o caso de Rita, cuja origem é humilde. Sua infância e juventude foi vivida majoritariamente na Baixada Fluminense, região periférica do estado do Rio de Janeiro. Antes de ir para a faculdade, Rita passava o dia trabalhando como datilógrafa. Aliás, por exercer esse ofício, ficou responsável por datilografar os textos do Xerereca.

Em razão dessa dinâmica atarefada, Rita não soube me precisar quais eram as disputas políticas no CACO, que ensejavam as críticas de suas amigas. Rita também não se recorda se elas tinham vivência ativa em movimentos organizados. O que se sabe é que Ana Rita era associada ao GALF, já que em uma das edições do boletim Um Outro Olhar divulgou-se o lançamento do Xerereca, fundado pela “associada Ana Rita Lugon”. Ainda assim, Colaço diz que a questão da lesbianidade era mais aventada por ela, que era a única lésbica do grupo.

Na perspectiva de minha interlocutora, a orientação sexual era vista de forma mais política e séria – algo que reflete sua experiência anterior em grupos organizados. Rita afirmou que, devido à sua educação conservadora, não partilhava de todas as posições de suas colegas de faculdade, mas acompanhava tudo com muito interesse. Afinal, elas tinham um modo mais leve e divertido de abordar a sexualidade.

Após uma adolescência de repressão familiar, ela encontrou no Lampião da Esquina e no Somos/SP uma inspiração para enfrentar a discriminação. Segundo ela, a forma como sua mãe agiu ao saber de sua lesbianidade foi dilacerante.

Um dia minha mãe queria me matar, me dar veneno. No outro dia, ela queria me internar numa instituição de menores. Eu já estava trabalhando e ela queria me internar [olhos marejados]. Então, eu dizia “mamãe, decide. Ou mata ou interna, mas para com isso. Eu não aguento. Resolve!” [Risos] (Rita Colaço em entrevista no dia 18/07/2019).

Por causa desse histórico, Rita se sentiu instigada a integrar o MHB. Sua experiência de ativismo nas décadas de 1970 e 1980 foi breve e se deu no estado do Rio. Primeiramente, participou do Grupo de Atuação e Afirmação Gay, o GAAG. O coletivo, do qual ela foi cofundadora, contava majoritariamente com mulheres não-brancas, oriundas da Baixada Fluminense. Esse grupo foi constituído em julho de 1979, mas não chegou a completar um ano de existência (MÍCCOLIS, 1983; COLAÇO, 2018). Diante das dificuldades de conciliar o trabalho com a militância, optou-se pela dissolução do grupo.

Mesmo sem pertencer a nenhuma organização, Rita afirma ter mantido contato com outros ativistas e coletivos por muitos anos. Entre eles, destacou o GALF/Um Outro Olhar, Triângulo Rosa e GGB. Foi possivelmente da manutenção desses contatos aliada à sede de conhecimento, que Rita afirmou ter desde criança, que surgiu seu livro Uma Conversa Informal sobre Homossexualismo. A publicação data de 1984, isto é, três anos antes da fundação do Xerereca. Embora atualmente Rita afirme que alguns posicionamentos que apresentou no livro precisem ser revistos e atualizados, ali ela já ensaiava uma conscientização lésbica e feminista – o que mais tarde se refletiria no conteúdo do anárquico e libertário Xerereca.

O fim da publicação é incerto. Rita não soube afirmar quantas edições se sucederam ao primeiro número nem o que teria levado ao fim do periódico. É possível que a equipe editorial tenha se afastado pelo próprio curso dos acontecimentos, já que as integrantes do grupo estavam no fim da graduação. Posteriormente, Rita não teve mais contato com os colegas de curso. Ainda que as lacunas históricas sobre o destino da publicação fomentem a

ansiedade de uma pesquisadora ávida por informações, ironicamente, elas reiteram o propósito com o qual o Xerereca se apresentou: ser um “periódico irregular”.