O ChanaComChana, cuja primeira edição foi publicada em formato tabloide em janeiro de 1981, foi sem dúvida o periódico lésbico mais influente da década de 1980. Atribuo essa questão ao fato de esse ter sido o único título que foi publicado com certa regularidade durante todo esse tempo. Além do número especial de 1981, houve 12 edições entre dezembro de 1982 e maio de 1987. Seus contemporâneos tiveram trajetória efêmera e circulação mais mais limitada, como se verá nos tópicos a seguir. Um reflexo da notoriedade que o boletim ganhou se faz presente nas pesquisas acadêmicas sobre lesbianidades, nas quais o ChanaComChana é o título mais citado48 (MAIA, 2017a).
Antes de contar a trajetória desse periódico, é necessário voltar alguns anos, para compreender como se formou o grupo responsável por sua edição. Dentro do contexto de reorganização política, em 1978, surge o Núcleo de Ação para os Direitos dos Homossexuais, que no início do ano seguinte, passaria a se chamar Somos – Grupo de Afirmação
47 Para aprofundar a reflexão, ver o texto de Audre Lorde sobre os usos da raiva, publicado no livro Irmã
Outsider (2019).
48 Evidentemente, com um pouco mais de boa vontade e interesse dos pesquisadores seria possível ao menos
nomear os periódicos lésbicos daquela década, já que o primoroso trabalho do GALF, em seu boletim, imprimia a lista de publicações lésbicas do Brasil e do exterior numa seção exclusiva. Além disso, dentre os periódicos lésbicos, o ChanaComChana é o que pode ser encontrado com mais facilidade em arquivos públicos e digitais. Cito como exemplos o AEL/Unicamp e o Acervo Bajubá.
Homossexual49. James Green, pesquisador brasilianista e um dos pioneiros do MHB, relata que a mudança no nome “[…] foi um compromisso entre os que achavam que o nome original era muito audaz e aqueles que pensavam que a palavra ‘Somos’ implicitamente oferecia uma mensagem mais positiva” (GREEN, 2018, p. 72).
O autor também lembra que “Somos” era o nome da revista editada pela Frente de Liberación Homosexual de Argentina, fechada em 1976, quando uma ditadura se instalou naquele país. Na avaliação de Green, a mudança de nome também indicava uma internacionalização do movimento, que ainda contava com pouco apoio dentro do Brasil. Segundo MacRae (1990), a sugestão desse nome partiu de Glauco Mattoso, cuja simpatia com a palavra “Somos” teria se dado pelo fato de a expressão ser palindrômica, podendo ser lida da esquerda para a direita e vice-versa. O autor descreve Glauco como entusiasta da poesia concreta e diz que a escolha dessa palavra dava uma “interessante brincadeira com o fato de ser o nome de um grupo de ‘invertidos’” (MACRAE, 1990, p. 108).
A primeira ação coletiva do grupo ocorreu em 1978 e consistiu no enfrentamento à discriminação de homossexuais praticada pela imprensa (GREEN, 2018; MACRAE, 1990). Na ocasião, o Somos/SP elaborou uma nota de repúdio à conduta do jornal Notícias Populares. Nela, foi descrita uma série de matérias e artigos de opinião de caráter discriminatório. O documento foi enviado pelo grupo às seguintes entidades: Associação Brasileira de Imprensa, Comissão Justiça e Paz, Ordem dos Advogados do Brasil e Sociedade Interamericana de Imprensa.
Apesar desse esforço, o jornal continuou a disseminar discursos preconceituosos – o que o tornou alvo de críticas reiteradas por parte de alguns movimentos sociais, inclusive em publicações lésbicas como o ChanaComChana. Sublinho esse fato porque considero que ela dá mais robustez à premissa que assumi como uma das causas do surgimento da Imprensa Lésbica: o apagamento e a discriminação praticada pelo jornalismo tradicional.
Ainda sobre o tema, é importante destacar que a difusão de estereótipos sobre homossexuais, e em especial sobre as lésbicas, não ficou restrita a jornais sensacionalistas como o Notícias Populares. Algo que pode ilustrar essa questão é o relato feito por Trevisan (2018) sobre o período em que atuou na Folha de S. Paulo.
49 Um ano mais tarde, seria criado um grupo de mesmo nome no Rio de Janeiro, porém com dinâmica distinta.
Para diferenciá-los, a literatura acadêmica tem adotado as siglas Somos/SP e Somos/RJ, que também emprego aqui.
Eu vi, riscado e corrigido por editores da Folha, certo artigo escrito por um jornalista amigo meu, no qual a palavra “lésbica”, então proibida de aparecer nas páginas do jornal, tinha sido mais uma vez substituída pela palavra “feminista”… Isso ocorreu no final da década de 1970. Nos anos 1980, porém, temas ligados à homossexualidade, ao movimento negro, ao feminismo e à ecologia invadiram suas páginas, que já apresentavam, não sem certo exibicionismo progressista, até sinônimos chulos ou maliciosas paráfrases para se referir a homossexuais. Lembro de uma foto da Gal Costa, em primeira página da mesma Folha de S. Paulo, quando de um espetáculo seu na cidade. Os pés da cantora estavam em primeiríssimo plano, sobre uma mesa, e de tal modo distorcidos pela lente grande-angular que seus sapatos pareciam, facilmente, ser do tamanho cinquenta… A alusão à sapatona inseria um bom humor modernoso, que só acentuava a crueldade do preconceito (TREVISAN, 2018, p. 337).
De volta ao relato sobre a trajetória do Somos/SP, pontuo que as memórias trazidas por Green (2018) e MacRae (1990) também permitem compreender outros eventos que se deram posteriormente, como a aproximação dos integrantes do grupo com a equipe que editava o Lampião da Esquina, além do envolvimento de ativistas do Somos/SP na edição de jornais alternativos com o Corpo50 e o Versus51.
MacRae (1990) aponta que, embora o Somos/SP contasse com alguns subgrupos (identificação, atuação e de estudos), para gerenciar de modo mais eficiente cada linha de ação do coletivo, a estrutura nunca funcionou de maneira pacífica. Segundo ele, isso ocorria, entre outros motivos, pela grande rotatividade dos membros, já que os novos integrantes não faziam distinção entre as reuniões dos subgrupos e do coletivo como um todo. Os subgrupos de identificação, centrados na questão da autoaceitação e da troca de vivências individuais, eram os que atraíam mais interesse. Para MacRae (1990), isso mostrava uma necessidade coletiva de compreensão da homossexualidade e de um espaço de acolhimento naquele período.
O autor também detalha que, para alguns membros, esse envolvimento foi tão intenso que gerou o que ele chama de “casamento com o grupo” (MACRAE, 1990, p. 121). Parte dos integrantes limitava suas relações afetivas e sexuais ao Somos/SP, numa perspectiva não- monogâmica. Embora essa possa ser considerada uma atitude de vanguarda, já que representava um exercício prático de crítica ao mito do amor romântico instituído pelo
50 Boletim produzido pelo grupo Somos/SP. A literatura diz pouco sobre esse periódico. Sabe-se que entrou em
circulação em 1980 e teve seis edições. Encerrou suas atividades em 1984, acompanhando o fim do grupo Somos/SP (MÍCCOLIS, 1983; FERREIRA,V., 2017; GREEN, 2018).
51 Publicação alternativa, de origem paulistana, centrada na América Latina. Circulou entre 1976 e 1980. Tinha
entre seus membros jornalistas do Grupo Estado. Destacou-se por sua aproximação política com os movimentos que lutavam pela igualdade racial. Parou de circular um ano após a entrada da Convergência Socialista no jornal (MACRAE, 1990; CHINEM, 2004).
patriarcado, a falta de maturidade de alguns membros para lidar com essas relações também gerava conflitos internos (MACRAE, 1990)52.
Além disso, conforme o Somos/SP cresceu, tornou-se difícil administrar as diferenças existentes entre seus membros, refletindo a necessidade de núcleos específicos para tratar de assuntos relacionados às lésbicas e aos integrantes negros. Inicialmente, quando indivíduos desses segmentos se tornaram presença mais expressiva no grupo, optou-se por dissolvê-los nos diversos subgrupos para garantir uma participação igualitária.
Mas, afinal, onde estão as lésbicas nessa história toda? Marisa Fernandes, historiadora e antiga ativista pelos direitos das lésbicas, relata que no início de 1979 houve um debate sobre minorias políticas na Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, esse foi o momento em que as lésbicas entraram em contato com o Somos/SP, e passaram a integrá-lo em 17 de fevereiro daquele ano (FERNANDES, 2018a). O primeiro resultado público da politização das lésbicas se materializa em uma publicação redigida por elas mesmas no Lampião da Esquina.
Em maio de 1979, quando o jornal completava um ano de existência, um grupo de 25 lésbicas, assessorado por uma jornalista profissional, publicou um artigo sobre suas próprias vivências. Entre elas, ativistas autônomas ou de coletivos organizados (FERNANDES, 2018a). A publicação do texto era um prenúncio da Imprensa Lésbica, que em seus primeiros anos de existência seria marcada por uma forte temática política, revelando o seu compromisso com os valores democráticos e a resistência à ditadura de então.
Nós estamos atrasadas porque temos medo, receio, cagaço mesmo de viver o que somos. Porque não construímos o espaço do nosso viver. Porque vivemos na clandestinidade. […] Nós estamos atrasadas porque os valores garantidos pelos esquemas repressivos têm conseguido um desempenho eficaz. Nós estamos atrasadas porque eu, você, aquele ali, aquela outra, nós enfim, também assimilamos essa repressão toda. Nós estamos atrasadas… mas nos propondo, na atualidade e parafraseando Caetano, a – meter o cotovelo e ir abrindo o caminho. O tempo passa, mas na raça nós chegamos lá. As coisas têm de mudar… (Acabamos de ter uma alucinação democrática). (LAMPIÃO DA ESQUINA, 1979, p. 7).
Chamo a atenção para o trecho destacado acima pois foi dele que veio a ideia de organizar a narrativa sobre a Imprensa Lésbica tendo a Constituição de 1988 como marco. Afinal, a oposição contumaz à ditadura era imperativa para qualquer grupo alinhado à defesa
52 Em entrevista, Marisa Fernandes conta que essa dinâmica se manteve entre parte das lésbicas do LF e,
posteriormente, do GALF – como também havia registrado o pesquisador Carlos Figari (2007). Acrescento que relatos de experiências lésbicas e discussões teóricas interessantes nesse aspecto podem ser encontradas nas obras de Mogrovejo (2016) e Falquet (2006).
dos direitos humanos, independentemente de seu foco temático. Além disso, o estudo de Gabriela Coutinho (2019) mostra como o ChanaComChana, sobretudo a partir dos textos assinados por Rosely Roth, acompanhou a questão da homossexualidade durante a Assembleia Constituinte53. Fato que demonstra a centralidade do tema para a comunidade lésbica naquele momento, ou melhor, para aquelas lésbicas envolvidas na produção e na leitura do ChanaComChana.
Segundo Fernandes (2018a), após a publicação do artigo no Lampião da Esquina, as lésbicas reconheceram a importância de terem trabalhado juntas e notaram que muitas possibilidades se colocariam no horizonte, se elas se dedicassem a esforços como esse (FERNANDES, 2018a).
Essa percepção ocorreu no mesmo período em que se acentuaram as divergências e disputas dentro do Somos/SP. As brigas envolviam desde questões básicas, como o fato de os gays usarem os termos pejorativos “racha” ou “rachada” para se referirem às lésbicas, até a discordância em relação ao funcionamento do grupo. Embora esta dissertação privilegie as questões lésbicas, destaco que esse não foi o único grupo a enfrentar dificuldades dentro do Somos/SP. Trabalhos como o do antropólogo Edward MacRae (1990) e do historiador James Green (2015, 2018) demonstram a resistência do movimento em debater temas como o racismo, o sexismo e questões ligadas a exploração do trabalho – mesmo que negros, mulheres lésbicas, bissexuais e trabalhadores de classe média baixa também fossem integrantes do grupo. No trabalho de Green (2015, 2018), em particular, aponta-se como essa visão unitária afastou muitos membros, que mesmo atingidos por múltiplas opressões, viam- se obrigados a escolher apenas uma contra a qual lutar.
Como relatado acima, o Somos/SP contava com grupos de estudo e de identificação. Quando as lésbicas passaram a integrar o coletivo, optou-se por sua distribuição nos diversos núcleos existentes. Com o passar do tempo, parte delas se sentiu prejudicada.
Desta forma, elas mal conseguiam falar e, quando lhes davam a oportunidade, era sempre para facilitar que os gays superassem os preconceitos que tinham contra as lésbicas. Influenciadas pelo feminismo, elas sabiam que suas especificidades como mulheres – e não apenas como homossexuais femininas – geravam dupla discriminação. Como lésbicas e feministas, decidiram então atuar como um subgrupo autônomo dentro do SOMOS, que não seria só de identificação, pois reconheciam que esse processo já estava esgotado. Resolveram que a singularidade desse novo grupo seria a de uma atuação lésbico-feminista (FERNANDES, 2018a, p. 93).
53 Para uma abordagem mais aprofundada sobre o ativismo homossexual em torno da Assembleia Constituinte,
A organização a que Marisa Fernandes se refere é o Grupo Lésbico-Feminista ou, simplesmente, LF. Sua fundação foi anunciada em uma reunião do Somos/SP, que ocorreu no dia 7 de julho de 1979. No número 8 do boletim ChanaComChana, a equipe apresenta um texto que explica a origem da denominação “lésbica feminista” e seu significado.
O adjetivo lésbica feminista foi escolhido como resultado do processo de conscientização de nossa dupla opressão, primeiramente enquanto mulheres e depois enquanto mulheres que se relacionam sexual e afetivamente com outras mulheres. Preferimos não utilizar a denominação homossexual porque ela nos remete a uma visão das mulheres lésbicas e dos homens gays como um suposto 3º sexo, os homossexuais, que formariam uma espécie ou até mesmo um povo com características distintas das demais pessoas (CHANACOMCHANA, n. 8, 1985, p. 2).
Nem todos os integrantes apoiaram a criação desse subgrupo, inclusive algumas lésbicas, que preferiram continuar atuando de acordo com a dinâmica anterior. Fernandes, que atuou no LF, lembra que ela e suas companheiras foram acusadas de serem “histéricas” e “divisionistas” (2018a, p. 93). Mesmo a contragosto dessas pessoas, as integrantes do LF seguiram adiante com seus objetivos, que consistiam em:
Encaminhar a discussão sobre machismo e feminismo no SOMOS; ter um grupo de acolhimento e afirmação da identidade só para lésbicas; apresentar um temário específico para ser debatido por todos; responder toda a correspondência enviada por mulheres para o SOMOS e buscar alianças com o movimento feminista (FERNANDES, 2018a, p. 93).
Nessa nova lógica, as lésbicas passaram a ter setoriais próprios dentro do LF. Havia os Grupos de Reconhecimento, para promover a autoaceitação; de Reflexão, para debater feminismo e homossexualidade; e de Agitação/Atuação, responsável por ações públicas. Em 1980, formou-se, inclusive, um núcleo de criação fotográfica e audiovisual, o LF Artes (FERNANDES, 2018a; MARTINHO, 2019a).
Embora esse tenha sido um momento de tensão, as divergências se tornariam ainda maiores no ano seguinte. Estava prevista para o dia 1º de maio de 1980 uma passeata de trabalhadores em São Bernardo do Campo (SP). Green (2018) relata que ele foi um dos organizadores do ato e que ficou incumbido de planejar a ação de gays e lésbicas no evento. Parte dos membros do Somos/SP era contra a participação deles na manifestação e convocaram uma atividade paralela (FERNANDES, 2015).
Com isso, ficou instalada uma diferença irreconciliável. Esse evento marcou um racha no Somos/SP, o que resultou na formação do grupo Outra Coisa: Ação Homossexualista e também na separação definitiva do LF (GREEN, 2018; FERNANDES, 2014, 2018a). Em entrevista, Marisa desabafou em meio a gargalhadas: “aquilo estava muito chato para nós!”.
Após a ruptura, o LF passou a se chamar Grupo de Ação Lésbica-Feminista, agora tudo no feminino (FERNANDES, 2018a, 2015; PÉRET, 2011). Naquele momento, o grupo buscava aproximação com o movimento feminista, o que resultou em mais um período de disputas e discriminação – dessa vez, por parte das feministas heterossexuais e até das feministas lésbicas ou bissexuais que consideravam a sexualidade como um tema de natureza privada.
O momento era de emergência de novas formas de organização. Assim, além de se notar o surgimento de vários grupos de ativismo social, ocorreram eventos públicos de grande porte, com vistas a discutir a política sob diferentes perspectivas. Um exemplo disso foi a organização dos Congressos da Mulher Paulista, que teve três edições entre 1979 e 1981 (TELES, 1993). Nos dois últimos encontros, as integrantes do LF, que posteriormente seria o GALF, foram convidadas a participar da organização54.
O II Congresso foi de relativo êxito para as lésbicas, embora sua participação não tenha sido bem recebida por outras organizadoras do evento, que chegaram inclusive a destruir os painéis delas. Ainda assim, as lésbicas conseguiram se fazer notar, a partir da distribuição do documento Mulheres Violentadas, “o primeiro no movimento feminista a abordar a questão do estupro e da violência contra as mulheres, citando também as violências específicas sofridas pelas lésbicas” (FERNANDES, 2018a, p. 96). O estupro sofrido por uma das integrantes do GALF foi a justificativa para a elaboração do texto55 (FERNANDES, 2014; MOGROVEJO, 2000). É interessante destacar que o documento reivindica mudanças em políticas públicas e também informa meios de denunciar agressões sofridas por mulheres.
54 Para uma descrição mais detalhada sobre os embates que ocorreram entre as feministas lésbicas e as feministas
heterossexuais nesses eventos, ver MacRae (1990) e Martinho (2019a).
55 Em balanço recente sobre o histórico do LF, Míriam Martinho (2019a) afirma que o texto foi escrito por ela.
Mais detalhes sobre o caso de estupro podem ser encontrados no artigo de Míccolis sobre o MHB (1986). No texto, a escritora mostra como uma ativista do GALF passou de vítima a ré, após fazer uma acusação de estupro. A polícia encontrou em sua bolsa materiais sobre o movimento lésbico, o que embasou o revés no processo e a fez ser acusada de portar material pornográfico e prestar falso testemunho.
Figura 2 – Documento Mulheres Violentadas
Fonte: Cópia cedida por Marisa Fernandes
Após essa aproximação com o movimento feminista, o GALF passa a publicar o ChanaComChana. Inicialmente veiculado em formato tabloide, o periódico foi transformado em boletim e mantido em circulação entre 1982 e 1987. A mudança na publicação acompanhou a transformação do próprio coletivo. Flávia Péret (2011) relata que, ainda em janeiro de 1981, o grupo se desfez – informação que foi confirmada nas entrevistas que realizei com Míriam Martinho e com Marisa Fernandes. A edição 7 do boletim traz mais detalhes sobre essa reconfiguração.
O ChanacomChana foi publicado, pela primeira vez, como jornal, em janeiro de 1981. Nessa primeira edição, havia uma entrevista com a Angela Ro Ro, um artigo da jornalista Maria Carneiro da Cunha em defesa das lésbicas e uma avaliação dos dois primeiros anos do então Grupo Lésbico Feminista (hoje Grupo Ação Lésbica Feminista) feita por Míriam, uma de suas integrantes.
Depois desta primeira edição, a idéia do Chana foi abandonada tanto por falta de dinheiro quanto por falta mesmo de definição no que se refere à linha de
publicação a ser seguida. O coletivo de mulheres que pretendia manter o Chana tinha muitas perspectivas, mas pouca praticidade e acabou se dissolvendo.
Em dezembro de 1982, nós do GALF retomamos a idéia do Chana e passamos a editá-lo como boletim. Desde então, temos mantido sua publicação sem interrupções, embora ainda não com a periodicidade desejada devido basicamente a instabilidades financeiras (CHANACOMCHANA, n. 7, 1985, p. 1).
Nas entrevistas que realizei com Míriam Martinho e Marisa Fernandes, soube que a edição especial do ChanaComChana foi viabilizada por uma doação de Teca. Míriam revelou, ainda, que o nome sugestivo da publicação também se deve a essa ativista.
O GALF era composto basicamente por estudantes universitárias de Ciências Sociais e Humanas. Para distribuir o boletim, que tinha tiragem média de 500 exemplares, as integrantes o divulgavam em congressos, festas, bares e boates (MARTINHO, 2019b). O jornal se pagava por meio de assinaturas, pequenos anúncios e doações de leitoras (CARDOSO, 2004). Em geral, os anunciantes eram donos de estabelecimentos que compunham o chamado gueto lésbico da noite paulistana. Já a impressão do boletim era feita em gráficas de universidades56 e da Câmara Municipal de São Paulo, a partir da colaboração de parlamentares solidários às causas lésbicas, como a então deputada Irede Cardoso (MARTINHO, 2019b)
Como produção amadora, o boletim ChanaComChana apresenta variações em seu conteúdo e em suas “editorias”. Nem todos os exemplares apresentam sumário, por exemplo, e algumas seções nem sempre se mantinham em todas as edições. Entretanto, há algumas divisões que apresentam certa regularidade e que, com o passar do tempo, constroem marcas de identidade própria da publicação. Uma delas é a seção “Deu no Jornal”, que divulgava notícias relativas ao mundo lésbico e feminista publicadas na imprensa tradicional, assim como problematizava produções discriminatórias veiculadas nos meios de comunicação.
Em entrevista, Míriam Martinho contou que o GALF se dedicava a produzir uma hemeroteca, com o objetivo de acompanhar como a homossexualidade era tratada na imprensa. Esse arquivo era alimentado tanto pelas integrantes do coletivo como pelas leitoras do ChanaComChana que, atendendo aos pedidos da equipe editorial, enviava recortes de
56 Nesse aspecto, também é interessante destacar um episódio relatado por em Célia, em entrevista a essa
pesquisa (realizada em 11 de janeiro de 2019). A ativista recorda que o ChanaComChana foi sabotado pela gráfica em que era costumeiramente impresso. Segundo ela, o estabelecimento levava de um a dois dias para imprimir as cópias. Entretanto, certa vez houve um estranho atraso, não explicado na primeira tentativa de