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Uma publicação contemporânea ao boletim ChanaComChana foi o jornal Amazonas, editado pelo Grupo Libertário Homossexual da Bahia (GLH). Trata-se de um “coletivo acadêmico não institucionalizado”, que teve atuação entre 1979 e 1987 (SILVA, Z., 2016, p. 34). Na escassa literatura que se refere a essa publicação, não há consenso entre o formato do periódico. Perét (2011) e Maia (2017a), por exemplo, referem-se a ele como boletim. Entretanto, a tese de Zuleide Silva (2016), produção mais rica em informações sobre o GLH, apresenta uma entrevista Maria de Lourdes Almeida Motta, mais conhecida como Lourdinha, uma das cofundadoras da organização. E a ativista, também responsável pela edição do periódico, refere-se a ele como jornal. De modo que essa é a nomenclatura que usarei aqui.

Consegui o contato de Lourdinha graças à ajuda de Carolina Maia. Diante da impossibilidade de ir até Salvador, onde reside a ativista, propus que a entrevista fosse feita por Skype ou por telefone. Contudo, Lourdinha insistiu para que eu enviasse as perguntas por e-mail e respondeu em forma de texto63, que se encontra disponível nos apêndices da dissertação. Embora essa colaboração destoe dos procedimentos que adotei com outras

62 Após discorrer sobre a trajetória dos grupos paulistas de ativismo homossexual durante a década de 1980,

Figari (2007) avalia que as militantes lésbicas foram, possivelmente, as “mais radicais e mais ‘idealistas’ ao construir uma nova identidade que contrastava visivelmente com a experiência que se vinha desenvolvendo nas relações e práticas eróticas entre mulheres no gueto” (2007, p. 454).

63 Enviei as perguntas para Lourdinha no dia 9 de abril de 2019. As respostas foram enviadas por ela em arquivo

ativistas, optei pelo uso das informações disponibilizadas, dada a escassez de pesquisas que abordem o GLH e o Amazonas.

Até o momento, não há registros de exemplares do Amazonas disponíveis para consulta. Lourdinha disse que, em 1995, doou o acervo do GLH para Jane Pantel – ativista responsável pelo Grupo Lésbico da Bahia (GLB)64. Entretanto, após o fim da organização, o arquivo desapareceu inexplicavelmente e com ele sumiram também as produções do GLH.

Uma das raras obras que citam o grupo é o livro O Lesbianismo no Brasil, de Luiz Mott. Para o pesquisador, o ato de nomear o veículo de “Amazonas” reflete a valorização da mitologia grega, na qual se identifica uma sociedade composta exclusivamente por mulheres. O pesquisador entende que o significado do termo foi apropriado pelo movimento lésbico como sinônimo de “mulher masculinizada, de ânimo varonil, corajosa” (MOTT, 1987, p. 25). Essa compreensão é reiterada por Zuleide Silva, que viu, na escolha desse termo, um “anúncio da lesbianidade” (2016, p. 199). Para a pesquisadora, essa é uma referência às mulheres cuja existência não inclui a participação masculina – conduta que desestabiliza a ordem do discurso vigente.

Nos e-mails que trocamos, Lourdinha me informou que seu interesse por política começou em 1976, quando ela ingressou na UFBA para cursar Letras Vernáculas. Segundo ela, não havia grupos de militância tão difusos como se observa atualmente. “Todos tinham um objetivo comum: lutar contra os militares”, disse ela.

O primeiro movimento que Lourdinha integrou foi a Libelu – Liberdade e Luta. Trata-se de uma corrente trotskista que integrava o movimento estudantil da década de 1970. Os integrantes tinham entre 21 e 30 anos, trabalhavam em escolas e empresas estatais. Ela, por sua vez, atuava como tradutora e revisora de textos.

Na avaliação da ativista, a organização era um espaço importante de reflexão e ação política, principalmente porque tinha posicionamento crítico em relação ao autoritarismo dos regimes comunistas. Entretanto, essa visão não impedia o grupo de reproduzir atitudes opressivas entre seus próprios integrantes.

Eu era do Diretório Acadêmico de Letras, da UFBA. Participava de todas as assembleias. Mas para os esquerdistas, nossas demandas não importavam. Tudo girava em torno da luta de classe, e do enfrentamento ao regime. A homossexualidade era vista como um desvio pequeno-burguês, não uma questão

64 Organização não governamental destinada à defesa de mulheres lésbicas e bissexuais. Foi fundada em 11 de

novembro de 1993, em Salvador. Tinha como articuladoras principais Jane Pantel e Zora Yonara. Na tese de doutorado de Zuleide Silva, há um capítulo específico sobre o grupo (2016, p. 236-253).

política […], mas as pessoas comentavam a sexualidade dos outros. E como comentavam. Todo mundo sabia quem era gay e quem era lésbica na turma. Mas ninguém falava nada na frente da pessoa. Esse era um assunto velado. A homossexualidade era vista como algo contrarrevolucionário (MOTTA apud SILVA, Z., 2016, p. 186)

Lourdinha relata que o preconceito contra os homossexuais se tornou mais evidente no 31º Congresso da UNE, que ocorreu em Salvador em maio de 1979. No evento, Ruy César, estudante de Comunicação da UFBA e filiado ao PCdoB, foi eleito presidente da UNE. Apontado como gay por membros do movimento estudantil, o ativista foi desqualificado e perseguido pelos próprios colegas de militância. A discriminação levou Ruy a romper com o movimento estudantil em 1980. Para Lourdinha e suas colegas que também eram ativistas e lésbicas, aquele fato foi um alerta de que era preciso buscar novas formas de atuação.

Depois do Congresso de reconstituição das UNE, ao invés [de] desdobramento político acirrado, fomos buscar uma reflexão sobre nossa sexualidade. Se de um lado nós tínhamos uma esquerda totalmente radical, que não aceitava que o presidente da UNE fosse gay, do outro tínhamos uma direita fascista que não reconhecia o movimento estudantil. Então nós fomos obrigados a pensar na nossa sexualidade, a pensar a própria esquerda. […] E a gente conversava com a professora Margot Piva sobre as inquietações da esquerda, e foi conversando com ela que surgiu a ideia de criação do GLH. […] Até esse momento ninguém tinha pensado em formar um grupo de lésbica. […] Nós éramos um pequeno grupo de amigas homossexuais do Diretório Acadêmico. Aí nos perguntamos, por que não? Então decidimos criar o grupo. Por que queríamos discutir a questão da nossa sexualidade […]. E foi assim, depois de muita discussão criamos o GLH (MOTTA

apud SILVA, Z., 2016, p. 189).

Nasce assim o GLH, cuja marca maior era a “liberdade sexual acima de tudo” (SILVA, Z., 2016, p. 199). Margot Piva, professora citada por Lourdinha, era pesquisadora de Matemática da UFBA, escritora e ativista feminista. Foi apontada por Lourdinha como a influenciadora das alunas que fundaram o GLH, uma vez que apresentou diversas produções feministas ao grupo. Piva também foi cofundadora da sede baiana do Brasil Mulher65 e

integrou a equipe da revista Sappho, de Londres, na qual atuava como crítica de cinema (SILVA, Z., 2016; MOTT, 1987). Os ideais dessa professora, que influenciaram as ativistas do GLH, também se notam na criação do jornal Amazonas.

O Jornal Amazonas foi uma produção focada na condição feminina, na questão lésbica. A intenção era divulgar nossas ideias, promover a leitura, a literatura homossexual e a interação entre os grupos. Nós mandávamos o nosso jornal, e nós

65 Organização feminista que atuou entre 1975 e 1980. Para mais detalhes sobre a organização, ver Teles e Leite

recebíamos material de outros grupos. Isso era muito bacana. O trabalho era produção coletiva mesmo. Cada uma fazia uma coisa, dava uma contribuição. Eu, às vezes, diagramava, às vezes, fazia tradução. A Margot socializava muitos textos da literatura inglesa, francesa. Lá fora a discussão sobre sexualidade era bastante avançada e a gente discutia isso a aqui e publicava no jornal. […] O jornal era bem humorado, e muito bem feito. Margot acompanhava tudo. (MOTTA apud SILVA, Z., 2016, p. 199-200).

Zuleide Silva (2016) também revela que as pautas principais do jornal eram temas como os papéis sociais, as relações de gênero, a divisão sexual do trabalho, o casamento burguês e a prostituição. Na entrevista que Lourdinha concedeu à pesquisadora, ela retoma a memória do alvoroço causado nos corredores da UFBA quando o jornal publicou a frase “o buraco da nossa buceta é político”. Segundo a ativista, trata-se de uma referência ao pensamento de Guy Hocquenghem (2009), que afirmava: “o buraco do meu cu é revolucionário”. As integrantes do GLH combinaram a declaração do autor ao bordão feminista que diz que “o pessoal é político” e a divulgaram em seu periódico.

[…] a reapropriação da frase feita pelo GLH a partir do reconhecimento da buceta como corpo político liberta o corpo feminino das amarras da biologia, consequentemente, liberta as mulheres, que têm buceta, do matrimônio e da reprodução obrigatória. Esta compreensão expressa, sobretudo, um ataque à família heterossexual monogâmica como instituição básica do sistema capitalista que aprisiona os corpos das mulheres (SILVA, Z., 2016, p. 200-201).

Como se pode ver, os modos de atuação do grupo eram similares ao do GALF. As integrantes do GLH eram majoritariamente estudantes universitárias, sobretudo do curso de Letras. Por e-mail, Lourdinha afirmou que havia uma preocupação especial com a formação das integrantes de baixa renda. Assim, buscava-se envolvê-las em leituras e viabilizar sua participação em congressos dentro e fora do estado. E foi numa viagem para um encontro de militância, em São Paulo, que o GLH entrou em contato com o GALF. Marcas dessa relação podem ser encontradas nos números 5 e 6 do boletim, publicados em 1984.

Figura 5 – Surgimento do GLH é noticiado no ChanaComChana

Figura 6 – Nota sobre o lançamento do jornal Amazonas

Fonte: Recuperado do ChanaComChana, n. 6. Cópia digitalizada do arquivo de Patrícia Lessa.

Questionada sobre movimentos que teriam inspirado o GLH, Lourdinha afirmou que foi a literatura o que as guiou. Além disso, refletindo o contexto da época, o grupo tinha atuação libertária e integrada aos princípios da chamada contracultura.

The Well of Loneliness é um livro de ficção lésbica da autora inglesa Radclyffe Hall,

originalmente publicada em 1928. Depois, Viva Sapata – Rita Mae Brown e outros. Balzac, Foucault – Vigiar e Punir – e outros tantos. Não nascemos do senso comum ou de ideologia partidária. Foram movimentos libertário-anarquistas que nos moveram (Lourdinha, em documento encaminhado por e-mail no dia 10 de abril de 2019).

Assim como ocorreu com o GALF em São Paulo, em Salvador também houve tensões entre as ativistas lésbicas e aqueles militantes que consideravam a homossexualidade como algo secundário. Os principais desentendimentos se davam com grupos de esquerda, inclusive do segmento estudantil, e também com o movimento feminista. As memórias de Lourdinha retomam com maior enfoque os desentendimentos com integrantes do Brasil Mulher na Bahia. Embora o grupo tivesse se consolidado como uma referência nacional no combate à violência contra as mulheres, parte de suas integrantes discriminava as lésbicas. Em entrevista para Zuleide Silva (2016), Lourdinha afirmou que as lésbicas eram olhadas com desdém nas reuniões da organização e que as feministas heterossexuais tinham medo de serem associadas às lésbicas. Ainda segundo ela, o GLH só manteve interlocução com o grupo pelo

afeto que tinham com Margot Piva e com algumas integrantes com quem aprendiam muito sobre feminismo.

O GGB também manteve interlocução com o GLH, oferecendo sua sede para que as ativistas lésbicas fizessem suas reuniões. Lourdinha afirmou que Mott, fundador do GGB, foi um grande incentivador. Entretanto, havia diferenças entre os modos de atuação dos dois grupos. Enquanto as atividades do GGB tinham cunho mais reformista e legalista, o GLH trabalhava com foco na educação e na cultura, refletindo a própria formação de suas integrantes.

O fim do grupo e do Amazonas é incerto. Entretanto, como a organização era formada majoritariamente por universitárias, não é desarrazoado afirmar que o grupo se desarticulou conforme as estudantes concluíram sua graduação. A própria Lourdinha disse ter se afastado do ativismo após terminar a faculdade e entrar no mercado de trabalho (SILVA, Z., 2016). Além disso, a professora Margot Piva, importante referência do grupo, faleceu em 1984, vítima de alcoolismo (MOTT, 1987). A partir de um levantamento em boletins e documentos de militância, Zuleide Silva (2016) estima que o GLH foi encerrado em 1987, o mesmo ano em que surgiria outra universitária e bem-humorada publicação: o Xerereca.