“Os saberes produzidos pelos indivíduos de grupos historicamente discriminados, para além de serem contra discursos importantes, são lugares de potência e configuração do mundo por outros olhares e geografias.” (Djamila Ribeiro)
Neste capítulo, discuto as características particulares do meu olhar como pesquisadora negra e lésbica. Como lembra Marialva Barbosa (2007), a história da imprensa é normalmente a história das organizações, das profissões ou das tecnologias de informação e comunicação. Com isso, perde-se de vista a apreensão dessa história numa perspectiva que considere a relação dos veículos comunicativos com o desenvolvimento social.
É importante destacar que outros pesquisadores já se detiveram sobre produções alternativas de mídia, especialmente aquelas cuja autoria é de mulheres. É o caso de estudos como os de Buitoni (1986), Duarte (2016), Teles e Leite (2013), entre outros. Embora essas produções sejam relevantes no sentido de valorizar as ações de grupos considerados subalternos, ainda é possível avançar.
Conforme apresentado na seção introdutória, meu objetivo geral é sistematizar a história da Imprensa Lésbica, considerando que os veículos que a compõem são estruturas formadas quando o jornalismo falha na produção de esquemas de interpretação da realidade social e de mediação no exercício da cidadania. Assim, uma perspectiva de análise sapatão/lésbica25 pode contribuir para enxergar e compreender essas estruturas, além de produzir uma visão crítica sobre os encontros e desencontros do jornalismo com sua função cidadã.
Utilizo o termo “sapatão” como referência às mulheres lésbicas que são atingidas por um grau particular de discriminação, já que fogem aos padrões hegemônicos de raça, classe e feminilidade – grupo no qual me incluo.A escolha dessa nomenclatura é, antes de tudo, uma provocação. Afinal, busco esvaziar o sentido pejorativo que o termo tinha inicialmente e elevá-lo a um espaço de potência criativa para a produção do conhecimento. Trata-se, portanto, de uma visão política e feminista da lesbianidade, articulada de maneira plural.
25 Eventualmente, nesta seção, a palavra “lésbica” pode aparecer como sinônimo de “sapatão”, apenas para
Nesse sentido, alerto para a necessidade de romper a lógica da visão unitária de análise sobre a sociedade. Da mesma forma que o patriarcado exerce poderes opressivos em diferentes níveis, as pessoas atingidas por esse sistema devem ser vistas em toda a sua complexidade. Afinal, se apenas o aspecto de gênero for considerado, outros esquemas repressivos tão perversos quanto o sexismo permanecerão intocados.
Ainda sobre esse aspecto, destaco que há um número importante de estudos, desenvolvidos na esteira da tradição marxista, que atribuem ao sistema político-econômico a maioria, senão todos, os problemas que envolvem o jornalismo. Sendo assim, vale retomar a contribuição da historiadora feminista Tânia Navarro-Swain.
De fato, as relações entre sexos, raças, grupos, não se modificam, necessariamente, se as relações de classe, por exemplo, forem subvertidas. Ou seja, nunca é demais
sublinhar que, se uma parte do dispositivo simbólico se esfacela, isto não leva à sua decomposição global. Assim, a transferência dos pólos de poder político não
acarreta uma transformação global das tramas do imaginário social (NAVARRO- SWAIN, 1994 p. 54, grifo meu).
O mérito da abordagem que proponho é também uma ruptura com o modo de fazer ciência na pesquisa em Jornalismo. Contaminados pela ideal da objetividade científica26,
muitos estudiosos do campo insistem em apresentar suas produções científicas como desinteressadas, neutras e apolíticas. Embora não seja meu objetivo discutir detalhadamente sobre a “neutralidade” da ciência, destaco que colocar em evidência uma posição de subalternidade – na qual as lésbicas frequentemente são situadas – e elevá-la a um status de produção do conhecimento é uma ação eminentemente política, de modo que as reflexões aqui apresentadas não têm qualquer intenção de parecerem isentas.
Como lembra o historiador James Green (2018), muitos pesquisadores apresentam suas implicações pessoais com o estudo que desenvolvem quase como um ritual na seção introdutória de seus trabalhos. Segundo ele, essa conduta é adotada como forma de prevenção diante de possíveis críticas, considerando o rigor requerido no campo científico. Embora compartilhe do mesmo entendimento que o autor apresenta, acredito que há dimensões mais profundas nesse “ritual” de autoapresentação nas pesquisas.
O movimento que proponho, de envolver explicitamente as subjetividades pessoais na construção da pesquisa, tem lastro nos Estudos Feministas, sobretudo aqueles
26 Aqui, refiro-me aos preceitos estabelecidos com o advento da modernidade, que pressupõem que as produções
científicas podem ser objetivas, neutras e imparciais, desde que sejam adotados os procedimentos adequados. Ou seja, trata-se de uma visão que nega a dimensão relacional e subjetiva dos pesquisadores e seus respectivos objetos de estudo (LERNER, 1990).
desenvolvidos por teóricas negras. Trabalhos pioneiros como os de Angela Davis (2016) e Sueli Carneiro (2002) demonstram que os postulados do discurso científico, que envolvem a postura de distanciamento do pesquisador e uma suposta neutralidade, constituíram-se como mais uma forma de estigmatização de determinados grupos sociais. Afinal, as narrativas autodenominadas neutras e universais resultaram em produções que ocultam diversas perspectivas e na distorção da história.
Nesse sentido, destaco que a simples adoção de um objeto de pesquisa “não- normativo” não é o suficiente para propor perspectivas de transformação. Mesmo porque, como bem pontua Audre Lorde, “as ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande” (LORDE, 2019, p. 135). Essa colocação, que acompanho inteiramente, reforça que, para desfazer o apagamento que se nota sobre as lésbicas nas produções científicas, é necessário que tenhamos novas abordagens. E é nesse sentido que proponho uma perspectiva sapatão neste estudo.
Mas, afinal, em que isso consiste? Para explicar essa perspectiva, retomo as contribuições de pensadoras pioneiras no que se refere ao tema das lesbianidades. Uma delas é Adrienne Rich (2010), que no clássico artigo sobre heterossexualidade compulsória demonstra que a existência lésbica transcende o aspecto da preferência sexual. A teórica compreende o reforço da heterossexualidade para as mulheres como “um meio de assegurar o direito masculino de acesso físico, econômico e emocional a elas” (RICH, 2010, p. 34). Ao elaborar o conceito, Rich questiona não apenas a ordem heterossexual, como também alfineta teóricas feministas que não enxergam a heterossexualidade compulsória como uma fonte de opressão para todas as mulheres e não apenas para as lésbicas.
Segundo autora, a perversidade desse regime se nota em questões diversas, como na obrigatoriedade do casamento e da maternidade, no controle sobre os corpos, na violência sexual, entre outros aspectos. Dessa forma, Rich pontua que a “teoria feminista não pode mais afirmar ou meramente declarar uma tolerância ao ‘lesbianismo’ como um ‘estilo de vida alternativo’, ou fazer alusão às lésbicas” (RICH, 2010, p. 22)27.
Esse ponto de vista é similar ao de Monique Wittig (2006), que vê na existência lésbica uma ruptura com a ideia de que as mulheres pertencem aos homens. Sublinho que as
27 É importante destacar que, em 1980, quando o artigo foi publicado pela primeira vez, ainda não estava
colocado o uso do termo “lesbianidade”. A problematização em torno da palavra “lesbianismo” só se deu anos mais tarde, após o questionamento de ativistas que lutavam pela despatologização da homossexualidade. Sendo assim, pontuo que, sempre que o termo aparece nesta dissertação, ele está dentro desse contexto pré-mobilização pela mudança de nomenclatura.
propostas teóricas de autoras como Rich e Wittig demonstram como todas as mulheres, independentemente de sua orientação sexual, são atingidas pela heterossexualidade compulsória. Não se trata de proselitismo em relação à condição lésbica, mas tão somente de uma visão mais ampla e complexa sobre as dinâmicas que perpassam os relacionamentos (NAVARRO-SWAIN, 2010).
As contribuições dessas autoras nos permitem ampliar os objetivos das lutas feministas, já que deslocam a discussão sobre igualdade ou equidade para a desconstrução da heterossexualidade. Afinal, como lembra Wittig (2006), formas de vivências livres de opressão só são possíveis se pensarmos a partir de uma perspectiva que rompa com o binarismo no qual o referente é sempre o masculino. Isso é o que aconteceu, por exemplo, com a primeira geração de pesquisadoras feministas, que, a despeito de seus importantes estudos, continuaram presas na armadilha da visão binária. Sendo assim, destaco que:
Analisar o gênero na representação binária não é suficiente, pois o processo não está interrompido; enquanto que a diferença seria colocada entre mulher e homem no cultural e no biológico, o referente será inevitavelmente o masculino e a cadeia de representações continuará a se desenvolver. Certos feminismos se esfalfam assim em um imaginário social que muda as posições das cartas, mas mantém seu valor intrínseco. E os estudos de gênero continuam a reproduzir o binário, reinstituindo na história a recitação do masculino dominante (NAVARRO-SWAIN, 2009, p. 32).
Esses pressupostos são muito valiosos tanto para as teorias como para as práticas feministas. Contudo, ainda é possível avançar na ruptura das assimetrias sociais, se incluirmos as discussões sobre raça, classe social, deficiência, entre outros aspectos. Uma abordagem fundadora, nesse sentido, é a de Gloria Anzaldúa (2005), autora de origem chicana, lésbica e não-branca. Ao dissertar sobre os diferentes níveis de subalternidade aos quais é colocada, a depender de sua posição social e também geográfica, a autora defende que “precisamos nos encontrar em bases mais amplas” (2005, p. 174). A importância de desconstruir, de forma concertada, os mais diversos esquemas normativos reside no fato de que os poderes opressores podem ser exercidos de diferentes formas, mas possuem uma origem comum: a falsa premissa de que uma pessoa pode se sobrepor a outra, relegando-a a um local de marginalidade.
Assim como a fundação do capitalismo ocidental dependeu do tráfico de escravos no Atlântico Norte, o sistema de dominação patriarcal se sustenta pela sujeição das mulheres por meio da heterosexualidade. Sendo assim, os patriarcas têm de cultuar o par homem-mulher como algo “natural”, a fim de nos manter heterosexuais e obedientes, da mesma maneira que o europeu teve que criar o culto da superioridade
caucasiana para justificar a escravidão dos africanos (CLARKE, 1983, p. 130, tradução minha)28.
A partir dessa breve retomada teórica, pontuo que uma perspectiva lésbica ou sapatão consiste numa ruptura com a dominação masculina, em todos os níveis. Ruptura essa que não pode nem deve se encerrar em si mesma. Ao contrário, deve acompanhar uma outra, mais ampla e radical, que compreende outros aspectos da existência humana em que se observam relações assimétricas de poder e cuja consequência é a criação de diversas subalternidades. Afinal, “é impossível desmantelar a homofobia sem desmantelar o racismo, que, por sua vez, não pode ser desmantelado sem desmantelar o sexismo, e assim por diante” (EL-TAYEB, 2016, p. 163 apud REA; AMANCIO, 2018, p. 22).
Uma pesquisadora cujos estudos têm privilegiado essa perspectiva na atualidade é Paola Bachetta. Leio as produções dessa autora como uma atualização daquilo que Clarke (1983) e Anzaldúa (2005) já discutiam no fim do século XX. Na teorização de Bachetta (2009), destaca-se o que ela chama de co-formação, conceito que define o micropoder29 como algo que opera em eixos variados, produzindo condições materiais, sujeitos ou condutas. Em suas palavras, o poder é “sempre múltiplo, mesmo quando não está visível dessa forma” (2009, p. 56). Além disso, atribuo particular importância ao apontamento destacado acima, pois, ao tratar dos ativismos lésbicos e da Imprensa Lésbica brasileira, é imperativo retomar as tensões existentes entre esses grupos e outros movimentos, como os de gays e feministas – esforço a que me dedico nos capítulos seguintes.
A pertinência de uma abordagem como a proposta por Bachetta (2009) também encontra respaldo no apagamento sobre as memórias lésbicas, que se traduz, por exemplo, no silêncio tácito sobre periódicos lésbicos em obras que tratam da imprensa alternativa e até mesmo da imprensa feminista e homossexual no Brasil. Como se vê, mesmo as produções que têm a intenção de democratizar o acesso à memória e tensionar as narrativas históricas terminam por reproduzir assimetrias de poder, desigualdades e o silenciamento que tanto criticam.
Mas o que uma perspectiva lésbica pode legar ao estudo da imprensa? Essa abordagem possibilita a ampliação do debate sobre alteridade no jornalismo. Um debate
28 Texto original: “And just as the foundation of Western capitalism depended upon the North Atlantic slave
trade, the system of patriarchal domination is buttressed by the subjugation of women through heterosexuality. So, patriarchs must extoll the boy-girl dyad as “natural” to keep us straight and compliant in the same way the European had to extoll Caucasian superiority to justify the African slave trade” (CLARKE, 1983, p. 130).
29 A autora refere-se ao conceito cunhado por Foucault no volume 1 de História da Sexualidade (1988). Nessa
profundo, com vistas a transformar a prática da reportagem; distante, portanto, de discussões superficiais baseadas em paradigmas obscuros de afirmação da “inclusão” ou da “valorização da diversidade”30. Afinal, sem repensar e refazer nossas bases de trabalho, corremos o risco de “incluir” novos atores na dinâmica da notícia apenas para não parecermos politicamente incorretos. Ou seja, isso resultaria em nada mais do que uma tolerância cínica à heterogeneidade dos grupos sociais. Contribuições interessantes, nesse sentido, têm sido desenvolvidas pela pesquisadora Paula Melani Rocha (2004), que verifica um processo de precarização do trabalho jornalístico associado às questões de gênero. O trabalho da autora confirma que a mera inclusão de novos atores nas redações não configura, por si só, uma modificação positiva no campo31.
Marcia Veiga (2015) apresenta, em sua tese de doutorado, uma reflexão que acredito ser complementar às ideias que discuti até aqui. Para ela, a problematização do ensino do jornalismo sob uma perspectiva que considere a alteridade, pode oferecer compreensões mais fidedignas sobre a construção da realidade pela imprensa.
Perceber a subjetividade como partícipe da construção do conhecimento, repassando o próprio conceito de objetividade, por certo ajudaria a ponderar sobre os possíveis motivos pelos quais a realidade vem sendo etnocentricamente narrada. Entretanto, o que ainda tem sido recorrente em algumas teorias do jornalismo parece ir noutra direção (VEIGA, 2015, p. 49).
Dessa forma, ao propor uma abordagem lésbica para estudar a imprensa, coloco-me ao lado daqueles que buscam se distanciar das falsas ideologias da objetividade e do universalismo, que nada mais são do que um eufemismo usado para ocultar os sujeitos que não se encaixam na fórmula do masculino universal.
30 Sobre o assunto, ver, por exemplo, Mogrovejo (2008). Nesse texto, a pesquisadora retoma o desenvolvimento
de estudos sobre a sexualidade e demonstra como o termo “diversidade” se constituiu como categoria apolítica e problemática para se pensar as dissidências sexuais e, em especial, as lesbianidades. Outro teórico que oferece contribuições valiosas para este debate é Tomaz Tadeu da Silva (2000). Para ele, mais do que reconhecer as possibilidades identitárias, é importante pensar sobre a produção social de cada uma delas. Nesse sentido, Silva (2000) critica de forma contundente o conceito de “diversidade”. Diz o autor: “Tal como ocorre na aritmética, o múltiplo é sempre um processo, uma operação, uma ação. A diversidade é estática, é um estado, é estéril. A multiplicidade é ativa, é um fluxo, é produtiva. A multiplicidade é uma máquina de produzir diferenças – diferenças que são irredutíveis à identidade. A diversidade limita-se ao existente. A multiplicidade estende e multiplica, prolifera, dissemina. A diversidade é um dado – da natureza ou da cultura. A multiplicidade é um movimento. A diversidade reafirma o idêntico. A multiplicidade estimula a diferença que se recusa a se fundir com o idêntico” (SILVA, T., 2000, p. 100-101).
31 Uma perspectiva mais atual desse tópico é apresentada no artigo O processo de feminização do jornalismo: da
Além disso, traço essas reflexões porque compartilho da visão que coloca o jornalismo como elemento fundamental para a transformação da sociedade (GENRO FILHO, 2012). E aqui, refiro-me à “imprensa de massa”, chamada “tradicional”. Embora periódicos de natureza contra-hegemônica sejam resultado do que chamo de falha no funcionamento da imprensa, eles não podem se sobrepor aos meios de comunicação tradicionais. Afinal, há limitações basilares. São exemplos o financiamento colaborativo; certo nível de amadorismo, especialmente quando seus produtores não possuem qualificação na área da Comunicação ou do Jornalismo; circulação reduzida e a rotatividade no seu corpo de funcionários e/ou colaboradores, sobretudo naqueles relacionados aos movimentos sociais (PERUZZO, 1998). Assim, não acredito que formas alternativas de jornalismo ou comunicação sejam a resposta para os problemas do jornalismo, mas podem oferecer pistas de como superar seus impasses.
Dessa forma, pontuo que, ao propor uma perspectiva sapatão para o estudo da imprensa, estabeleço que o meu ponto de vista materializa uma ruptura com as múltiplas co- produções de poder (BACHETTA, 2009). E sublinho que não estou em busca de um modelo de “jornalismo lésbico”, mas de uma crítica sapatão do jornalismo. Nela, acredito haver pistas que possam reorientar a imprensa no exercício de sua função essencial: a de refletir a sociedade em todos os seus níveis e contribuir para o exercício da cidadania. Afinal, um jornalismo que falha em sua finalidade mais básica precisa urgentemente se reinventar.