Nesta parte do trabalho, procuraremos especificar os conceitos de comunicação popular e alternativa. Não se trata de tarefa simples, pois não há limites claros e bem determinados que identifiquem os dois conceitos. Pelo contrário. Os autores que se debruçaram sobre o tema, cujos estudos basearam nossas reflexões, expressam visões distintas e em alguns momentos contrastantes sobre os termos, por vezes enxergando a comunicação popular como manifestações que fazem parte de um conceito mais amplo de comunicação alternativa, ou vice-versa. De qualquer forma, antes de colocar os elementos que nos ajudarão a caracterizar as duas modalidades, trataremos brevemente da questão da comunicação de massa, com a qual, de algumas maneiras, tanto a comunicação popular quanto a alternativa se contrapõem.
Segundo Ciro Marcondes Filho em Imprensa e capitalismo (1984, p. 13), o aparecimento da circulação de notícias está ligado ao desenvolvimento do capitalismo em sua fase mercantilista, no momento em que passam a existir não só a circulação de mercadorias, mas também as primeiras feiras e mercados. As notícias se desenvolvem em conexão com a necessidade de circulação de bens, fazendo com que começassem a ser encaradas como mercadorias. Para o autor, isso explica que "a reportagem, produzida de forma empresarial, está sujeita por isso às mesmas leis do mercado, a cujo surgimento ela deve sua própria existência".
Posteriormente, o jornalismo aparecerá como forma de expressão política da burguesia, nova classe que se forma, junto com os processos de urbanização e industrialização. Ele deixará de servir apenas para a transmissão de notícias e troca de informações sobre a atividade econômica em geral (mercadorias, bolsas, chegada de navios) e passará a fornecer retaguarda social e ideológica para a mudança de rumos que os novos capitalistas desejam imprimir ao mundo. Surge assim a imprensa (p. 15).
Num primeiro estágio, a informação comercializada como notícia vai deixando de ser manuscrita ou impressa de forma artesanal e passa a ser organizada em edições regulares que contém "relatos econômicos permeados de pinceladas sobre curiosidades, dados climáticos e outras coisas pitorescas". A atividade passa a ser considerada jornalismo quando o veículo impresso, produzido de forma empresarial, passa a ser utilizado com fins, "além de
econômicos, políticos e ideológicos". Segundo ele (p. 16): "no momento em que a imprensa passa a funcionar como instrumento de classe é que ela assume seu caráter rigorosamente jornalístico".
Durante o período de implantação da ordem burguesa, o jornalismo aparecia vinculado aos interesses da esfera pública em formação: intelectuais, políticos e industriais. Havia então uma diversidade de opiniões que, para o autor (p.17-18), "tirava da imprensa o caráter classista, que passou a ser tão marcante a partir do último quartel do século XIX". Para Marcondes Filho, a ruptura se dá a partir da transformação do jornalismo em atividade industrial, com o surgimento da imprensa de massa, no final do século XIX. A partir daí, o autor identifica (p. 18) que os interesses de cada empresário, ou de forma mais ampla, do capital, passam a ser difundidos como se fossem de todos os cidadãos, subvertendo o conceito de esfera pública, que passa a existir no capitalismo somente em caráter privado. Explica (p. 16):
A utilização da imprensa na sociedade de classes não pode ser vista, portanto, separada de sua 'função capitalista'. A imprensa e, mais especificamente, a sua bandeira "liberdade de imprensa" são a expressão real dos detentores do poder econômico no modo de produção capitalista. O jornalismo organizado nos moldes da forma privada de produção é [...] o pressuposto para a liberdade de imprensa. O caráter privado, assim, garante a liberdade. Esta não está, portanto, no direito constitucional do cidadão, de se manifestar como, quando, onde e da forma como bem desejar. Aqui, ao contrário, ela se baseia pura e simplesmente no caráter privado: este caráter é o que deve garantir a livre manifestação e não o direito constitucional.
Apesar de ser um instrumento de classe, a imprensa permite manifestações discordantes, garantindo uma margem possível de atuação de grupos oposicionistas, atitude que casa com seu discurso liberal. Ao apresentarem posições conflitantes, a imprensa toma para si o papel de ser "palco da luta de classes", desde que os interesses empresariais do veículo não sejam prejudicados. Ciro Marcondes Filho (p.22) coloca que, uma das formas de assegurar a produção em série de mensagens conformistas é a contratação de profissionais minimamente alinhados com as posturas ideológicas da empresa. Não há possibilidade um jornal contar com uma grande quantidade de jornalistas que não coadunem com sua linha ideológica. Mesmo assim, não podemos dizer que a postura conformista dos jornais de massa venha da imposição de editores ou se dê somente a partir da atuação de jornalistas. "Não há imposição arbitrária ou totalitária (pelo menos nos moldes tradicionais). Há, isso sim, a manutenção do estado de coisas reinante por força de mecanismos não apreensíveis diretamente pela observação". Para o autor (p. 20):
Não está, portanto, na ação individualizada, programada de agentes, o reforço diário da ideologia, que se impõe de uma forma pretensamente consensual sobre a sociedade. Há processos que atuam em conjunto e promovem a reprodução das relações sociais dominantes e que são, via de regra, alimentados cotidianamente – quase de forma automática – pelos agentes envolvidos neles.
Ao observarmos a forma de surgimento da notícia como produto, concomitante ao surgimento da própria me rcadoria, fica claro porque ela não pode ser separada dos demais produtos da sociedade industrial capitalista. Para Marcondes Filho (p. 22):
Ela, [a notícia], além de funcionar como fruto de todo um processo de produção, que aspira à satisfação econômica, à sua realização como mercadoria e como valor de troca, portanto, à sua venda, é utilizada como arma política no combate ideológico. A imprensa atua diretamente na vida política e, via de regra, na conservação cotidiana da ideologia (daí ser ela, como emp resa privada, imprescindível à ordem burguesa) por manter mais ou menos seguros os elos estruturais, organizados em forma de sistema, no modo de produção capitalista.
Entendemos assim que imprensa e capitalismo andam juntos, pois a atividade jornalística nasceu no núcleo e dentro da lógica de produção deste sistema. Seguindo a orientação político- ideológica dos veículos, a informação transformada em mercadoria é "transfigurada, alterada e mutilada" em nome de interesses empresariais, segundo Marcondes Filho (p. 22). Por outro lado, a imprensa é capaz de, na medida em que enfatiza o lado informativo, contribuir para as discussões políticas. Deixando o modelo do jornalismo comercial, as modalidades de jornalismo contra-hegemônico, que podem aparecer em diversos modelos e denominações como popular, sindical, alternativo, entre outros, buscam a transmissão de informações não alinhadas à lógica dominante. As características dessas formas de comunicação, que podemos chamar de contra-hegemônicas, por se pautarem por interesses diversos dos meios empresariais e corporativos, são nosso próximo objeto de discussão. Mas, antes de abordá- los, achamos conveniente dedicar algumas linhas à explicação das teorias de Vladimir Lênin e Antonio Gramsci sobre o papel da comunicação na construção de alternativas à hegemonia das classes dominantes.