O MST é um dos poucos movimentos sociais no Brasil que conseguiu alcançar graus de projeção e organização tão elevados. Sua preocupação em dividir seus militantes para que atuem em áreas como educação, saúde, formação, frente de massas, produção e comunicação, a partir da organização desses setores em todos os espaços e níveis do movimento, permitiu a conquista de um alto padrão de organicidade e fez com que o movimento percebesse a necessidade de atuar em várias frentes para atingir conquistas que vão além dos lotes da reforma agrária. O movimento foi capaz de perceber que avanços mais significativos só serão atingidos em contextos mais profundos de transformação social, por isso, tem optado por cumprir um papel de articulação entre redes de movimentos do campo e da cidade na formulação de um projeto mais abrangente de mudanças.
Mas, ao mesmo tempo em que expande suas perspectivas políticas, o MST tem enfrentado inúmeras dificuldades nos últimos cinco anos, aspectos novos e distintos das experiências de conflito anteriores. Em relação ao governo Lula, que privilegiou o relacionamento com o setor chamado de agronegócio em detrimento dos pequenos agricultores, há um dilema. A base do movimento ainda enxerga em Lula um aliado, enquanto os dirigentes entenderam que não podem esperar muito além de concessões pontuais do governo.
Neste cenário, o MST adotou uma postura crítica em relação às políticas do governo, mas procura poupar a figura de Lula de ataques pessoais, diferentemente de outra parte da esquerda, que acusa o presidente de traição de seus ideais. Em artigo publicado no jornal Le Monde Diplomatique Brasil, sob o título Uma outra matriz produtiva, João Pedro Stedile resume as políticas do governo em relação à agricultura, incompatíveis com a realização da reforma agrária, distintas das defendidas historicamente pelo MST (2009, p. 9):
Em nosso país, o modelo agroexportador resultou também no bloqueio da reforma agrária, agora sob a responsabilidade do presidente Lula. A democratização do acesso à terra esbarra na transformação dos recursos naturais em reserva de expansão do agronegócio. O governo dá prioridade à produção de monoculturas destinadas à exportação, sob controle das empresas transnacionais e do capit al financeiro, para sustentar a política econômica neoliberal herdada de FHC. Nesse contexto, não há espaço para os camponeses, para a reforma agrária e para um
modelo agrícola baseado em pequenas e médias propriedades, voltado para a produção de alimentos para o povo brasileiro.
Em nosso ponto de vista, a opção por não entrar em confronto aberto com o governo, significou para o MST a perda de alguns aliados. Apesar de respeitar o movimento, um dos mais importantes da América Latina, algumas forças cobram uma postura mais dura em relação a Lula, enquanto outras consideram as críticas do MST muito radicais. O fato é que, apesar de afirmar que não se pautar pelas atitudes do governo, durante os dois mandatos de Lula, o MST tem encontrado dificuldades para fa zer mobilizações, principalmente ocupações de terra, motores do movimento e uma de suas principais estratégias de reivindicação. Uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada em 18 de janeiro de 2009, por ocasião do aniversário de 25 anos do MST, mostra que o número de famílias em ocupações de terra caiu de 65.552 em 2003 para 49.158 em 2007. O número de novas famílias acampadas foi de 59.082 para 6.299, ou seja, menos 89,43%, no mesmo período. Na mesma reportagem, o bispo de Goiás, Dom Tomás Balduíno, fundador da CPT e apoiador histórico do MST, responsabiliza as políticas sociais de Lula pela apatia popular: "O pessoal, tendo pequenas ajudas, como a do 'Bolsa Família', não vai se inscrever nos batalhões de luta pela terra". (2009, p. A4).
Efetivamente, o governo Lula não tem dado atenção à reforma agrária, e de uma maneira surpreendente, conseguiu tirar essa demanda da agenda de prioridades da sociedade como um todo. São tantas contradições que podemos afirmar que um governo do Partido dos Trabalhadores conseguiu passar à sociedade a idéia de que a reforma agrária não é mais necessária, apesar dos dados de concentração de terras no Brasil permanecerem assustadoramente altos. Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo sobre concentração fundiária, a partir de dados obtidos no censo agropecuário divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1992 existiam 2,9 milhões de propriedades rurais com mais de dois mil hectares, número que cresceu para 4,2 milhões de propriedades em 2003, ou seja, um aumento de 73% (2009, p. A9). Enquanto isso, as metas de assentamento não são cumpridas e o governo apela para a manipulação dos números, contabilizando processos antigos de regularização de assentamentos como novos, conforme artigo de João Pedro Stedile (LE MONDE DIPLIMATIQUE BRASIL, n. 18, janeiro de 2009, p. 9):
O resultado geral do cenário descrito acima é lamentável: temos hoje os menores índices de desapropriação e assentamentos da história do Brasil. Em 2008, das 18.630 famílias oficialmente assentadas pelo governo federal, apenas 2.366 são novas, enquanto o restante são ainda regularizações de projetos de assentamentos dos anos
anteriores. É uma vergonha para aqueles que tinham um compromisso histórico com a reforma agrária.
Outro fator da dificuldade de mobilização do MST pode ser creditado à ofensiva da mídia comercial. Essa ofensiva tem ficado clara com a tentativa de criminalização imposta pelos grandes meios de comunicação ao movimento, principalmente depois que o MST passou a desenvolver outras formas de manifestação além da ocupação de latifúndios improdutivos6.
Ao perceber a ofensiva das grandes corporações e a chegada de uma nova forma de dominação no campo, representada pela aliança entre os grandes proprietários e o capital internacional que compõe o agronegócio, o MST passa a organizar ações de visibilidade, como ocupações temporárias de áreas industriais ou lavouras pertencentes às grandes empresas. Pretendem com isso evidenciar irregularidades de toda sorte (ambientais, trabalhistas), cometidas pelas corporações que utilizam áreas imensas, antes dedicadas à produção de alimentos, para a monocultura de cana – visando lucro com o aumento da produção de etanol (de soja, muitas vezes transgênica, que assusta o movimento), e para a criação de gado para exportação. Um dos exemplos dessa nova perspectiva de luta foi a ocupação e destruição de um viveiro de mudas de eucalipto da multinacional Aracruz, no Rio Grande do Sul. A ação, empreendida por mulheres ligadas à Via Campesina, rede internacional de movimentos camponeses da qual o MST faz parte, foi duramente atacada pela mídia. O objetivo dos sem-terra com ela foi chamar a atenção da sociedade para a problemática do avanço do cultivo de eucalipto para a produção de papel, que além de tomar o espaço da lavoura de alimentos, traz uma série de prejuízos para o meio ambiente. João Pedro Stedile lista como novos inimigos do MST as corporações multinacionais do agronegócio, que têm influência tanto nas decisões judiciais como na mídia empresarial, já que boa parte dos anúncios que sustentam os meios vem deste setor. Para ele (2009, p. 9):
Esse avanço das empresas transnacionais na agricultura segue combinado a uma ofensiva de repressão dos movimentos sociais, articulada por parte do Poder Judiciário, da imprensa empresarial e do Estado. Um exemplo recente ocorreu no Rio Grande do Sul, onde o Ministério Público Estadual e a governadora Yeda Crusius determinaram oficialmente a "eliminação" do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
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O MST tem desenvolvido ações de denúncia contra a atuação das empresas transnacionais na agricultura, ocupando suas sedes, fábricas e indústrias e interrompendo sua produção por algumas horas.
Diante deste quadro, o MST teve de atualizar seus conceitos para continuar na briga. Hoje o movimento fala de soberania alimentar, evidencia os problemas ligados ao consumo e utilização de transgênicos nas lavouras e enfrenta o aparato das grandes corporações, como podemos verificar nos assuntos abordados pelos textos de sua página na internet7, por exemplo.
O desafio é enorme, até porque o movimento não tem espaço nos meios de comunicação para colocar suas posições, objetivos e nem explicar seu plano para o desenvolvimento de uma agricultura camponesa sustentável para o campo brasileiro, que levou anos para formular. As ações radicais contra o patrimônio de empresas são pouco compreendidas pela sociedade em geral e atacadas pela mídia. Apesar de sua projeção e importância, o MST perde espaço por não encontrar as mesmas condições políticas da época em que mais cresceu. Veremos mais detalhes sobre a relação do MST com a grande mídia comercial no capítulo III.
Em relação à trajetória dos demais movimentos sociais, podemos afirmar que o MST difere em alguns pontos, que podem explicar de certa forma a projeção alcançada nacional e internacionalmente pelo movimento, única na história do país. Em primeiro lugar, seu período de crescimento se dá na segunda metade dos anos 1990, quando os demais movimentos, principalmente urbanos, se encontravam em decadência. Essa expansão se deu majoritariamente pela inovação nas formas de luta, que fez com que o governo Fernando Henrique tivesse de prestar atenção às suas reivindicações, inclusive alçando o movimento à categoria de seu principal adversário. O MST conseguiu, ao longo da década de 1990, angariar forte apoio para a luta pela reforma agrária, a colocando na agenda da sociedade e provocando discussões sobre o tema. Paralelamente, ganhou apoio de uma série de intelectuais e personalidades políticas e sociais. O tratamento da mídia não era tão desfavorável e permitia certos debates sobre a questão que hoje parecem impossíveis. Como colocado acima, a política neoliberal na agricultura, representada pelas transnacionais, passa a se expandir de forma mais agressiva no final da década de 1990.
Outro aspecto importante é a percepção do MST sobre a amplitude de seus problemas. No início, o movimento reivindicava somente o acesso à terra. Aos poucos, começou a perceber que a reforma agrária não acontecia por uma série de fatores que iam além de simples falta de vontade política dos governantes. O movimento percebeu que sua luta teria que estar inserida em um contexto mais amplo de questionamento do sistema capitalista e
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suas políticas, especialmente a partir do avanço do neoliberalismo, se quisesse seguir em direção às conquistas.
Percebeu também que de nada adiantaria questionar o sistema se não houvesse formulação e proposição de alternativas. Neste sentido, o MST, a partir da segunda metade da década de 1990, toma para si a responsabilidade de aglutinar forças progressistas de todos os níveis para a formulação de um projeto alternativo de sociedade, algo concreto que pudesse ser defendido não só pelo próprio MST, mas pelo conjunto dos movimentos que deveria se unir em torno dele. A partir dessa percepção, o MST e outras forças passam a formular o que chamam de “Projeto Popular para o Brasil”, uma série de propostas em todos os campos que deveriam ser debatidas com a sociedade e implementadas para a diminuição das desigualdades sociais e retomada do crescimento econômico. Voltaremos a falar sobre o “Projeto Popular” mais adiante, em outros capítulos deste trabalho. Por enquanto, é importante colocar que, por conta de divergências e do fracionamento e divisão da esquerda a partir de discordâncias de avaliação sobre a natureza do governo Lula, hoje o MST não consegue agregar a quantidade de elementos como movimentos, partidos e organizações em torno da formulação e defesa das propostas do “Projeto Popular”.
O MST parte também para duas estratégias descritas por Maria da Glória Gohn (2007, p.304) como fundamentais para o avanço dos movimentos sociais ao ampliar sua rede de articulação tanto em nível nacional como internacional. Aos poucos o MST tem se aproximado de alguns movimentos sociais urbanos para discutir principalmente a atuação da juventude nas mobilizações. Algumas ações do MST, em parceria com o movimento estudantil, movimento negro e outros, têm acontecido nos grandes centros urbanos, como as ocupações de universidades para lutar pelo acesso ao ensino público. Trata-se de uma percepção de que não existe mais possibilidade de empreender uma luta das proporções da colocada pelo MST, que além da reforma agrária defende uma transformação social profunda, sem contar com parceiros fortalecidos.
Em nível internacional, o movimento sentiu o baque da gradual retirada de apoio financeiro de organizações e entidades estrangeiras, que segundo o processo descrito por Gohn (2007, p. 313), hoje preferem destinar seus recursos às ONGs e movimentos de outros países, principalmente na África e Ásia. Uma resposta a isso foi a articulação da Via Campesina, organização internacional que agrega movimentos sociais camponeses de todo o mundo. No Brasil fazem parte dela além do MST, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), e o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). O objetivo da Via é, além de trocar experiências sobre a luta pela terra
ao redor do mundo, que apesar de conter aspectos diferentes enfrenta problemas semelhantes, é articular uma rede internacional de apoio a esses movimentos e suas ações, uma forma de unir esforços para fazer frente aos gigantes desafios colocados para os movimentos sociais no começo do século XXI.