Se considerarmos as biografias e autobiografias como material biográfico em geral, estas são mais antigas do que se possa imaginar. Segundo expõe Monteagudo (1996, p. 223):
Podem-se citar estudos de cunho biográfico encontrados em China no século I A.C., com Ssu-m Ch’ien, que realizou esquemas biográficos e também em Roma através das obras de Plutarco ‘vidas paralelas’ e de Suetônio ‘vidas dos Cezares’. No Islam, as reflexões de Ibn Tufail conferem importantes elementos autobiográficos e nesta linha cita também ‘as confissões’ de Santo Agostinho. E então a partir dos séculos XV e XVI, aparecem os primeiros relatos autobiográficos, como o diário de ‘S.Pepys’.
No campo das ciências sociais, os primeiros usos de histórias de vida pode-se dizer que foram aqueles realizados nos Estados Unidos durante a guerra de extermínio dos povos originários80. Neste período, alguns missionários, com clara intenção proselitista elaboraram biografias de guerreiros indígenas.
Tempos depois, ao finalizar a Guerra de Secessão sucedeu o mesmo com a população afrodescendente, sobre a qual apareceram publicadas numerosas biografias que se submergiam no problema da escravidão. Com intenções mais decididamente localizadas no mundo das ciências, esta veia de examinar diferentes minorias culturais, foi explorada pela antropologia.
No campo da Antropologia, o uso das biografias é mais antigo que a própria antropologia social entendida como disciplina científica. O problema é que embora os
80 Obras importantes sobre o tema são de: Stanley (1852) Portraits of North American Indians ; de Ellis
(1861) sobre os Ottawa; a obra de Grinnell (1889, 1892) sobre os Pawnee e os Blackfoot, e de Welch (1841) sobre os Seminole e 1906 por Barrett: As s memórias do índio Jerônimo (Pujadas Muñoz, 2000, p.133).
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antropólogos costumassem levar suas agendas cheias de anotações, estas nunca saíam à luz em formato de histórias ou relatos de vida. Pujadas Munõz (1992, p.15) indica que,
A razão é que os antropólogos estão mais interessados em desvelar bases de constituição e funcionamento de sistemas socioculturais, que análise e compreensão de trajetórias individuais. Indica-se como primeiro trabalho na linha biográfica neste campo, o trabalho de Anderson (1825) que tratou de estudar as memórias de uma mulher cherokee, cristianizada e aculturada.
Acerca do método biográfico na antropologia, Wiesner (2004, p.176) afirma que “a idade de ouro do método biográfico na antropologia norte-americana foi entre os anos 1920 a 1942”. De fato, segundo enfatiza Bueno (2002, p.15) nos “anos de 1920 o trabalho pioneiro nesse campo foi de Malinowski com o qual ele inaugurou uma forma nova de estudar as culturas”.
Refutando as ideias etnocêntricas que se desenvolveram no século XIX sobre os povos primitivos, ele propôs que a cultura fosse estudada e conhecida a partir do ponto de vista dos nativos, estabelecendo com isto a regra que se tornou básica para aqueles que aderiram desde então à etnografia. Desde o âmbito da antropologia e da etnografia, houve aportes significativos ao enfoque biográfico, tanto em suas normas, como em seus posicionamentos, segundo informa Bolivar e Domingo (2006, p.20):
De início, a investigação etnográfica e a narrativa se construiu a partir de um discurso escrito ao retratar, interpretar e ajudar na compreensão dos outros. Assim têm aportado pistas desde os pioneiros informes biográficos de estudos antropológicos, a análise de discursos sobre o outro, no qual se tem que desconstruir, passando pelos estudos da cultura como texto.
No campo da história, a tendência que se convencionou designar de História Nova, surgida sob a influência da Escola dos Annales – a revista que é fundada para encorajar as inovações a partir dos anos 1930 - constitui num dos exemplos mais eloquentes da oposição aos métodos tradicionais de investigação e à concepção comum da história, ou seja, a história factual e dos grandes feitos. Muñiz e Roberti (2012, p.3) indicam que,
Desde a história, a perspectiva biográfica foi incorporada tanto nos estudos de história oral como nas investigações sobre biografia intelectual. A literatura e a filosofia se acercaram, por sua parte, ao biográfico com a ideia de analisar a constituição do sujeito moderno e a construção social, tanto da (inter) subjetividade como da identidade.
Desde seu início, na História se trabalharam memórias e relatos autobiográficos de pessoas destacadas já mortas, e se desenvolveram técnicas de análise e controle de veracidade e confiabilidade da informação. O uso da informação oral foi uma constante no desenvolvimento da produção histórica, mas sua acessibilidade, intensidade,
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valoração e hierarquia relativamente a outras fontes de informação variaram com tempo. Para Wiesner (2004, p. 174): No século XIX,
A característica peculiar foi a desconfiança em direção a evidência originada na tradição oral e nos testemunhos pessoais e na valorização do documento escrito para a reconstrução biográfica. Esta hierarquia e discriminação das fontes históricas continuaram até década de 40, quando a disciplina da história se aproximou de outras ciências sociais como antropologia e sociologia e recebeu contribuições metodológicas fundamentais para sua renovação.
Embora a partir da escola de Chicago se tenham desenvolvido inúmeros trabalhos importantes, Pineau e Le Grand (1996, p.43) lembram que o declínio da abordagem qualitativa e também biográfica “situa-se entre os anos 1940 a 1970, período que prevaleceu a abordagem quantitativa”. Pujadas Muñoz (1992, p.37) acredita que os fatores do declínio podem ser indicados como sendo o "escasso crédito da academia aos estudos centrados no testemunhalismo extremo e pelo vínculo da corrente biográfica a uma série limitada de área de estudo como temas sobre mulher, homossexual, velhice, drogas etc.”.
A redução de importância das biografias se deve aos limites atribuídos à época, à história de vida, como explica Saltamacchia (1992, p.11), em razão de que havia,
Uma convicção de que essa técnica não podia superar a baixa confiabilidade de seus resultados por uma supostamente excessiva impregnação subjetiva dos dados por ela obtidos e a impossibilidade de encontrar argumentos válidos para imputar representatividade às suas conclusões.
Esta crítica limitativa às metodologias qualitativas e biográficas acabou por contribuir para seu melhoramento. Bueno (2002, p.14) destaca que:
Essa limitação impulsionou a busca de novas formas de investigação, em parte por interesse de expandir novos horizontes e fontes de informação, aliado a insatisfação com os limites da abordagem quantitativa, instigando abrir mão de métodos convencionais e experimentais e seus correlatos em câmbio de outras formas de ver o mundo.
Corroboram essa referência Prigongine e Stengers (1984, p.1) quando afirmam que: “não é exagero falar dessa transformação conceptual como de uma verdadeira metamorfose da ciência, sublinhando que os valores nas mudanças em jogo não são exclusivamente de ordem científica”. Tampouco se deu naturalmente de modo homogêneo, uma vez que cada disciplina a seu tempo e em função de seus problemas e insatisfações, foi rompendo com os modelos estabelecidos de pesquisa e ousando construir modos próprios de enfrentar suas questões.
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O retorno da credibilidade da abordagem qualitativa e também dos estudos biográficos deu-se nos anos 1970, após o sucesso da obra Filhos de Sánchez de Oscar Lewis em 1966, no qual se nota a revalorização do indivíduo. “Dentre os novos pioneiros nessa linha tem-se Bertaux, Catani e Ferrarotti. Este último, igual que a Mills não hesitou em propor uma sociologia crítica antes mesmo dos anos 1970” (Pineau e Le Grande, 1996, p.50).
A partir do ressurgimento do método biográfico se observa que as disciplinas de antropologia, história, psicologia, linguística, sociologia, caminham juntas. Assim opina Hernández (2005, p. 101): “No uso das mesmas técnicas e fontes, que segundo parece e se está confirmando nas investigações recentes, e surgem como material por excelência para quem quer estudar as transformações não somente do indivíduo como também de seu grupo primário e seu entorno sociocultural imediato”.
A inovação das biografias no campo da sociologia, tal como nos casos da historiografia e da antropologia atravessa praticamente todo o século XX. O novo interesse pelo emprego da biografia na sociologia responde a uma dupla exigência que segundo explica Ferrarotti (1993, p.123):
Por um lado, na necessidade de renovação metodológica que resulta na crise geral dos instrumentos heurísticos da sociologia, em particular a objetividade e intencionalidade nomotética e também pelo lado da exigência da nova antropologia que reivindica o concreto, afirmando a historicidade inerente em todo fato social.
A sociologia utilizou a perspectiva biográfica para analisar a dinâmica da mudança social, da mobilidade social, das trajetórias e das rupturas ou bifurcações das mesmas experimentadas por diversos atores sociais em distintos momentos. A partir desta mirada se estudaram: as trajetórias laborais e a mobilidade de trabalhadores e trabalhadoras no mercado laboral, os itinerários educativos de múltiplos grupos de estudantes, as transições religiosas de praticantes de diferentes crenças, as trajetórias de militância de diversos atores sociais, etc. (Sautú, 1998; Saltamacchia, 1992; Muñiz e Roberti, 2012).
Na área das ciências da educação, a introdução do método biográfico logo foi incorporada e valorada, sendo em seguida tomado “como instrumento de investigação e como instrumento de formação” (Ferrarotti, 1988, p.12).
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Embora tenha de fato ressurgido e se consagrado a partir de 1970, o método biográfico percorreu um longo caminho e de diferentes formas segundo o contexto geográfico.
Nos Estados Unidos há dois momentos distintos que marcam a abordagem biográfica: antes e após a Segunda Guerra Mundial81. Com respeito ao desenvolvimento dos estudos biográficos na América Latina, essa técnica começa a ser conhecida nos anos 1960, entretanto, contrariamente com o que ocorreu na sociologia europeia onde o método biográfico foi aplicado principalmente às populações obreiras, ali foi mais frequente encontrá-lo em estudos sobre a pobreza e exclusão social, e mais concretamente, em estudos sobre a mulher (Casassus, 1998; Bolívar, 2002).
Com relação à Europa, a antropologia mostra um escasso interesse na produção de textos biográficos ou autobiográficos até a época recente, com exceção da etnografia russa de princípios da primeira metade do século. Somente se começou a tomar contato com esta tradição em outros meios acadêmicos de língua latina ou inglesa há vinte anos, aproximadamente “quando Jan Szczepanski (1978, 1981) publicou uma série de artigos sobre a história do papel jogado pelo gênero autobiográfico nas ciências sociais polacas” (Pujadas Muñoz, 2000, p.134).
Na Itália destaca-se a obra de Ferraroti, verdadeiro líder mundial do método biográfico, e na França, cabe destaque ao trabalho do casal Bertaux, sobre o “Oficio de Padeiro na França”, bem como as obras de Demazière e Dubar, Delory-Momberger e Pineau Gaston entre outros. Na Espanha têm lugar os primeiros desenvolvimentos da metodologia qualitativa e mais especificamente, biográfico-narrativa, a partir das obras de Sarabia e Zarco (1997).
Em Portugal, o professor Nóvoa, da Universidade de Lisboa introduziu a linha francesa, orientada para estudos de formação de professores e formadores. Neste caso desempenha um papel de primeira ordem, a antologia de textos de Nóvoa e Finger O
método (auto) biográfico e a formação, de 1988.
No Brasil, em 1973, foi criado o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), que buscava
81 Do período Pós-Guerra, cabe destaque a obra de Heya (1979) sobre a carreira de uma empresária de
casa de prostituição e a obra de Hughes sobre autobiografia de uma droga-adicta em 1961. Também cabe citar a obra de Strauss (1974) sobre Frank Moore, um alcoólico sem teto e a obra de Lyn (1973) sobre as trajetórias pessoais de dirigentes sindicais.
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por meio dos relatos orais entender melhor o Brasil daquele período. Em 1994 foi criada a Associação Brasileira de História Oral e a publicação de seu boletim tem estimulado a discussão entre pesquisadores e participantes de história oral em todo o país (Camargo e D’Araújo, 1999).
Atualmente não há dúvida de que a investigação no campo da abordagem qualitativa em ciências sociais e o uso da metodologia biográfica se consolidam e apresentam uma tendência evidente em direção à sistematização e especialização neste campo com um corpus crescente de investigação – desde esta perspectiva – que se vai arraigando passo a passo com novas aportações e perspectivas metodológicas.
A recuperação e o grande auge do método biográfico nestes últimos vinte anos fazem parte da revalorização do ator social (individual e coletivo), não reduzido à condição de dado ou variável (ou uma condição de representante arquétipo de um grupo), e sim caracterizado como sujeito de configuração complexa e como protagonista das aproximações que a partir das ciências sociais se querem fazer da realidade social. Pujadas Munõz (2000, p.127) aduz:
Trata-se de uma ruptura epistemológica que conduz os cientistas sociais em direção a aproximações a umas fontes de conhecimento social que levam emparelhado a vontade de aprofundar naquilo que as pessoas e os grupos fazem, pensam e dizem com a finalidade de ensaiar interpretações da realidade a partir da subjetividade individual e grupal, mais que a través de sofisticadas e desumanizadoras regras metodológicas que, constantemente, instrumentalizam a realidade social para dar saída a uma realidade autoconstruída e cientificista .