• Aucun résultat trouvé

Para o início do desenvolvimento do método biográfico, Pujadas Muñoz (1992, p.60) apresenta um: “elaborar um questionamento teórico do trabalho; justificar o uso do método biográfico; delimitar o universo de análises (comunidade, grupo); e explicar os critérios de seleção dos informantes”.

Acrescenta-se à etapa inicial, a necessidade de se realizar, com certa acuidade, o esclarecimento quanto aos conceitos relacionados aos estudos biográficos que, devido ao caráter multifacético gera confusão, como é o caso das terminologias83 que a eles estão relacionados.

Na psicologia é comum encontrarmos o termo de narrativas biográficas; em história o termo mais usado é de histórias de vida ou história oral, e na sociologia o termo varia entre investigação biográfica e estudos biográficos e ainda biografias narrativas.

83 Dentre as várias denominações utilizadas para referir-se ao estudos biográficos podemos encontrar:

história oral, (auto) biografia, relato de vida, narração biográfica, histórias de vida, etc. Uma das razões dessa variação terminológica “refere-se aos diferentes campos da investigação em que a mesma pode ser utilizada, tais como a antropologia, história, sociologia, psicologia, educação, formação (de jovens e adultos e de professores), economia e linguística” (Bolívar e Domingo, 2006; Pujadas Muñoz, 2000).

124

Também diferem, para além da nomenclatura, em termos de utilização e formas de análise do produto destas narrativas. Enquanto umas propostas valorizam mais o relato em si e por si, outros o utilizam como informação adicional, ou vice-versa, e outros a complementam com cruzamento de dados de outras fontes. Disso depende o enfoque ou perspectiva adotada pelo investigador.

Apesar de aspectos diferenciadores há um ponto em que se assemelham: compartem o fato de que a fonte da informação é o sujeito e a técnica de recolha de dados é entrevista narrativa (oral ou escrita). Para melhor compreender as principais distinções apresenta-se a divisão mais predominante: numa primeira linha encontram-se as autobiografias e biografias, e em uma segunda linha encontram-se as histórias de vida e relatos de vida (Pujadas Muñoz, 1992; Bolívar e Domingo, 2006; Hernández, 2005).

Na classificação da primeira linha, a autobiografia ocorre quando a experiência de vida de uma pessoa é contada por seu próprio protagonista. A autobiografia, segundo Pujadas Munõz (2000, p. 136):

É como antes comprovado o termo favorito utilizado pela maioria de antropólogos que combinam etnografia e recopilação de trajetórias pessoais. O termo, à margem de sua convencionalidade, não deixa de ser um pouco equívoco, pois sugere a idea de que é o próprio informante do etnógrafo quem, com seus próprios meios e a partir de sua própria iniciativa, constrói a narração denominada autobiografia.

Já o termo biografia é, sem dúvida, o mais genérico. As biografias constituem um gênero histórico-literário específico em que, “um investigador reconstrói uma trajetória individual sobre a base de documentação preferentemente escrita e com o auxílio eventual de fontes orais, no caso quando se trate da biografia de uma pessoa contemporânea” (Pujadas Muñoz, 2000, p.136). Em outra obra, Pujadas (1992, p. 48) aduz que se pode definir as biografias como:

Relatos objetivos, construído pelo investigador a partir de todas as evidências e documentação disponível, tendo ou não uma narração escrita da pessoa biografada. Normalmente o gênero biográfico se orienta em direção a personagens históricos relevantes e públicos por sua aportarão nos campos da política, da ciência ou da arte, entre outros.

Na segunda linha, história de vida e relatos de vida, também há que se aludir ao fato de que embora, muitas vezes utilizadas como sinônimos, cada uma delas apresenta suas particularidades. Uma das razões das imprecisões dos termos vem do uso das palavras em inglês life history – história de vida (e em francês “histoire de vie”) vinculado ao estudo de caso referido a uma pessoa determinada, compreendendo não somente de seus relatos de vida, mas também qualquer outro documento ou tipo de

125

fonte de informação adicional que permita a reconstrução da biografia na sua forma mais exaustiva possível.

Segundo Elder (1993), a partir do conceito de história de vida há uma divisão interna entre história oral84 e método biográfico. Embora apresentem semelhanças são utilizados de forma a atingir diferentes objetivos. Na história oral parte-se do sujeito para se chegar ao objeto de estudo, o objetivo é a “história do contexto social” na qual o indivíduo participou.

A História Oral teve a sua primeira experiência após a Segunda Guerra Mundial, visto que havia necessidade de propor novas formas de captação de experiências importantes, vividas pelos combatentes, familiares e vitimas dos conflitos (Meihy, 1998).

No início, a história oral combinou três principais funções complementares: o registro de relatos; a divulgação de experiências relevantes; e o estabelecimento de vínculos com o imediato urbano, promovendo assim um incentivo à história local e imediata.

A primeira geração de pesquisadores orais (1950) tinha por objetivo reunir material para futuros historiadores privilegiava as ciências políticas e ocupava-se da história dos que denominavam de pessoas importantes.

A segunda geração de historiadores orais surge à margem da academia baseando- se implicitamente na ideia de que se chega à verdade graças ao testemunho oral e a partir de relatos de pessoas consideradas pela sociedade como “menos importante”. Já a terceira geração foi marcada pela adesão de vários estudiosos em diversos países à utilização da história oral. Para a coleta de dados, a história oral privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participaram ou testemunharam acontecimentos, conjunturas, visões do mundo como forma de se aproximar do objeto de estudo (Albertí, 2005).

O objeto de estudo do método biográfico é o indivíduo em sua singularidade. O ponto central é dar voz aos protagonistas do processo a ser investigado em vez de falar

84 Há uma divergência entre os estudiosos em relação ao que é considerada a história oral: um método,

uma técnica ou fonte de pesquisa. Quanto a este aspecto, Alberti (2005, p. 17), tem a concepção de que “dependendo da orientação do trabalho, pode ser definida como método de investigação científica, como fonte de pesquisa, como técnica de produção e tratamento de pesquisa, ou ainda como técnica de produção e tratamento de depoimentos gravados”, sendo assim, um misto de método, fonte e técnica.

126

por eles através de estudos teóricos. Por meio de sua linguagem, os participantes são capazes de descrever suas iniciativas, aspirações, frustrações e as próprias experiências (Borges, Torales e Guerra, 2011).

Para distinguir o uso do termo história de vida, no sentido utilizado pela História Oral, mais abrangente surge o termo life story ou relato de vida (em francês “recit de vie”), usado para designar “biografias”, que segundo Pujadas Muñoz (1992, p.13) “serve para referir-se exclusivamente a narração biográfica de um sujeito que às vezes pode ser publicada sem retoques com fins de proporcionar uma maior força testemunhal”. Assim a life story, corresponde à história de uma vida tal como a pessoa que a viveu a conta.

A expressão “relatos de vida” foi introduzida na França em 1976 por Bertaux (2010) e o autor entende que nas ciências sociais, o relato de vida é o resultado de uma forma peculiar de entrevista: entrevista narrativa, onde um investigador pede a uma pessoa que o conte tudo ou parte de sua experiência vivida. Para Bertaux (2005, p.36), esse método,

Consiste em considerar que existe um relato de vida desde o momento que um sujeito conta a outra pessoa, investigador ou não, um episódio qualquer de sua experiência vivida. Ao contrário das autobiografias que são de forma escrita e reflexiva, onde o sujeito aporta uma mirada retrospectiva sobre a totalidade de sua vida.

Para concretizar o uso desse método, a partir dos relatos biográficos, no sentido em que Bertaux (2005) o elabora há que se considerar que a investigação biográfica é essencialmente uma descrição fenomenológica, e, portanto, exige quatro competências procedimentais ao investigador: observar, escutar, comparar e escrever. Assim, todas as fontes orais e documentais e todos os recursos que acompanham o testemunho dos informantes constituem uma das maiores vantagens do método. Quanto às fontes do método, para Hernández (2005, p. 104):

A fonte primordial dos relatos de vida é “a pessoa” e o testemunho que ela proporciona, na sua dupla face de individualidade única e de sujeito histórico. Não se pode conhecer um indivíduo e como chegou a ser assim sem fazer referência às estruturas históricas de onde estão organizados os entornos de sua vida.

No método biográfico, quando se discute a questão da confiabilidade e representatividade dos relatos é pertinente assinalar com apoio de Saltamacchia (1992, p. 53) que sobretudo,

Desde o fim do século XX e começo deste (XXI), uma das preocupações mais notáveis da sociologia empírica foi encontrar métodos que permitissem

127

construir amostras com um grau conhecido de representatividade. Isto é compreensível considerando os problemas práticos implicados no estudo de populações completas. O discutível não é, pois, a necessidade de contar com uma teorização precisa sobre a construção de amostras e sim a exclusividade atribuída aos critérios teóricos que habitualmente se consideram adequados para sua seleção.

Se a finalidade da investigação é a construção de teoria a partir de dados quantitativos, utilizando o método de indução analítica, deve-se recolher o maior número possível de casos. E, se a finalidade é o conhecimento de um fenômeno em si e por si, a estratégia de amostra teórica é o procedimento mais conveniente.

Neste caso, o número carece de importância. “Cada narração autobiográfica relata segundo um corte horizontal ou vertical, uma prática humana” (Ferrarotti, 1983, p. 49-50). Sob este viés é necessária uma leitura vertical e horizontal da biografia e do sistema social, movimento heurístico de vaivém da biografia ao sistema social e do sistema social à biografia. Estes espaços tomam lugar a princípio, nos grupos primários: “a família, os pares de grupos de vizinhança, os escolares, e outros” (Ferrarotti 1988, p. 30). Ademais como destaca Ferrrarotti (1988, p.32), todos esses grupos participam

Simultaneamente na dimensão psicológica dos seus membros e na dimensão estrutural de um sistema social. O próprio grupo torna-se por sua vez e simultaneamente o objeto das práxis sintéticas dos seus membros. Cada um deles lê o grupo a partir da sua perspectiva individual. O grupo primário revela-se assim como a mediação fundamental entre social e individual.

Atribuir esse caráter à subjetividade significa, além disso admitir que a vida humana e mesmo cada um de seus atos se manifesta como a síntese de uma história social. Por isso, perguntas do tipo: “quantas biografias são necessárias para se produzir uma verdade sociológica?” ou “que espécie de material biográfico pode ser mais representativo para oferecer mais verdades gerais?” são absolutamente destituídas de sentido para Ferrarotti, uma vez que o autor trabalha com o pressuposto do caráter sintético das práxis humanas, que se evidencia com toda clareza em uma de suas mais enfáticas afirmações: “a de que o nosso sistema social se encontra integralmente em cada um dos nossos atos, em cada um dos nossos sonhos, delírios, obras, comportamentos” (Ferrarotti, 1983, p.50).

A relação entre a história social e a história individual não é, todavia, vista como linear e nem constitui um determinismo mecânico, uma vez que o indivíduo é sujeito ativo nesse processo de apropriação do mundo social, traduzido em práticas que

128

manifestam a sua subjetividade. Uma antropologia que considera cada homem como uma síntese individual ativa de uma sociedade elimina a distinção entre o geral e o particular de um indivíduo. “Se somos, se cada indivíduo representa a reapropriação singular de universo social e histórico que o envolve, nós podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de umas práxis individual” (Ferrarotti, 1983, p.51).

O valor heurístico do método biográfico torna-se então legítimo, não apenas em decorrência deste caráter específico da narrativa, mas, também, porque a biografia é uma microrelação social. Aquele que narra sua história de vida sempre narra para alguém (Ferrarotti, 1983, p.52), dessa forma:

Cada entrevista biográfica é uma interação social complexa, um sistema de regras, de normas e valores implícitos, frequentemente também de sanções. Cada entrevista é um esconderijo de tensões, conflitos e hierarquias de poder; ela faz um apelo ao carisma e ao poder social das instituições cientificas sobre as classes subalternas, ela evoca as reações espontâneas de defesa. A gente não conta nossa própria vida a um gravador, a gente conta a outro indivíduo.

Para o caso da representatividade, o método biográfico se apresenta em uma investigação de campo, preocupado em elaborar pouco a pouco um corpo de hipóteses plausíveis. Um modelo baseado nas observações, frutífero em descrições de mecanismos sociais e em proposta de interpretação (mais que explicação) dos fenômenos observados. Uma forma de alcançar a representatividade a partir do método biográfico é a saturação. A saturação, na ótica de Bertaux (1989, p.93), ocorre quando:

Uma vez delimitado claramente o carácter do que se encontra em numerosos casos, parece que se trata de um “objeto sociológico” – uma norma, uma obrigação social, um papel a desempenhar, um processo, o efeito de uma relação estrutural, etc.-, é dizer que se trata de algo que se desprende do social e não do psicológico, do coletivo e não do individual, então pode se afirmar que foi alcançado um primeiro nível de saturação.

Além dos critérios da amostra e representatividade há também a questão da generalização. Numa investigação sob o enfoque biográfico, como no caso da presente pesquisa, o caminho para a generalização passa pela recorrência de fatos inerentes a múltiplos estudos. Segundo explica Bertaux (2005, p. 37),

Ao relacionar numerosos testemunhos sobre a experiência vivida de uma mesma situação social, se poderá superar suas singularidades, para ganhar mediante uma construção progressiva uma representação sociológica dos componentes sociais (coletivos) da situação.

A fiabilidade, veracidade ou também denominada validade dos dados empíricos é um tema que recebe tratamento diferenciado a partir do fato do pesquisador adotar ou não uma postura mais aberta quanto à interpretação e análise dos dados a partir das

129

observações. Neste caso, as críticas surgem rapidamente. Sobre o tema da fiabilidade dos dados a partir do método biográfico, Flick (2004, p.112) destaca “que um critério importante para a validade da informação é se o relato do entrevistado é fundamentalmente uma narração”. Ferraroti (1990, p.13) defende,

Que apesar da arbitrariedade da narrativa provocada pelos rearranjos permanentes, o informador fala sobre acontecimentos, fatos, relações práticas que conhece que vivenciou e que fazem parte da sua experiência de vida, por isso sabe do que fala, o que dá valor intrínseco as narrativas “ultrapassando assim a questão de serem impressionistas, imprevisíveis, gratuitos e subjetivistas”.

Cabe salientar que, ao se trabalhar com a análise de conteúdo, de acordo com Bardin (1977), o cuidado com a descrição e execução de cada uma das fases da análise, por mais que se mantenham a flexibilidade e a criatividade caracteriza-se como forma de gerar confiabilidade e validade. Flick (2004) enfatiza o cuidado com o detalhamento do processo da pesquisa como um todo (o planejamento da pesquisa), como também a adequada exposição dos dados (incluindo a redação) na busca do rigor científico, ou seja, na busca pela validação e confiabilidade, uma boa redação dos resultados da pesquisa, na qual se torna explícita uma boa organização dos dados, é fundamental.

Embora tenha-se apresentado o quadro das características e vantagens do uso do método biográfico, e lembrando que basicamente se atém aos sujeitos e suas narrativas é justamente nesse item que se encontra também uma das principais desvantagens do método. Quanto às desvantagens do método, Pujadas Muñoz (1992, p.45) refere:

O difícil que pode chegar a ser conseguir um bom entrevistado; o controle da informação obtida, e por último, um dos riscos que uma investigação pode correr mediante uma aplicação acrítica do método biográfico é imaginar que o relato de vida fala por si mesmo, renunciando a análises em profundidade da narrativa recopilada ou triangulação dos dados.

Mesmo diante de tal dificuldade, na obra de Stephanou (2008) encontrou-se um número expressivo de pesquisas que adotaram o método biográfico. Ao centrar sua pesquisa nos descritores “biografia” e “autobiografia”, entre 1997 a 2006, a autora afirma que a ocorrência desses termos passa de 2%, em 1997, para 20,66%, em 2006. O fortalecimento da vertente biográfica em Educação é reconhecido por Gatti e André (2010) ao fazerem um balanço da relevância dos métodos da pesquisa qualitativa no Brasil.

Desde 2004, o movimento biográfico brasileiro já conta com um congresso científico de abrangência internacional, uma produção bibliográfica de grande

130

densidade e associações científicas, vinculadas ao movimento internacional da pesquisa biográfica.

Neste ensejo cabe destacar que adotou-se o termo estudos biográficos para indicar o método biográfico, enquanto postura metodológica e enquanto instrumento de investigação, conjugado com o enfoque etnossociológico de Bertaux (2005); quanto às orientações empíricas da estrutura, uso, transcrição e análise dos relatos de vida, recolhidos através de entrevistas narrativas.

Essa opção tem correspondência com a delimitação do objeto e objetivos da investigação que não pretendem saber a história de vida de cada ator social na sua totalidade, nem a veracidade dos fatos, mas sim, uma parte ou partes da vida dos atores sociais segundo o olhar e a forma como eles nos narram. Na perspectiva do enfoque etnossociológico de Bertaux (2005) o pesquisador não confirma a autenticidade dos fatos, pois o importante é o ponto de vista de quem está narrando.

3.7. A etnossociologia como perspectiva metodológica da pesquisa empírica