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Expert workshop to review and refine ranks leading to eventual consensus across all thematic groups

Se muitos são os autores a defender a existência de um terceiro modelo capaz de agrupar concepções, práticas e episódios que não se assemelham aos modelos 1 e 2, defini-lo não é uma tarefa simples. As ideias apresentadas na literatura são recentes, relativamente incipientes e as convergências nas análises dos diferentes autores menos presentes do que nos demais modelos. Outra fonte de dificuldade é o caráter pouco sistematizado de muitos dos episódios identificados e descritos. Com frequência trata-se de situações selvagens 9, entendidas a posteriori como sendo representativas de novas formas de comunicação entre ciência e sociedade. E justamente por tratar-se de episódios espontâneos, exemplos desta natureza são intensos e convincentes mas possuem pouca diversidade de parâmetros definidos antecipadamente. Não há assim sistematicamente um projeto comunicacional explícito, previamente determinado que dirija e descreva as relações mantidas pelos envolvidos. Ou seja, mesmo que algumas destas práticas pareçam possuir o potencial para serem multiplicadas, elas não evidenciam uma associação direta a uma reflexão teórica prévia.

Segundo a análise de Callon, Lascoumes e Barthes (2001) neste modelo como nos demais, o conhecimento científico é descrito como sendo crucial, essencial. Mas aqui, ele também é passível de ser produzido por grupos heterogêneos compostos por especialistas e leigos. No início do processo, cabe ao cientistas o papel de referência no que tange o conhecimento da ciência estabelecida. A posteriori, também é ele quem se encarrega de generalizar as conclusões obtidas localmente, para que estas possam ser aceitas pela comunidade científica como correspondendo a um conjunto de outras situações semelhantes. Aos leigos, cabe o papel de especialista das condições locais e da demanda que lhes atinge diretamente. (CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001) É ela que vai mobiliza-los para que se engajem na aquisição de

9 Selvagem aqui é utilizado do mesmo modo que Edwin Hutchins em sua obra

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Cognition in

the Wild

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. Faz referência as coisas que acontecem naturalmente, regidas por um

encadeamento ligado a uma problemática dada, em oposição à práticas educativas que são concebidas de forma intencional.

conhecimentos e no trabalho conjunto com o cientista a fim de ampliar o que se sabe sobre um determinado assunto. Durante este processo, episódios descritos na literatura indicam que não é raro ver leigos transformarem-se em especialistas.

No que tange o processo, a ação do cientista é a todo momento vascularisada pelo fluxo de conhecimentos, as trocas e as questões de natureza distinta trazidas pelos leigos. O produto deste processo será tão rico e pertinente quanto forem estreitas e constantes as relações dentro do grupo. (CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001) A ciência como um todo deve ainda, para Callon, Lascoumes e Barthes (2001) ser enquadrada e alimentada em um sistema que inclua a participação da sociedade.

[Neste modelo] Os saberes produzidos pelos laboratórios são tão cruciais quanto nos modelos 1 e 2, mas ele são enquadrados, alimentados pelas ações dos profanos, vascularizados pelo fluxo de conhecimentos e de questões que eles elaboram. O que ele produz é tão mais rico e pertinente quanto são estreitas e constantes estas relações. (CALLON 2000; p. 53 tradução nossa)

Para os autores, a principal distinção entre o modelo da coprodução dos saberes e os demais é o papel e a imagem associados aos leigos. No primeiro modelo, é possível afirmar que eles são beneficiários, receptores de discursos sobre a ciência. Há debate quanto ao que deve conter este discurso, quem deve faze-lo e porque. Mas há consenso de que, naquela proposta, o público corresponde ao grande grupo das pessoas que não faz ciência e que por isso, possui o direito de ser formado ou informado sobre ela. No modelo do diálogo, o público é convidado a ir mais longe. Além de receber, ele deve produzir discursos sobre a ciência, mostrando assim ser capaz de adquirir uma certa compreensão autônoma sobre o assunto, opinando inclusive, quando necessário. Sob certas condições, estes discursos poderão em seguida ser convertidos em ação, mas este critério não é unanimemente apresentado como uma condição essencial do modelo.

Já no terceiro modelo, o público constitui-se de grupos de leigos cuja relação com a ciência é função da história individual e coletiva dos sujeitos. Pacientes sofrendo com a AIDS são assim susceptíveis de conhecer mais sobre a doença e a relação mantida pelo vírus com o corpo humano do que médicos ortopedistas. Populações expostas a

fenômenos climáticos como uma seca podem conhecer mais sobre fluidos, bacias ou sobre lençóis freáticos do que especialistas em logística. Criadores de gado em cuja propriedade foi identificada a passagem de uma nuvem radioativa, são possivelmente capazes de discutir de maneira oportuna sobre quais as medidas mais apropriadas para que a descontaminação seja rápida e eficaz. Todos estes grupos no entanto, apesar dos conhecimentos que podem ter acumulado em função das circunstâncias às quais foram expostos, têm demandas as quais apenas um processo organizado de construção do conhecimento poderia responder. O doente precisa de um tratamento e de exames que descrevam o seu estado geral de saúde, os cidadãos atingidos por uma seca, precisam de informações sobre a distribuição dos recursos hídricos, sobre as reservas existentes. Do mesmo modo, os criadores de gado que conhecem os animais que criam e o contexto em que vivem, precisam de informações sobre os níveis de contaminação destes animais e sobre o comportamento dos contaminantes. Para Callon, Lascoumes e Barthes (2001) é esta complementaridade dos conhecimentos dos grupos que justifica a criação de grupos híbridos e as possibilidades abertas pela colaboração entre eles.

Figura 3-Proposta de descrição esquemática para o modelo da coprodução de saberes

Fonte: Elaborado pela autora

O esquema acima materializa esta proposta. Nele, cientistas e leigos pertencem a grupos coesos mas com fronteiras permeáveis. Quanto aos leigos, os outros dos cientistas, eles podem pertencer a sub- grupos, em função da exposição a uma situação envolvendo conhecimento científico. As relações entre estes grupos também são

diferentes dos outros modelos e vão de um para o outro, envolvendo sempre caminhos tortuosos e a ação, diferente da circulação de discursos e informações presente nos modelos anteriores.

Quanto à ciência, ela é compreendida neste modelo como no anterior, como sendo uma parte importante de um problema complexo que, de uma forma ou de outra, atinge a sociedade. Por esta razão, o conhecimento científico não está isento de interações com os sujeitos imersos na realidade a ele associada, ainda que estes sejam estrangeiros à ciência. Estes sujeitos possuem algum nível de conhecimento dos problemas e, em alguns casos, dos fenômenos naturais a ele associados. Sob certas condições, estes saberes podem ser o substrato a partir do qual será desenvolvida uma compreensão científica de determinados assuntos podendo mesmo ser esta uma contribuição original para a própria ciência.

Como no modelo do diálogo, o público é constituído por sujeitos individualmente diferentes, cujo entendimento sobre o mundo é influenciado por parâmetros pessoais como a idade, o gênero, a profissão, a formação, etc. Surge assim uma grande quantidade de subgrupos que percebem as temáticas que os cercam (a ciência inclusive), em função de uma combinação destes parâmetros. (De CHEVEIGNÉ, 1997a; BOY, De CHEVEIGNÉ, 2000). Alguns destes sujeitos, possuem uma relação íntima e pessoal com um tema associado a ciência, que os atinge diretamente. Entre os temas explorados nos exemplos presentes na literatura, estão: doentes, parentes de pessoas doentes, uma comunidade vivendo em um local contaminado por algum poluente ou em uma região que sofre ou deverá sofrer uma transformação importante que vai transformar o seu modo de vida. É sobre esta parte da realidade, diretamente associada aos sujeitos, que o modelo entende que eles poderão refletir. Por ser local e pouco estruturada, esta compreensão dá conta da complexidade e da riqueza das situações singulares. Por outro lado, sozinha, ela é descrita pelos autores como sendo insuficiente para que se chegue a uma transformação da realidade vivida pelos sujeitos em questão. Deste modo, o modelo sustenta que o conhecimento dos leigos não deve ser substituído pelo conhecimento científico mas antes, que este deve ser implicado na sua construção. (CALLON 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001)

Essencialmente, entende-se assim que sejam três os critérios principais para a caracterização das situações representativas de processos de co-contrução de conhecimento: i) A existência de uma problemática vivida por um grupo de sujeitos; ii) A reunião destes

sujeitos em um grupo cuja identidade é fortemente compartilhada e iii) A ação participativa e colaborativa realizada pelo grupo na busca por soluções a demandas impostas pela problemática que compartilham. Ou seja, o que diferencia alguns leigos dos demais neste terceiro modelo tornando-os capazes de contribuir com a construção de conhecimento científico é, para Callon, Lascoumes e Barthes (2001) o fato de que eles sejam involuntariamente tocados por uma temática que pode ser transformada através deste conhecimento. Em seguida, estes sujeitos precisam desejar realizar esta transformação e agir sobre as demandas que lhe foram impostas. Eles precisam então reunir-se em um grupo cuja identidade seja clara, profundamente delimitada e compartilhada por todos. Eles formarão assim o que o autor nomeia um grupos de atingidos 10 essencial no processo de coprodução que constitui o cerne deste modelo. (CALLON 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001). Segundo os autores:

Ninguém é mais obstinado, atento, precavido, rigoroso que um grupo de não especialistas que deseja saber porque eles estão expostos a uma dor insuportável. Em termos científicos, estas qualidades terminam por dar resultados. (CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001; p. tradução nossa)

Alan Irwin, outro autor que discute possibilidades de compreensão para um terceiro modelo, também reconhece a existência de uma entidade que parece assemelhar-se aos grupos de atingidos. Para o autor, são muitos os estudos empíricos que exploram a capacidade de compreensão e os recursos oferecidos por públicos particulares que encontram problemáticas ligadas à ciência no contexto de suas vidas privadas. (IRWIN, 2008).

Reunidos os critérios essenciais do ponto de vista da demanda para que haja produção de conhecimento, é preciso ainda que o grupo decida voluntariamente engajar-se em ações que tem este objetivo e que o faça de forma coletiva e organizada. Nestas condições, as ações por eles empreendidas não podem ser reduzidas a simples adição daquilo que poderia ser realizado pelos membros do grupo individualmente. Ou

10 O termo originalmente utilizado por Callon é Groupes concernés que, quando traduzido

literalmente, corresponde a grupo preocupado. O termo grupos de atingidos foi proposto por André de Ávila Ramos, após uma discussão do Grupo de Estudos sobre Comunicação Científica que durante alguns meses reuniu professores e alunos de pós-graduação no Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica (PPGECT)

seja, um coletivo organizado trabalhando com um objetivo comum, capacita-se para a realização de tarefas complexas. Os resultados obtidos excedem o somatório das possibilidades de cada sujeito. (CALLON, 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001; HUTCHINS, 1996; LAVE, 1988) Este é um aspecto relevante do modelo que será melhor discutido no capítulo 5.

É ao conceber e implementar um percurso que os levem a um objetivo predeterminado, que os leigos encontram os cientistas especialistas das áreas envolvidas. Alguns deles vão contribuir pontualmente, outros serão incorporados ao grupo. Estes dois tipos de atores (os leigos e os cientistas), ligados a um mesmo problema por razões diferentes, passam assim a formar o que os autores descrevem como sendo um grupo híbrido. Para Callon, Lascoumes e Barthes, a fronteira que separa os seus membros será assim reduzida e poderá desaparecer no trabalho conjunto, nas trocas internas deste grupo. (CALLON, 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001) Mas apesar desta perspectiva na qual todos os sujeitos são considerados participantes de mesma magnitude de um processo complexo e contribuintes da produção de uma reflexão fundamentalmente coletiva, para os autores os sujeitos não deixam de ser quem são. (CALLON, 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001) As informações trazidas e as ações por eles realizadas, sejam eles leigos ou especialista, estariam assim em estreita coerência com a identidade de cada um. A gestão das diferenças se daria então pela repartição socialmente estabelecida das tarefas no seio deste coletivo. Dito de outro modo, apenas os cientistas realizam o trabalho do cientista, mas eles o fazem em estreita colaboração com os especialistas da demanda que os reúne. Após o término da experiência de coprodução, todos os sujeitos que formaram o grupo híbrido compartilham do conhecimento por eles construídos assim como das bases sobre as quais se deu o processo.

Esquematicamente, é possível afirmar então que para Callon, Lascoumes e Barthes (CALLON, 2000) o ponto de partida para situações que pertencem ao terceiro modelo é uma demanda e a busca por um tratamento adaptado que permita resolver ou pelo menos trata-la. Ela pode ser individual em um primeiro momento, mas para que possa evoluir, precisará ser compartilhada por outros sujeitos. Neste processo, encontra-se os especialistas das disciplinas científicas envolvidas para que com eles, os leigos formem um grupo híbrido. Ele é constituído por compreensões de diferentes aspectos de uma mesma problemática. As tarefas nas quais este grupo vai trabalhar serão geradas coletivamente, segundo as decisões por ele tomadas.

Por tratar-se de um problema novo, que exige uma intervenção ou que pertence a uma comunidade específica, o resultado final é quase sempre desconhecido de todos os membros do grupo. Se não fosse, trocas de informação ou debates para a escolha da solução desejada pelo grupo, bastariam. Assim sendo, ninguém no interior do grupo híbrido está mais próximo do que os demais da resposta que será construída. Ao final do processo, todos os participantes poderão ser, ainda que nem todos sejam, especialistas daquele problema, naquele contexto e da solução encontrada para ele. (CALLON, 2000) Algumas das soluções propostas se mostrarão aptas a serem aplicadas a outros contextos. Neste caso e uma vez tratada a demanda do grupo híbrido, cabe aos especialistas dar continuidade à investigação, generalizando o conhecimento construído para que este seja incorporado à ciência oficial. Quanto aos leigos, Callon (2000) não faz considerações sobre o futuro deste grupo, mas nos exemplos por ele explorados, uma vez sanada a demanda que reuniu o grupo inicial, os membros mudam de função e o grupo se renova, perdendo a energia construtiva que o constituía. Este novo grupo será caracterizado por usuários que mantém com o objeto e com o conhecimento científico uma relação similar àquela que seria esperada de um grupo convencional, que enfrenta uma problemática para a qual uma resposta já está disponível.

É preciso ressaltar ainda que para Callon, Lascoumes e Barthes, a importância do coletivo está fundamentalmente relacionada à questão da identidade, imprescindível para que cada sujeito compreenda, aceite e realize seu papel na construção do conhecimento sobre o problema que o atinge. Ela tem duas dimensões, a do reconhecer-se e a do ser reconhecido. (CALLON, 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001) A identidade de cada sujeito pertencente ao coletivo em formação seria assim construída nas trocas com os outros. Tanto os que compartilham do seu problema quanto os demais, que fortalecem o grupo ao evidenciar a diferença existente entre eles e os demais. Deste modo, para que um grupo de atingidos se constitua, seria preciso primeiro que os indivíduos compreendam o problema que os reúne, tornando-os iguais uns dos outros. Depois, em paralelo, seria preciso que este grupo levasse o problema à esfera pública. (CALLON, 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001) Deste modo, segundo os autores, os indivíduos encontrariam simpatia e legitimidade junto à sociedade, fazendo com que o problema que os atinge e identifica, invisível até então, seja reconhecido por todos. Em consequência, os sujeitos atingidos tornam-se visíveis e reconhecidos enquanto vítimas de

um agente ou de uma situação, ao invés de sujeitos isolados socialmente indesejados. (CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001)

Um exemplo particularmente explorado por estes autores é o das miopatias, doenças neurológicas raras sobre as quais pouco se sabia no século passado. Dada a pouca incidência de casos, as doenças reunidas sob esta apelação não recebiam ainda a devida atenção do Estado francês (contexto no qual desenvolve-se o episódio) nem da indústria farmacêutica. Assim, um grupo de pais confrontados a doença de seus filhos doentes, decide envolver-se com o problema com o intuito de transformar a situação. Resumidamente, o processo é apresentado da seguinte forma11: i) Até o início dos anos 80, existia uma família de doenças neurodegenerativas raras, para as quais havia pouca informação científica disponível e nenhum tratamento; ii) Pais de crianças sofrendo desta doença reúnem-se em uma associação e começam juntos a agrupar informações sobre a doença; iii) Profissionais de saúde e pesquisadores participam do avanço dos trabalhos; iv) A associação de pais vai à esfera pública falar das doenças que atingem seus filhos, de como os demais podem contribuir e do que o grupo híbrido espera fazer. Esta cobertura midiática tem um duplo objetivo. Primeiramente, solicitar e envolver a sociedade na busca por soluções inclusive financeiras. Em seguida, banalizar a aparência dos doentes atingidos, que deixam de ser uma aberração a ser escondida. (CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001). Surge desta forma uma cumplicidade entre os atingidos pelo problema e os demais que não estão mais indiferentes a ele. Para Callon, Lascoumes e Barthes, a repercussão da campanha engajada e a quantidade de fundos arrecadados rompe definitivamente o cordão de isolamento e o grupo de doentes e familiares vê sua causa reconhecida. O resultado final deste processo é a aparição, no inicio dos anos 2000, do primeiro laboratório farmacêutico sem fins lucrativos do mundo e avanços sem precedente no tratamento das miopatias, no conhecimento disponível sobre genes e nas terapias a eles associadas. (CALLON, 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001)

Para os autores, se o resultado obtido neste exemplo é excepcional, o processo por ele experimentado assemelha-se a vários outros. Ele mistura três elementos essenciais: a constituição de um grupo que compartilha uma identidade forte, o engajamento deste grupo que leva ao reconhecimento desta identidade na esfera pública e a diversidade de sujeitos envolvidos no processo. Além delas, outras características podem ser ressaltadas: i) uma existência social

inicialmente rarefeita; ii) o conhecimento científico sobre o problema que não existe ou não foi adequadamente aplicado no momento em que o grupo decide engajar-se no processo; iii)o problema em questão que é complexo e atinge um grupo bem determinado de sujeitos. Esta descrição, que evoca situações claramente determinadas, descreve uma primeira limitação identificada pelos autores que descrevem este modelo de relação entre ciência e sociedade. Além de dificilmente reprodutível porque envolvem a constituição de um grupo de atingidos, o modelo se aplica apenas a um conjunto restrito de situações. (CALLON, 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001; IRWIN, 2008)

Entre as demais características apresentadas por Callon para o modelo está a ausência da confiança enquanto parâmetro essencial da relação estabelecida entre ciência e sociedade. Em oposição ao primeiro modelo, neste, a construção do conhecimento e a tomada de decisão sobre o que ele é e como deve ser utilizado, abre espaço à participação ativa e direta de um coletivo híbrido envolvendo leigos e especialistas. Mesmo para os demais cidadãos que não participaram do processo diretamente, o reconhecimento dos leigos como sendo seus iguais e a heterogeneidade do grupo associado à produção e ao uso do que é apresentado como conhecimento científico, minimizam a necessidade de uma confiança corporativa. Do mesmo modo e pela mesma razão, segundo estes autores, as crises tornam-se improváveis. (CALLON, 2000; CALLON, LASCOUMES, BARTHES, 2001)

Se este aspecto pode apresentar pouca relevância no contexto brasileiro, em outros países ele torna-se essencial. Dos remédios às vacinas, dos agrotóxicos aos transgênicos, das nano-partículas aos efeitos sobre a saúdes das ondas eletromagnéticas, existem inúmeros temas controversos relativos à ciência e em circulação constante na esfera pública. Eles geram episódios de maior ou menor impacto e pedem a constante interferência de autoridades ou equipes de especialistas em comissões de estudo. Na França por exemplo, no momento da aparição da gripe H1N1 em 2010, o Estado francês investiu mais de 600 milhões de euros para o desenvolvimento rápido de uma vacina e a organização de uma campanha nacional de vacinação da população. Apesar disso, menos de 9% dos franceses foi vacinado