Essa vertente foi desenvolvida por vários autores entre eles Fairclough, Thompson, Kress e van Leeuwen.
Esses autores postulam duas categorias analíticas com visão critica: Sociedade e discurso.
Eles têm por pressuposto que todas as mudanças sociais produzem mudanças no discurso e portanto nos textos e nos gêneros textuais. Também toda mudança no discurso produz mudanças sociais. Por essa razão, o estudo dos discursos, textos e gêneros estão situados no social.
Fairclough (2001, 2008) apoia-se nas bases teóricas e epistêmicas da linguística tradicional, da sociolinguística, da pragmática e da linguística crítica. Segundo o autor, a ACD objetiva analisar a linguagem na orientação e guia da vida social.
[...] o discurso é o conjunto de afirmações que, articuladas na linguagem, expressam os valores e significados das diferentes instituições; o texto é a realização linguística na qual se manifesta o discurso. Enquanto o texto é uma entidade física, a produção linguística de um ou mais indivíduos, o discurso é o conjunto de princípios, valores e significados ‘por trás’ do texto. Todo texto é
95 investido de ideologias, i. é, maneiras específicas de conceber a realidade. Além disso, todo discurso é também reflexo de uma certa hegemonia, i. é, exercício de poder e domínio de uns sobre outros [...] (FAIRCLOUGH, 2001, p. 143)
Na teoria proposta por Fairclough, busca-se analisar a linguagem em uso por meio do evento discursivo, ou seja, a vida social se interliga através de práticas sociais, que nada mais são do que atividades sociais que apresentam relativa estabilidade, constituídas por diversos fatores e elementos, dentre os quais se encontra o discurso, responsável por criar a significação para a sociedade. Além do discurso, as práticas sociais englobam as ações, sujeitos, relações sociais, instrumentos, objetos, tempo e lugar, formas de consciência, valores e estruturas sociais.
Segundo Fairclough (2001), as práticas são “entidades organizacionais intermediárias entre estruturas e eventos. A prática discursiva [...] envolve processos de produção, distribuição e consumo textual, e a natureza desses processos varia entre diferentes tipos de discurso de acordo com fatores sociais” (p. 106).
Mediante esse conceito, pode-se afirmar que a prática discursiva é um processo de realização do texto e, nesse sentido, do gênero. Se todo texto ocorre através de um gênero mais ou menos estabilizado, em determinado meio social, é possível inferir que todo gênero detém práticas discursivas específicas: um modo de ler, de escutar, de falar ou de redigir.
Afirma Fairclough, neste sentido, que:
Não se pode nem reconstruir o processo de produção nem explicar o processo de interpretação simplesmente por referência aos textos: eles são respectivamente traços e pistas desses processos e não podem ser produzidos nem interpretados sem os recursos dos membros. (FAIRCLOUGH, 2008, p. 100)
Para o autor, o uso da linguagem é uma das práticas sociais, uma vez que os textos/discursos se realizam mediante o modo como os sujeitos
96 aprenderam a realizá-los em determinadas situações sociais; este saber é dinâmico e está em constante transformação, pois ele não é uma atividade individual ou reflexo de variáveis situacionais. Devido a esses fatores, o discurso é um modo de ação, uma forma de as pessoas agirem sobre o mundo, uma forma de representar o mundo e, principalmente, uma forma de agir sobre o outro.
... o termo discurso, proponho considerar o uso de linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais. Isso tem várias implicações. Primeiro, implica uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social, existindo mais geralmente tal relação entre a prática social e a estrutura social: a última é tanto uma condição como um efeito da primeira. Por outro lado, o discurso é moldado e restringido pela estrutura social no sentido mais amplo e em todos os níveis: pela classe e por outras relações sociais em um nível societário, pelas relações específicas em instituições particulares, como o direito ou a educação, por sistemas de classificação, por várias normas e convenções, tanto de natureza discursiva
como não-discursiva, e assim por
diante...(FAIRCLOUGH, 2001,2008, p. 91)
Segundo o autor, os eventos discursivos irão variar de acordo com o seu domínio social/institucional em que são produzidos. É pelo discurso, que se moldam as estruturas sociais e estabelecem as identidades, as instituições tornando-o uma prática social, uma vez que o discurso representa ou dota de significação o mundo, dando-lhe significado. Dessa forma, a prática discursiva é constitutiva tanto de maneira convencional como criativa: contribui para reproduzir a sociedade (identidades sociais, relações sociais, sistemas de conhecimento e crença) como também contribui para transformá-la.
Os discursos, por meio de textos, contribuem para definir os sentidos formulados nas práticas sociais, já que os textos fazem parte dos eventos sociais, relacionando-se dialeticamente, com elementos não-discursivos. Dessa forma, os textos contribuem para definir os sentidos construídos nas práticas sociais. Contudo são as práticas sociais que controlam a seleção e a manutenção ou transformação, ocasionadas nos domínios sociais.
97 Assim, pode-se estabelecer, de acordo com a posição de Fairclough, três aspectos dos efeitos construtivos do discurso. O primeiro deles é a construção do referente, de identidade e posição social dosujeito; segundo é a contribuição do discurso, na construção das relações sociais entre os participantes da interação e, por fim, o discurso constrói um sistema de conhecimentos e crenças.
As perspectivas teóricas postuladas por Fairclough podem ser orientadas da seguinte maneira:
O discurso é uma forma de prática social em relação dialética com estruturas sociais;
O discurso cria formas de conhecimentos e crenças, relações sociais e identitárias;
Os textos possuem traços e pistas de rotinas sociais complexas, todavia os sentidos são naturalizados e não percebidos pelos indivíduos;
Os textos são constituídos e demonstram relações de poder; A ACD estuda a interligação entre poder e ideologia;
Os textos inter-relacionam-se, ou seja, são respostas ou provocam outros textos.
O discurso como prática ideológica constitui, naturaliza, mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder. Como implicam essas palavras, a prática política e a ideológica não são independentes uma da outra, pois a ideologia são os significados gerados em relações de poder como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder [...]a prática discursiva recorre a convenção que naturalizam relações de poder e ideologias particulares e as próprias convenções, e os modos em que se articulam são um foco de luta... (FAIRCLOUGH, 2001, 2008, p. 94-95)
O aparato teórico-metodológico, construído por Fairclough, possibilita a análise e o estudo de textos como forma de ação, como representação da realidade sócio-histórica. Esta demonstra que os gêneros designam e apontam um conjunto de convenções associadas a determinadas atividades sociais,
98 demonstrando diferentes modos de conhecimentos e crenças, através da criação de identidades, nas diferentes relações sociais.
A teoria desenvolvida dá-nos ferramentas e capacita estudar os gêneros, além se suas regularidades textuais, uma vez que nos revela e nos faz compreender que existem regularidades na esfera social, as quais são também responsáveis pela produção e interpretação textual-discursiva.