Partindo de um entendimento que, para se compreender um processo de ensino e aprendizagem, é necessário entender o que se pensa, partiu-se das concepções dos docentes investigados para então, posteriormente, discutir a inclusão no contexto escolar. Segundo Del Ben (2001), o termo concepção traz uma conjunção entre o (a) professor (a), como indivíduo que pensa o ensino, como também as suas práticas docentes em sala de aula e ações no contexto institucional e social no qual atua.
Pautado nesse discurso, busco entender o que os docentes investigados pensam acerca da inclusão. Diante disso, foi possível identificar com base nos discursos que, o conceito
sobre inclusão da professora Melodia refere-se a um grupo diferente de pessoas fazendo algo em comum. Dessa maneira, direciona os pensamentos para a inclusão, não apenas na perspectiva das necessidades educativas especiais, mas da diversidade como um todo.
A diversidade na concepção da professora Melodia diz respeito a todas as formas de pensamentos, os quais possibilitam a compreensão do mundo e inclusive os modos de se fazer e criar música. A professora relatou que pensa a inclusão de uma maneira mais ampla e, no que tange aos (as) alunos (as), todos (as) são considerados especiais, pois apresentam particularidades requerentes de cuidados específicos, bem como de compreensão, para que não sejam desperdiçadas. Com isso, ela ressalta que não é algo fácil devido ter que lidar com essa diversidade.
Sobre lidar com essa diversidade, Alvares e Amarante (2016) enfatizam que o papel do (a) educador (a) deve ser de
Perceber e respeitar essa multiplicidade, adaptando ou criando, quando necessário, procedimentos pedagógicos que facilitem o processo de ensino-aprendizagem e contribuindo, assim, para a formação de indivíduos que percebam a diversidade como manifestação e não distorção da natureza humana (ALVARES; AMARANTE, 2016, p.25).
Para o professor Harmonia, pensar em inclusão no contexto escolar está relacionado ao bem estar do ser humano em um determinado contexto, ou seja, é proporcionar a inserção do indivíduo para que ele se sinta incluído e pertencente àquele grupo, capaz de desenvolver e realizar qualquer coisa, independentemente das suas limitações.
Corroborando com essa ideia, o professor Ritmo entende a inclusão como um processo natural que lhe é ofertado, logo, é um chamamento para a participação e não uma imposição, onde todos os agentes devem estar envolvidos e dispostos a promovê-la.
Ao refletir sobre as concepções de escola inclusiva, a professora Melodia relata que entende a inclusão como um processo e que, além disso, é aprender junto. Dessa forma, ficou perceptível que para esse processo ser garantido são necessárias uma série de questões, dentre elas, uma formação específica para o trabalho com alunos (as) com deficiência. O seu curso inicial de Pedagogia não supriu as necessidades encontradas na Educação Básica, o que também foi expresso como carência pelo professor Harmonia e Ritmo que cursaram Música.
Sobre esses aspectos relacionados à formação inicial de professores (as) para atuar com alunos com deficiência, percebi que essa escassez não se limita apenas aos cursos de Pedagogia e Música, mas ao modelo de formação docente no Brasil como um todo. Nesse sentido, confronto estes dados com a literatura que, embora também mencionem ter ocorrido
grandes avanços no que se refere à legislação que sustenta a formação docente no Brasil, apontam que “ainda existe uma carência de parâmetros mais específicos sobre os conteúdos mínimos necessários para que os professores tenham maiores subsídios para promover a inclusão com qualidade” (GREGUOL; GOBBI; CARRARO, 2013).
Além desses aspectos supramencionados, o professor Ritmo acredita que se devem estabelecer caminhos mais claros para a atuação com pessoas com deficiência, desde a reorganização do sistema, da matriz curricular e subsídios para o trabalho na escola bem como uma formação para os pais dos (as) alunos (as). Ritmo considera que se não tivermos uma educação de base fortalecida, iremos ter problemas sempre e que a necessidade de formação é relativa, pois apenas ter a formação não garante uma boa atuação.
Além dessas questões, Melodia tem uma concepção de que para executar o trabalho com alunos (as) com deficiência é necessário ter um desejo e assumir a postura de um (a) professor (a) que acredita na inclusão e que se sente parte desse processo. No caso do ensino em questão, ela acredita que o professor (a) deve entender a música como sendo do (a) aluno (a) e seu dever é apenas de orientar ao invés de impor. Portanto, deixar que o próprio aluno crie sua música. Um terceiro ponto relevante para esse trabalho é pensar nas estratégias, de modo a fazer com que esses alunos (as) participem efetivamente das aulas e, ao final do processo, aprenda música.
Sobre essas estratégias, aponto as adaptações curriculares como uma das formas de favorecer o aprendizado de alunos (as) com deficiência. Oliveira e Machado (2007) afirmam que essas adaptações envolvem tanto as transformações que a escola necessita realizar para garantir a acessibilidade aos alunos (as) quanto às adequações pedagógica ou curriculares. Contudo, para que isso ocorra, as ações não devem partir apenas das escolas ou professores e professoras, mas também um dos requisitos necessários para implementação dessas adaptações é a predisposição política para a inclusão (OLIVEIRA; MACHADO, 2007).
Para o professor Harmonia, um fator relevante para o trabalho com alunos (as) com deficiência diz respeito a conhecer as particularidades de cada tipo de deficiência, pois, a partir de tal conhecimento, o mesmo terá alguns princípios para lidar com aquela deficiência, além de auxiliar no desenvolvimento de suas aulas.
Em contrapartida, para Ritmo, é importante ter um olhar diferenciado para esses estudantes, considerar suas qualidades, garantir os seus direitos e criar oportunidades de acesso no ambiente escolar, independente de suas limitações. Além disso, ele enfatiza que é preciso ter paciência e um sentimento mais humanitário de buscar promover o bem-estar do próximo.
Pautados nessas premissas, percebi que a inclusão, na perspectiva das concepções docentes, vai além da inserção do indivíduo em contextos diversos, mas faz-se necessário aceitar a diversidade, promover o bem estar social, ofertar subsídios para a participação plena em atividades, compartilhar, aprender de forma conjunta, estar disposto e preparar-se para esse processo, ser capaz de construir mudanças e buscar olhares diversificados.
Além disso, percebi que tais concepções dos docentes estão alinhadas ao que se deseja com a inclusão no ambiente escolar, aspecto tratado por Glat e Blanco (2007, p.17) ao dizer que “uma escola ou uma turma inclusiva precisa ser, mais do que um espaço para o convívio, um ambiente onde ele aprenda os conteúdos socialmente valorizados para todos os alunos da mesma faixa etária”.
Para além desses olhares, compreendidos pelas concepções docentes, enfatizo que os professores Harmonia e Ritmo relataram não terem buscado conhecimentos sobre o processo de inclusão de alunos (as) com deficiência, tal como é estipulado na legislação, fator que possibilitava ampliar suas compreensões sobre a temática.
Por outro lado, é importante mencionar a necessidade de ampliarmos, sob perspectivas mais abrangentes, as nossas concepções e pensarmos em outras formas de inclusão, conforme aqui apresentado por meio das observações dos docentes. Além disso, é fundamental também termos conhecimento sobre os conceitos acerca da deficiência, que embora tenha sofrido alterações desde a década de 1970 até os dias atuais, não guarda mudanças essenciais (KUHNEN, 2017).
Nesse sentido, pauto esse discurso nos estudos de Huhnen (2017) que, ao analisar a concepção de deficiência na Política de Educação Especial Brasileira (1973-2016), constatou que ela se mantém dentro de uma perspectiva tecnicista e funcionalista.
No que se refere a esse tecnicismo, Kuhnen (2017) constatou que ele foi reconfigurado com outros discursos durante esse período. Dessa forma, sua análise permitiu perceber que não há uma ruptura com uma perspectiva baseada na dicotomia entre o normal e o patológico e que não há mudanças da racionalidade predominante em relação à concepção de deficiência, mas há variações de estratégias para justifica-las. Contudo, “a deficiência continua sendo definida em relação a sujeitos que desviam para mais e para menos em termos de padrões físico, social, comportamental e que precisam de serviços especializados” (HUHNEN, 2017, p.341).
Percebo, portanto que, diversos autores e autoras têm se dedicado a discutir a temática de deficiência e suas concepções sobre esse tema sob diferentes perspectivas (ver, por exemplo: BALEOTTI; DEL-MASSO, 2008; VIEIRA; DENARI, 2008; MAIA BALEOTTI;
OMOTE, 2009; OMOTE, 1994; 1996; 2008; 2018; BALEOTTI; OMOTE, 2014; KUHNEN, 2017). Isso nos mostra a importância de colocarmos em discussão questões como essas. Dessa forma, pautado nos debates sobre esse tema, aponto como sendo de extrema importância que discussões e reflexões nesse sentido estejam cada vez mais presentes na formação de professores (as), dentre eles o de Música e os que atuam no contexto da Educação Básica, colocando em pauta as deficiências e suas limitações e/ou capacidades de forma a lhes proporcionar visões mais abrangentes do que representa essa temática.
Em síntese, com base nas concepções dos (a) professores (a), compreendi a inclusão como um fenômeno que é impossível de ser concretizado sem que haja um envolvimento de todos os agentes no processo, e que “demanda uma mudança radical na gestão do sistema educacional de modo amplo, e de cada escola especificadamente, priorizando ações e, todos os níveis de ensino, desde a Educação Infantil aos programas de formação de professores”, conforme cita Glat e Blanco (2007, p.34). É necessário também, antes de tudo, um olhar diferenciado para as necessidades e particularidades de cada indivíduo e contexto. Além disso, é imprescindível considerar as diferenças e, a partir daí, tomar soluções para garantir e efetivar a participação plena de todos (as) nas diversas atividades que competem à vida humana e social.
Em vista das concepções apresentadas, apresento em seguida o que os (a) professores (a) consideram para a elaboração dos seus planejamentos.