2 Matching and Proof Search
3.1 Recursive definitions
3.1.2 Example 2: Descendant
De acordo com o pensamento político liberal de Bobbio (2000), a política surge na Grécia clássica como arte de gerir a cidade, como aliás denuncia o termo derivado de pólis. É uma forma e um modelo de pensamento que se diferencia essencialmente da gestão privada, da esfera do òikos, a casa. Ainda de acordo com o autor, esse princípio de polarização origina uma distinção entre campos do direito que passam pela inspiração romana até chegar às constituições modernas. Teríamos então, de acordo com o autor, no princípio do pensamento moderno, uma polarização entre política e economia. Como observa Bobbio (2000, p. 13), essa tensão irá originar outras como “igualdade/desigualdade”, “lei/contrato”, até chegarmos à dicotomia fundamental entre Sociedade Civil e Estado – uma lógica da casa contra uma lógica da cidade. Se os termos já foram tomados como sinônimos em algumas situações, ganham, de acordo com o autor italiano, sua característica atual a partir da obra de Hegel.
Ao contrário de seu compatriota, Giorgio Agamben (2005) nos lembra que a òikos grega é uma instância que reúne as relações familiares, relações sociais entre senhores e escravos, e em última instância a produção econômica “[...] de uma empresa agrícola muitas vezes de dimensões amplas”. Ou seja, o autor ressalta com isso que a base material sobre a qual as sociedades pré-modernas se assentavam não poderia ser separada de relações ditas superestruturais: estavam intimamente entrelaçadas às alegrias e vicissitudes das relações familiares calcadas numa lógica da tradição. Se política e economia representavam num mundo pré-moderno, uma dicotomia que se poderia traduzir entre o público e o privado, uma transformação radical no lugar da
produção (e em seu sentido como agente de transformação social), o início da era moderna obriga a uma revisão.
Há indícios disso nos estudos coordenados por Ariès e Duby (1999, 2001) nos dois primeiros volumes de História da Vida Privada, que cobrem o período do Império Romano à Renascença. O que se observa nesse longo trajeto é uma virtual ausência dos locais destinados à produção descolados de uma lógica ligada à tradição das relações de gênero, de parentesco, de etnia. São mulheres que trabalham na confecção de vestimentas, escravos e servos que em diversos graus partilham relações domésticas, senhores que têm no domus seu lugar de atividades intelectuais e administrativas, a loggia medieval ocupando os térreos das residências com suas mercadorias. Há, afinal de contas, uma canção para lavrar a terra, uma oração para fiar, um lugar no mundo mítico para as relações de trabalho. Enfim, toda uma rede de atividades econômicas é dotada de um sentido dado nas relações da tradição e em suas formas culturais de reprodução. Ao identificar produção com lar, não é possível fazer uma separação entre uma lógica infraestrutural e uma superestrutural. Vejamos que nesse sentido não há algo que possamos em princípio identificar como uma organização dialética no sentido em que o termo foi empregado às sociedades industrializadas.
As ciências sociais do ocidente parecem dispostas a admitir esse imbricar entre economia e cultura desde que com o olhar da alteridade, voltado para o estudo das sociedades “primitivas” ou “tradicionais” por meio da antropologia. Bruno Latour assim define essa situação:
Mesmo o mais racionalista dos etnógrafos, uma vez mandado para longe, é perfeitamente capaz de juntar em uma mesma monografia os mitos, etnociências, genealogias, formas políticas, técnicas, religiões, epopéias e ritos dos povos que estuda. Basta enviá-lo aos arapesh ou achuar, aos coreanos ou chineses, e será possível obter uma mesma narrativa relacionando o céu, os ancestrais, a forma das casas, as culturas de inhame, de mandioca ou de arroz, os ritos de iniciação, as formas de governo e as cosmologias. Nem um só elemento que não seja ao mesmo tempo real, social e narrado. (LATOUR, 2000, p. 12)
No entanto, restou à sociologia, ciência destinada a voltar sua visão sobre as próprias bases das sociedades modernas (COMISSÃO GULBENKIAN PARA A
REESTRUTURAÇÃO DAS CIÊNCIAIS SOCIAIS, 1996)12, criar um arcabouço em que se separa um modo de produzir de um modo de transmitir cultura. Um homem “antropológico”, pré-moderno, foi compreendido de forma radicalmente diferente de um homem “sociológico”, cujas formas econômicas estavam apartadas das formas culturais e poderia ser-lhes atribuído um caráter instrumental.
E aqui retornamos a Bobbio (1999, 1992 ou 2000), onde ele nos deixou: no pensamento hegeliano, amplamente presente – embora de forma modificada quanto à força motriz – na arquitetura do pensamento marxista. Ou seja, voltamos ao momento em que Habermas (2002) identifica o início do “discurso filosófico da modernidade”. Para desenvolver uma idéia de separação entre público e privado, entre òikos e polis, é preciso discordar de Bobbio (Ibid.) numa transposição entre o pré-moderno grego e o moderno das constituições liberais da maneira colocada em sua obra. O primeiro passo a admitir é que houve uma radical transformação entre as esferas do público e do privado no início da era moderna. E essa modificação se dá em torno da função do espaço público e do espaço privado com relação à produção. Se a economia era, no período pré-moderno, uma questão de administração doméstica, com todas as relações familiares e tradicionais que isso envolve, as grandes transformações no modo de produção do início da era industrial modificaram esse quadro. O sentido de òikos seria definitivamente alterado. A casa e a economia, cultura e produção, entraram em esferas diferentes.
As clássicas análises marxistas sobre a violência que representa a formação de um mercado de mão-de-obra dão conta dessa explicação se nos lembrarmos de cercamentos de terras, oligopólios sobre ferramentas de produção, locais de trabalho delimitados, etc. (MARX, 1977). Em outros termos, é toda uma lógica sistêmica – moderna e capitalista – que retira a esfera da produção do “mundo da vida” (HABERMAS, 2001; 2002; 2004), do mundo da família e do mito e a coloca num local separado, o da economia – cuja origem grega do termo não pode mais ser reconhecida
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Essa é uma obra coletiva presidida por Immanuel Wallerstein. O livro traça um panorama de como interesses das potências ocidentais moldaram a divisão das ciências sociais conforme suas necessidades. A preocupação com os conflitos modernos era expressa na sociologia; já o “homem primitivo” com o qual os europeus se deparavam nas expansões imperiais, foi contemplado na antropologia, e assim por diante. Uma distinção contida no livro, entre “nomotético” e “idiográfico”, poderá ser útil nessa dissertação. Enquanto no primeiro caso a concepção da sociedade se dá por meio de normas regulares e identificáveis, no segundo são colhidos os dados de uma realidade empírica e estudados emsua especificidade. Esse útil recorte não nos parece suficientemente difundido.
da mesma maneira. As funções econômicas mantiveram-se atreladas à sua origem privada, mas passaram a desconhecer as demais relações de antagonismo e solidariedade antigas. Se Boaventura de Sousa Santos (2006) identifica na modernidade o desenvolvimento dos pilares do Estado, da comunidade e do mercado, julgamos que esses dois últimos estiveram atrelados até o advento da modernidade, e a sua separação é exatamente o que determina a grande mudança de paradigma.
A partir desse momento passam a fazer sentido a percepção de uma esfera cultural apartada da esfera produtiva e a análise de uma relação dialética – que de todo modo só pode existir se estiver relacionada a uma forma de antagonismo entre pares de opostos. E chegamos a um novo momento de rearranjo. A sensibilidade moderna é pródiga em dualidades: subjetividade/objetividade; ciência/ideologia; vanguarda/retaguarda; direita/esquerda. E, para o marxismo, infraestrutura e superestrutura. A dialética funciona mal com três princípios. Se o mercado havia definitivamente tomado as ruas e passava a ser o principal motor da sociedade, determinando todos seus ritmos e objetivos, era necessário reunir as esferas restantes da casa, esvaziada da função produtiva – lugar do repouso, da conversa, da família (ARIÈS e DUBY, 1999) – e da política; e esvaziada de um poder de decisão efetivo13, que a tradição marxista passaria a chamar, em um conceito, de “superestrutural”. O antagonismo a partir dos hegelianos de esquerda, entre eles Marx como quer Habermas (2002), passam a considerar a esfera da cultura apartada da esfera da produção.