2 Matching and Proof Search
3.4 Practical Session 3
Voltamos a Kumar (2006) e sua afirmação citada no início do capítulo que uma distinção entre “pós-modernidade e pós-modernismo” não faria sentido como a existente entre “modernidade e modernismo”. A ele a palavra:
Infelizmente, esse paralelo conveniente entre modernismo e pós- modernismo não se sustenta. O modernismo foi em geral uma reação cultural às principais correntes da modernidade. Em algumas de suas formas, teve o caráter de uma rejeição apaixonada. O mesmo não se pode dizer, contudo, da relação entre pós-modernismo e sociedade pós-industrial (ou de capitalismo tardio). Todos os teóricos, se de fato levam em conta essa relação, vêem uma convergência ou complementaridade entre cultura pós-moderna e sociedade pós-
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industrial. Enquanto, por conseguinte, possa ser correto tratar a cultura modernista como algo distinto da sociedade moderna, no sentido em que foi um rompimento, ou descontinuidade, com a ordem geral da modernidade, não se pode aplicar a mesma estratégia ao pós- modernismo (KUMAR, 2006, p. 151).
O autor alega que as análises mais influentes sobre o fenômeno do pós-moderno, entre elas as de Jameson, colocam cultura e sociedade como esferas complementares, mas distintas, sensíveis a análises separadas (KUMAR, 2006). No entanto, entendemos que Jameson (2000) tem uma visão peculiar sobre esse momento. Para o autor, na modernidade estava bem claro como se “enfatizava [...] uma ‘semi autonomia’ do domínio cultural: sua existência fantasmática, ainda que utópica, para o bem e para o mal [...]”. No entanto, no pós-moderno essa relação é tratada da seguinte forma:
O que devemos perguntar agora é se precisamente essa semi- autonomia da esfera cultural não foi destruída pela lógica do capitalismo tardio. Mas o argumento de que a cultura hoje não é mais dotada da autonomia relativa que teve em momentos anteriores do capitalismo não implica, necessariamente, afirmar o seu desaparecimento ou extinção. Ao contrário, o passo seguinte é afirmar que a dissolução da esfera autônoma da cultura deve ser antes pensada em termos de uma explosão: uma prodigiosa expansão da cultura por todo o domínio do social, até o ponto em que tudo em nossa vida social – do valor econômico e do poder do Estado às práticas e à própria cultura da psique – pode ser considerado como cultural, em um sentido que não foi, até agora, teorizado (JAMESON, 2000, p. 74).
Como se chegou a esse ponto é uma descrição que se encontra muito bem estruturada em uma bibliografia específica sobre o assunto. Além de Jameson (2000), podemos citar Kumar (2006), Harvey (2006), Hall (2006), Anderson (1999), Lyotard (2004). Principalmente em Harvey, encontramos as explicações econômicas de fundo, que segundo ele, levaram a uma “condição pós-moderna”. Sem nos alongarmos em um assunto sobre o qual teríamos pouco a contribuir, podemos nos referir especificamente ao capítulo que trata do fordismo como base para todo um desenvolvimento social e cultural da modernidade e, posteriormente, da acumulação flexível de capitais como seu correlato para o pós-moderno (HARVEY, 2006, pgs.135-162). A acumulação flexível é tratada como um novo momento frente à rigidez do fordismo: um mundo onde os capitais encontraram meios para um deslocamento contínuo e acelerado, explorando globalmente as melhores condições de retorno. Essa situação gerou repercussões
dramáticas no mercado de trabalho, com um descompasso estrutural entre a velocidade com que os capitais se deslocam e a relativa fixidez de grande parte da massa trabalhadora. Poderíamos dizer, enfim, parafraseando Virillio (1997), que o capital venceu o trabalho na disputa “dromocrática”.
Vamos fixar, no entanto, o aspecto mais importante do conceito de “acumulação flexível” de Harvey para a presente dissertação. As novas técnicas de produção pós- fordistas vão em direção a uma lógica de serviços, a uma lógica de produção imaterial. Obviamente, a produção física de mercadorias não desapareceu, e isso jamais ocorrerá. No entanto, a forma como ela é organizada relaciona-se muito mais com uma lógica de setor terciário do que secundário. Se é possível fazer um paralelo, a passagem de uma sociedade pré-moderna agrícola para uma moderna industrial não significou o fim da agricultura. Pelo contrário, poderíamos argumentar que a produção do campo cresceu exponencialmente com a introdução de novas técnicas. Apenas a sua lógica mudou: com as grandes plantações monoculturais e mecanizadas, a empresa agrícola passou a se comportar como uma indústria de produção de alimentos. No pós-moderno, diríamos que a produção industrial continua ativa e provavelmente crescente, mas a forma de sua organização tornou-se dependente de redes de informação mais sofisticadas e de uma flexibilização cada vez mais acentuada.
Em primeiro lugar, as informações precisas e atualizadas são agora uma mercadoria muito valorizada. O acesso à informação, bem como o seu controle aliados a uma forte capacidade de análise instantânea de dados, tornaram-se essenciais à coordenação centralizada de interesses corporativos descentralizados. A capacidade de resposta instantânea a variações das taxas de câmbio, mudanças das modas e dos gostos e iniciativas de competidores tem hoje um caráter mais crucial para a sobrevivência corporativa do que teve sobre o fordismo. (HARVEY, 2006, p. 151)
Notemos que Harvey define as informações – ou ainda melhor, a velocidade das informações – como “uma mercadoria muito valorizada”. Ao tratarmos um aspecto imaterial como mercadoria, e das mais importantes para o sucesso das empresas, seja qual for o seu ramo de negócios, passamos a compreender que não há mais espaço para definirmos uma produção material que seja descolada da imaterial. Ainda seguindo o autor, vemos que a produção no modelo fordista foi ao longo das últimas décadas sendo deslocada para regiões periféricas onde a mão-de-obra é mais barata e as organizações
sindicais mais precárias. No entanto, isso não significou necessariamente que esses lugares tiveram uma mudança em sua posição dependente, já que a produção de bens imateriais mais importantes para o sistema manteve-se localizada nos grandes centros do capital. De acordo com Harvey (2006), já nos anos 70, a principal pauta de exportações da cidade de Nova Iorque, tomada apenas a sua produção física, era papel usado destinado à reciclagem – ou seja, nada! E não será necessário esforço para argumentar que mesmo assim a cidade continua um pujante pólo da economia mundial produzindo serviços (e signos). Para tentar deixar esse ponto mais claro, colocamos mais uma proposição de Harvey:
Costuma-se considerar a vida cultural um plano exterior a essa lógica capitalista. [...] Considero esse argumento errôneo em dois sentidos. Em primeiro lugar, não vejo diferença, em princípio, entre a ampla gama de atividades especulativas e igualmente imprevisíveis realizadas por empreendedores (novos produtos, novos estratagemas de marketing, novas tecnologias, novas localizações etc) e o desenvolvimento igualmente especulativo de valores e instituições culturais, políticas, legais e ideológicos sob o capitalismo. (HARVEY, 2006, p. 307)
Retornemos a Jameson (2000, p. 74) e a sua “explosão” da esfera autônoma da cultura. Acreditamos que esse é o sentido da colocação de Kumar (2006), de que não há uma “pós-modernidade” e um “pós-modernismo” como era possível diferenciar “modernidade” de “modernismo”, conforme visto anteriormente.
Esse ponto pode gerar um engano que tentaremos dirimir. Nas concepções sobre pós-moderno vistas até agora, a superestrutura ideológica e cultural não inverteu seu papel de preponderância com a infraestrutura da produção. Elas se fundiram e deixaram de ter validade como categoria epistemológica. Isso está longe de significar que não há mais relações desiguais na sociedade, exploração, sobretralho, mais-valia, patrões e empregados, escassez e abundância. Quer dizer apenas que as condições para a permanência do sistema não podem mais ser divididas entre objetivas e ideológicas. De acordo com Jean Baudrillard ao estabelecer a sua crítica da economia política do signo:
Com isto, o campo da economia política, articulado unicamente nos valores de troca econômica e no valor de uso, explode e deve ser inteiramente reanalisado no sentido de uma ECONOMIA POLÍTICA GENERALIZADA, que implicará a produção do valor de troca/signo
ao mesmo título e no mesmo movimento que a produção dos bens materiais e do valor de troca econômico. A análise da produção dos signos e da cultura impõe-se, portanto, não como exterior, ulterior, “superestrutural”, em relação à da produção material; impõe-se como uma revolução da própria economia política, generalizada pela irrupção teórica e prática da economia política do signo18 (BAUDRILLARD, 1995).
Para seguirmos na metáfora de Jameson (e tentando articular com a idéia acima exposta por Baudrillard), diríamos, ousando discordar do mestre, que talvez o termo mais adequado em vez de “explosão” fosse “implosão”19, como quer o francês, já que a ruptura da dita esfera autônoma da cultura que caracterizou o moderno, deu-se a partir de uma pressão descomunal. O efeito enfim será o mesmo, uma vez que o rompimento dessas fronteiras criou uma indistinção. O que muda é apenas a descrição do processo. Entendemos que a cultura não se expandiu em direção ao capital, mas que uma lógica do capitalismo é a de “colonização”20 da diversidade do mundo. Acompanhamos o assunto novamente com Harvey, quase na seqüência da citação anterior do autor:
Precisamente porque o capitalismo é expansionista e imperialista, a vida cultural, num número cada vez maior de áreas, vai ficando ao alcance do nexo do dinheiro e da lógica da circulação do capital. [...] o alargamento e aprofundamento das relações sociais capitalistas com o tempo são sem dúvida um dos fatos mais singulares e indiscutíveis da geografia histórica recente. (HARVEY, 2006, p. 308)
Habermas (2001, 2002, 2004) elaborou, baseado em seus preceitos frankfurtianos, toda uma obra que identifica o momento da modernidade como um avanço da racionalização “dirigida a fins” sobre os âmbitos da vida21. E a idéia de modernidade para ele tem esse sentido de colonização ou de “imperialismo” do racional identificado com a sociedade técnica e capitalista. Em Técnica e ciência como “ideologia”, descreve:
Max Weber introduziu o conceito de “racionalidade” para definir a forma de atividade econômica capitalista, do tráfego social regido pelo
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Maiúsculas e itálidos do autor. Por “economia política”, no dizer de Baudrillard, entendemos um conceito estreito de “economia”, baseado em análises clássicas sobre o comportamento do capital, que o autor deseja expandir.
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O termo “implosão” aparece muitas vezes em Simulacros e Simulações (BAUDRILLARD, 1991)
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O termo aparece em Jameson (2000) e em Habermas (2002)
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Sobre esse assunto, ver também em Hannah Arendt (2003, pgs. 130 a 138) uma idéia de constante declínio do homo faber em animal laborans por pressão de uma racionalidade produtiva e da divisão do trabalho.
direito privado burguês e da dominação burocrática. Racionalização significa, em primeiro lugar, a ampliação das esferas sociais, que ficam submetidas aos critérios da decisão racional. A isto corresponde a industrialização do trabalho social com a conseqüência de que os critérios da ação instrumental penetram também noutros âmbitos da vida (urbanização das formas de existência, tecnificação do tráfego e da comunicação). (HABERMAS, 2001, pg. 45)
É preciso, no entanto, fazer a ressalva de que na visão do filósofo, apoiado em Marcuse, o que a idéia de “racionalização” encontra em seu trajeto não é a razão, mas uma forma determinada de dominação política (HABERMAS, 2001). De qualquer maneira, temos a idéia de um sistema que funciona constantemente em progresso, com um sentido de avanço da colonização, do encaixe de todos os sintagmas em paradigmas determinados.
O sistema foi dilatado até chegar, na opinião de Jameson (2000, p.75), à “natureza e ao inconsciente”. Esse seria, finalmente, o sentido do pós-moderno. Um mundo onde não existe mais nada externo ao sistema, em que qualquer das esferas sobre as quais a modernidade poderia avançar foi, enfim, colonizada. Todo evento encontrou sua expressão – pelo menos potencial – em paradigmas colocados pelo sistema mundial moderno e capitalista.
O sentido da modernidade encontra seu fim pelo sucesso, e por mais que ele continue em atividade, esse é movimento que se dá em falso, um giro eterno de novidades técnicas que não mais significam progresso sobre vestígios de um mundo não colonizado. O sistema engloba a tudo e torna-se infenso aos voluntarismos humanos: transforma-se por sua vez numa externalidade. Em Habermas (2002), a modernização se move por si própria e se automatiza em sua evolução. Fazendo uma inferência entre a teoria e os noticiários, chegamos a um tempo, em suma, em que é mais fácil imaginar a extinção da vida no planeta por um desequilíbrio ecológico anunciado do que o fim de um sistema que se move por ele mesmo.
Voltando mais uma vez à metáfora da “explosão” ou “implosão” da esfera da cultura, é possível perceber de qualquer forma que o fenômeno significou que essa instância – uma vez suas fronteiras dilaceradas – penetrou todo o tecido da sociedade, fundindo-se de uma maneira inextrincável com a noção do “real” da produção.
Para reforçarmos essa afirmação, vamos buscar apoio na análise de Slavoj Zizek (1999) e Ernesto Laclau (2002)22. Os autores estabelecem sobre o problema da ideologia um olhar que vai no sentido de fusão com o “real”. A análise mostra como a noção de “ideologia” foi se expandindo em todas as direções. São três níveis possíveis de compreensão sobre esse significante, segundo os autores: a) numa primeira acepção, “ideologia” quer dizer simplesmente um conjunto de idéias sobre as quais determinado grupo de pessoas, de maneira consciente e voluntária pode ou não aderir. São considerados nesse caso sujeitos plenamente capazes e livres para decidir sobre uma corrente de pensamento, como nos casos em que nomeamos uma “ideologia liberal”, uma “ideologia socialista”, e assim por diante. b) O segundo significado de ideologia é relacionado aos Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE), no sentido de Althusser23. Com essa significação, a ideologia teria a carga de uma “externalidade”, de uma distorção interposta entre o sujeito e o real. É nesse caso uma tarefa possível e desejável o trabalho intelectual que combata no campo dos AIE, pensados como uma arena de confrontação política e ideológica. Esse sentido de ideologia é tomado como distorção ou mascaramento de um real não-discursivo. c) Na terceira acepção, a ideologia passa a ser o próprio real da sociedade na qual estamos mergulhados, constituindo-se nas referências da história, da economia, da cultura; ou como define Laclau (2000, p. 9), a noção de ideologia “espontânea”, que opera no coração da própria realidade social. Nessa última conformação, de acordo com o autor, o significado de ideologia se expande de tal maneira que perde toda a sua funcionalidade para a crítica e a análise. Ela passa a ser uma totalidade, um idêntico à situação social concreta.
Os autores propõem uma retomada do conceito de ideologia, que não cabe a esse momento do trabalho descrever. Contudo, ficamos com a posição analítica em que chegamos a um momento da abolição das fronteiras entre o real e o ideológico de forma que eles se interpenetram. Essa sem dúvida é a descrição de um cenário de crise, de paralisia.
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Eles se citam mutuamente
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CAPÍTULO III - POLÍTICA E HEGEMONIA ENTRE O MODERNO E O PÓS-