5.2 La mati`ere consid´er´ee comme un milieu continu
5.2.2 La m´ethode des diff´erences finies
Mantendo a energia das Danças Individuais de Iansã e sustentando as relações estabelecidas no momento anterior, pedi para que retomassem as ações de LANÇAR, RECEBER e EMPURRAR, mantendo a observação nas mudanças ocorridas no corpo e na qualidade de movimento da etapa I para a etapa III. Foi interessante observar o quanto os verbos da Dança de Iansã potencializaram energeticamente os verbos do momento de Preparação. Para finalizar a prática, pedi aos participantes que diminuíssem seus movimentos até zerar e retornar ao estado do corpo cotidiano.
Finalizada a prática, fiz alguns esclarecimentos, principalmente quanto ao uso das músicas, pois pretendo trazer os elementos da Dança de Iansã, não o ritual, evitando assim os pontos de chamamento. Esclareci também a escolha das imagens vento, borboleta e búfalo, para que fossem relacionadas ao arquétipo de Iansã e a escolha dos verbos CORTAR, ABANAR/ESPANAR e CHICOTEAR, que estão relacionados a algumas lendas e às ferramentas litúrgicas utilizadas na dança ritual. Ainda sobre a proposição das imagens, nesse primeiro momento optei trabalhar com a energia do vento ao invés do fogo por ser um elemento mais convencionado ao Orixá, tornando seu acesso mais rápido aos participantes dado o pouco tempo disponível para a prática. Quanto aos animais, embora Iansã também esteja relacionada ao carneiro e à coruja, a imagem de uma borboleta e de um búfalo trazem caraterísticas e estruturas opostas, numa antítese entre leveza e peso, suavidade e dureza.
Mesmo a prática sendo de apenas trinta minutos, pela observação foi possível perceber que, além de um treinamento pré-ensaio, a sistematização e condução podem vir a possibilitar ao performer a criação de uma partitura, pois, como são dados os elementos da Dança de Iansã através de comandos e não a coreografia da dança, o
performer tem a liberdade de resignificar esses momentos/verbos, uma vez que cada um
tem em seu repertório corporal e imagético referências muito particulares de CORTAR, ESPANAR/ABANAR e CHICOTEAR, possibilitando até a construção das mais diversas dramaturgias como consequência dessa Dança Individual de Iansã.
Retomando a leitura do relato desse primeiro experimento com os colegas da turma do Mestrado, vejo outras possíveis construções e recombinações nessa primeira
estrutura. Penso que os verbos sugeridos na etapa I – PREPARAÇÃO, ao invés de LANÇAR, RECEBER e EMPURRAR, podem ser substituídos por outros, dependendo do resultado que o condutor do exercício queira alcançar junto aos/às participantes, penso aqui, nesta etapa do experimento, que sendo mais aprofundado pode se tornar um caminho para o treinamento pré-expressivo interessante de ser explorado já pensando num possível espetáculo.
Embora neste momento a pesquisa tenha uma abordagem fenomenológica, não se pode ignorar o caráter etnográfico no trânsito entre os ensaios do Afoxé, meus laboratórios e compartilhamentos desse “treinamento”, o que reforça essa vertente de uma encorporação como mecanismo de (re)conhecimento – pois as memórias e referências dos performers também são acessadas, já que a “performance constitui um repertório de conhecimento encorporado, uma aprendizagem no e através do corpo, bem como um meio de criar, preservar e transmitir conhecimento” (TAYLOR, apud SCHECHNER, 2013, p. 40).
É importante levar em consideração que, por mais que se convencione o arquétipo de Iansã ao ar e ao fogo, os outros elementos da natureza estão presentes nos mitos de Iansã, quando ela está sob a forma de búfalo estabelece relação com o elemento terra (sendo ela considerada, nesta forma, uma deusa agrária, relacionada à fertilidade e às colheitas) e se relaciona com o elemento água nas lendas que a colocam como deusa do Rio Oió. Nesta perspectiva penso que, havendo interesse de aprofundar esta pesquisa sob a ótica da energia dos elementos, é possível ter Iansã como ponto de partida, tendo como base as proposições: Como seria a terra para Iansã? Como seria a água de Iansã? Como seria o fogo com Iansã? Como o ar seria Iansã?
2º Experimento de condução – 11.09.2015
A segunda experiência com os elementos da Dança de Iansã como possibilidade de “treinamento” para atores e atrizes se deu no dia 11 de setembro de 2015, ainda durante o Mestrado. Na ocasião o “treinamento” foi conduzido em uma turma da disciplina Corporeidade, ofertada no curso de Dança e ministrada pela professora doutora Teodora de Araújo Alves. Dessa vez trabalhei com o estímulo musical em todas as etapas do experimento, como trilha sonora escolhi o CD do grupo percussivo
Orquestra de Tambores, sediado em Maceió/AL, infelizmente sem mídia digital disponível. A atuação nessa turma se deu dentro das atividades de Estágio Docência, onde foi possível trabalhar a prática durante 40 minutos com mais quarenta de debate e retorno das impressões dos/as participantes. Neste momento, meu processo de en/incorporação já contava com as aulas de Dança de Iansã com Mãe Nany e com uma experiência de transe muito significativa e intensa, ocorrida alguns dias antes, embora ainda não tivesse começado minhas práticas individuais em laboratório.
Desse experimento participaram quatro alunos do curso de dança, um do curso de música, uma do curso de políticas públicas e a própria professora. Dado o perfil heterogêneo da turma, alguns elementos foram modificados da primeira prática para esta, onde visei mais a conscientização dos usos do corpo do que o “treinamento” pré- expressivo. Enfatizo que, por se tratar de experimentos, busquei diferentes abordagens e conduções de acordo com o perfil de cada turma participante, embora mantenha sempre os elementos da Dança de Iansã e como se processa nesses elementos o estado de jogo/presença.
Embora o “treinamento” esteja voltado/focado para o processo de criação de atores e atrizes considero importante experimenta-lo em não-atores/atrizes, pois é justamente nesses outros perfis de artistas ou não-artistas que poderei observar algumas especificidades dos exercícios propostos em cada público a ser atendido.
Para condução com este grupo resolvi experimentar a atividade de outra maneira e noutra ordem, sem delimitar as etapas como fiz na experiência anterior justamente por estar focando mais na consciência dos movimentos do que na ação em si, mas irei enumerar a condução do “treinamento” em passos.
1º passo - Pedi para que os/as participantes alongassem individualmente, de acordo com
suas necessidades, seu repertório e suas práticas habituais, porém pedi que dessem maior atenção nos membros superiores. Neste caso, durante o alongamento também orientei para que já fossem se conectando com o estímulo musical.
2º passo - Solicitei aos participantes que se deslocassem pela sala enquanto dava as
orientações de qual seria o próximo comando. Pedi para que recorressem à memória, buscassem na lembrança os objetos: ESPADA, CHICOTE e ESPANADOR, que pensassem inicialmente nas dimensões desses objetos, o peso, o material, a extensão e,
por último, pedi que manuseassem cada um deles, conectados ao estímulo musical. Após a execução e repetição do movimento de acordo com a manipulação mimética do objeto, pedi que experimentassem os verbos de ação de cada um desses objetos no corpo como um todo, então os/as participantes passaram a experimentar o CORTAR, CHICOTEAR e ESPANAR de acordo com seu repertório corporal individual. Pedi para que minimizassem os movimentos até a neutralidade, mas que fossem guardando na memória não apenas o movimento, mas quais partes do corpo foram mobilizadas para sua execução.
3º passo - Com os/as participantes se deslocando pela sala, solicitei que recorressem à
memória novamente, mas agora para acessar as imagens de forças/seres da natureza, já pensando nas possíveis maneiras de corporifica-los. A primeira imagem que pedi que resgatassem foi do VENTO e suas possíveis variações – a brisa, o vento marinho, a tempestade – a segunda imagem foi do BÚFALO – ou boi, dependendo do referencial individual – e que se fixassem na estrutura, na musculatura e peso do animal, e a terceira imagem foi a BORBOLETA, solicitando aos/às participantes atenção à movimentação dela. Novamente pedi para que experimentassem como corporificariam essas imagens, experimentando na ordem que mais lhes fosse interessante. Orientei que fixassem sua atenção nos pontos do corpo que estavam mobilizados pelo movimento e que buscassem se deslocar no espaço não só com a mímesis da imagem acessada, mas também com a qualidade de movimento característica de cada um desses elementos. Pedi que reduzissem o movimento até a neutralidade, mas buscando resgatar as qualidades de energia acessadas ao experimentar a corporificação dessas imagens.
4º passo - Novamente com os participantes em deslocamento, solicitei que agora
experimentassem as imagens (VENTO, BÚFALO e BORBOLETA) executando as ações/verbos dos objetos (ESPADA, CHICOTE e ESPANADOR), trazendo aqui questões levantadas no primeiro experimento:
- Como seria uma borboleta CHICOTEANDO, CORTANDO, ESPANANDO? - De que modo um búfalo ESPANA, CORTA, CHICOTEIA?
E ainda acrescentei outras provocações como orientar que experimentassem cortar com outras partes do corpo que não os braços, chicotear com as pernas ou espanar com os quadris.
5º passo - Na mudança de uma música para outra, pedi que se mantivessem em
movimento, em seguida solicitei que repetissem a sequência com a qual mais se identificaram que combinasse ação e qualidade de movimento, sempre tendo em mente o que está sendo mobilizado no corpo. Na repetição solicitei que experimentassem a execução da sequência em diferentes velocidades, direções e dimensões, podendo acelerar/desacelerar, buscar lateralidades e/ou mudança de plano (baixo, médio, alto), expandindo ao máximo e em seguida reduzindo ao mínimo tentando chegar apenas ao impulso da ação mais do que à própria ação. Finalizei o exercício pedindo aos participantes que fechassem os olhos e retomassem toda a trajetória feita no experimento, percebendo como estava o corpo antes e como ficou após o exercício.
Na conversa posterior ao exercício alguns apontamentos dos participantes me chamaram atenção, principalmente em relação às imagens dos animais. Um dos relatos foi sobre a referência do búfalo parado e não em movimento, levando a imagem mais para a ideia da presença (peso) do que necessariamente da força. Outro relato foi sobre a borboleta, onde a memória da participante se fixou mais na referência dela parada ao invés do senso comum de se pensar uma borboleta farfalhando suas asas. Nessa experiência também surgiram danças individuais de Iansã, mas noutras perspectiva, enquanto na atividade de Maio observei que os participantes mantinham uma relação mais estreita entre AÇÃO X ENERGIA, nesta segunda experiência percebo mais atenção dos participantes com a forma, acessando aspectos mais estéticos, compreendo que isso se deu parte pela condução, parte pelo perfil dos participantes, embora também perceba que seria um “treinamento” pré-expressivo interessante dentro dos dois perfis de participantes trabalhados até aquele momento.
Ao observar os participantes nas práticas proponho o agrupamento dos elementos da Dança de Iansã, transpostos nesse espaço de “treinamento”. Separo então em dois tipos de elementos, o primeiro denominarei de ELEMENTOS DE AÇÃO, onde incluo os objetos de Iansã com os respectivos verbos de ação de seu uso, e o segundo denomino de ELEMENTOS DE ENERGIA, que engloba a força da natureza e/ou animais aos quais Iansã está relacionada. Sendo assim, elementos de AÇÃO e de ENERGIA podem ser combinados mesmo que pareçam antagônicos. Vale salientar que quando falo em AÇÃO não se trata necessariamente de empunhar uma espada, por exemplo, estou considerando as formas de cortar.
Apesar de nesse momento da pesquisa ainda pensar em como abordar o uso das ferramentas de Iansã nos experimentos posteriores preferi não associar mais os elementos de ação desses ditos objetos concretos porque isso poderia acabar direcionando demais o processo criativo dos/as participantes. Sem trazer as ferramentas como referência na Condução do “treinamento”, possibilito aos/às participantes que eles/elas explorem ao máximo sua subjetividade e valorizo assim as experiências e o conhecimento prévio dos/as atores/atrizes.
É importante também enfatizar que, apesar de identificar cinco elementos de energia – Vento, Búfalo, Borboleta, Coruja e Bambuzal – relacionados à mitologia de Iansã, opto por não trabalhar com a energia da Coruja nem com a energia do Bambuzal por me faltar referências consistentes sobre elas durante o processo de investigação, caso, durante o desenvolvimento posterior à dissertação esses elementos surjam, virão a ELEMENTOS DE AÇÃO:
▪ Cortar [alfanje] ▪ Espanar [eruexim] ▪ Chicotear [chicote] ▪ Abanar [abanador] ▪ Bater [chifres de búfalo]
ELEMENTOS DE ENERGIA:
▪ Vento [variações entre brisa e tempestade]
▪ Búfalo ▪ Borboleta ▪ Coruja ▪ Bambuzal
fazer parte do roteiro de Condução do “treinamento”. Além dos elementos acima citados, poderia também trabalhar com a imagem do rio, mas como pretendo seguir desenvolvendo essa pesquisar até abarcar/abraçar todos os Orixás prefiro deixar para o momento em que eu conseguir chegar aos elementos de Oxum.
Outro aspecto que pude observar – e que na verdade já supunha – é que esta prática exige uma duração mínima de duas horas para que se possa experimentar com tranquilidade as três fases que proponho, além do tempo que se leva para conseguir chegar aos diferentes níveis de consciência que são possíveis de alcançar com esse treinamento justamente por este fator alguns aspectos só puderam ser observados durante experimentos continuados e em contextos específicos.
4.1.2 – EXPERIMENTOS CONTINUADOS