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Talvez seja de difícil compreensão (ou aceitação) para nossa cultura brasileira e o cenário em que vivemos e fomos formados, ouvir dizer de um “retorno do sagrado”, retorno à religião, ao sentimento religioso e assim por diante, uma vez que, em grande medida, a isto se poderia objetar afirmando que a religião sempre esteve presente em nossa ambiência e que, de fato, nunca houve uma retirada, talvez nem mesmo uma diminuição desta presença sacra em nosso quadro teórico-vivencial para que seja plausível uma abordagem propugnando um seu retorno. De fato, o sentimento religioso é sempre muito vivo e presente em nosso contexto cultural. No entanto, quando Vattimo aborda esta situação ele reconhece que o faz partir de seu olhar europeu, mais aproximadamente, italiano. Portanto, vemos onde está situada a sua reflexão.

214 Este “reavivamento” do religioso poderia ser pensado na forma das grandes três religiões, os chamados

“povos do livro”, a saber, o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, para não mencionar também uma presença mais notável de religiões de inspiração oriental e as religiosidade de tipo menos ortodoxas. Em que pese Vattimo chega a mencionar numa e noutra parte o islã e o judaísmo, demoraremos nosso debate aqui em torno do cristianismo, que é, por excelência, a experiência da qual Vattimo parte e para a qual tem retornado.

215 FIGUEIRA, Eulálio Avelino Pereira. Por uma superação da epistemologia tradicional no campo da religião

a partir do pragmatismo de Richard Rorty. In.: QUEIROZ, José J.; GUEDES, Maria Luiza; QUINTILIANO,

Angela Maria Lucas (orgs.). Religião, modernidade e pós-modernidade: interfaces, novos discursos e linguagens. Aparecida: Ideias & Letras, 2012, pg. 44.

216 Naturalmente a reflexão sobre o retorno que Vattimo faz está às voltas do cristianismo, mais propriamente,

do cristianismo católico que, como será exposto, faz parte de sua tradição e formação. É neste plano que está inscrita nossa investigação. No entanto, o pensamento Vattimo também não fica sujeito apenas a esta tradição religiosa, permitindo-se o mesmo tecer reflexões reportando-se a outras expressões religiosas, como o islamismo e o judaísmo onde também percebe semelhante fenômeno de nova vitalidade. Assim, seu trajeto fica na esfera dos chamados “povos do livro” e, em certo grau, também é possível encontrar proferimentos acerca de certas influências de cunho oriental na espiritualidade pós-moderna.

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Não obstante este limite teórico da investigação, quando se aventa sobre o retorno em Vattimo, ainda que situado em seu contexto velho-mundista, pensamos as possibilidades de tal reflexão fazer eco à nossa realidade217. Ainda assim, se não falamos em vias de retorno,

decerto podemos falar em nova vitalidade e ressignificação em alguns setores das igrejas cristãs, coincidindo precisamente no momento que Vattimo percebe lá também o seu retornar, ou seja, depois do pós-guerra e acentuadamente no início dos anos 70218. Também somos

cônscios de não enveredar pelo caminho de uma análise mais meticulosa deste fenômeno em nosso país, sob pena de descambarmos em realizar uma historiografia ou sociologia, mas não filosofia219. Mas é tomando posse deste caráter não-limitado e não situado do pensamento

filosófico que falamos com liberdade em retorno do sagrado.

Esta sensibilidade ao sagrado não está circunscrita tão-somente às reflexões vattimianas, mas diversos outros autores também tem compreendido este momento como aberto à uma nova vitalidade religiosa. Como é de esperar, as impressões que cada estudioso tem a respeito desta matéria também não são unívocas, mas o fenômeno está posto e cabe a cada um sua hermenêutica acerca dele. Mesmo o Papa Emérito Bento XVI, sério desafeto de Vattimo e por ele criticado em diversos livros, artigos e entrevistas, também compreende este momento como o de um novo vigor espiritual, mas não mais aos moldes metafísicos. Durante entrevista concedida a Peter Seewald (1954)220, o Papa Ratzinger assume que estamos diante

217 Mesmo porque Vattimo tem forte aproximação e trânsito com a América Latina, consequentemente também

com o Brasil, onde já esteve por algumas vezes proferindo conferências, concedendo entrevistas e demais atividades. Ademais, Vattimo, declaradamente comunista – catocomunista –, desenvolve certa adesão, mais tardiamente, ao chavismo e ao bolivarianismo, o que demonstra também um conhecimento ou interesse por parte de dele com relação à América Latina. Neste sentido, não seria forçoso afirmar que, ainda que ele escreva do seu ponto de vista ítalo-europeu, este não desconsidera outras realidades quando desenvolve suas teses, tendo aí também incluídas suas reflexões de ordem filosófico-religiosas, como a do retorno. Sobre a posição política de Vattimo em relação à América Latina – mais propriamente Cuba, Venezuela, Bolívia e Brasil – nos referimos à obra Hermeneutic Comunism (2011). Livro que, inclusive, está dedicado a “Castro, Chávez, Lula e Morales” (VATTIMO, Gianni; ZABALA, Santiago. Comunismo hermenéutico: de Heidegger a Marx [2011]. Trad. esp. Miguel Salazar, Barcelona: Herder, 2012 (Pensamiento Herder), p. 11). Curiosamente, este livro foi publicado primeiramente em inglês (2011) e, somente em 2014, foi publicada uma tradução para o idioma mater dos autores italianos pela editora Garzanti. Ademais, ao escrever sobre o “futuro da religião” no segundo capítulo do seu Addio alla verità (2009), Vattimo aparece convicto de que esta matéria não está adstrita à sua realidade apenas: “Não acho que esta seja apenas uma experiência ‘italiana’” (VATTIMO, Gianni. Adeus à verdade, p. 60).

218 Seria possível, então, para além e ao lado de um retorno, também de uma sua recuperação, recordação ou

retomada (Cf. MARDONES, José Maria. Síntomas de un retorno: la religión en el pensamiento actual. Santander: Sal Terrae, 1999 (Presencia social, v. 22), p. 20).

219 Embora seja, por vezes, inevitável tal aproximação e diálogo entre estes e outros campos do saber. Vattimo

realiza tal movimento e o mesmo também poderá ser percebido algures nesta pesquisa.

220 Jornalista alemão, trabalhou em grandes veículos compatriotas como as revistas Spiegel, Stern e o jornal

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de uma “nova compreensão do religioso”221, mas desta vez, adenda ele, “não como fenômeno

mitológico, de natureza arcaica”222. Talvez por isto mesmo, este fenômeno desperte interesse

de diversos saberes: do campo sociológico, teológico e filosófico, por exemplo. Este “surto” de religiosidade traz as características mesmas da pós-modernidade, destacando dentre elas, a fragmentação.

Partindo do horizonte de cristão católico – do qual Vattimo também é herdeiro, egresso e regresso – há quem identifique algumas causas que marcam o renascimento do sentido do sagrado, a citar: “o Concílio Ecumênico Vaticano II, a eleição de Karol Wojtyla ao pontificado e o desenvolvimento dos grupos carismáticos americanos e sua rápida expansão pela Europa”223. Ainda, “na Europa católica, o último quarto do século XX apresentou uma

sociedade paradoxal, maciçamente secularizada e descristianizada e, no entanto, vendo nascer movimentos de recristinianização por todos os cantos”224.

Seja como for, a questão de Deus, do Ser, reaparece neste cenário e traz como marca o desencanto deixado pela modernidade e é este o destino (Geschick) mesmo do pensamento neste marco da cultura pós-moderna, a exigência de voltar a pensar aquilo que o pensamento positivo acreditava haver liquidado ou, pelo menos, esquecido. Porém, como quem volta de uma guerra, ou quem se restabelece de uma doença, a religião que retorna na pós-modernidade também não volta incólume. De modo que Vattimo não nega o advento de um interesse pelo religioso neste ambiente cultural pós-moderno, mas tal fenômeno de uma devotio postmoderna225 se faz preciso interpretá-lo226.

221 XVI, Bento. Luz do mundo: o Papa, a Igreja e os sinais dos tempos: uma conversa com Peter Seewald

[2010]. Trad. br. Paulo F. Valério. São Paulo: Paulinas, 2011, p. 167.

222 XVI, Bento. Luz do mundo, p. 167.

223 SOUSA, Ronaldo José de. Carisma e instituição, p. 21. 224 SOUSA, Ronaldo José de. Carisma e instituição, pp. 21-22.

225 DUQUE, João Manoel Correia Rodrigues. Devotio postmoderna: da cibergnose à compaixão. In.:

QUEIROZ, José J.; GUEDES, Maria Luiza; QUINTILIANO, Angela Maria Lucas (orgs.). Religião,

modernidade e pós-modernidade: interfaces, novos discursos e linguagens. Aparecida: Ideias & Letras, 2012, pg.

75.

226 A mesma observação e identificação de necessidade de explicação faz também Franco Crespi, com quem

Vattimo já dividiu algumas publicações: “A renovação atual do interesse pela religião, portanto, pode ser explicada, ao menos em parte, como reação a situações de desorientação generalizada provocadas, na sociedade contemporânea, pelo aumento de complexidade decorrente da acentuada diferenciação dos âmbitos de significado e pelo pluralismo das fontes de produção dos valores e dos modelos culturais” (CRESPI, Franco. A

experiência religiosa na pós-modernidade [1997]. Trad. br. Antonio Angonese, Bauru: EDUSC, 1999 (Filosofia

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